Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 46 de 86

Páginas do PDF

Cenas Contemporâneas

Capítulo XI

Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem protegeu esse preso; sabia-se que era um ancião que lhe levava umas sopas diariamente, e palavras consoladoras de esperança sem esperança.

Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á vespera do dia em que o escudeiro devia ser condemnado, requereu que queria ser ouvida em juizo. Não lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da eloquencia do martyrio, entrou um dia no côro, quando a communidade orava, e invocou o testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que a escutasse o povo que estava na igreja:

«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de martyrisado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, declaro diante de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse uma palavra só para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui eu que lhe escrevi, quando entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz desgraçado, mas em recompensa hei-de amal-o toda a minha vida, e hei-de unir-me a elle na presença de Deus!» Era uma demencia!

Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fôra cerrada pela mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que não havia de ser enforcado o escudeiro.

Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um juiz o seu instrumento inauferivel, o carrasco!

 

XI.

 

Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca nas proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de Lucena.

Eulalia exaltára-se no martyrio até causar receios de loucura. Inspiravam-se de uma dôr de morte as exclamações pungentes que soltava a cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que uma religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.

A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cella com os cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos embriagados de delirio, e com o coração a estalar-lhe de uma dôr que a endoudecia.

Chegando á portaria não houveram forças humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua desesperação; e esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, corria por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um padecente entre as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos remidos pelo sangue do mesmo Christo.

Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se movia impellido pelo choque da pilha galvanica.

Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direcção da infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguem embargar o passo áquella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.

Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai. Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.