Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo III

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um gesto.

—Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar Laura, perguntou á mulher que assim era chamada:

—Elisa, ella chama-te Laura?

—Não, meu pai...—respondeu Elisa, titubeando.

—Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?— Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.—É um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando naturalmente:

 

III.

—Henriqueta...

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde ser á agitação febril de sua filha.

—Que tens, Elisa?!—perguntou elle sobresaltado.

—Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...

—Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...

—Antes para casa—respondeu Elisa.

—Eu vou mandar buscar a sege—disse o visconde; e retirou-se.

—Não vás, Elisa...—disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexoravel.—Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia.

—Não me martyrises!—disse Elisa.—Eu sou infeliz de mais, para ser flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és?

—Que te importa a ti saber quem eu sou?!...

—Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.

—Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?— perguntou Henriqueta.

—Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...

—O mesmo... não!...—atalhou Henriqueta.

—O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...

Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A mascarada poderia ser, mas a outra era um anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.

Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia, exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:

—Teu marido?

—Está em Londres.

—Ha quanto tempo o não viste?

—Ha dous annos.

—Abandonou-te?

—Abandonou-me.

—E tu?... abandonaste-o?

—Não concebo a pergunta...

—Ainda o amas?

—Ainda...

—Com paixão?

—Com delirio...

—Escreves-lhe?

—Não me responde... Despresa-me, e chama-me Laura.

—Elisa!—disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com enthusiasmo nervoso—Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome... sou Henriqueta! Adeus.

Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.

—Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a minha amisade.

—Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...

—Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?

—Não a conhecia...

—Então que mais queres que eu te diga?

—Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella mulher...

—Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra... Estás satisfeito?

—Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella Laura?

—Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te contar a minha vida?

—Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.

—Obrigado, cavalheiro!—Juro-te uma sincera amisade.—Has-de ser o meu confidente.

Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um novo enygma.

Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.

—Dominó, porque não deixas vêr este annel?—Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente enluctada.

—Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?

—Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A desgraça nunca se finge...

—Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões. Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...

—Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de te mandar retirar.

—És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante?

—Que te importa?...

—És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta?... Quantos annos tens?...

—Metade e outros tantos...

—A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.

Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a mnemonica...

Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia estremeceu, e córou até ás orelhas.

—Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita...

Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.