Cenas Contemporâneas
A Caveira.
I.
Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos. Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa, vá a Villa Real, e na rua do Cabo da Villa, pergunte pela casa de D. João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias interessantissimas.
Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.
O dom é quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:
Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da casa.
Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.
D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um arrastado verme da plebe.
D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos de degredo para Castro-Marim.
O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como christão a Deus porque muito queria salvar-se.
Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram muito lisongeiras para a memoria de sua mãi.
Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada, adquirida na bigorna.
João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do sacerdocio.
Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior em raça ao onagro de Cacilhas.
Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.
João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o. Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres móres do reino.
A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.
Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar d'um capitulo precioso a Physiologia do Casamento de Balzac.
O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas constellações. Assim seja!
Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de arabescos de marfim.
Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor. Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio.
Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto venerando.
—Venha cá—me disse elle—que eu não tenho vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.
Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.
—Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia—proseguiu o consternado ancião.—Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos.