Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 17 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo II

—Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.

—Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais senhoril.

 

II.

 

Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:

—Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me lembro que sou assim defeituosa!

—És um enigma!...—atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em Portugal.

—Sou, sou!...—acudiu ella com rapidez—sou aos meus proprios olhos um dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.ª ordem. Conheces aquella familia?

—Não.

—É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?

—Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que tenho ciumes de ti?

—Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a enganas...

—Julgas, por tanto, que te minto!...

—Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não... —Senão... o que?

—Senão... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a mão.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se mataria.

—Não—exclamou elle com enthusiasmo—não me fujas, porque me levas a esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete annos...

—Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda pessoa...

—És um prodigio...

—De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes dignas da tua affeição...

Tinham chegado ao camarote na 2.ª ordem. O dominó-velludo bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um mundo, ou cousa maior que o mundo—o coração d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

—Laura—repetiu o dominó—não me apertas a mão? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a distincção pela mão.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria disfarçar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita, profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido de Carlos:

—Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que ella.

E voltando-se para Laura:

—Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr a teus pés o obulo sincero da sua adoração.

Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro afflictivo.

E o dominó continuou:

—Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia, que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...