Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 29 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo III

—E depois?

 

III.

 

—Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho, não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para repousarem.

O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta: «Conhece esta letra, senhora?»—É minha, penso eu—respondeu ella com promptidão.—«Já sabe naturalmente que carta é esta.»—Não sei... será escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais ninguem.—«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais ninguem?»—Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz, deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.—«Veja.»

Miquelina leu estas duas linhas da carta: Dous dias é uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas flôres...

Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão, desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, devia triumphar.

Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.

Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte carta: —«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.

Um teu amigo.»

 

Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena, sem a comprehenderem.

«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»— Sim, sim,—bradou ella com enthusiasmo febril—eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de todo o meu coração, meu esposo querido!...

Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.

Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.

Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.

Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha; mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,—replicou o seu conhecido—eu não posso consentir que v. exc.a seja assim desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»—Deixe-me, deixe-me... por piedade, snr. Alvaro de Sousa!

E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.

Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha amiga, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações ratificadas por s. exc.a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella respondeu que o não dizia.

Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.

E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com uma libra a satisfação de pagar a v. exc.a a menor parte d'um grande serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc. a com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou... Tenha v. exc. a uma noite feliz.»

E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.

Alvaro de Sousa estava vingado.

—Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!—atalhei eu.

—Não minto, juro-te que não minto...

Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de consegu Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de

conseguil-a. [3]

E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...

—O rigor da chronologia—proseguiu o implacavel noticiador—exige que eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.

A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser vendidos.

O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.

Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas côres.

Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.

O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......

Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração, foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.

E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo inviolavel para seu marido.

E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz, com esta carta:

«Meu caro senhor.

«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.ma a snr. D. Maria da Luz, verá v. s.a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que eu não sei se está hypothecada a v. s.a Supposto me devessem ter sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s. a não terá duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.

De v. s.a attento venerador

Alvaro de Sousa.»

 

—E depois?—interrompi com anciedade.

—Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...

—Não digo... palavra d'honra!

—Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente com sua mulher.

—Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?

—Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.

—E das outras?

—Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que não póde ser romantisada por ser muito simples.

O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.

Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.

Querem saber onde tudo isto aconteceu?

Agora é que v. exc. as vão ficar surprehendidas...

Foi em Pekim!

Salvei a moral publica!

Cante-se o hymno!