Cenas Contemporâneas
Capítulo III
Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era indubitavel, e perigosa.
Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.
A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.
III.
Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.
O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal, redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.
As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.
Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica, affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como em Constantinopla.
Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o acontecimento.
Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes, sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo d'este capote, levava um bacamarte.
Quando chegou á entrada da rua do Jogo da Bolla, viu um grupo de povo, que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da populaça.
Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.
Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»
E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.
—Assassino... não!...—respondeu o alferes.—Fui eu quem o feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.
Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.
Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos tormentos possiveis n'esta vida.
Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira, alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da Misericordia, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...
Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!
O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz. Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.
Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em Almodena, caminho de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.