Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo VII

«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de Vasco.

«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.ª ordem.

«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão porque não pude continuar esta carta.

«Adeus, até outro dia,

Henriqueta.»

 

VII.

 

«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrificio que faço. Não importa. Como não quero captivar a tua gratidão, nem, mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para ti, que é (medita bem) o mais que posso ser...

«A historia... não é assim? Principia agora.

«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellião de Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraça de ser pai. O tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de Janeiro.

«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e a filha.

«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu de esmolas, pedidas á noite na praça do Rocio.

«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não obstante as angustias da fome, que transformam a formosura do berço.

«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi não mendigava. A deshonra proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe não dera. Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mãi as condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha.

«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha não soffria com as vicissitudes da filha, e continuava a gosar os fins da vida á sombra de tão fecunda arvore.

«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que só ha deshonra na fome e na nudez.

«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro, que mais airoso entrasse no torneio.

«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.

«Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de lança, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.

«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á sua consciencia a baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciencia respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um reino de segunda ordem, já que a exauthoravam d'um throno que tivera na primeira.

«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana, reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do throno.

«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol nascente, e apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os antipodas d'um outro mundo.

«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a intelligencia da arte, sem o culto á formosura, sem as opulencias que o ouro cria nas altas regiões da civilisação, e, finalmente, sem algum dos attributos, que Laura amára tanto nos mundos, onde fôra soberana duas vezes.

«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola, a sua morte. A desgraçada foi punida.

«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na presença da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano.

«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira.

«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro.

«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia já prometter o futuro da Laura de então.

«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções gymnasticas dos acontecimentos.

«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.

«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato ainda, compra o titulo de visconde do Prado.

«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, as seguintes allusões:

«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.

«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades no theatro das suas infamias de esposo e de pai.................................

«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...

«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e commentaram-se com frenetica maldade.

«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação.

«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do Prado. O porteiro respondeu que s. exc.a não estava ainda a pé. Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem, viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete, e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.

«—Que querem?—interrogou elle, com soberba indignação.

«—Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...—respondeu Josepha.

«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão...

«—Pois que?...—interpellou o visconde.

«—Sou sua filha...—respondeu Laura com humildoso respeito.

«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás duas mulheres que o seguissem.