Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 55 de 86

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Cenas Contemporâneas

Scena II.

L .—Perguntasm'o a mim!? Eu não sei...

J .—Terá tido a mesma linguagem para ambas?

L .—Disse que te amava?... A mim... não me disse nada...

J .—Então és tu que o amas?

L .—Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi

com perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá... O teu namoro é antigo... ou começou aqui?

J .—Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma

creança, mas já foi baptisado com lagrimas...

L .—Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que

eu, se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro... Minha mãi deve reparar n'esta ausencia...

J .—Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!

L .—Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha...

diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a competencia... (Sahe).

 

SCENA II.

 

J e A .

 

A a .—Está incommodada, snr. D. Julia?

J .—Não, senhor.

A .—Então está aborrecida...

J .—De certo...

A .—Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de

luneta...

J .—Ah! o senhor vem pedir-me satisfações? É engraçada a

liberdade!...

A .—Não lhe peço satisfações... Se as minhas palavras foram

indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.

J .—Muitos perdões me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha

generosidade com v. s.a chega já a parecer-se...

A .—Com a virtude d'uma santa?

J .—Não queria dizer isso...

A .—Queria dizer que chega a parecer-se...

J .—Com um excesso de imbecil paciencia.

A .—Isso é muito forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe

disse affrontas...

J .—Com que direito ha-de dizerm'as?

A .—Não tenho nenhum? absolutamente nenhum?

J .—De certo, nenhum...

A .—A paixão cega o entendimento...

J .—Não é minha a culpa...