Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 49 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo XIV

Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam contrahidas as respirações. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, segundo a lei, formulada pelas inspirações do Evangelho! pelo codigo dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que morrêra, perdoando!

 

XIV.

 

Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem, que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei.

Convergiram todas as attenções para aquelle ponto.

Era Pedro Leite—ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo de seu filho unico.

Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?

Que força occulta o arrasta a abençoar nas escadas da forca o assassino de seu filho?

Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios do mysterio! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os labios, que beijaram morto um filho estremecido...

Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe embaraçou o passo.

Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:

«Eu venho pedir o seu perdão á beira do patibulo. Fui eu que o arrastei até ao tribunal em que foi condemnado; mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão d'este acto, em que a minha dôr será mais... muito mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote.

Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o fel, que me devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua cabeça a altos gritos!»

Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o sangue d'um plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus Christo.

Bernardo ouviu com presença de espirito a exclamação de Pedro Leite.

«Eu lhe perdôo!»

Foram as suas palavras unicas.

Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma explosão, que as cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva, durante a sua prisão. Poucos o conheciam.

Foram estas as suas palavras:

«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho que morre enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr o filho da mulher que deshonraste, como é nobre nas escadas da forca! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!»

E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava erguido como o anjo dos tumulos á espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher que ahi falta n'esse trance afflictivo!

Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela mão da ignominia, a que a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonára.

Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que recebêra em seus braços o filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou sempre, porque lhe marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre á forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha abafado no coração, este homem seguira os vestigios do neto, sem declaral-o nunca, porque um appellido illustre não o salvava a elle d'uma illustre ignominia.

Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos depois, chamavam-lhe . Por ordem do juiz de fóra

hia ser preso o demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. «É doudo...!» dizia o meirinho ao lançar-lhe a mão.

«Não é doudo... é ... » responderam algumas vozes. Morto, sim!