Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 20 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo V

Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de Henriqueta. Henriqueta bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o infeliz a buscar distracções longe da patria, onde a sua paixão era invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos.

Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe foi entregue a seguinte carta:

 

V.

 

«Carlos.

 

«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó moral, não é assim?

«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ella seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo.

«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante, que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este momento, parece declinar.

«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos hão-de erguer-se um dia.

«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez? Vou dar-t'os.

«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas, com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.

«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia.

«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte, engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres...

«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmão. Nossos paes não comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da intelligencia.

«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia tempestade.

«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim.

«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma enfermidade de quatro annos.

«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.

«Este homem chama-se Vasco de Seabra.

«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me captivaram o coração e a cabeça.

«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que só na sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem pretenções de bas-bleu, que é de todas as miserias a mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.

«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse.

«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior, mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a respeito da remissão d'uns fóros.

«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me, cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada faz uma mulher da sua tranquillidade!

«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre aquelle indifferente que me fazia córar e soffrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia, mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o tratar tão grosseiramente.

«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que se prendem os primeiros instantes da desgraça.

«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi principia a longa noite da minha vida.

«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais: revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.

«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra a minha familia.

«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro. Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não tinham contrahido a obrigação de se consultarem.

«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação, quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia, identificado com as minhas vontades.

«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da minha alma, não pude vencer a corrente.

«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam.

«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das intenções de minha familia.

«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.