Cenas Contemporâneas
Capítulo IV
O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do assassino, que zombára da lei.
Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.
IV.
É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.
Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...
Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, não é assim?»
Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me adivinhára. Córei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um pungente assentimento á sua conjectura! A dôr é generosa, e cala as affrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e D. João de Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.
D. João proseguiu:
«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braços. A mãi, que prophetisára, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle lethargo, com afflictivos gemidos.
Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não chorou uma só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração estremece assim.
No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender serenamente a cabeça nos braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava não só os gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Christo para restituir a filha á viuva de Nahim.
Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da materia... mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruição nos revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dirá que aquella mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e só a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...
Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É só minha, e só eu a comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa eterna separação.
Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar n'aquella sepultura durante tres annos.
Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.
Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do Santissimo Sacramento.
O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.
Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia, me offerecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãi, e a seus irmãos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella attracção irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que sua mãi lhe não explicava nem realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me vinha cahir aos pés.
E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do côro, a tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.
Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É impossivel que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com ella...
A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma profanação.
Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos.»
Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrilego, que não tem ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que rouba.
Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma não sei que pesar semelhante ao remorso.
Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma recordação para as lagrimas, e uma gloria só minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na eternidade.
Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!
Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feições com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me vêem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das contorsões freneticas da desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante, me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas dolorosas contemplações, aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia final... É lamentavel a situação d'este pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras, não é assim?
Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o não disse, nem lh'o diria, se lhe não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.
Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dôr. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova existencia. A immortalidade é uma idêa abstracta de tudo que é comprehensivel aos homens. O homem não explica a immortalidade, em quanto não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e termina nos espiritos. As funcções do espirito, sem fórmas corporeas, pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas funcções, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razão que o animal, inferior ao homem, não comprehende as funcções do pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de fórma em fórma até deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos espaços incognitos como vagam os espiritos. É lá em cima, nas proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna luz, que se lê o livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo orgão espiritual em que recebi a interminavel impressão de agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e sublime não é um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paixões grandes e ideaes, não é um propheta da vida futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor, qual será a existencia do espirito?
Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o seu espirito á altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, não digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...
Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltações de jubilo, aqui, n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este goso é a minha convicção na immortalidade... É a minha esperança, confirmada pela meditação e pela sciencia, de que hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do céo...
Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga ás turbas de Villa Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que não soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos, onde a materia organisada dispõe do machinismo da bocca para lhe dar uma gargalhada em resposta.»
D. João de Noronha despediu-me.
Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas communicações. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, é porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado mais que a superficie da materia. O espirito tem a força dos imponderaveis. A força da materia póde muito bem calcular-se pela força dos vapores... tantos cavallos.
Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:
—Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!
—De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem considerar-se physicas nem moraes. «Absurdo!—replica a espirituosa dama.» Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua vida. D. João encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.
—E a caveira?—perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.
—A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma mortalha.