Cenas Contemporâneas
Capítulo IX
Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não pronunciára uma só palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi lançado fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e cahiu.
O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem fóra da porta. Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado á rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos labios molhados de fel.
E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bemaventurança.
IX.
Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractára sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate lhe não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo em que Bernardo lá fôra lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura attrahia-a para elle com instincto maternal.
O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe inspirasse um destino. Esperou.
Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de Lucena, e por João Leite.
Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia para isso era o juiz de fóra Paulo Botelho.
O honrado moço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida, por não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a mais eloquente naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e com que estava sendo perseguido.
Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si procurando um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo, adivinhando-lhe as intenções, disse que não precisava fingir-se; que elle dava a sua palavra de honra de não retirar da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz riu-se da palavra d'honra na bocca d'um creado de servir, e mandou-o embora, por não ter a proposito um meirinho.
Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite, que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro do burguez opulento.
João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:
—És tu o lacaio de Francisco de Lucena?
—Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena—respondeu Bernardo com dignidade.
—E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?
Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa para retirar-se.
—Vem cá, miseravel!—tornou João Leite—tu és o amante da filha do teu amo?
—Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a deshonre!
—Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeições, lacaio?
—Eu não lh'as offereci nunca, senhor.
—Offereceu-t'as ella, sevandija?
—Não, senhor.
—Mas ella escrevia-te...
—Sem ser criminosa, por isso...
—Então achas que não é crime escrever a um bandalho?
—Será, se v. s. a o quer...
—Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da bota! Se tivesses um nome...
—Tenho um caracter, senhor!
Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com despreso, e olhando-o da cabeça aos pés, replicou:
—Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?
—Então, terei um braço...
—Um braço!—atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente pontapé, que o fez descer tres escadas maquinalmente. Bernardo assumira toda a dignidade do homem de coração ultrajado. João Leite achou-se comprimido entre os braços do sevandija que elle suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.