Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 68 de 86

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Cenas Contemporâneas

Acto II.

CORRE O PANO.

 

ACTO II.

 

A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes.

Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas

barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a

natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que

pasmam diante dos ensaios do salva-vidas. Estes podem

dizer o que quizerem a tal respeito. O author dá carta branca

ao actor para que diga centenares de parvoices: póde até

discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é

calar-se.

 

SCENA I.

 

Afóra estes entes nullos, J e L sentados em cadeiras.

 

L (fazendo SS com o guarda-sol na areia).—Estás tão sombrio, Jorge!

J (fazendo TT na areia com a chibata).—Estou optimamente. (Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no banho. Alguns homens urram).

L .—Parece que te aborrece a Foz!...

J .—Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...

L .—Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me

perguntam o que tens...

J .—Diz-lhes que se não incommodem...

L .—Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma

illusão desvanecida pelo casamento...

J .—A opinião é livre... Supponham o que quizerem.

L .—Mas não consideras que eu soffro muito se ellas

imaginam tal?

J .—Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio...

L .—Não é amor proprio... é dôr do coração...

J .—Será algum aneurisma?

L .—É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.

J .—Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor

estarmos calados?

L .—Calar-me-hei...

J .—E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A

necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós... É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito... (Erguendo-se e espreguiçando-se). Ai! que vida!... (Reparando). Olá, Eduardo!... por cá?