Cenas Contemporâneas
Acto II.
CORRE O PANO.
ACTO II.
A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes.
Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas
barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a
natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que
pasmam diante dos ensaios do salva-vidas. Estes podem
dizer o que quizerem a tal respeito. O author dá carta branca
ao actor para que diga centenares de parvoices: póde até
discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é
calar-se.
SCENA I.
Afóra estes entes nullos, J e L sentados em cadeiras.
L (fazendo SS com o guarda-sol na areia).—Estás tão sombrio, Jorge!
J (fazendo TT na areia com a chibata).—Estou optimamente. (Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no banho. Alguns homens urram).
L .—Parece que te aborrece a Foz!...
J .—Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...
L .—Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me
perguntam o que tens...
J .—Diz-lhes que se não incommodem...
L .—Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma
illusão desvanecida pelo casamento...
J .—A opinião é livre... Supponham o que quizerem.
L .—Mas não consideras que eu soffro muito se ellas
imaginam tal?
J .—Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio...
L .—Não é amor proprio... é dôr do coração...
J .—Será algum aneurisma?
L .—É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.
J .—Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor
estarmos calados?
L .—Calar-me-hei...
J .—E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A
necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós... É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito... (Erguendo-se e espreguiçando-se). Ai! que vida!... (Reparando). Olá, Eduardo!... por cá?