Cenas Contemporâneas
Scena VII.
E e J .
J .—Leocadia?
E .—Já lá vai... Disse que hia para casa.
J .—Dá-me lume... (accende o charuto). Quero dar-te um conselho, Eduardo...
E .—Sim?!
J .—Não te cases.
E (Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas barracas).—Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?
J .—Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...
E .—É uma mulher? Pois louva a Deus por não serem duas... Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!
J .—Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de
expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?
E (ironicamente).—Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...
J .—Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A
paixão allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que amo até ao delirio uma mulher?
E .—É a tua naturalmente... Isso é muito justo...
J .—Não é a minha...
E .—Pois a minha tambem não...
J .—Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com
seriedade, calemo-nos...
E .—Ora diz...
J .—Eu amo... Julia...
E .—A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não
ouçam os caranguejos...
J .—Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um
sentimento nobre...
E (rindo).—Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que recebes...
J .—Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella
mulher... Era ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu coração era Julia...
E .—E ella... concorda?
J .—Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me
responde...
E .—Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa,
visto que esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...
J .—E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?
E .—Talvez para papelotes, quando se frisa...
J .—Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...
E .—Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?
J .—Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se
assim...
E .—Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos
semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...
J .—Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-
me um favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...
E .—Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que
o marido é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...
J .—Com minha mulher!
E .—Sim...
J .—Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...
E .—Daria?! Que grande immoralidade!
J .—E por isso Leocadia se retirou...
E .—E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas
já ella admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...