Cenas Contemporâneas
Pathologia do Casamento.
DEDICATORIA.
exc.ma a snr. D. Fulana.
Conceda-me v. exc.a a gloria de offerecer-lhe um quadro d'esta galeria. Vai lêr um drama intitulado P C .
Pathologia a , minha querida snr. D. Fulana, é uma palavra grega, composta de pathos, doença, e logos, tractado. Quer, por tanto, dizer molestias do casamento.
Balzac escreveu a «physiologia»; outro, que me não vem á memoria, escreveu «anatomia do coração»; faltava uma «pathologia» que apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista intellectual, que já sinto muito cançada, escreverei a «Pharmacia do casamento» que hei-de dedicar a uma outra D. Fulana, que eu cá sei.
V. exc.a é uma senhora fina, que, além de ter a cabeça no seu lugar, apresenta muitas vezes lume no olho. Sympathiso com o seu talento, e talvez casasse com a snr.a D. Fulana, se tivesse a certeza de podermos entreter o nosso tempo traduzindo os trinta e sete livros de Plinio, e os trinta e cinco De Linguâ Latinâ de Terencio Varro, que Deus tem em sua santa gloria.
Penso que v. exc.a não estaria por isto. O seu espirito tem calefrios de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez patriarchal, devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que poderia valer alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não vale nada no cavername ossudo d'este seu creado.
Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.
Eu não sei se v. exc. a sabe alguma cousa d'isto; mas desconfio que não. Falla-me muito em Victor Hugo, e na Petite Fadete de George Sand. Já a encontrei a lêr les Liaisons Dangereuses, e a Manon Lescaut a . Palpita-me que a snr. D. Fulana tem na cabeça muita somma de têas de aranha, e não serei eu a vassoura da limpeza.
Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto de lhe offerecer a minha «Pathologia do Casamento.»
Digne-se v. exc.a acolhel-a no regaço da sua benevolencia, e dê-me occasiões de mostrar-lhe que sou