Cenas Contemporâneas
Scena XI.
J a .—Responda, responda, que v. exc. não é responsavel pelo que diz...
A .—Eu não posso consentir que se affronte assim uma
senhora!...
SCENA XI.
Os mesmos e E , que vem passando com uma dama pelo
braço, e pára.
J .—Pois senão póde, resigne-se...
A .—Tenho a optar por outro expediente antes da resignação...
E .—Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os
meus amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde...
J (sorrindo).—Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado?
E a .—Pois o senhor está formalisado? e v. exc. (para Julia) tambem está formalisada? e a menina (para a que tem no braço) tambem se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque. Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha. Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro horas... não acha?
A .—Se me dá licença...
E .—A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o
dono da casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr. a D. Julia é a rainha das mais formosas? (Com escarneo).
A .—Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!...
Entre cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão...
E .—O meu caro senhor está funebre como um mestre de
cantochão... Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate?
J (desprendendo-se do braço).—Dê-me licença... Minha mana chama-me...
A .—Eu acompanho-a, minha senhora... (Vão sahir).
J .—Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante
cada um de nós caminha para o seu polo diverso...
J .—São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe
aprouver, snr. Jorge... (Sahe).
E .—Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu
de mim vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (Atira-se ao sophá). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (Entra um creado com chavenas de chocolate). Isso que é? Venha cá... É chocolate... vm.ce não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...
C .—Não, senhor...
E ce .—Então vm., pelo que diz na sua, é um grande idiota. (Toma duas chavenas da bandeja). Póde retirar-se... Aquelle senhor está fazendo versos... (O creado sahe). Ó Jorge, não tens no coração um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?
J .—Adeus... retiro-me...
E .—Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver...
Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és tu?
J .—Fallas d'ella com tão pouco respeito!...
E a .—De quem? de s. exc.!?... Pois eu disse alguma cousa que possa chamar-se grosseira?