Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 40 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo V

Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado á paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou explicava-os de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se d'aquelle affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se!

 

V.

 

Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes ricos, e encontrou um negociante d'alto bôrdo, que recebeu a proposta com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.

O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porém, era um rapaz de fina educação, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe estimulava, e de orgulho superior á sua classe, porque, ha 50 annos, a classe commercial era muito humilde, supposto já trabalhasse para esta época de barões commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o mais palpitante triumpho da democracia. Para me não metter em graves questões sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe annunciára com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vêr sol nem lua.

Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez por tres mil cruzados. E era isto verdade.