Memorial de Maria Moura
Cap. 7 — O Tonho
O Tonho
CHEGANDO na Vargem da Cruz, o delegado nos recebeu muito bem. Mas foi logo aconselhando:
— Não se pense em violência. Vamos combinar assim: mando a intimação pelo Cabo Sena, junto com o outro soldado. A moça deve atender ao meu convite e vem à delegacia. Enquanto ela estiver aqui, conversando comigo, vocemecês, com os seus homens, ocupam o sítio do Limoeiro. Teremos então o fato consumado. Como também são herdeiros, estarão em exercício do seu pleno direito, ocupando a propriedade da qual foram expulsos abusivamente. Pelo que eu sei, Dona Maria Moura mora sozinha, com duas agregadas. Moradores, tem dois cabras idosos, que de certa forma lhe ficaram de herança dos finados pais, embora não sejam escravos. Homem capaz de resistência só resta o feitor, João Rufo. Mas esse tem fama de pacato, não irá resistir à presença dos herdeiros.
Foi um discurso comprido e bonito e nos deixou muito animados. O delegado falava igual a um advogado; e vai ver, podia bem ser advogado mesmo, só que entrou na carreira da polícia.
Cheios de esperança, nós aceitamos a proposta do delegado. Parecia uma idéia muito boa. A Moura nos enxotou a nós, mas com a autoridade ia ser diferente. Com autoridade, cabelo na venta não vale.
Eu ainda perguntei ao homem:
— E a gente, enquanto espera, onde é que fica? Se esconde?
O delegado respondeu que nós podíamos ficar mesmo na delegacia, enquanto se aguardavam as providências. E aí, bateu na mesa:
— Mas não! Têm que ficar amoitados por perto. E quando a moça sair com os soldados, vocemecês invadem. Tragam uns cabras, para garantirem o fato consumado.
Voltamos pras Marias Pretas na maior animação. Irineu já fazia plano de casar, ir morar com a prima no Limoeiro; a terra lá é pequena, mas tem água permanente. E tem ainda alguma semente de gado que escapou do Liberato.
E eu dizia comigo: “Fica esperando, seu besta, que eu vou lá te entregar tudo de mão beijada! Pois sim!”
Vou é atiçar a Firma pra botar a boca no mundo, contando que o cunhado desonrou a prima donzela — e só pra se apossar do sítio. Que eu não me conformo com isso: eu só queria punir pelos meus direitos e receber o valor das partes do nosso pai — a dele — herdada por nossa mãe — e parte do tio Embarcado, que Pai comprou. Sendo essas partes igualmente minhas, dele e da nossa irmã Marialva, que vive sob a minha proteção.
E aí desalojo ele, sei que o cabra é frouxo, basta bater com os pés no chão que ele se assusta e sai correndo.
Deixa por ora ele fazer o que quer, enquanto me ajuda. Na minha hora eu faço o que quero.
Em casa, a Firma estava esperando de olho aceso. Nós contamos tudo, a visita, a nossa saída de rabo entre as pernas. Contei depois que eu tive a idéia de falar com o delegado e deu certo. Nessa parte careci de embelezar um pouco, pra Firma não disparatar, chamando a gente de frouxo, mole, covarde: inventei que nós exigimos do delegado que ele mandasse uma intimação para a Moura. Se ela resistisse, os soldados podiam até lhe dar voz de prisão.
— Uma vez a menina na delegacia, o homem segura ela lá por algumas horas. Nesse ínterim a gente toma posse e ocupa o Limoeiro. Quando a Moura voltar, já vai nos encontrar senhores do terreiro; e o que lhe resta é se conformar com a situação.
E para ir logo afastando o diabo do ciúme da mulher, fechei a conversa:
— Pode ela até aceitar de se casar com o Irineu, e aí acaba tudo em família.
A Firma rosnou alguma coisa que eu não ouvi. O Irineu tinha ido entregar os cavalos ao moleque para tirar a sela e levar no cercado; mas ele entrou na sala, nessa hora, e escutou o final das minhas palavras:
— E caso mesmo, sim senhora! A cabrita é espritada mas bonitinha. Assim do jeito que eu gosto. Caso com todo o prazer!
Esperamos por toda a semana exigida pelo delegado. E aí nos botamos de novo para a vila. Arranjei emprestada uma burra cardã, bem forte, para, na volta, o Irineu trazer a moça na garupa. Ou antes, na lua da sela, porque, pelas amostras dadas, ela tinha que vir era agarrada à força.
Chamei quatro cabras conhecidos; já tinham nos dado serviço num entrevero que a gente teve com o Chagas Preto, ladrão de cavalo, e se saíram muito bem. Não prometi dinheiro, que não tinha; mas disse que dava a eles uma vaca parida e uns dois garrotes, para venderem e dividirem o apurado. De armas, arrumei o nosso bacamarte velho para o Irineu, que sabe lidar com aquilo — pelo menos se pabula. Tinha um clavinote também velho, que ainda podia dar serviço, trazido do pessoal da Firma. O resto era mesmo na pajeú, que todos possuíam, a começar por mim, que me sinto nu sem a minha no cinturão.
Montaria, além da burra, um cavalo de campo meio sestroso mas que eu domino bem. Os cabras vão a pé, junto conosco, conforme o costume.
Quando nós chegamos na delegacia, os cabras já tinham partido para o Limoeiro. Fomos então para o esconderijo escolhido pelo Irineu, debaixo de uma oiticica tão folhuda que mais parecia uma moita do que uma árvore.
Apeamos. Amarramos pelo cabresto os animais, que ficaram pastando naquele capim alto ao redor. Eu me sentei numa pedra e fiquei dando pontapé na terra, me sujeitando àquilo de que menos gosto — esperar. Irineu passeava pra lá e pra cá; decerto estava com medo; eu já disse que o cabra era mofino. Está sempre querendo correr, quando vê que chegou a hora do pega-pra-capar.
Afinal, já fazia mais de uma hora daquela massada, os dois soldados apontaram no caminho. Eu saí do mato, eles pararam; estavam com uma cara muito ressabiada. E com eles o tal do advogado, que tinha ido entregar a intimação, e desembuchou:
— A mulher é uma piranha de valente. Correu conosco, e queria até rasgar a intimação. Disse que só sai da casa dela se for amarrada. Nós tivemos receio de forçar. Afinal é uma moça de família e estava na casa dela. E a gente só tinha ordem do delegado para entregar a intimação e pedir que nos acompanhasse até a delegacia.
— E agora? — perguntei.
— Agora, vamos voltar e receber as novas ordens do delegado. Ver o que se pode fazer.
O Irineu ouvia, calado. Eu estava estourando de ódio; que grande besta era esse cabo! Mas evitei de me alterar com ele. A gente precisava de ficar com a lei do nosso lado, principalmente porque, na hora de roubar a moça e depositar na minha casa, nas mãos da Firma, a minha senhora, eu ia carecer muito do apoio da autoridade.
Na delegacia, logo se viu que o delegado estava com receio de ir adiante:
— Quando não há reação da parte, se pode fazer tudo. Mas quando o intimado reage, é diferente. Uma coisa era se chamar a moça para uma conversa, outra é trazer à força.
Achava bom se ir falar com o juiz, na sede da comarca. Questão de herança é assunto para juiz...
Eu fiquei calado e então o Irineu entrou na conversa:
— Seu delegado, neste nosso caso existe um porém. Não vê que eu e a prima temos um namoro antigo. Mas quando a mãe dela morreu e aquele seu Liberato se meteu com a menina, eu não gostei e nós brigamos. Daí essa raiva dela.
Eu cortei o assunto:
— Isso é lá entre vocês dois. O senhor, seu delegado, deve mesmo falar com o juiz. Daqui a uns dias nós voltamos para saber do resultado.
Nos despedimos, montamos, chamamos os cabras. Saímos.
O Irineu estava se rindo:
— Inventei o caso do namoro pra preparar o caminho. Caso de amor entre primos, todo mundo entende. Quando eu carregar a Moura, eles vão achar que está tudo explicado e ficam esperando o casamento.
Voltamos para as Marias Pretas, os cabras na nossa pisada. Deixamos passar uns três dias, para a Maria Moura se acalmar e se convencer de que tinha assustado a gente.
Depois de três dias, preparamos as armas, arranjamos mais uma. Mandamos os cabras na frente. Que nos esperassem na entrada da vila, na bodeguinha do Zé Lopes, que era nosso amigo e fornecedor. Por cautela e para garantir o segredo, ao passar pela bodega, não fizemos sinal aos homens. Eles saíram na frente, quando nos viram apontar na estrada. De novo nos reunimos debaixo do pé de oiticica, cada vez mais cheiroso de flor e cerrado de folhagem.
A noite já vinha caindo quando nós chegamos ao Limoeiro. A casa estava no escuro. Só de um dos lados saía uma claridade tremida de fogo. Devia passar pela janela da cozinha.
Podia até haver na sala uma luz acesa, de candeia; mas ninguém de nós conseguia enxergar: as portas da frente estavam muito bem trancadas. Nós desmontamos, os cabras amarraram os cavalos no jucá do terreiro. Me juntei ao mano e salvei da porta:
— Ô de casa!
Ninguém respondeu. Minha idéia era a gente segurar a Moura logo que ela aparecesse e os cabras, então, corriam pela casa adentro, garantindo as cunhãs.
Tornei a bater palmas e a chamar ô de casa.
Esperei um pouco a resposta, que não veio. O Irineu falou então:
— Abra a porta, prima, somos eu e o Tonho. A gente veio em paz. E só pra conversar.
Tomou fôlego, esperou. Nada. Continuou:
— Foi o delegado que mandou; é mesmo só pra conversar. Resolver tudo em paz.
Continuava tudo quieto. Não fosse aquele clarão ligeiro de fogo, as direitas, a gente podia até garantir que a casa estava abandonada. Mandei então Luís Preto e o irmão rodearam pela cozinha, ver se podiam entrar por lá.
Luís Preto foi até o oitão, quebrou na direção da tal janela da cozinha. Foi espiando pra dentro, e aí ouviu-se um grito agudo de mulher.
Ele recuou, sem saber o que fazer, e então perdi a paciência e berrei:
— Ou abrem, ou eu arrombo a porta!
O mesmo silêncio.
Eu ainda insisti:
— É melhor abrir por bem! A gente veio em paz!
O que mais fazia raiva era a falta de resposta. Pelo grito da mulher se tinha a prova de que havia gente lá dentro.
Parecia até que se escutava o fôlego que elas seguravam e soltavam, por trás da parede.
Eu dei a ordem de arrombar, num grito; e, ao mesmo tempo, em voz baixa, mandei Luís Preto e o outro tentarem entrar pela cozinha.
Ouviu-se então, saindo da casa, um tiro estrondar na noite. Isso me deu mais fúria ainda, e berrei de novo:
— Mete o ombro! Arromba!
Uma voz lá de dentro — voz de homem, que ninguém esperava, gritou pra nós:
— Chega pra lá, senão morre!
O meu cabra que tomou a frente e era teimoso, se adiantou para a porta. Veio então um segundo tiro, que pegou o rapaz na coxa. E ele caiu, gemendo.
O tiro saía de um buraco junto do portal, que eles tinham cavado na taipa. Eu bufei e soltei um urro:
— Podem atirar, que a gente arromba sempre, no meio do seu fogo!
E eu mesmo fui avançando, protegido pelas armas dos meus cabras. Outro tiro quase me pegou e me fez dar um salto para trás.
Nesse ínterim, o Irineu tentava rodear a casa pelo lado esquerdo. Mas, lá de dentro, ouviram, decerto, as passadas dele na areia grossa, porque de repente abriram uma fresta na janela e atiraram.
Esse tiro passou tão de perto que o Irineu ficou com a cara chamuscada. E ele se atirou no pé da parede, cobrindo o rosto com as mãos.
E aí começou de verdade o tiroteio. Eles tinham pelo menos umas três armas; só paravam os tiros para carregar. E os atiradores deviam se espalhar pelos quatro cantos da casa, já que saía tiro de todo lado.
O mais perigoso deles era o que guardava a porta da frente, com o cano da arma enfiado no buraco da parede, girando pra lá e pra cá, cuspindo fogo. Eu esperei o momento em que ele carregava; tinha prevenido os rapazes que se juntassem comigo e atacamos a porta. A madeira gemeu com o nosso peso, estalou, ia cedendo, mas aí veio um novo tiro que derrubou outro dos meus homens. Nós corremos para fora do alpendre e logo veio mais um tiro. Agora já eram duas armas atirando na frente da casa. Puxamos pela perna o rapaz ferido, ele se arrastou nas mãos para junto da gente; estava baleado no ombro. Com ele, os feridos já eram dois.
A gente atirava pouco, poupando a munição, esperando a hora do corpo-a-corpo, quando devia ser o momento da decisão.
Da frente, dez vez em quando, vinha um tiro. Mas era só para nos espantar, porque eles não podiam fazer pontaria. Pela fresta da parede não dava para enxergarem nada. Se abrissem a porta ou a janela, quem entrava era a gente, mandando fogo.
Pelo som dos tiros, parecia que, de pesado, eles só tinham dois bacamartes. O resto devia ser arma pequena, de cano fino.
A voz do homem tinha nos mostrado que aquela resistência não era só de mulher. O certo mesmo era haver mais de um homem ali dentro, sem contar o que falou.
Nós fomos nos juntar perto dos animais, para combinar a continuação do ataque. Na verdade, nunca, mas nunca mesmo, se podia esperar aquela resistência. A danada da Moura devia ter contratado gente na rua, arranjado arma e munição. E munição farta, estava se vendo, tanto que continuavam dando um tiro de vez em quando, como se quisessem dar sinal de vida.