Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 42 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 41 — Maria Moura

Maria Moura

 

O CASAL VALENTIM-MARIALVA, parece que estava se dando muito bem na Casa Forte.

A gente se tratava por comadre e compadre. Beato Romano tinha batizado o Xandó — dessa vez não lhe deu o nome de José, porque o menino já tinha nome de santo: Alexandre.

Naquele dia eu havia mandado chamar Valentim, para tratar com ele um assunto muito especial. Quando chegou, pedi que se sentasse, ficamos um tempo falando de chuva, gado, Valentim andava tão interessado em criação que nem se lembrava mais da rabeca ou do trapézio e das facas. Eu tinha dado uma vaca parida ao meu afilhado e Duarte, não querendo ficar para trás, deu também uma novilha amojoda — já era um começo de fazenda!

Mas meu coração agoniado não me deixou demorar nessas conversas leves; e disse ao compadre que tinha um assunto muito importante para lhe falar.

Levei Valentim comigo até o quarto do baú. Baú que, como eu já disse, estava agora afastado da parede, deixando ver o alçapão do cubico. Pus o dedo na boca, para ele não falar nada, e lhe disse no ouvido:

— Lá fora eu lhe explico.

Quando voltamos ao alpendre, contei a Valentim a história do cubico desde as lembranças de Pai e do Avô. Contei como Duarte me ajudou a construir o meu, no maior segredo. Contei também as ocasiões em que o cubico tinha dado serviço, escondendo acoitados ou prendendo um inimigo:

— Agora mesmo, compadre, está preso lá um indivíduo que eu considero o meu pior inimigo. Por isso lhe pedi para não falar nada, no quarto: tinha risco do sujeito ouvir, lá de dentro, e eu não queria que ele soubesse da sua presença.

Nesse ponto enveredei por outra história, dessa vez relembrando o meu conhecimento com Cirino, desde o dia em que ele entrou na minha vida, trazido pelo pai, o Seu Tibúrcio do Garrote, que me pagava (e muito bem) pelo asilo que dava ao rapaz. Ele tinha se metido nuns malfeitos já muito sujos, com honra de mulher e a morte dela: a coitada perdeu a honra e perdeu a vida, tudo por culpa de Cirino.

Fiz das tripas coração e confessei ainda que eu tinha me apaixonado pela desgraçado e que ele abusou de mim, da minha boa fé...

— Abusou de vocemecê, comadre? — Valentim estava escandalizado.

— Se você pensa que ele me desonrou está enganado. Eu não era nenhuma donzela inocente quando Cirino chegou aqui. Sou uma mulher livre, não dou satisfação a ninguém. Com essa vida que eu escolhi pra mim, como é que eu podia pensar em me guardar para um marido? E qual seria o homem que ia aceitar ser o marido de Maria Moura? Uma mulher que se comporta como homem e vive cercada da sua cabroeira armada?

— Assim mesmo...

— Não, eu não culpo o Cirino de nada, nesse ponto. Fui eu que quis. Mas, sem que eu esperasse, começou a traição dele...

— Com outra? Quem seria?

Tornei a aplacar Valentim:

— Não foi com outra, compadre. Antes fosse. Você não sabe o que ele me fez, a respeito do Major Nunes, que eu tinha asilado aqui?

Valentim tinha visto falar num major... seria o mesmo Peba Preto? Mas só por alto.

Contei então todo o caso do Peba Preto e as vilanias de Cirino, inclusive as mortes do Zé Pretinho e o Mestre Luca...

— O Mestre Luca, que tanto me ajudou até com a madeira da sua casa, não se lembra? E foi matança sem precisão, só de malvado! Mas logo veio o castigo, alguém da parte do Bacamarte traiu o Cirino; entregaram ele ao pessoal do Peba Preto e o botaram preso na cadeia da vila do Sumidouro.

Veio aí o final — a minha viagem ao Sumidouro:

— Atacamos a cadeia, roubamos o preso, trouxemos o sujeito à Casa Forte — e ele agora está aqui, trancado no meu cubico!

Valentim estava pasmo, descoroçoado:

— E eu pensava que vida difícil e arriscada era vida de pelotiqueiro!

Me levantei, fui ao quarto, escutei: tudo quieto. Que é que andaria, naquela hora, na cabeça de Cirino?

Voltei ao alpendre:

— Agora, compadre, vou lhe explicar por que lhe considero metido até o pescoço nessa história triste de Cirino.

Fiz uma pausa:

— Você sabe quem é o meu herdeiro, compadre?

Valentim levantou os olhos espantado:

— Seu herdeiro? Como é que eu vou saber?

— Então não sabe que o meu herdeiro único, que vai ser o dono de tudo que eu possuo no mundo — esta casa, estas terras, o gado, a planta, a mata na serra, minha riqueza guardada, todo o ouro que eu possuir quando morrer, até a minha parte no Limoeiro que os seus cunhados querem me roubar — tudo isso de quem vai ser?

Valentim nem tentava responder a nada — nunca tinha pensado nesse herdeiro.

— Pois o meu herdeiro universal, compadre, é o seu filho Alexandre, meu afilhado.

Valentim me olhou primeiro, assustado: depois circulou o olhar pelo horizonte — tudo que se via dali era meu — e me pareceu que já estava com o olhar diferente.

— O Xandó, compadre, é a única criatura do meu sangue que eu considero neste mundo. Por ser filho de Marialva, minha prima legítima. Os bandidos dos irmãos dela já risquei da minha família — preferia tocar fogo em tudo que é meu — como já fiz com o Limoeiro! só para não deixar cair nada nas unhas deles. Quando Xandó nasceu, eu combinei com Duarte fazer um testamento declarando Alexandre o meu herdeiro universal. Duarte já deve ter deixado a nota, no cartório da vila. Era a surpresa que eu queria fazer a vocês, assim que me chegasse a minuta do testamento para eu assinar.

Aí me levantei, dei uns passos, e fiz a grande revelação, procurando impressionar Valentim o máximo que pudesse:

— Pois essa fortuna, meu compadre, que se pode dizer já é do seu filho, corre o risco de ir por água abaixo, por culpa desse homem. Escute: o final dele é acabar comigo. Com a minha fama de mulher de respeito, cumpridora da palavra dada — que é o meu maior capital. Ele quer me desgraçar junto de quem confia em mim. Quando ele traiu o Peba Preto, deixou saber que estava agindo por minha ordem. Seduziu dois dos meus cabras para ajudarem na tramóia — e os outros dois, que me eram fiéis, ele matou. O Zé Pretinho e o Luca, já lhe falei neles. E, mesmo preso no Sumidouro, ele já estava intrigando, se fazendo de inocente junto aos Seriemas, que são a família do Peba Preto, convencendo a eles que toda a trama era minha. Não tardava ele vir aqui — não me atacar na minha casa, que ele não é homem para isso — mas me botar numa tocaia e me dar fim.

— Mas ele agora está preso, nas suas mãos...

— Está preso. Mas muitíssimo encoberto, ninguém sabe disso. Estou escondendo essa prisão de todo mundo. No Sumidouro, nós trabalhamos com a cara encoberta pra ninguém nem supor que eu era da partida. Devem ter pensado que o roubo do preso foi obra do pessoal do Bacamarte, querendo se vingar. E, se escondo assim o Cirino, é porque o pai dele, Seu Tibúrcio do Garrote, é o homem mais importante desta ribeira (tem um cunhado no Crato que até já foi senador!). Eu não tenho força nem tamanho para enfrentar esse homem; e ele é pai, há de punir pelo filho, querer vir buscar ele aqui a ferro e fogo...

— Mas então... vai soltar o homem, comadre?

— Não. Não vou soltar. Nunca.

Tornei a ficar de pé, olhei fito na cara de Valentim, e soltei a bomba:

— Eu quero que você mate o Cirino, compadre.

Deixei passar um pouco o choque, fui explicando:

— Pra você me livrar dele e pra ele não se apossar da herança do seu filho.

Valentim continuava no espanto e no susto, e eu tornei a esperar um pouco.

— O que me deu essa idéia foi o que vi naquele dia, quando você matou o cachorro doido; de um golpe só, sem luta, vindo de longe... Reparou que quase não sangrou? E então pensei comigo: e se a gente soltar o Cirino, deixar ele ir embora, e até lhe oferecer um cavalo, na vista de todo mundo? Eu alego que não estou querendo briga com o pai dele. E, quando ele já houver atravessado o portão, você, que está escondido na sombra da cerca, manda-lhe aquela mesma facada — entre as costelas, pegando os bofes — ou, se der sorte, pegando até o coração... Vi como a faca é comprida: vai fundo.

Voltei a me sentar. Esperei que Valentim, passado o primeiro susto, remoesse bem a proposta. Estava botando o compadre naquela tal situação: ou era ele, ou nós.

— Agora, compadre, tem uma coisa: quer você aceite ou não aceite, isto que é dito entre nós fica sendo segredo mortal. Quer você aceite ou não aceite. Se não aceitar, perde a herança do menino, que talvez lhe pudesse chegar muito mais cedo do que espera, devido a esta vida perigosa que eu levo; mas me fica devendo sempre o segredo. Porque se bater com a língua nos dentes, a gente será obrigado a acabar com você. Se aceitar, uma coisa eu lhe prometo: o defunto Cirino só vai ser descoberto a algumas léguas daqui, já nas terras do pai dele. No bolso lhe boto um bilhete, dizendo que aquilo se fez para eles aprenderem a não trair os amigos e que a vingança dos Seriemas não falha.

O Valentim só faltava chorar:

— Mas, comadre, eu nunca matei ninguém na minha vida. Até cachorro, aquele foi o primeiro! E logo um homem...

— Nessa hora, não pense que está matando um homem. Está matando um bicho muito mais reimoso do que aquele cachorro danado. Está matando uma cascavel; e cobra se tem que matar mesmo, senão é ela que mata a gente.

Valentim se levantou, eu também, e lhe pus a mão no ombro.

— Vá para casa, compadre. Tem todo o dia pra pensar. E que aceite ou recuse, nem mesmo a Marialva pode ficar sabendo de nada. Se lembre de que a sua vida é o seu fiador. Antes do anoitecer venha me trazer a sua resposta. E traga também a faca, eu espero. Vai ser serviço limpo. E não é crime. Legítima defesa nunca foi crime: a gente, se mata, é pra não morrer.

Valentim, de tão atordoado, nem se despediu. Eu lhe repeti:

— Lhe espero logo à noitinha.

Ele saiu andando, trocando passo, feito um bêbedo.

Minha idéia era que, quando lhe passasse o susto, ele ia pensar na fortuna do filho. Que era a fortuna dele e da mulher. E isso pesa!

Ah, eu era capaz de jurar que ele ia voltar, ao sol posto, trazendo a faca consigo.

 

Mas o sol posto chegou e Valentim não apareceu.

Esperei até noite alta, e nada. Quase fui à casa deles, arrancar uma resposta. Mas contive a impaciência; afinal, não fazia mal nenhum Cirino padecer mais uma noite preso; ou será que era a mim mesma que eu estava dando aquela noite de graça?

Manhã com escuro, já estava eu andando pela casa. Rubina ouviu na cozinha, veio ver o que era. Eu disse que queria um café e ela foi logo catar uns gravetos no canto da lenha, soprar as brasas dormidas para acender o fogo. Me perguntou:

— E ele?

Eu encolhi os ombros:

— Não sei. Não ouvi nada. Só ouvi mesmo você, levando a ceia dele. E ele lhe pedindo pra sair.

— Sinhá, eu não agüento mais esse ofício de carcereira. Se ainda durar muito, acabo mesmo soltando o moço!

Eu senti vontade de bater em Rubina:

— Sua louca, você não viu o que ele fez? Além de roubar à força o Peba Preto, matar aqueles dois! Com certeza, agora, mal saísse do cubico, ia matar o teu filho!

Rubina parou de soprar a brasa, me olhou espantada!

— Esconjuro, Sinhazinha! Se alguém tinha direito de matar o outro, era de ser o Duarte! Que tinha motivo. Ou não é?

— E aquilo quer saber quem tem direito de nada? Rubina, pelo amor de Deus!

Rubina levantou a cabeça, muito séria:

— Eu não me meto nessas guerras de vocemecês. E, pelo meu gosto, Duarte também não se metia em guerra de branco.

— Agora já se meteu. Me faça logo esse café e leve um caneco pra ele. Eu vou ficar escutando.

Voltei pro meu quarto. Daí a pouco chegou Rubina com as duas canecas de café. Me entregou uma e passou para o outro quarto, bateu na portinhola, chamou o preso.

Cirino devia estar dormindo porque custou a responder, perguntando afinal, de mau modo:

— Quem é?

Rubina girou a chave na fechadura, abriu o alçapão.

Eu de repente me assustei: e se Cirino assaltasse a velha e saísse à força?

Verdade que tinha a sentinela armada no alpendre e outra rondando a casa.

Ele recebeu o caneco, mudou de voz:

— Café? Que luxo!

— Às vezes Sinhazinha pede um café — explicou Rubina. — Quando está mais nervosa.

— Nervosa? Chame ela aqui, Rubina! Ou me leve onde ela está!

Eu cheguei perto, bati a portinhola. Dei a volta à chave, com os dedos tremendo. Não consegui falar nada.

Rubina saiu na minha frente, eu fui para fora de casa.

Cheguei até o curral, na esperança de lá encontrar Valentim. Ele não tinha nem ido ver tirar o leite, como costumava, todo dia.

Fui então andando até à casa dele; a meio caminho, descobri que ele vinha, a passo vagaroso, trazendo a vasilha de leite, tomando a direção do curral.

Parei perto dele, não dei nem o bom-dia. Perguntei:

— E então?

Ele levantou para mim a cara abatida de quem passou a noite em claro. Me olhou, vago, sem falar. E eu repeti:

— E então?

Ele fez um sorriso descorado:

— Passei a noite me revirando na cama. Marialva estranhou...

— Mas você não disse nada a ela!

— Deus me livre. Eu disse que estava com dor de dente... Teve uma hora em que o Xandó chorou, eu peguei ele no colo e fiquei pensando em tudo que a comadre disse. E, o sujeito não presta. Depois do que ele fez, acho mesmo que é capaz de tudo...

E eu repeti ainda:

— Então?

— Mas eu nunca matei ninguém, comadre. E com as minhas mãos! Com uma das minhas facas!

Tinha um monte de tijolo na beira do caminho. Eu me sentei nele, Valentim parou ao meu lado. Falei:

— Eu até lhe entendo, compadre. Mas esta vida é assim mesmo. Tudo é risco. Quando você está lá em cima, armando o salto mortal, corre um grande risco de vida — a sua vida! Mas você salta, assim mesmo.

— Tenho medo de me faltar a coragem, e ele ver, dar o alarme, se descobrir tudo...

— Eu já estudei cada passo, cada minuto da obra toda. Você já me disse que, na sua arte, todo movimento tem que ser medido, regrado, segundo por segundo. Quando você estira os braços e se atira no ar, seu pai já mandou o trapézio ao seu encontro, no segundo certo, sem a menor falha. Porque, se falhar, já sabe...

— Mas não é o mesmo caso...

— Como não é? No jogar das facas ao redor da Marialva você também está jogando com a vida dela. E sua mão nem treme!

Ele ficou pensando um instante, depois disse:

— Se a minha mão tremer, ela pode morrer. Mas eu não tremo. Nem erro. Tem como uma coisa que me sustenta o nervo...

— Pois no nosso caso é a mesma coisa, compadre. A diferença é que, com Marialva, você faz a pontaria para a risca traçada na tábua. Então, pode imaginar que tem uma risca traçada nas costas dele.

— E se eu não matar? Se só ferir e ele se puser gritando?

— Lembre-se daquele cachorro. Você não erra nem por um cabelo.

— Mas aí foi pra salvar a vida do meu filho!

— E agora pra que é? Pra salvar a herança do seu filho — sem falar que também está salvando a minha vida e a do Duarte. E ainda tem mais: estará também salvando a vida do próprio Xandó, pois, quando Cirino souber daquele testamento, tem que acabar também com a vida do menino, pra tirar ele do caminho.

Valentim, que tinha se sentado na ruma de tijolo ao meu lado, deixou rolar no chão a vasilha do leite e escondeu o rosto entre as mãos:

— É nisso tudo que eu venho pensando, comadre. Penso, penso, quero criar coragem. Mas eu nunca tirei a vida de ninguém!

Eu me levantei, impaciente; bati na bota com o cipó que trazia na mão, com vontade de bater naquele idiota!

— Eu lhe espero hoje, antes que escureça, como estava combinado para ontem. É o último prazo, que eu posso lhe dar. O último! Se você continuar recusando, vou ter que resolver isso com o Duarte, porque não posso meter os cabras no nosso segredo. Como lhe pedi, ia ser um serviço limpo, sem barulho, não dava na vista de ninguém.

Ele ficou me olhando, angustiado. Eu continuei:

— Conosco tem que haver tiro, luta. Porque ele vai tentar se defender.

Parei, olhei bem para Valentim:

— Mas já que você não quer... Seja tudo como tiver de ser...

Dei meia-volta, saí a passo duro, sem me virar. Só ao chegar no curral, olhei para trás. Valentim tinha apanhado a vasilha e estava com ela nas mãos, ainda sentado nos tijolos.

 

Mandei selar o cavalo, queria dar um galope; quando ia saindo, Duarte chegou:

— Os meninos foram buscar uma vaca parida. Vai encontrar com eles no caminho.

Eu pedi:

— Fique tomando conta. Eu já volto, é só para respirar um pouco. Cuidado. Olhe que sua mãe não facilite.

Ele me encarou com aquela cara parada que usava agora:

— Eu sei. Até minha mãe.

Aquele maldito dia para mim tinha sido pior do que o da véspera. Passei o dia inteiro pensando: falhando o Valentim, seria que a gente ia poder fazer aquilo — só Duarte e eu? Ah, eu não queria, de modo nenhum, que Cirino soubesse que ia morrer — pelo menos isso! que ele não soubesse, era só o que eu queria. Estava certo acabar com a vida dele — não tinha mais solução. Mas eu não queria que ele morresse me odiando! E também não queria arriscar Duarte. Bastava aparecer uma testemunha — e sempre aparece! dizendo que viu o moleque matando o sinhô moço. Era forca na certa! O velho Tibúrcio cuidaria disso. Deixava de ser guerra de família, passava a ser crime de morte...

Ah, Valentim, Valentim! Sou capaz de te mostrar as botijas de ouro escondidas no cubico, pra você tomar coragem! Posso até chegar a isso!

 

O céu poente já estava escurecendo quando Valentim afinal apareceu de volta. E na mão, enrolando num pano, um objeto comprido: a faca, decerto.

Fazendo das tripas coração, fingi alegria:

— Já estava com medo que escurecesse demais!

Ele chegou perto de mim, muito pálido, e eu indaguei baixinho:

— E então?

Valentim baixou a cabeça, em sinal de sim. Mostrou o embrulho.

— Trouxe a encomenda.

— Pois então vá tomar a sua posição junto da cerca. Agora, que ninguém vai lhe ver. Fique às esquerdas de quem sai, que é o lado do coração.

Nem sei como consegui falar com aquela calma. O meu próprio coração batia desesperado, as mãos tremiam, as pernas tremiam ainda mais. Contudo, me segurei:

— Enquanto isso, eu vou lá dentro, dar conta da minha parte. Não demora muito o homem aparece. Esteja pronto.

De repente me lembrei, voltei a ele:

— Quer beber alguma coisa, pra ajudar a coragem?

Valentim abanou a cabeça:

— Não, senhora. Não posso beber uma gota de nada. A mão tem que estar firme feito aço.

Parou um pouco, me olhou:

— Beber, só depois. Aí, sim, vou precisar.

 

Rodei nos calcanhares porque a voz já estava me faltando, os olhos me ardiam. Entrei no quarto, tive que esperar um pouco pra ver se me passava o tremor nos dedos e eu pudesse destrancar o alçapão. Duarte bem que podia estar ali ao meu lado, ajudando; nem ele queria outra coisa. Mas fui mesmo eu que lhe pedi para ficar de fora, até tudo se fazer. Aquele assunto era só meu, eu tinha que assumir sozinha. A vez de Duarte ia começar depois. Ele, por ora, estava bem à vista, junto com os homens no galpão.

Custei a acertar com o buraco da chave. E os dedos trêmulos não tinham força para movimentar a mola forte da fechadura.

Lá de dentro, Cirino ouviu o movimento na chave, perguntou:

— Quem é?

Eu não respondi nada, não confiava na minha voz. Abri afinal o alçapão e, meio engasgada, ordenei:

— Pode sair.

Ele devia estar esperando por aquilo, porque já vinha todo vestido, até calçado com as botas. (Rubina teria feito a ele alguma promessa?) Respondeu, animado:

— Pronto!

Eu apontei para a beirada da cama:

— Se sente aí, vamos conversar. Mas não chegue perto de mim, que eu continuo armada.

E peguei a garrucha que, na véspera, depois da grande cena entre nós, eu tinha deixado na mesa de cabeceira.

Meus lábios tremiam tanto que me enrolavam as palavras na boca. Ele olhava para mim, decerto entendendo tudo, decerto preparando um golpe novo para aproveitar a minha perturbação. Claro que ele via muito bem como eu estava confusa e agitada. Mas eu também reagi; fiz força e pude falar:

— Pensei muito e resolvi lhe soltar, Cirino. Vá para onde quiser, mas eu lhe aconselho a ir para junto do seu pai. Só ele pode lhe dar cobertura. Os Bacamartes devem andar atrás de você; e, pior do que eles, os Seriemas, do Peba Preto. Seu pai é tão poderoso que eu mesma não tenho coragem de me entestar com ele. Por isso não vou dar cabo de você, que era o que merecia. Sei muito bem que o Seu Tibúrcio, por mais sentido que esteja, acaba punindo por você. Afinal é filho dele...

Cirino foi se levantando e eu lhe acompanhei com a arma os movimentos:

— Sente. E não me toque. Mandei selar o seu cavalo, está preso no pé de mororó, do lado de fora da cerca. Passe rápido pelo terreiro, porque eu não quero que ninguém saiba da sua presença aqui. Só quem sabe são os que foram comigo pro Sumidouro, e esses não falam.

Me calei um pouco, abafando um suspiro mais doído; depois disse:

— Vá na frente. Atravesse o terreiro correndo, pegue o cavalo e adeus.

A essa palavra ‘adeus’ ele foi se virando para mim e gritou:

— E se eu me ajoelhasse no chão, beijasse os seus pés, lhe dissesse como estou arrependido?

Eu consegui olhar bem dentro dos olhos dele, com a garrucha ainda colada ao corpo, para me dar firmeza à mão trêmula. Os olhos de Cirino brilhavam; meu Deus, será que ele estava se divertindo com aquilo tudo, agora que esperava escapar com vida?

Senti outra onda de raiva me subindo na garganta: toquei no braço dele com o cano da arma:

— Só quero lhe ver outra vez depois de morto. Em frente, vá!

Ele atravessou a porta em passo rápido, atravessou a sala, o alpendre, desceu o degrau, atravessou o terreiro. Quando ia chegando ao portão, eu, que tinha vindo atrás dele até ao alpendre, tive de fechar a boca com força para me impedir de gritar, avisando do perigo que estava à espera.

E aí ouvi a voz de Valentim como se gritasse em meu lugar: “Cirino!”

Me apoiei no portal para não cair. Não escutei o baque da queda de Cirino — o chão lá fora era de areia. Fechei os olhos, esperei um pouco, deixando passar a tonteira. Abri de novo os olhos ao ouvir a voz de Duarte que passava por mim:

— Vou pra lá. Parece que tudo correu certo. O resto deixe comigo.

Com pouco mais, senti que Rubina estava ao meu lado, com o braço passado no meu ombro; na outra mão tinha um copo:

— Beba esta água com açúcar, Sinhá. Está de beiço branco e a sua mão parece de gelo.

Tomei a água com açúcar. Fiz toda a força que pude para recuperar a calma.

Nem sei quantos minutos depois, Valentim apareceu, com a cara branca como um papel, tremendo os cantos da boca. Pedia desculpas, gaguejando:

— Tive de gritar o nome dele, pra ele se virar de frente. O homem vinha muito de lado, tive medo de errar.

Eu ainda não conseguia dizer nada. Valentim continuou:

— Mas está morto. Acertou bem no coração.

Como eu não dizia nada, que não podia, Valentim continuava gaguejando quase tão perturbado quanto eu:

— Deixei a faca enterrada nele. O Duarte disse que tira mais tarde, quando o sangue coalhar.

De repente, eu não podia ouvir mais nada, dizer mais nada. Saí correndo para o quarto e me atirei na cama.

Tanto esforço que eu tinha feito para ele não saber que ia ser morto naquela hora. A bem dizer, pela minha mão. Para isso inventei de usar o Valentim; mandar a faca pela costas e ele cair, sem tempo de saber de nada. Aquele idiota do Valentim, que estragou tudo. Cadê a pontaria dele? Por que não fez como no dia do cachorro?

Foi-se o único consolo que podia me restar: ele ser morto sem saber que ia morrer e muito menos sabendo que morria pelo meu mandado.

Os pensamentos me roíam por dentro, me estrangulavam. Eu não podia nem chorar. Imagina a surpresa, o ódio, naquele coração. Ódio contra mim! Mesmo que fosse só um relâmpago, no instante em que a faca zunia, cortando o ar, e vinha lhe atravessar a arca do peito, até alcançar o coração.

 

Fiquei atirada na cama, sempre sem poder chorar, cega, surda, vazia por dentro.

Até que Rubina veio e me tocou de leve no braço:

— Sinhazinha, Duarte está aí, quer lhe falar.

Me sentei impaciente:

— Claro, Duarte! Que foi que você fez?

— O que Sinhazinha mandou. Tirei a faca, mudei a camisa dele e escrevi este bilhete pra botar no bolso...

— Você que escreveu?

— Quem mais? A senhora não recomendou segredo?

Estendi a mão:

— Deixe ver.

Num pedaço de papel amarelado, Duarte tinha escrito com letra meio desigual.

QUEM FAZ TRAIÇÃO PAGA

Dava para entender o que eu queria e Duarte comentou:

— Não botei assinatura nenhuma. Assim o velho Tibúrcio pode pensar que foram os Seriemas ou mesmo o Bacamarte quem matou ele.

Fez uma pausa:

— Todos dois tinham queixa dele.

Eu quis saber uma coisa que me preocupava, dentro da confusão na minha cabeça:

— Você viu bem se ele estava morto mesmo, Duarte?

— A faca é grande, pegou de frente. Sabe como é a pontaria do Valentim. Se não fosse assim, bastava a grossura de um fio para ele matar a minha irmã naquele maldito circo.

Fechou os olhos, deu um suspiro:

— Morreu, sim. E como diz a minha mãe — com a alma dentro. E não sangrou quase.

— E agora, que é que você vai fazer?

— Obedecer suas ordens. Já estou com o meu cavalo selado, boto ele no dele...

— Como é que você vai botar? Amarrado?

— Só existe um jeito de carregar defunto em cavalo, Sinhá: é deitado de bruços, atravessado na sela, os pés de um lado, os braços do outro. E tem que atar, sim; senão cai.

Enfiei o rosto no travesseiro, fiquei um instante calada. Duarte se impacientou:

— Tenho que ir. Com pouco já está escuro. A lua ainda custa a nascer. E daqui até às extremas do Garrote, vai muita légua de caminho.

Tornei a me sentar na cama:

— É, hoje tem lua. Eu fui olhar na folhinha.

— Então já vou, Sinhá. De repente passa pelo portão alguma pessoa...

Fitei os olhos de Duarte, me deu aquele ódio dele:

— Não dê uma errada. Não deixe ninguém lhe ver na estrada com ele. Entre no mato, se esconda. Se te pegarem antes do trabalho feito, eu não posso assumir nada! Eu lhe avisei antes!

— Eu sei, Sinhá. Eu também não quero ser enforcado. “O moleque que matou o Sinhozim branco...”

— Vai, Duarte, vai!

Ele saiu, afinal, mas ainda teve o cuidado de cerrar a porta, bem de leve.