Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 16 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 15 — Marialva

Marialva

 

 

AFINAL, DEPOIS de tanta esperança mal fundada, de tanta briga dentro de casa, eu já chegava a pensar que Valentim era um sonho nascido da minha cabeça e do meu coração. Que fundamento tinha eu para esperar a volta dele, senão aquele: “Eu vou mas eu volto”? Naquela hora me pareceu dito com a maior firmeza. Seria mesmo? Bem, por outro lado, teve o presente! Eu não posso esquecer o meu bonequinho trapezista. E quem poderá negar que aquele presente foi uma grande prova que ele me deu? Acho até mais importante do que se ele mandasse uma carta de dez folhas de papel! Foi prova de amor, foi. É como um retrato dele, que só nós dois entendemos. E se preocupou em mostrar que era ele mesmo em pessoa, me procurando. Por isso se deu ao trabalho de pintar aqueles olhos verdes. E desenhar o coração, varado pela flecha.

Eu passava dias e noites nessa confusão de pensamento. E quando ia me alegrando, lá vinha a desconfiança, ou os remoques da Firma:

— Cadê o bailarim? Sumiu?

Mas quando eu afundava de completo na aflição, pegava o meu bonequinho, fazia ele dar dois saltos mortais; ficava então imaginando como seriam os saltos mortais de Valentim no seu trapézio, o trajo que eu nem sabia como fosse — cetim, veludo? De que cor? Com dourados? Por mais que eu quisesse, não conseguia pensar direito em como ele se trajava representando, nunca tinha visto nada que me desse uma idéia, nem em figura de livro. Talvez São Jorge no seu manto encarnado e ouro, talvez o Arcanjo São Miguel...

Ai, eu nunca tinha pensado que o amor fosse essa agonia.

E eis que afinal, num certo dia depois do almoço, era meio-dia, a Firma e o Tonho já descansavam na sesta deles, e o Irineu tinha saído. De repente Duarte veio me procurar, todo misterioso:

— Sinhazinha venha comigo lá fora, por favor.

Eu saí até o alpendre; e ele:

— Até à estrebaria. Parece que tem lá uma surpresa.

Só podia ser coisa dele! Outro presente? Ah, meu Deus! Fui perguntando:

— Notícias de Valentim? O moço que mandou o presente?

Duarte falou baixo, enquanto me dava a mão para saltar um buraco no chão:

— A Dona Firma me proibiu de trazer qualquer recado para a Sinhazinha. Então eu escondi o moço, junto com a burra, no fundo da estrebaria. Reparti com ele o meu feijão do almoço. Deixei ele lá, lhe esperando, até que Seu Tonho e a mulher fossem para o quarto.

Ouvindo isso, eu me segurei para não correr. E, valha-me Nossa Senhora — era verdade mesmo. Lá estava o Valentim, chapéu no chão, saco da rabeca ao lado, sentado numa cangalha. Levantou-se ao me avistar, foi abrindo os braços, se conteve, me estendeu a mão.

— Ora viva, a princesa! Parece que ficou ainda mais bonita!

Eu estava tão intimidada e alvoroçada que nem lhe estendi também a mão. Nem falei.

Duarte tinha ficado fora, discreto, depois de dizer:

— Eu fico aqui, de sentinela. Se houver sinal de perigo, dou um assobio. Sinhazinha então corra e saia pela porteira dos fundos.

Valentim me agarrava a mão, que depois levou à boca, deu-lhe um beijo. Eu só ria, nervosa e, para disfarçar, contei:

— Um homem da cidade, que esteve aqui de visita, foi beijar a mão da Firma e o Tonho disse que ela não era nem madrinha dele pro sujeito lhe tomar a bênção...

Valentim riu, puxou outra cangalha para o lado da que ele tinha ocupado, me ajudou a sentar. Eu quase não cabia lá, com as minhas saias. Ele não me largava a mão.

— Eu lhe disse que voltava, não foi? Quando saí daqui naquela tarde, meu coração teve que ir também, dentro do meu peito; mas amarrado na ponta de uma corda fina, deixando a outra ponta presa aqui. A cada puxão que você dava de cá, ele de lá respondia, sentindo a dor... Por isso lhe mandei o moleque com o coração trespassado... Recebeu?

Eu continuava com a voz travada na garganta. Afinal consegui falar:

— Duarte me entregou. Deram a ele na venda do Corujo.

— E diga, Olhos Verdes, você entendeu?

— Meu Deus, achei a idéia mais linda! O trapezista de olhos verdes, dando o seu salto mortal!

— ... e com o coração varado de flecha...

— Para mim não é um boneco. Para mim ele é você. Você!

Valentim beijou de novo as minhas mãos, uma, depois a outra. Passou o braço pelos meus ombros, me apertou com força:

— A vontade que eu tinha era lhe mandar um retrato meu, bem bonito, para você se lembrar de mim. Mas onde é que eu ia achar, nessas brenhas, um pintor que me pintasse? E aí vi na feira um homem vendendo aquele trapezista, fazendo ele dançar na corda. Era eu!

Nessa altura eu já ia perdendo o meu embaraço:

— Pois acertou, Valentim.

Encostei a cabeça no ombro dele:

— Ah, foi como se você viesse em pessoa pra perto de mim. Retrato nenhum ia poder me mostrar aqueles olhos...

— Nem o meu triste coração, enfiado no punhal...

— Não é punhal, é uma flecha!

— Então se é flecha, é de índio. E se é de índio, é ervado! Que foi que você fez, Marialva? Que veneno botou naquela flecha?

Eu tive medo de ele estar se divertindo comigo, como a Firma agourava:

— Não brinque. Eu levei o seu presente a sério.

— E eu mandei a sério também. A sério o olho verde, o coração apaixonado. Que é que você fez com o boneco?

— De dia, ele fica trancado a chave no meu baú. Mas de noite ele vai dormir comigo. Faço ele dançar e dar salto mortal. Depois acalento ele, junto do meu coração. Nunca pensei na vida em receber um presente tão lindo. Daí, nunca recebi presente nenhum, de ninguém.

Valentim, num repente, de novo me apertou com força, nos braços, depois me beijou no rosto. Eu fiquei assustada, mas deixei.

O abraço era forte demais, me sufocava. O beijo foi ficando mais atrevido. Ele falava no meu ouvido, baixinho, eu nem entendia nada, só escutava, atordoada. Mas era como se fosse música — só aquele murmurado de amor, sem precisar de palavras.

Ficamos assim um tempo. De repente me assustei, virei o rosto, olhei para a porta.

As costas de Duarte nos vigiavam. Fiz então Valentim se sentar de novo, no lugar dele. Sentei junto, segurei-lhe a mão. Pedi que me contasse o que tinha feito naquela ausência tão demorada.

E ele foi debulhando as peripécias daquela vida de pedinte, nos lugares por onde tinha passado.

— Andei sempre fazendo rodeios. Fugindo de freqüentar as praças onde nós costumamos dar espetáculo. Afinal, não sei se pode ser bom para um artista andar de porta em porta, passando o chapéu... Mesmo que seja para cumprir uma promessa.

Passei um dedo pela testa dele, queimada de sol:

— E quando se acaba essa bendita promessa?

Ouvindo isso, Valentim se levantou do assento, botou a mão no peito e se dobrou numa reverência.

Via-se que aqueles modos dele eram coisa de artista.

— A promessa já acabou, princesa. Por isso eu voltei: agora sou um homem livre, posso procurar de novo a minha gente. Mas vim primeiro atrás da senhora.

Eu mordi o beiço; não pude segurar as lágrimas.

— Então está livre! E quando é que vai embora?

Valentim me pegou as duas mãos com as dele e me beijou de novo, primeiro as mãos, depois o rosto:

— Eu conversei com muita gente a respeito da família das Marias Pretas. Sei quem foi seu pai, quem é o seu irmão Tonho, quem é o Irineu. Sei também quem é o Duarte. Ouvi falar muito no gênio ruim da Dona Firma, que traz a família de canto chorado... E hoje o Duarte, aqui, conversou comigo. Confirmou que eles trazem você trancafiada, como uma prisioneira... com medo de que se case e bote um cunhado aqui, querendo dividir tudo.

Eu baixei a vista, puxei a mão que ele segurava e me pus a alisar no joelho as pregas da saia:

— É. Eu levo uma vida muito triste, muito sozinha. Não sei como é a vida das outras moças, que vão às novenas, que dançam nas festas... Nunca dancei numa festa, na minha vida!

Valentim riu:

— Não fosse o Duarte vigiando, eu agora tirava você pra dançar.

— E eu dançava. Nem sei como aprendi; o Irineu que me ensinou um pouco... Mas aprendi.

Rimos. Ainda contei que, numa noite dessas, tinha sonhado, dançando com ele.

Valentim ficou me olhando um instante, apertou a minha mão.

— Olhos Verdes, você quer casar comigo?

De novo senti vontade de chorar:

— Casar? Como? Se você me pedir a eles, talvez até mandem lhe matar. E a mim, a Firma me dá uma surra de relho e me põe de jejum, a farinha e água...

— Já pensei nisso tudo. E, porque pensei, não vou pedir sua mão em casamento a ninguém. Vou lhe roubar.

— Eu tenho medo, Valentim. Eu sou medrosa. Mas quem sabe? Junto com você eu sou capaz de ter coragem.

— Primeiro, tenho que arranjar um animal melhor do que esta burra. Conheci um homem que insistiu muito para eu dar um espetáculo no povoado dele, por nome Brejão. Parece que tem comércio, lá. Me viu com meu pai e o tio, numa feira, ano atrasado. E ele foi eleito para Imperador do Divino, nessa vila do Brejão. Quer dar uma festa que ninguém mais vá esquecer; queria até que eu fosse buscar os velhos. Mas o principal do convite é que ele me adianta o dinheiro — me adianta a metade do pagamento tratado.

Eu me lembrava do nome:

— Brejão. Já ouvi falar. O Irineu já andou por lá.

— A festa é falada mesmo, vem gente de longe. Sempre corre dinheiro, lá, e todos me dizem que o homem é de palavra.

— Você não vai cair outra vez, nesse seu espetáculo, se quebrar todo?

Ele de novo se riu dos meus medos:

— Não vai haver nem trapézio. Vou só dar uns saltos, fazer acrobacia no cavalete, dizer uns relaxos de palhaço. E usar de umas sortes de pelotiqueiro, que aprendi com meu pai.

Voltou a me encarar de frente, de novo me apertando a mão:

— Então, tem coragem? Quer fugir comigo? Só tenho a lhe oferecer o bem que fiquei lhe querendo e a vida arriscada nessas estradas.

— Com você, não vou ter medo das estradas.

— A gente vive da mão pra boca, nunca sabe como vai ser o dia de amanhã... Mas se habitua, e até gosta.

— Pra mim parece tão bom, tão diferente. Eu também sonho com o mundo lá fora, longe das Marias Pretas. Ah, eu não tenho mesmo nada a perder.

Duarte assobiou. Eu me levantei assustada, tinha-se ido a valentia. Corri para a porteira dos fundos. Valentim me acompanhou até lá e ainda conseguiu dizer:

— Eu lhe mando carta pelo Duarte. A gente combina tudo por escrito.

 

Era o Tonho, do alpendre, chamando Duarte. Passei por detrás da cerca, entrei em casa pela porta da cozinha. Valentim devia ter se escondido lá mesmo na estrebaria, no quartinho das selas.

Duarte remanchou um pouco e chegou no alpendre quando eu já tinha entrado na cozinha. Ouvi o Tonho reclamar:

— Onde diabo você se meteu, homem?

E Duarte:

— Estava na estrebaria, vendo uns arreios.

O Tonho queria dar uma chegada no açude. Andava desconfiado de alguma revência, a água vinha secando muito depressa.

Esperei que eles saíssem: o açude ficava para os fundos da casa. E de novo rumei para a estrebaria, dar escapula a Valentim. Ele já tinha arreado a burra; vi se não andava ninguém por perto, naquela hora de sol quente. Chamei Valentim que, puxando a burra pelo cabresto, ainda achou jeito de me abraçar forte e me dar um beijo; se escapou então, costeando a cerca, e sumiu pela estrada.

Fiquei ainda algum tempo ali, em pé, tentando segurar o choro, que afinal foi mais forte do que eu. Chorava já com saudade dele, de pena de mim, de raiva; de me sentir amarrada pela vontade dos outros como se fosse uma corda. Ah, nem conseguia acreditar ainda que um dia eu ia poder me libertar da Firma, do Tonho, da casa das Marias Pretas. Conhecer o mundo. Valentim podia fazer isso por mim. Só ele — quem mais? E ainda a promessa da sua companhia, e o amor e o casamento. Dava até medo.

Enxuguei os olhos na manga da blusa e, me virando para casa, avistei a Firma que parecia me esperar na beirada do alpendre:

— Que é isso? Passeando no sol quente? Fugindo pra onde?

Eu encarei a megera com tanta raiva que acho até que ela se assustou:

— Quem me dera mesmo fugir!

Passei por ela de sopetão, enxugando ostensivamente o resto das lágrimas no rosto. E a Firma:

— Chorando por quê?

Corri para o meu quarto e, antes de bater a porta, gritei para ela:

— Vivendo neste inferno, seria de admirar era que eu não chorasse!

 

Depois da visita de Valentim, voltar à vida do costume é que parecia fora do real.

Como é que eu ia poder acordar com o sol, lavar o rosto, arear os dentes, quebrar o jejum, ir ao quintal apanhar os ovos nos ninhos das galinhas, aguar meus canteiros, sentar junto da almofada para fazer renda?

Eu já não era mais daquela casa. A menina Marialva, tão boazinha, que a Firma trazia debaixo dos pés, tinha sumido. Eu agora como que tinha voado para fora das Marias Pretas, só pensava nas estradas, me vendo montada na garupa do cavalo de Valentim, um cavalo grande e fogoso; e pensava no amor, o amor!

O Tonho e a mulher continuavam imaginando que eu ainda era aquela inocente aparvalhada, mas eu sabia bem de todos esses assuntos de amor.

As cunhãs me contavam. Teve até uma, que o Tonho derrubou uma noite, quando a menina vinha do banho no quintal, e ela me contou tudo, tudo que ele tinha feito para forçar. Até mostrou o peito, mordido do dente dele.

É, eu sabia de tudo ou quase do que se passava entre mulher e homem. E lá comigo me dizia que ia achar bom com Valentim, porque entre nós não ia ser às brutas, entre nós dois havia amor.

Se a só presença de Valentim me botava tonta, se os braços dele, se o calor dele junto de mim me tiravam as forças; se os beijos, os poucos que me deu no esconderijo da estrebaria, me deixavam com o rosto em fogo e os lábios machucados — como é que eu ia ter medo do amor com ele?

 

Passei aqueles dias como se estivesse encantada. A Bela Adormecida, a Princesa Magalona, sei lá, uma coisa assim.

A Firma deu para me achar diferente, começou a dizer que eu devia estar com lombriga — assim amarela e desanimada! E eu, de repente, deu-me aquela raiva e gritei para ela, bem alto:

— Lombriga terá a senhora sua avó!

A Firma naturalmente ficou fula, saltou da banca onde fazia crochê e quis me agarrar pelos ombros:

— Não sei como não lhe meto o relho!

Mas fui eu que empurrei a bruxa e quase derrubei com ela:

— Não me venha com essa ameaça de relho, que apanha de volta! Se bater, leva.

Pra meu espanto, a Firma se assustou. Ficou longe de mim e começou a gritar:

— Olha a cascavel! Olha a cascavel que eu criei! Me ameaçando!

Eu deixei que ela esbravejasse sozinha e saí para o terreiro. Agora não me escondia mais no meu quarto. Quando me faziam raiva, saía direto para o campo livre. Ver o céu, cheirar o tempo. Curtia o meu ódio da Firma como se fosse um licor forte, que era bom de gosto na boca e toldava um pouco a cabeça.

De vez em quando montava a cavalo. Para evitar aborrecimento saía montada de lado, como a sinhazinha que eles queriam que eu fosse. Mas nem usava sela de andilha, passava a perna e seguia à moda de homem, assim que saía das vistas da fazenda.

Duarte, sempre que podia, me acompanhava. E como um dia a Firma reclamasse, me vendo sair sozinha com ele, eu parei o cavalo que já ia tomando caminho e arrebitei o nariz para ela:

— Firma, não está lembrada de que o Duarte também é meu irmão?

Com essa, cheguei a chibata na montaria e saí a galope.

Duarte ria:

— Ela não gosta que ninguém fale nisso. Uma vez tive vontade de tratar ela por cunhada, mas Mãe não deixou.

— Pois eu tenho muito gosto em ser tua irmã. Quero muito mais bem a você do que àqueles dois.

E fiquei olhando para o meu irmão. Era o mais bonito dos três — moreno fechado, cabelo crespo, puxou o corpo comprido de Rubina; não era atarracado como o Tonho e o Irineu, que puxaram o corpo de Pai. Ele sorriu de novo para mim, me tocou de leve no braço:

— Eu nunca vou deixar que esses três lhe maltratem.

— E por que é que você me chama de Sinhazinha, como os escravos?

— Costume. E é bom que seja assim. Sinhô Velho me fez nascer forro, é verdade, mas nunca me reconheceu como filho. Teve medo de Sinhá, sua mãe.

— É. A Firma me contou um dia que Mãe morria de ciúmes da Rubina. Nunca fez nada contra ela, com receio de Pai...

Dei um suspiro:

— Mas nada disso empata que você seja meu irmão!

E Duarte:

— Bastardo. Irmão bastardo.

— Mas pelo menos você estudou, junto com os meninos.

Duarte deu outra vez a sua risada:

— E aprendi muito mais do que eles. O Tonho nunca conseguiu chegar à conta de dividir...

— Você é que faz a escrita das Marias Pretas.

— É. Mas também que é que tem para eu escrever? Só a nota do gadinho, a escrita dos poucos escravos... Até a Dona Firma dava conta, se se botasse a isso...

— Duarte, você tem parte na herança de Pai?

— Não. Bastardo só herda quando é reconhecido.

— Mas você nasceu forro!

— Nasci forro, mas no meu batistério não tem nome de pai.

E sacudiu os ombros:

— Também, nem penso nisso. Vou ficando por aqui mais algum tempo, só por causa de Mãe. Mas algum dia eu ganho o mundo. Deixa sinhazinha se casar com esse moço Valentim, e eu estou forro de vez!

Tornei a suspirar:

— Quem sabe vocês dois podem até trabalhar juntos!

— E eu sei arte de pelotiqueiro, Sinhazinha? Saberei dar salto mortal?

Toquei o cavalo, feliz. Saímos galopando.

 

Passou-se muito tempo, mais de cinco meses, não chegava notícia nenhuma de Valentim.

Eu, de novo, já ia caindo no desânimo e a Firma farejava a minha tristeza; até o Irineu perguntava o que eu tinha.

Rubina me consolava, dizia que Duarte continuava confiando nas boas intenções do moço. Mas eu não queria boas intenções, queria era que ele voltasse!

Afinal, (Rubina dizendo que eu já parecia um fole de ferreiro, de tanto suspirar) Duarte, uma tarde, chegou perto de mim na hora da janta e disse no meu ouvido:

— Quando acabar, saia lá fora. Nós temos que conversar.

Mal engoli a canja, corri para o terreiro da cozinha. Duarte já me esperava:

— Valentim está na vila, Sinhazinha. Fui lá hoje, achei ele me esperando. Fez uns dinheiros dando uma função lá mesmo, na Vargem da Cruz. O povo está alvoroçado; ele engoliu fogo, andou na corda bamba, fez sortes de mágico... O pessoal ficou maluco. Chamam ele de bailarim.

— E que é que eu faço agora?

— Prepare a sua trouxa — pouca coisa, que ele só tem um cavalo para os dois. Não leve dinheiro nem jóia, que ele não quer ser perseguido como ladrão...

Eu ria, de tanta felicidade:

— Mas vai me roubar a mim!

Duarte me fez um afago no cabelo:

— Roubar moça bonita não é desonra — é glória! Olhe, esteja pronta assim que a noite fechar.

Fui direto para o quarto, me tranquei. Tirei do baú a roupa melhor que tinha — e não era muita coisa. Me lembrei de uma história que Rubina contava — da moça que ia fugir e, pra não chamar atenção levando uma trouxa, vestiu duas camisas, três saias brancas, dois corpetes, duas blusas, duas saias. Foi quase assim que eu fiz. Parecia um balão. O resto da roupa e um calçado (eu não podia calçar mais de um par!) arrumei tudo numa trouxa, onde meti também uma bolsinha com todo o meu dinheiro (também pouco). Um par de brincos levei nas orelhas, outro escondi no corpete.

Camarinha de moça não tem janela; a minha, já se vê, não tinha mesmo. Escondi a trouxa num canto escuro e, assim que pude, fiz que ela caísse da janela da sala; ficou do lado de fora, encostada na parede.

Esperei no quarto, no escuro. Disse antes, na mesa da ceia, que ia me deitar cedo, estava com dor de cabeça. A Firma e o Tonho cearam e também foram dormir.

Deixei passar algum tempo, aí me esgueirei para a sala, conforme o combinado com Duarte. Abri devagarinho o ferrolho da janela. Não demorou, escutei alguém arranhando a dita janela; puxei a folha, me sentei ligeira no peitoril, caí nos braços de Duarte que me esperava. Perguntei onde é que estava o Valentim, Duarte sussurrou:

— Achei melhor que ele ficasse do lado de fora da cerca do terreiro por causa dos cachorros. Já apanhei a trouxa ao pé da parede.

A noite era escura, o meu vestido também. Um cachorro passou perto de mim, me lambeu a mão. Duarte foi me guiando até a porteira. Lá estava Valentim, segurando pela rédea um cavalo claro, me pareceu ruço. Eu corri para ele e nem nos abraçamos, porque Duarte disse, com urgência:

— Monte depressa, que eu ajudo ela a subir na garupa.

Valentim saltou na sela. Meu irmão me pegou no colo, me deu um beijo leve no cabelo, me sentou na garupa do cavalo.

Passei os braços em redor de Valentim, minhas mãos estavam geladas. Ele enfiou uma e outra pra dentro do casaco.

Tocou no cavalo com a espora e partimos a galope. No escuro, eu não via mais o Duarte. Encostei o rosto nas costas de Valentim. Por baixo do casaco, eu sentia nas mãos o calor do peito dele, até o pulsar do coração.

Valentim virou o rosto para mim:

— Agora se segure bem. Nós vamos correr.

 

Duarte tinha feito uma exigência: Valentim devia ir direto me depositar na casa de um amigo dele, mulato forro também, que negociava e morava perto do mercado. Não queria que eu ficasse na boca do povo, tinha que se fazer tudo pelas regras. Eu ia dormir na casa desse amigo, Seu Jordão. O vigário novo da igreja (não era mais o Padre José Maria, que saiu do lugar depois daquele sucesso infeliz na Fazenda Atalaia) já estava tratado para fazer o casamento, de manhã cedo. Tanto o noivo quanto eu éramos de maior e solteiros. A gente se casava e só então ganhava o mundo, já marido e mulher.

Maninha, a mulher do Seu Jordão, me recebeu muito bem; parece que todo mundo tem simpatia por namorado perseguido! E quase morreu de rir quando pedi que ela me levasse para um canto, onde eu pudesse me livrar do meu sortimento de roupa.

— Quando vi o seu vulto, fui pensando: “Meu Deus, que moça tão gorda!”

Tirei as duplicatas das saias, blusas, camisas, fiquei só com o necessário. Maninha me arranjou uma canastrinha de esteira para guardar o meu ‘enxoval’. Fiquei dormindo no quarto com os filhos dela, Valentim foi dormir na pensão onde já estava.

Manhãzinha cedo ele chegou com Duarte, que vinha contando o alvoroço que se armou nas Marias Pretas. Ninguém tinha escutado nada na hora em que eu fugi. Só ao romper do dia, quando a menina veio trazer o copo de leite mugido para mim, na cama, é que deram pela minha falta.

Bateram repique na sineta de chamar os escravos pro trabalho (não sei pra quê, se lá só se tinha os dois negros do eito).

Tonho, aos gritos, mandou Duarte pegar um cavalo para ele sair em procura ‘da desgraçada’ da irmã, mas Duarte atalhou:

— Deixe isso comigo, que eu estou mais calmo.

E o Tonho:

— Mas eu é que sou o irmão!

Duarte foi firme:

— Se lembre que eu também tenho a minha parte nela, Seu Tonho.

Pegou o cavalo e veio nos encontrar na vila.

Fui me casar com o vestido cor-de-rosa, o melhor que eu tinha. Duarte me serviu de padrinho, a dona da casa de madrinha.

Acho que eu estava meio tonta, durante todo o casamento. Não me lembro de nada do que o padre disse no sermão; teve um momento em que eu chorei. Valentim, muito sério, apertava tanto a minha mão que até doía; e trazia uma aliança para me botar no dedo, se lembrou de tudo.

Beijei a mão do padre, abracei a madrinha; quando nos abraçou Duarte disse baixinho a Valentim:

— E agora tratem de ganhar a estrada, que não tarda aí o Tonho mais o Irineu e a cabroeira, atrás de vocês... Eu vou fazer o possível para segurar os dois. E em último caso, mostro a certidão do casamento, que já pedi ao padre para aprontar.

 

Naquele primeiro dia andamos umas seis léguas, mal parando para dar de beber ao cavalo. E para comer, um pedaço de queijo, ovo duro e um pedaço de carne assada que a nossa madrinha de casamento nos ofereceu de matalotagem. Afinal, demos com um povoado.

Logo nas primeiras casas Valentim indagou se não havia por ali quem desse pensão a viajante; nos indicaram a casa de uma viúva que alugava quarto por noite.

Eu caí na cama meio morta, sem nem ao menos tirar a roupa. Valentim foi primeiro cuidar do cavalo, dar-lhe banho e comida. Caiu na cama ao meu lado, tombando de fadiga também.

Mas, pela madrugada, me acordou.

 

Eu pensava que já sabia tudo do que se passa entre homem e mulher. Mas não sabia era de nada. Meu Deus!