Memorial de Maria Moura
Cap. 20 — Maria Moura
Maria Moura
ENTÃO CHEGOU a vez de sair a parelha de Zé Soldado e Alípio e eles também voltaram com a sua novidade.
Andavam espiando as coisas para os lados da Camiranga, quando encontraram na estrada um sujeito que podiam chamar de conhecido. Era o dono da vendinha onde tinham feito as compras no mês atrás.
E foi o homem logo perguntando aos fregueses que é que eles faziam por ali. Contou o Zé que ele parou o animal, se descaiu na sela, afrouxou o corpo: estava querendo conversa.
Diz o Alípio que cochichou com Zé e o Zé cochichou com ele: “Esta alma quer reza”.
E Alípio se entusiasmou:
“A gente podia era pegar ele...”
Mas o Zé se lembrou das recomendações que eu tinha feito; uma delas era: “Conhecido se respeita”, e segurou o companheiro. Pegaram de prosa, explicaram a presença ali, contando que tinham notícia de um gato do mato por aquelas bandas e vinham atrás dele. Era um bicho importante, quem viu disse que era lindo, o couro devia dar uns bons cobres.
O sujeito — por nome Manel Dias — falou no legume perdido daquele ano, no pasto fraco, no algodão que não ia dar nem para encher os fusos das fiandeiras. E como Zé insistisse por novidades (quem sabe o homem tinha notícias de algum comboio ou daquele doutor dentista das canastras carregadas) o Manel contou:
— Andou lá na Camiranga um moço de fora, disse que tinha fazenda perto de um lugar chamado Vargem da Cruz.
Quase que o Zé dizia que a Vargem da Cruz era a terra deles, mas ficou quieto. O Manel continuou:
— Ele andava querendo informação a respeito de uma moça parenta dele, que foi roubada por uns bandidos. Os cabras incendiaram a casa dela e sumiram com a moça... — Vocês tiveram alguma notícia de moça fugida, por aí onde andam? Lá na Camiranga não apareceu nenhuma.
Zé Soldado diz que riu-se e suspirou:
— Moça? Quem dera! Moça, nestas catingas, é mais raro que moeda de pataca... Mas, se a gente souber, avisa o senhor.
Manel Dias se endireitou na sela, bateu a rédea do animal:
— A mim, não. Avisem ao homem da Vargem da Cruz; ele se chama Irineu e estava muito interessado. Até falou em dar um agrado bom. Adeus.
O bodegueiro seguiu viagem, Zé Soldado esperou que ele saísse das vistas; deu meia volta e tratou de vir correndo, marche-marche, me contar a notícia no Socorro.
Mandei que eles bebessem água, contassem a história direito, o Irineu não era nenhum lobisomem, ninguém tinha medo dele.
Perguntei com quantos homens Irineu andava. Manel Dias não tinha dito, ninguém se lembrou de indagar.
Com certeza andava só com o moleque, pajem dele. O tal Manel teria falado em bando de homens, se os houvesse. Irineu andava correndo era mesmo atrás de informação.
É, mas assim que descobrisse uma luz, qualquer pista, vinha atrás da gente, quem sabe até com os soldados.
Eu não fiquei assustada. Fiquei fula de raiva. Que atrevimento daquele bestalhão do Irineu, sair atrás de mim! Logo ele! Fosse o Tonho, eu ainda entendia — sempre foi mais homem. Mas aquilo!
Afinal, entre eles e eu, a última palavra tinha sido a minha, com o incêndio do Limoeiro. Queimei tudo que era meu, só pra não cair nada nas unhas deles. E ainda estavam querendo troco? Ah, eu tinha que dar um ensino neles, em vez de correr me escondendo da perseguição, como queriam os meus cabras.
Passei a noite acordada, pensando; acabei resolvida a descobrir um jeito de trazer o Irineu até as minhas mãos e então dar-lhe o tal ensino. Conforme fosse, até acabar-lhe com a raça. Ou capar, como dizia Pai, falando de inimigos: “Aquele só capando!”
Eu tinha que atirar uma isca pra ele. Mas não podia falsear o lance, que eles tanto tinham de ruins como ele espertos. Precisava ser uma isca muito boa, que eles engolissem bem.
A primeira dificuldade já estava na escolha do portador do recado que eu ia mandar pro Irineu. Quebrei a cabeça até descobrir a pessoa certa para apresentar a eles, sem me trair. Como João Rufo ou qualquer dos meninos não podiam dar as caras na Vargem da Cruz, só restava então o Roque, que talvez salvasse a situação: ele um dia nos contou que tinha passado na Vargem da Cruz e até parado numa bodega. Lembrei-lhe isso, Roque se recordava mesmo do lugar.
— Seria a bodega do Corujo? — indagou o Zé.
— Podia ser. Era uma bodeguinha à-toa, meio retirada da rua...
— Então não era. Bom seria...
Mas eu cortei as conversas.
— Lá na vila todo mundo se conhece. Você vai, Roque. Vai levar um bilhete dizendo que uma pessoa pode ensinar onde está escondida a moça. Mas que só mostra o lugar depois de receber a gratificação prometida.
João Rufo perguntou quem ia escrever o bilhete. E eu disse que era eu, claro. Quem mais? E o João, sempre cuidadoso:
— Mas eles devem conhecer a letra da Sinhazinha.
— Talvez. Embora eu não me lembre de algum dia ter escrito carta para aquela gente.
Aí recordei uma invenção de nós meninas, na escola: quando a gente queria fazer bilhete para rapaz, dizendo que estava apaixonada e outras bobagens, se escrevia pondo o papel de cabeça para baixo e se riscava as letras de trás para diante. No começo parecia difícil, mas a gente praticando, era uma beleza. Eu cheguei a mandar um bilhete malcriado para a Mestra Inhola e ela nunca descobriu de quem foi. Dizendo que ela botava uns olhos compridos no Padre, cuidado, não fosse virar mula-sem-cabeça...
No dia seguinte escrevi o bilhete, ou por outra, a carta. Grande dificuldade foi o papel. Acabei arrancando uma folha de uma caderneta velhinha onde Mãe tinha assentado o nome dela e o de Pai, o nome dos pais deles, o dia em que casaram. E o dia em que eu nasci, o meu nome e sobrenome. Eu nunca me separava daquele caderninho. Era o único documento que eu tinha. As escrituras do sítio e o meu batistério tinham ficado com o escrivão que tratava do inventário de Pai e Mãe. E o caderno tinha vindo dentro da trouxa em que botei os poucos salvados do incêndio.
Por sorte a caderneta de Mãe tinha muitas folhas em branco; as que tirei não iam fazer falta. Pratiquei um pouco a escrita de cabeça para baixo — é engraçado como a gente não esquece essas coisas de meninice. E com pouco tempo eu já estava em condições de escrever a tal de carta, dando uns erros, pra disfarçar.
Foi assim:
“Seu Irineu soube que Vossa Senhoria quer saber notícias da sua parenta que fugiu se é que se trata daquela dona do Limoeiro posso dar o paradeiro dela mas só se o senhor me dá primeiro o agrado. Pode vim me encontrar mas só sem ninguém que eu posso lhe mostrar onde ela está. Só mostro se o senhor vier mesmo sozinho se for com gente não me verá. O senhor pode vir no sábado ao meio-dia eu estarei lhe esperando na ponta da rua na saída que vai para o sertão.
“P.S. Cuidado eu tenho medo da vingança dela. Seu criado Amaro da Conceição.”
Botei o nome do Amaro para dar sorte, enrolei a carta num lenço, entreguei ao Roque, recomendando o maior cuidado, depois de explicar tudo direitinho. Recomendei tanto, mesmo, que ele até ficou nervoso:
— Deixe estar, Sinhá Dona, que eu sei bem o que fazer. Sei onde é a saída da rua; vou esperar escondido atrás da última casa. E só mostro a cara se vejo que ele vem só.
— Isso mesmo. Pode montar. Traga o homem direitinho, até o nosso ponto de encontro, na estrada: aquela tapera velha. Não tenha medo que nós vamos estar esperando. No domingo.
O sábado era dali a quatro dias. Nós tínhamos que andar um bom pedaço de caminho; mas com uns três dias corridos a gente podia muito bem chegar ao lugar onde eu queria emboscar o Irineu.
O Roque levava mais outro dia para chegar na vila e entregar a carta. Dava tempo para o Irineu receber o recado no sábado e ir se encontrar com o meu cabra na saída da vila.
Meu Deus, como custou a chegar aquela tarde de domingo. A tapera velha não dava abrigo, mas isso era o de menos. Eu já estava acostumada a acampar em qualquer lugar, em casa ou a céu aberto. Eu rezava era pra eles chegarem ainda com dia; na escuridão tudo ia ser mais difícil.
Afinal, quando já estava soprando a viração da tarde, se ouviu o tropel das duas montarias. Eu me escondi com os rapazes atrás do oitão da tapera. Os nossos cavalos estavam amarrados mais longe. De fora só ficou João Rufo, que recebeu os cavaleiros; pois era mesmo o Roque que chegava, acompanhando o Irineu, montado num cavalo menos feio do que aquele que ia ao Limoeiro.
De onde eu estava escondida, vi que o Irineu parou, desconfiado; mas vendo que só havia uma pessoa à sua espera, tocou em frente. Ao reconhecer João Rufo, quando já ia se apeando, espantou-se:
— João Rufo? Era a última pessoa que eu esperava...
O João se adiantou, estendeu a mão para as rédeas do cavalo e deixou Irineu desmontar.
— Eu mesmo, Seu Irineu. Cansei de andar corrido. Quero voltar pro meu lugar.
Irineu sorriu-se todo. De traição, aquilo gostava! E, botando a mão no ombro do cabra, pôs os dois pés no chão.
— Faz bem, João Rufo, faz bem. Essa loucura da prima tinha que se acabar. Onde é que ela está mesmo?
Eu saí de trás da parede e me apresentei:
— Aqui. Estou aqui, primo.
O susto foi grande. Ele deu um passo atrás, quase se encostou no cavalo. João Rufo tinha deixado o animal perto, com as rédeas enfiadas no gancho de uma forquilha.
A luz dava ainda para ver que o Irineu estava de beiço branco. Os cabras saíram também do esconderijo, se agruparam ao meu redor. Até o Roque, que tinha desmontado ao mesmo tempo que o companheiro de viagem, veio para perto de nós.
Mas o Irineu ainda tentou ser insolente:
— E sempre com a sua cabroeira armada, hein, prima?
Eu encarei o sujeito, cruzei os braços, enfrentei:
— Sempre com a minha cabroeira armada.
Num relance notei que ele levava a mão esquerda até a bota, puxava uma coisa de lá. Roque gritou, avançando:
— Solte isso, moço!
Eu, sem querer estendi a mão, como se procurasse impedir o movimento do Irineu. E ele deu um bote com a mão direita, me segurou o pulso, me puxou para ele com a mão esquerda (eu tinha me esquecido de que aquele diabo era canhoto!), me picou debaixo do queixo com a ponta do punhal que tinha tirado do cano da bota. Eu senti que o ferro me entrava pela carne, doendo muito. O desgraçado gritou para os homens:
— Desafasta, senão ela morre!
Os homens se assustaram. João Rufo ainda gritou:
— Seu Irineu não seja louco! Olhe que a gente lhe mata!
A mão dele, segurando a arma, tremia. A ponta do punhal tremia também, piorando a dor. E eu, então, desesperada, dei-lhe um pontapé na canela, batendo com o salto da minha bota, com toda a força. Ele se encolheu, o aço se afastou um pouco da minha carne, deu para eu me virar. Meti as unhas na cara dele, pegou no canto do olho, quase rasgou. Irineu, com um berro, largou o punhal, me soltou e, de um pulo, saltou em cima do cavalo, arrancando ao mesmo tempo as rédeas da forquilha. Eu tinha caído ajoelhada, o pescoço sangrando. Foi tudo tão depressa que, no momento em que João Rufo e os outros se curvaram sobre mim, enquanto eu caía, Irineu dava partida no cavalo e já tomava o galope.
Eu, do chão, gritei:
— Fogo nele!
Zé Soldado já estava com o bacamarte aperrado e atirou. Mas o tiro passou longe do cavaleiro, que fugia desesperado no meio escuro do princípio da noite.
Eu me sentei no chão, levei ao queixo a mão, que voltou com os dedos cheios de sangue. Ninguém tinha lenço limpo, puxei a fralda da camisa, rasguei um pedaço e fiquei procurando estancar o sangue com o trapo.
Foi bom que eu tivesse sofrido aquela sangria. Na raiva em que estava, era capaz de estourar uma veia. Nunca na minha vida tinha sentido tanta fúria.
Ninguém tentou sair em perseguição. Os cavalos estavam com as cilhas frouxas, presos lá atrás da casa velha. Daqui que os homens pudessem montar, sair atrás dele, Irineu tinha tomado distância. Na verdade, ficou todo mundo atado, me vendo ferida, caída no chão. E também, com a noite já chegada, no escuro, ele podia se esconder em qualquer canto.
Mas isso só se pensou depois, quando já era tarde. Tudo se passou tão rápido, o ataque à minha pessoa foi tão inesperado, que os meus cabras perderam toda a ação.
João Rufo trouxe a nossa borracha d’água para me lavar o pescoço. Com o meu trapo de camisa fez uma atadura. Mas não adiantava nada, ficava era me sufocando. Arranquei o trapo, deixei o sangue correr. Roque se embrenhou no quintalejo por trás da tapera, voltou com umas folhas de mamona para me cobrir o ferimento. O sangue já estava coalhando, a ferida era pequena; mas o corte não era raso; entrou fundo por baixo da pele.
E João, depois do exame que fez, pôs o meu dedo segurando a folha:
— Segure aí esta folha até que ela grude com o sangue, Sinhá.
Eu não melhorava da raiva. Nem pensava na ferida; ou pensava, como mais uma afronta daquela corja. Botar a faca em mim!
Mas fiquei com a mão no pescoço, até que a folha colou. Estava doendo, mesmo. Me virei para o João, pedi os cavalos:
— Vamos embora daqui.
O João ainda disse:
— Não é melhor a Sinhazinha descansar um pouco? O susto foi grande!
E eu fuzilei, botando o pé no estribo e saltando na sela:
— Susto? Que susto? Tudo que eu sinto é só raiva. Fúria!
Foi muito ruim pra mim, naqueles primeiros dias depois do entrevero com o Irineu. Eu pensava que sabia armar as jogadas tão bem. E o que eu armei foi coisa de criança, tão idiota, mas tão idiota, que até o Irineu me passou a perna.
E ainda estava com o pescoço doente, inflamado. Quem sabe aquele punhal era ervado, me empeçonhou o ferimento. Toda a parte de baixo do queixo, aquela pele fina, veia, tendão que passa por ali, ficou tudo inchado, eu parecia até que estava com papeira. Libânia me tratava com amor de mãe — ou de avó. Fazia angu de mastruço, me atava no queixo os emplastros quentes, veio dormir comigo, debaixo da minha rede, deitada numa esteira, no chão. Só com o passar dos dias me foi desinchando o pescoço, e foram sarando os cortes na pele. Ah, deixa eu pegar o Irineu, um dia. Ele merece tudo que se faça, não vou dar barato não. Ele que espere.
Outra coisa que descobri nesses dias de doença: acho que não nasci para essa vida que arrumei pra mim. Sozinha, sem um homem, sim, falando franco, sem um homem. Toda mulher quer ter um homem seu — pelo menos foi isso que Mãe me disse, quando fui reclamar dela a amizade com o Liberato. “Eu não tenho mais costume de viver sozinha. Tenho horror de ficar só. Depois que seu pai se foi, eu tinha que procurar companhia.”
Ela falava em companhia mas agora eu entendo, era pra não me escandalizar. O que ela sentia e agora eu compreendo, era a falta mesmo, não de companhia — mas de um homem. Mão de homem, braço de homem, boca de homem, corpo de homem. É isso. Mas quem — quem? eu vou querer, chamar para ficar comigo? Esses meninos? Não me criei considerando caboclo como homem; sim, é uma questão de criação.
E o pior é que eu tenho que confessar — só pra mim, nem que eu morra de vergonha: naquele momento, quando o Irineu me apertou contra o corpo dele, eu, no primeiro instante, deixei. Num segundo, num relâmpago de tempo, mas deixei. Ele era lavado, cheirava bom. Encostou a cara na minha, ao mesmo tempo em que me feria o queixo com o punhal; e eu senti as pontas da barba dele me rasparem o rosto. Que ódio! Mas é verdade.
Então, venho pensando muito nesta vida que escolhi — não pode ser como eu queria antes. Não sou cabra macho pra viver no meio dos homens e não sentir nada. Talvez se eu não conhecesse a vida, não conhecesse homem, se o Liberato não tivesse me ensinado o que é o prazer do corpo.
Assim mesmo, hoje pela madrugada, quando acordei, me vi descobrindo o lado do avesso dos pensamentos da insônia. Não é tão simples, afinal, mudar as coisas. Debaixo da minha rede, a Libânia roncava na sua esteira, como um cachorro fiel. E teve depois um instante — o dia já estava claro — em que enxerguei o bigode de João Rufo atravessando a portinha de vara, o olho espiando, para ver se eu estava bem.
E eu gosto de ser a senhora deles. Eu gosto de comandar: onde eu estou, quero o primeiro lugar. Me sinto bem, montada na minha sela, do alto do meu cavalo, rodeada dos meus cabras; meu coração parece que cresce, dentro do meu peito. Mas, por outro lado, também queria ter um homem me exigindo, me seguindo com um olho cobiçoso, com ciúme de mim, como se eu fosse coisa dele.