Memorial de Maria Moura
Cap. 4 — Maria Moura
Maria Moura
AH, DAQUELE tempo para cá, eu mudei muito. Imagine se agora eu ia me ajoelhar aos pé daquele padre!
Me confiei no tal segredo de confissão, de que Mãe falava com tanta fé.
É verdade, pelo que me disse, que ele guardou o segredo. Guardou o segredo da minha confissão, realmente. Mas como eu já falei, a gente muda. Naquele tempo eu pensava que o padre ia achar o pior de tudo o pecado da carne. O pecado da carne com o meu próprio padrasto! — que aliás nem padrasto era, já que nunca se casou com Mãe. Só era mesmo amigado com ela, como o povo dizia.
Hoje, o que eu mais quero, é deixar o passado pra lá. Afinal, só na hora da morte é que é preciso a gente pensar nos pecados.
Já o que me interessa mais, hoje em dia, é a segurança. Meus ouros, meu dinheiro escondido. Estes anos todos de luta, muita luta. E este retiro que eu posso garantir a quem precisa. Como estou garantindo a esse padre... Padre, não, tenho que me acostumar... Beato Romano. Preciso arranjar uma batina pra ele: aquele camisolão azul dos beatos, um cordão de São Francisco na cintura. Bigode, barba, cabelo comprido ele já tem.
Quantos anos eu tinha, naquele tempo? Dezessete? Era. Minha mãe amanheceu morta, enforcada, perto da cama que ela repartia com ele, o Liberato.
Eu que descobri. Minha mãe morta, enforcada no armador da parede. Em redor do pescoço, um cordão de punho de rede, os pés a um palmo do chão, o rosto contra a parede. Tombado no tijolo, o tamborete em que ela subiu para acabar com a vida.
Vendo aquilo, eu soltei um grito que me rasgou a garganta e o peito. E me agarrei com Mãe; ela já estava fria, o corpo duro. Gritando sempre, abraçada com ela, me parecia que eu estava afundando num poço sem fim, na escuridão, apavorada.
Hoje, dessas horas, eu me lembro mais do medo do que da dor. Medo, sim, maior que a dor. Mãe se matar por ela mesma e escolher aquela morte horrível. E por que, minha Nossa Senhora, meus santos do céu, por quê?
Ouvindo os meus gritos, o pessoal da casa correu. Chiquinha e Zita, as meninas da cozinha, se puseram a gritar também, até que João Rufo chegou e amainou a gritaria e a prantina.
Ele puxou a faca e cortou o cordão do enforcamento. Eu já estava caída no chão, de joelhos, gritando sempre, batendo com a cabeça nos ladrilhos. Vi quando João levantou Mãe e carregou com ela para a cama, deitou Mãe no colchão, com todo cuidado, como se fosse uma criança.
Eu me arrastei nos joelhos até aos pés da cama, João Rufo ia cobrindo o rosto de Mãe com a ponta do lençol, mas eu puxei a mão dele e gemi:
— Deixa eu ver. Eu quero ver o rosto dela!
João Rufo ainda tentou me impedir:
— Não olhe que não está bonito, Sinhazinha. Vai ficar impressionada...
Olhei e fiquei, não só impressionada, mas apavorada. Apavorada pelo resto da minha vida. Nas noites de pesadelo, que eu hoje ainda tenho, só que mais espaçadas — sonho com aquela cara de enforcada, a face roxa, os olhos estatelados, a ponta da língua saindo da boca. Ai meu Deus, valei-me! Todos os santos, valei-me! Era só o que eu gemia, sempre ajoelhada, sem poder me despregar da borda do colchão, o rosto enterrado nos panos da cama.
Me trouxeram um chá, me arrastaram à força para fora do quarto, me deitaram no bangüê de couro da sala.
João Rufo e as meninas ajeitaram a roupa de Mãe, cobriram o corpo e o rosto com uma colcha, acenderam duas velas.
Mandaram chamar o padre. João Rufo disse ao velho Eliseu que também era bom ir avisar o delegado, na vila.
Nessa voz de delegado, eu levantei a cabeça e quis saber — por quê?
— Bem, Sinhazinha, pelo que parece, a Dona se acabou com as próprias mãos dela. Mas, e se não foi? Ela não deixou bilhete, nem falou com ninguém. Ninguém viu a Dona chorando, nem questionando com pessoa nenhuma.
Eu perguntei:
— E o Liberato?
— Também não se pode acusar o seu Liberato. Ele está viajando faz três dias. Foi a negócio, se lembra?
É. Eu não podia culpar o Liberato. E ele só chegou passados mais dois dias, depois que o padre veio dar um perdão e se fez o enterro no cemitério da Vargem da Cruz. Enterro que nem pôde ser no sagrado, na cova de Pai. Mãe se enterrou em cova separada (o padre explicou), suicida morre em pecado mortal. Não se pode nem dizer missa por eles; só pedir que sejam perdoados pela Divina Misericórdia.
Foi a primeira vez que eu vi aquele padre. Padre José Maria. Moço, tristonho, de pouca fala, ninguém ia dizer que estava ali um padre.
Fiquei trancada no quarto chorando, no escuro, me sustentando com chá e caldo, até que o Liberato apareceu.
Já ele tinha sabido de tudo, ao passar pela vila. Chegando no Limoeiro, mal saltou do cavalo, subiu o alpendre correndo, entrou pela casa perguntando por mim.
Eu continuava deitada no meu quarto, no escuro, o rosto coberto pela varanda da rede.
Ele empurrou a porta de arranco, veio direto a mim, se curvou, me pegou as duas mãos e disse que tinham contado a ele, logo na entrada da vila. A mulher do bodegueiro fez sinal para ele parar e avisou de tudo.
— Eu não sei como também não morri do susto. Quem diria, um horror assim. Se ela ao menos bebesse, podia ser coisa de bebida; mas nunca vi aquela criatura botar uma gota na boca! Que é que você acha, minha filha?
Eu só podia gemer, cobrindo com as mãos os olhos:
— Não sei, não sei!
Ele então se ajoelhou ao pé da rede, tirou o lenço do bolso, enxugou meu rosto, me deu um beijo na testa:
— Coitadinha, coitadinha.
Não parou mais o carinho comigo. Nem Pai faria tanto. Mandava preparar um caldo de sustância, para me levantar as forças. Caldo que ele mesmo vinha me dar na boca, às colheradas. “Coitadinha da bichinha...” e até me embalava na rede, ao entrar no quarto e me ver sempre imóvel, tão desolada.
Assim, com a falta de Mãe, fui-me acostumando à presença dele.
O povo de fora não estranhava que ele continuasse no Limoeiro. Desde tanto tempo a gente morava junto, e ele explicava para as pessoas:
— Coitadinha, pode-se dizer que fui eu o pai que ela conheceu.
Eu nem tinha coragem de contrariar quando ouvia o Liberato dizer isso, mas não era bem a verdade. Quando Pai morreu, eu não era tão pequena assim. Nunca me esqueci de Pai; imagina, eu considerar Liberato meu pai! Meu pai, esse vivia fechado no meu coração, sozinho.
Uns dias passados, comecei a dormir no quarto de Mãe, me deitando na cama que foi dela. E como Zita e Chiquinha dessem de se admirar por eu não ter medo, eu me aborrecia:
— Como é que vou ter medo de minha mãe? Só porque está morta ela vai me querer mal? Onde quer que ela esteja, eu sei que só procura o meu bem.
Aquele quarto, aquela cama, o baú, a santa na parede, era só o que me restava dela. Da pessoa dela.
No meio da noite eu escutava o Liberato chegando da vila, as esporas tinindo no ladrilho. Ele via a réstea de luz da candeia, acesa no meu quarto, às vezes com o pavio quase apagando. Batia de leve na porta, com os nós dos dedos, entrava sem me dar tempo de responder. Se chegava de manso, indagando se eu estava bem, se não morria de calor, assim toda embiocada na coberta. Puxava o pano do meu rosto, ria quando eu resmungava.
— Parece criança pequena!
Bem, a noite escura é traidora. Como é que Mãe dizia para afastar a tentação? “Valha-me a Virgem Puríssima!” Mas a Virgem Puríssima não me valeu.
Afinal, ele era um homem bonito; devia ser mais novo do que Mãe. Pelo menos parecia, e era o que dizia todo mundo.
Sempre no escuro, nunca de dia — isso era ele. Ah, bem se diz, carinho não dói. E talvez, desde menina, no fundo do coração, eu tivesse inveja de Mãe: aquele homem enxuto de corpo, branco de cara, cabelo crespo, mostrando os dentes sem falha quando se ria.
Começou mais como uma brincadeira. E aos poucos, bem aos poucos, é que foi ficando uma brincadeira perigosa.
Devagar, devagar. Os carinhos se tornando cada noite mais atrevidos, se adiantando, indo longe demais.
E eu só sei que nem cheguei bem a ter remorso, parecia tudo até natural. Durante o dia não transparecia nada, pelo menos era o que eu supunha. O que se passava durante a noite era uma espécie de mistério; como as coisas que a gente faz sonhando e não tem culpa.
Já tinha se passado bem uns seis meses da morte de Mãe, já tinha se desvanecido dos meus olhos o vulto do corpo pendurado, a visão daquele rosto horrível que não era o dela, quando, certa noite, ele chegou trazendo um papel enrolado, que era para eu assinar. Explicou com poucas palavras que, sendo eu de menor idade, não ia ser capaz de tomar conta da herança de Mãe. Daí, Mãe também não entendia de negócios; e só de teimosia, não concordou em casar com ele e lhe passar a propriedade.
— Mas eu não me importei com essa ingratidão, continuei a fazer tudo pela sua mãe, pensando no bem da filha...
Passou a mão no meu cabelo, me deu um beijo na testa:
— Já nesse tempo o meu bem-querer todo era pra você. Eu de boa vontade servia de feitor no sítio, brigava com os vizinhos por causa das extremas; aturava as impertinências de João Rufo, que se arrogava de fiscal do finado...
E continuava:
— Ah, foi um acaso muito infeliz eu ter passado aqueles dias longe de casa. E, na volta, já encontrar sua mãe morta e enterrada; e eu tinha viajado justamente para procurar uns documentos, as escrituras velhas do tempo do seu avô... É que eu tinha prometido a ela que ia enxotar aqueles seus primos das Marias Pretas, sempre inventando desavença, encrenca... E agora, ela morta, e eu sem uma procuração completa — o escrivão disse “uma procuração bastante” —, não posso fazer nada mais pelo que é seu...
O pior é que eu, tal como Mãe, não queria assinar nada. Ademais, em se tratando das escrituras do Limoeiro, eu não podia mesmo assinar coisa nenhuma. Estava tudo em demanda com os primos das Marias Pretas. Eram três as partes dos herdeiros do Limoeiro; e cabendo cada parte a cada um dos irmãos, filhos do meu avô materno. Esse inventário andava em juízo para mais de vinte anos. A gente ocupava o sítio na raça. Pai dizia que o direito era nosso e, até então, ninguém tinha conseguido nos tirar de lá.
Já as outras terras, que a gente tinha certeza que eram nossas, ficavam nem eu sabia mais a quantas léguas, sertão adentro. E reaver essa posse era o sonho do meu avô por parte de pai, e depois de morto o Avô, passou a ser o sonho de Pai, filho dele.
De começo era terra de índio. Mais tarde os padres da Companhia chegaram por lá e amansaram umas aldeias de bugres da serra, que por isso ficou sendo chamada ‘Serra dos Padres’. Levantaram uma capela de taipa. Contava o Avô que, anos e anos depois dos padres terem ido embora, os índios ainda tocavam o sininho e se reuniam na capela para rezar. Também contavam — o Avô não viu, mas tinha testemunhas — que até um dos índios fingia dizer missa, enrolando uma linguarada como se fosse latim.
Não se sabe como se armou a desavença entre os padres e os índios. Mas, um dia, um índio matou um padre, a flechadas. O outro padre conseguiu fugir e apareceu muitos meses depois num povoado da Bahia, em caminho de Jeremoabo, onde ficava a Casa de Oração deles. E, no remate de males, se conta que o Pombal, lá do reino, mandou prender tudo que era padre no Brasil. Os da Bahia foram junto: todos os padres mandados a ferros para Lisboa.
Os índios, sozinhos, ficaram brigando uns com os outros, como é uso deles. Morreu muito bugre, parece que o lugar se tornou amaldiçoado pra eles, por causa da morte do padre.
E quando a aldeia acabou deserta, quer de padre, quer de índios, começou a se espalhar a lenda de um tesouro que o derradeiro padre tinha enterrado debaixo do altar na capelinha. Foi atrás disso que chegaram os primeiros invasores, escavacaram tudo e não encontraram nada. E nem podiam encontrar, dizia o avô, porque o tesouro dos padres — frascos de ouro em pó, cálices e ostensórios de prata e ouro — tinha sido enterrado, sim, mas na Casa de Oração de Jeremoabo. Lá é que era a sede dos padres, antes da deportação. Muita gente, até mesmo o Avô, chegou a sonhar com esse “haver encoberto” (era assim que ele dizia). E os que viram o tesouro nos sonhos falavam que era exatamente igual ao que se contava do ouro em pó e dos vasos sagrados.
Anos depois, meu avô, não sei como nem na mão de quem, veio a comprar de um herdeiro uma parte da sesmaria doada pelo rei a uma tal de Fidalga Brites, na Serra dos Padres. O Avô fez isso aventurando e eu nem sei mesmo se dinheiro chegou a passar de mãos, nessa compra. O velho acabou por reunir um grupo pequeno de índios mansos, que lhe apareceram fugindo de um ano ruim, e com eles foi descobrir o lugar onde ficavam as suas terras, adquiridas do tal herdeiro da Fidalga Brites. No meu pensar, a idéia dele seria mesmo procurar pelas botijas dos padres. Podia ser loucura — e era — mas o povo é doido por história de ouro enterrado, botijas cheias de moeda; muita casa já foi abaixo por causa de gente que sonhou com dinheiro enterrado pelo dono morto.
Afinal, só debaixo da terra é que se pode mesmo esconder a riqueza. Eu, de mim, vou sumindo com o que tenho, no meu bom esconderijo. Podia até imitar os senhores do tempo antigo que mandavam fazer o trabalho por um escravo e depois matavam o negro. Eu, já não seria capaz de matar quem me servisse. Mortes que já fiz foi em caso extremo, era sempre ou eles, ou eu.
Assim foi a morte do Liberato, meu padrasto. Pois no que eu me neguei a assinar a tal procuração, que é que ele fez? Começou a me ameaçar encoberto. Dizia — “Quando uma pessoa se mata, sempre haverá um motivo... Tua mãe, teria um motivo?” Mais tarde voltava ao assunto: “Por acaso, teria sido ela mesma que se matou? Talvez nem fosse...”
Eu ia ficando muito assustada com aquelas charadas do Liberato, e acho que qualquer pessoa ia também se assustar.
Comecei a pensar de novo naquele horror todo, procurando na minha cabeça algum ponto esquecido, mas importante, do acontecido. Podia muito bem — por exemplo — o Liberato ter fingido aquela viagem. Quem sabe ele só andou uma parte do caminho, voltou na calada da noite, entrou no quarto pela janela que tinha o fecho quebrado (ele sabia do desmantelo do ferrolho, dormia toda noite naquele quarto) e se enfiou pela cama dizendo mansinho que tinha tido saudade... Eu conhecia muito bem a tentação dele. E quando apanhou nos braços a pobrezinha de Mãe, descuidada e amorosa, foi só lhe dar uma pancada para desacordar, e aí bastava arrancar os cordões do punho da rede, pendurar Mãe no laço. Com ela, tão magrinha, leve, ficava fácil. Tudo muito fácil.
Assim, ele podia fazer o mesmo comigo. Tal e qual. Ele mesmo me falou nesse jeito conhecido de se desacordar uma pessoa com uma batida no queixo: “Depois é só pendurar na corda, o pescoço estala com o peso do corpo — se quebra como um pescoço de passarinho...”
Fiquei morrendo de medo, me arrepiei toda, gelei. Então foi assim que ele matou Mãe! E naturalmente matou porque ela, tal como eu, não queria assinar a procuração.
Eu não podia ter mais dúvida: pelas palavras mesmo da boca do Liberato eu sabia: tinha sido ele o matador. E se ainda duvidasse, me bastava ver os olhos duros que ele me botava, ainda que fazendo carinho no meu corpo. Ele, a bem dizer, tinha confessado. Não disse mais explicado porque não precisava; afinal eu não era assim tão burra. Podia ser tola, mas burra não era.
E o pior é que ele sabia que eu sabia muito bem que ele estava sabendo. É enrolado, mas era isso mesmo que eu pensava.
A sorte minha foi que, mesmo debaixo daquele medo, eu não fiquei sem ação e resolvi me defender. Nas mãos dele eu já estava, e pra não ter a sorte de Mãe, tinha que atacar, antes que fosse tarde. Era ou ele, ou eu.
Mas, embora resolvida, que é que podia fazer? Sozinha, nada. Como é que ia poder lutar contra aquele homem, um monstro de homem, duas vezes o meu tamanho?
E logo ele, já acostumado a matar. Agora, então, devia se sentir seguro da impunidade. Ali estava a rede com os seus punhos, ali estava o armador, ali estava o meu pescoço fino. Tal e qual o de Mãe... Trac! E ele podia alegar que era mal de família, que eu tinha puxado a loucura de Mãe, mania de morte — tal mãe, tal filha.
Ai, eu tinha que procurar ajuda. Chiquinha e Zita, as minha cunhãs? Nem pensar. Como é que iam enfrentar o Liberato, se já morriam de medo dele? As duas juntas chegaram a me dizer, chorando, quando Mãe morreu, que aquilo só podia ser obra ‘Dele’. Falavam no Liberato como se fala no diabo, sem dizer o nome, só ‘Ele’. E se não fugiam é porque tinham pena de me deixar sozinha e também porque tinham mais medo ainda de que ele as pegasse pelos caminhos.
João Rufo? Não, não. João Rufo nasceu no Limoeiro, filho do vaqueiro Rufo. Era afilhado de Pai; e Pai, na hora da morte, lhe recomendou que tomasse conta de nós duas, Mãe e eu. Deus e todo mundo sabiam disso. João Rufo era perto demais de mim. A mão com que ele matasse, era o mesmo que ser a minha própria mão. Seria João o primeiro acusado.
Corri na memória todos os conhecidos — que eram muito poucos. E já estava desanimando, quando de repente me lembrei de Jardilino, caboclo novo, campeiro do pouquinho gado que ainda restava no Limoeiro.
Jardilino me comia com os olhos, posso dizer. Eu sabia, sentia; naquela altura o Liberato já tinha me ensinado a lidar com homem. Como toda sinhazinha bem ensinada pela mãe, para nós, caboclo não era homem, era traste da fazenda. É, mas eu agora trazia os olhos abertos e podia enxergar o Jardilino como homem. Mãe tinha nojo de gente escura. Eu não. Jardilino era escuro mas era limpo, tinha todos os dentes na boca. Quando vinha trazer algum recado de João Rufo e pensava que eu estava distraída, pegando o dinheiro ou escrevendo as compras no caderno da bodega, ele ficava com os olhos grudados em mim e tomava um susto quando eu falava. Uma vez chegou a soltar um suspiro.
E eu não tinha mais nada da mocinha boba do tempo de Mãe. Sabia muito bem o que um homem quer da gente — mesmo sendo um caboclo como o Jardilino.
Logo na primeira ocasião em que pude falar sozinha com ele — era de noite, nós dois sentados no parapeito baixo do alpendre, provoquei Jardilino a tomar algumas liberdades comigo. O Liberato tinha ido à vila, beber e jogar com os pareceiros, como fazia sempre. Botei a minha mão em cima da mão de Jardilino, e ele logo virou a mão dele e apertou a minha. Depois, ainda meio assustado, me espiando com o rabo do olho, levou minha mão à boca e se pôs a mordiscar os meus dedos, de leve, de um em um. Quando encontrou os meus olhos, ainda tímido, eu sorri para ele e deixei que me beijasse o braço. Só então me levantei, para não parecer fácil demais. Além disso, a Chiquinha chegava, me chamando para o chá de capim santo com broa de milho, que se servia sempre àquela hora, costume velho desde os tempos de Pai.
No dia seguinte esbarrei com o Jardilino no curral. Acho que ele já me esperava, meio escondido atrás da cerca. Deixei que me abraçasse, me desse uns cheiros pelo pescoço e um beijo no rosto. Nesse ponto eu fugi, me desculpando:
— Pode vir gente.
Da terceira vez ele já me chegava mais atrevido; e eu, vendo que ele rondava por perto, de novo me sentei no parapeito do alpendre, como quem não quer nada. Jardilino me abraçou pelas costas, segurando os meus seios na concha das mãos; me beijou o pescoço, até que eu me virei, para ele me beijar na boca. Acho que o pobrezinho nem sabia dar um beijo assim; eu que fui ensinando, disfarçado. Eram as artes que eu tinha aprendido com o Liberato. Mas quando ele me foi enfiando as mãos pelos botões da blusa, eu lhe segurei o pulso e disse:
— Agora não, que eu sou moça. Assim, só depois do casamento.
Jardilino afastou as mãos, meio assombrado:
— E a Sinhazinha tinha coragem de se casar comigo? Um pé-rapado feito eu?
E aí eu expliquei, com muita simplicidade, que não era pessoa de orgulho. Por quem ele me tomava? Em mim, quem mandava era o coração. Jardilino perguntou então se o Seu Liberato levaria a gosto esse casamento.
Eu comecei a chorar. Soluçando, fui dizendo que aquele homem me perseguia e a intenção dele era tomar tudo que era meu. Queria até me tirar a honra, me botar perdida. E eu morria de medo dele.
— E olhe, Jardilino, o Liberato já está de olho em nós dois. Aquilo sabe farejar que só perdigueiro!
Parei um pouco, continuei:
— Posso te contar ainda mais: um dia desses, o Liberato vendo eu dar café aos homens e fazer um ar de riso pra você, quando lhe entreguei a tigela, o desgraçado me chamou de parte e me disse numa fúria: “No dia em que eu desconfiar de alguma amizade particular de você com outro homem, mato primeiro o cabra e depois você tem de se ver comigo...”
Isso era mentira, claro; pra começar, o Liberato nunca me tinha visto olhando para o Jardilino. Mesmo porque só muito ultimamente é que eu tinha reparado no caboclo. E, para rematar, para deixar tudo mais perigoso, segurei o rosto do rapaz entre as mãos e lhe dei um beijo na face.
Jardilino escorregou para fora da mureta, fez um rodeio pelo mato, sumiu. Eu também sumi para o quarto, me enfiei na minha rede.
Nessa noite o Liberato chegou em casa tão bêbedo que nem me procurou. Caiu de borco, direto, na cama velha de Mãe.
Dois dias depois, na primeira vez em que pôde falar comigo, Jardilino me disse no ouvido:
— Que é que a Sinhazinha achava se eu matasse ele?
Eu me benzi, fazendo de assustada:
— Credo em cruz, Jardilino, matar um cristão?
— Aquilo é lá cristão! Matar aquela criatura é o mesmo que matar uma jararaca. Escute, Sinhazinha, tem muita gente que até jura: se ele não fez com as próprias mãos, com certeza mandou alguém matar a senhora sua mãe.
Eu escondi o rosto com os braços e comecei a soluçar:
— Ah, eu sempre desconfiei disso! Bem que desconfiava! E tenho tanto medo dele, Jardilino! Agora só falta mesmo ele me matar a mim!
Parei um pouco, tomei um fôlego forte:
— E, depois de mim, ele mata você, porque já deve ter desconfiado que eu lhe quero bem.
Dizendo isso, fui direto para dentro, deixando o caboclo pensando.
Na seguinte noite, Liberato tinha saído para caçar tatu, junto com dois homens e os cachorros deles. Aproveitei para fazer a minha cena com Jardilino:
— Tenho chorado muito, tenho rezado muito. Tanto que o Liberato, me vendo com os olhos vermelhos, veio me perguntar se eu chorava por causa de você. Está se vendo que ele sabe, ou, se não sabe de certeza, desconfia. O que dá na mesma coisa. Que é que a gente pode fazer?
Jardilino contou que já tinha pensado numa saída:
— Eu começo uma briga com ele, na bodega, ele vem em cima de mim, aí eu puxo a faca e acabo de uma vez com aquele velho descarado...
Eu me agarrei com o braço do caboclo:
— Não, não! Que é que adiantava isso? Você ia preso e eu ia junto, porque não havia de abandonar você... Tem que ser uma morte bem pensada. Uma espera... Longe de casa, de noite no escuro, que ninguém lhe veja... Numa hora que ele estiver andando só. Você podia se esconder numa moita e lhe mandar um bom tiro. Você sabe atirar?
— Atirar eu sei, mas arma é que não tenho. Uma que tive, perdi no jogo...
Eu fiz que pensava, depois fiz que tinha uma idéia:
— Já sei! Aqui em casa tem um bacamarte velho, que é mesmo do Liberato. Ele escondeu em cima do caixão da farinha, no paiol. Só eu sei que ele botou a arma lá, acho até que se esqueceu dela. Pelo menos nunca mais me falou a respeito, e quando uma vez eu perguntei por que ele não botava fora aquele traste velho, Liberato me disse: “Pode ser velho, mas tem serventia. É só dar uma limpeza, carregar e puxar o gatilho, que sai chumbo”. E eu posso lhe dar o bacamarte, Jardilino.
Ele se alvoroçou:
— Quando?
— Pode ser ainda esta noite. Eu vou pegar a arma e pego junto os acompanhamentos, que ele guarda num saco, também no mesmo lugar: a pólvora, a munição, a pedra de figo de galinha. Tem também uma vareta. Só falta você arranjar as buchas, que podem ser até de capim seco...
Jardilino estranhou:
— Nunca pensei que Sinhazinha entendesse tanto de arma.
— Liberato me ensinou. Passou mais de uma tarde inteira, armando e desarmando o bacamarte, me ensinando como se faz. Ele acha que mulher deve aprender a se defender. Quando os homens andam fora, elas é que têm de dar a guarda. Isso ainda foi no tempo de Mãe. Mãe tinha horror a arma, não queria nem ver. Mas eu gostei e aprendi. Olha, Jardilino, se eu não faço isso com as minhas mãos, é porque não posso sair de casa e passar a noite na tocaia, esperando por ele.
O caboclo deu mostras de até se envergonhar por ter duvidado de mim:
— Deus me livre! Isso é serviço só pra homem! Sinhazinha pode me dar a arma ainda hoje?
— Quando as meninas se deitarem, eu vou no paiol e pego o bacamarte. Enrolo num pano e deixo ao pé do último degrau, na escada da cozinha. Você sai agora, na vista de todos, inventa que vai dormir. Deixa a noite correr um pouco, se levanta e vem, bem disfarçado, pegar a encomenda. O resto é consigo.
Na verdade, eu já tinha dado a limpeza no bacamarte, que parecia não apresentar defeito nenhum. Quando as meninas fecharam a porta do quarto, eu peguei a chave do paiol. Entrei lá, me trepei num caixote: lá estava a arma, como eu tinha guardado na véspera, enrolada na estopa, com a vareta ao lado. Abri o pacote, enrolei tudo muito bem, arma, vareta e munição. Verifiquei mesmo se tinha bastante pólvora no polvarinho; a munição dava para uma boa carga, a pedra dava faísca... Tudo em ordem. Ele só ia poder dar um tiro. Tinha que ser tudo ou nada. Se errasse, o Liberato pegava ele. Mas acho que, mesmo nesse caso, o meu caboclo não ia me denunciar.
Na saída, ainda sussurrei no ouvido do Jardilino:
— Quando você acabar o que tem de fazer, espere o tempo que for preciso e me devolva a arma. Bote no mesmo degrau onde achou, enrolada com tudo dentro, igual ao que eu fiz.
Na véspera da minha conversa definitiva com o Jardilino, tinha me dado a idéia de fazer a confissão. Mãe dizia que o segredo de confissão é sagrado: o padre morre mas não descobre o que ouviu no confessionário. E aquela era uma sexta-feira, dia em que o padre, desde manhã cedo, esperava as beatas para a confissão.
Que será que eu queria com aquilo? Eu mesma não sei. Já estava certa de convencer o Jardilino a me livrar do desgraçado; talvez quisesse uma testemunha. Se a coisa estourasse, eu, em último caso, podia até liberar o padre do segredo e pedir pra ele sustentar na justiça que eu tinha os meus bons motivos. Tinha sido desonrada por aquele miserável — que ainda por cima era meu padrasto.
Que alívio. Tudo se passou muito bem. Na noite da terça-feira, Liberato vinha da Vargem da Cruz, encharcado de genebra, tombando em cima do cavalo. O caboclo esperou escondido numa moita, à beira do lajeado, numa dobra da estrada. Me contou depois que só precisou dar um tiro, encheu ele de chumbo, bem na arca do peito. O desgraçado soltou a rédea e desabou no chão. já deve ter caído morto. Tiro de bacamarte é muito violento. O cavalo, acostumado com as quedas do dono, ficou parado, decerto esperando que ele tornasse. Era a meia légua da vila, já distante, ninguém escutou o tiro. Nem sequer eu, que estava de ouvido atento.
Aquela era a primeira vez em que Liberato saía, depois da caçada de tatu. Pensando bem, acho que ouvi, muito de longe, mais um estalido que um tiro. E só fui me certificar mesmo meia hora depois, quando enxerguei um vulto se esgueirando em procura da cozinha. Esperei um pouco. (Não queria me encontrar com o Jardilino!) Quando achei que ele já estava longe, abri a porta dos fundos: lá encontrei o enrolado da estopa, com a arma dentro. E todos os apetrechos: contei, não faltava um.
O mais de manso que pude abri a porta do paiol, empurrei o bacamarte para cima do caixão de oito palmos de altura. Para alcançar bem fundo, empurrei o pacote com a tranca da porta que encontrei encostada na parede. Esfreguei as mãos; tinha dado conta da tarefa até ao fim, com muito medo, é verdade, mas dei conta direito.
Jardilino já devia estar chegando em casa da mãe dele, caladinho: se fosse preciso, a velha podia até jurar que o filho tinha ido dormir bem cedo. Era essa a nossa combinação.
Só pela manhã acharam o corpo. O cavalo ainda estava por perto, paciente. Não se descobriu rastro na estrada. Jardilino tinha feito caminho por cima do lajeado, onde rastro não ficava; por isso mesmo ele escolheu aquele local para a espera.
Vieram buscar uma rede, puseram nela o homem, foram depositar na delegacia, na vila. O cabo declarou que aquilo devia ser obra dos muitos inimigos do seu Liberato: era gente demais que tinha raiva dele. Botaram especialmente para uns caçadores que ele andava ameaçando de enxotar a tiro.
Fizeram o enterro. Eu não fui, me declarei de nojo, e nem era uso moça de família acompanhar enterro.
O padre — o meu confessor — fez a encomendação do defunto. Pode ter ligado uma coisa com a outra, mas o caso é que não falou. Estava valendo mesmo o segredo da confissão.
Uma coisa com que eu não contei foi com o entusiasmo do Jardilino. Eu pensava que ia poder segurar o caboclo só com agrados e boas palavras, mas que tolice a minha! Mal passada a missa de cova (a que eu também não fui) já ele estava no meu pé, querendo noivar abertamente e até marcar casamento.
E eu, casamento, imagina, casamento, que loucura. Que casamento, e logo com quem. Eu tinha que pensar era na minha herança; o nosso sítio do Limoeiro, dentro do distrito de Vargem da Cruz, boa terra de planta e cria, agora meio abandonado, é verdade. Só louco.
Comecei dando desculpas. Eu agora vivia sozinha, sem nenhuma mulher de idade que me fizesse companhia, só com as duas meninas tão novas quanto eu, a Chiquinha e a Zita. Não podia receber um namorado a qualquer hora. E o casamento? Ora, casamento, então ele não sabia que, depois da morte de Mãe, só podia haver casamento quando se acabasse o inventário?
E que o finado Liberato não tinha começado inventário nenhum, por causa de eu não querer assinar a procuração? Se eu casasse assim de repente, podiam até descobrir o que se passou e eu perder o que era meu. Além dele, Jardilino, ser preso.
Jardilino, sem se convencer, procurava me abraçar:
— Se não pode casar, a gente podia ao menos namorar escondido. Eu entro na fazenda de noite, bem disfarçado, ninguém vai me ver.
Menti que a Chiquinha dormia comigo no quarto. Ele exigiu que eu mandasse a menina embora para o quarto dela, junto com a Zita. E me apertava, me prensava e machucava, querendo me pegar de qualquer jeito. Por fim, já estava até me ameaçando:
— Quem chegou ao que eu cheguei, não tem mais medo de nada.
E me botava uns olhos estranhos, que me deixavam arrepiada.
Ah, eu não agüentava mais. já estava me dando até nojo dele. O Liberato, pelo menos, só se chegava a mim lavado, botava até água de cheiro. Já o caboclo, no melhor dos casos, tinha mesmo era cheiro de índio.
Então, quando já fazia quase um mês dessa agonia, eu estava farta. Dali só podia ir pra pior.
Chamei João Rufo que, desde a morte do Liberato, me ajudava a tomar conta das coisas. Levei João para um canto, me fazendo de muito assustada:
— Eu ando com medo, João Rufo. Esta noite andou aqui um homem querendo arrombar a janela do meu quarto. Não vi quem era, mas dava para se escutar muito bem o fôlego curto dele. Botei uma vassoura escorando a janela e quando eu ameacei de gritar, me respondeu lá de fora, mas eu nem consegui reconhecer a voz: “Se acalme, meu bem. Eu vou agora, mas amanhã eu volto”. (Tinha sido o próprio Jardilino que me deu a idéia de usar a janela).
— Quem será, João? Estou mesmo morrendo de medo. Depois de tudo que eu já passei! E agora, tão pouco tempo depois de matarem o meu padrasto... Será o mesmo assassino?
João Rufo ficou muito impressionado:
— É bem capaz de ser o mesmo sujeito que deu o tiro no homem. Então ele disse que volta hoje? Cabra descarado! Sinhazinha não teve mesmo condição nenhuma de descobrir de quem era a voz?
— Não. Não me parece que seja ninguém que eu conheça.
— Pois eu vou botar um cá-te-espero nele. Deixe só a noite chegar.
Me pediu emprestada a garrucha de Pai e eu disse que ela devia estar no baú grande de Mãe. Era lá que ela escondia a arma; tinha pavor de tiro, Mãe; não queria nem pensar que eu, menina, chegasse perto de uma garrucha.
Claro que achamos a arma. E eu pedi muito segredo a João Rufo: não queria escândalo. Podia ser até que o tal sujeito não voltasse, quisesse só me fazer susto.
Assim que João Rufo saiu, chegou Jardilino com as suas exigências. E eu então fingi que estava de acordo, que também não podia mais resistir. Afastei a mão dele e combinei:
— Agora não dá. Volte no tarde da noite, empurre a janela do meu quarto. Eu vou deixar só encostada.
De novo tudo se passou sem um erro. João Rufo, encostado no oitão, divisou o vulto do homem se aproximando, chegar perto, empurrar de leve a janela; levantar o joelho para subir um pouco e pular. O tiro pegou o caboclo pelas costas. João Rufo tinha boa pontaria, foi ensinado por Pai.
Assim morreu Jardilino, quase do mesmo jeito de que tinha morrido o outro, o Liberato com um tiro do próprio bacamarte dele. E a garrucha, meu pai devia ter deixado para defender a filha dos ataques de homem, que é coisa que não falta a mulher, neste mundo.
Sim, eu estava livre dos dois, mas o povo falava. Falava muito; tanto um caso como o outro não podia ficar esquecido fácil.
E ainda tinha o primeiro crime, o que matou Mãe. Verdade que, desse, só eu sabia que era um crime. A maioria das pessoas acreditava que Mãe, numa das suas venetas, tinha mesmo acabado com a vida. Mãe sempre tinha sido esquisita.
Como eu estava muito prostrada depois daquelas duas mortes — uma debaixo das minhas biqueiras e a outra em terra do Limoeiro —, o delegado teve consideração e veio tomar em casa o meu depoimento.
Eu repeti, sem faltar uma palavra, a história que tinha contado a João Rufo: o desconhecido querendo arrombar a janela — e a gente vir a descobrir, depois de tudo, que o assaltante era um dos moradores do sítio!
João contou o resto, a parte dele: sério, com toda a boa fé. Acho mesmo que foi a palavra de João que convenceu a autoridade. Eu só fazia chorar.
Depois foram examinar o local do sucesso, João mostrou onde tinha ficado escondido. Em seguida imitou os movimentos do caboclo, tentando trepar na janela. Chiquinha e Zita confirmavam pela parte delas — o barulho do tiro e a surpresa de descobrirem a criatura ser quem era.
O delegado tomou um chá e parece que saiu convencido. Mas embora tenha saído convencido o delegado, a língua do povo continuava badalando. Não tinha bodega na vila, nem roda de bisca, rancho de lavadeira na cacimba, que falasse em outra coisa: as três mortes do Limoeiro.
Quem conhecia o Jardilino era quem mais se admirava. Um caboclo tão calado e arredio, quem diria? Querer forçar a moça, filha da fazenda! Ah, mas é nas águas profundas que vive a cobra grande, dizia uma beata. E, reunidas no adro da igreja, as outras levavam mais longe: “Ninguém me diga que ela está inocente, alguma coisa a cabritinha aprontou!”
E a compradeira de ovos, assim que largou a cesta na cozinha, puxou o assunto: “Pra mim, isso é mesmo coisa de índio. Aquele Jardilino é índio puro, teve mãe pegada no mato e já vinha prenha dele. Todo índio é bicho enrustido, manhoso, ninguém sabe o que está no coração deles”.
Como o povo deixaria de estranhar e até mesmo de maldar? O acontecido com Mãe continuava a ser o mistério maior. Com a agravante de que ela sempre foi falada, desde os tempos de Pai.
A amizade com o Liberato, Mãe nunca escondeu de ninguém, era mesmo amigação de porta aberta. “E nas vistas da filha mocinha, imagina que bom exemplo!” Uma antiga amiga de Mãe defendia: “Mas antes do finado marido se acabar, ela era boa mãe de família, até devota. Não perdia missa de domingo, vinha a cavalo do Limoeiro”.
Mas tinha uma beata, no dizer da mulher dos ovos, que não perdoava: “Aquela? Nunca me enganou. Só pelo modo de se ajoelhar na igreja, dava para conhecer: alargando a saia, ajeitando a mantilha... E eu pensava lá comigo: Aquela não adianta rezar; porque enquanto ela reza, o diabo abana o rabo...”
Mas nada do que se sabia antes, explicava o corpo pendurado no armador de rede; e o que aumentava o mistério é que ela estava sozinha, o amásio longe, cinco léguas. Pra ser ele, só se o homem tivesse asa e voasse. No quarto dela não ficou nada revirado, luta não tinha havido. O cordão de ouro, com os olhos de Santa Luzia em ouro também, ainda estava em redor do pescocinho da defunta, meio escondido pelo queixo enterrado no peito. Quem viu me contou.
No baú de cedro, o dinheiro em moeda, atado no seu saco de ganga, bem escondido debaixo das anáguas engomadas. Na parede os registros da devoção de Mãe: uma Nossa Senhora e um São José. Sem ninguém tocar em nada.
As comadres da vila, que nem chegaram a nos entrar em casa depois da morte de Mãe, espalharam que, na camarinha da finada, a santa da parede não era Nossa Senhora coisa nenhuma: era mesmo Maria Madalena, a Pecadora: “Também só de pensar no que se passava ali dentro...”
Outra comadre de Mãe veio também me contar, se benzendo: “Aquelas galinhas velhas, encruadas, pensam que amor fora do casamento tem que ser coisa do demônio. Com certeza, de noite perdiam o sono, pensando em como seriam aqueles amores da tua mãe com o belo Liberato; e tanto deviam sonhar as que tinham o seu homem de uso, como as que nunca conheceram homem nenhum. As que de homem só sabiam por ouvir dizer...”
Coitada de Mãe. Liberato, quando me despia devagarinho e eu me defendia, reclamava que eu não ia querer ser igual à finada, que não sabia dar prazer a um homem, não tirava a camisola de madapolão, comprida até os pés, de manga até os punhos, pescoço fechado com botão.
Nisso, eu confesso, o que eu achava ainda pior do que as coisas da intimidade dos dois, que o Liberato ia soltando, era o costume que ele pegou de só chamar Mãe ‘a finada’; como se ela não tivesse mais nome. E numa vez que reclamei, logo ele me explicou que se usa dizer ‘finado Fulano’ por respeito: todo defunto tem que ser respeitado. Além disso, qualquer pessoa sabe que certas almas do purgatório não querem acreditar que morreram, e voltam ao lugar onde moravam para atormentar os viventes. Mas no que a gente insiste em falar o nome deles dizendo ‘o finado’, acabam se acostumando, reconhecendo que estão mortos, nas mãos de Deus e não mais no meio dos homens.
Já agora o falatório se virava só pra mim: “Uma moça, assim novinha, naquela casa de sítio, sem mulher branca junto dela, só as cunhãs da cozinha... Todas duas de raça de índio e sabe índio como é, igual a bicho bruto. Sem nem ao menos uma negra de respeito, uma mucama que tomasse conta dela e lhe ensinasse as regras dos bons costumes...”
De homem solteiro, perto de Maria Moura, só se sabia mesmo de um morador, o campeiro João Rufo —, o que deu o tiro mortal no caboclo Jardilino, no que ele tentou arrombar a janela do quarto da menina. “Não era pra se falar mesmo?”
Se eu ia à vila, de raro em raro e, como de costume, entrava na loja da D. Lilita e pedia para ver uma chita ou um par de chinelas, logo a velha vinha indagar como é que eu estava vivendo, por que não tratava de me casar — tinha uns primos, não tinha?
Primos! Tinha. Os dois filhos da finada Tia Lica e Tio Xandó, que moravam no sítio das Marias Pretas: Antônio Luiz, o Tonho, e o Irineu, solteiro esse. O Tonho casado, e cada um dos dois mais besta e mais interesseiro.
Falou no mau! Não se passou um mês da morte do caboclo, me apareceram eles no Limoeiro.
Chegaram no sítio, dizendo que vinham me dar os pêsames, o Tonho montado numa besta amojada e o Irineu num cavalo cardão, com uma pisadura tão feia por baixo da sela, que deu até nojo quando o moleque veio cuidar dos animais. E assim mesmo impondo grandeza, a ponto de a Zita, que não era atrevida, me dizer escandalizada, depois de servir o chá de canela:
— Sinhazinha, me desculpe, mas esses seus primos pensam que são de raça de fidalgo!... Dos que bebe soro azedo mas arrota coalhada com açúcar branco...
O Irineu era o melhorzinho, o mais desempenado; mas tinha uns olhos vermelhos, como se sofresse do mal da sarapiranga. Tonho, o casado, lhe faltavam os dois dentes da frente, falava com a boca cheia de língua e a toda hora estava dizendo: “Minha esposa Firma...” Claro, sempre ouvi dizer que a Firma o trazia de rédea curta.
Existia também uma irmã, chamada Marialva, bem mais nova do que eles. Dessa, eu só me lembrava de ter visto duas vezes: a primeira foi numa visita que Mãe e eu fizemos nas Marias Pretas; a outra foi na Vargem da Cruz, ela ainda meninota, numa novena de Santa Luzia. E nem me lembrei de perguntar por Marialva, quando os dois se abancaram, tomaram a tigela de chá e começaram a falar. Logo já estavam dizendo que chegara a eles a notícia da morte da ‘finada Titia’. Tinham vindo para dar os sentimentos. E vinham igualmente saber como é que ficava a partilha do sítio, que era também herança da mãe. Mãe deles, a finada Tia Lica. E eu respondi que, de herança, não entendia nada: quem estava cuidando disso era o meu padrasto, o Liberato; e, como ele também estava morto, eu nem podia informar como é que andava tudo.
Primo Tonho se arrebitou:
— Que padrasto? Não me consta que a finada Titia tenha se casado pela segunda vez!
E o outro palerma:
— Casou mesmo, com o padre benzendo?
Eu me levantei, já danada da vida. Eles pouco se importavam com Mãe, casada ou amigada, queriam era passar a mão nas terras do Limoeiro. Quase derrubei o tamborete ao me levantar, e indaguei, sentindo o beiço me tremer de raiva:
— Vocemecês, em vida de Mãe, nunca visitaram a ‘Titia’ nem cobraram herança. Se são herdeiros, cadê o testamento?
O Tonho cuspiu entre as falhas dos dentes:
— Seu pai deu fim no testamento e nas escrituras do terreno. A gente sempre soube que o seu pai era um homem meio perigoso. Onde ele botava a mão, ficava a marca de sangue!
Me senti tão enfurecida que de novo me levantei do banco e corri abrir a cancelinha do alpendre. E botei os dois pra fora:
— Podem fazer caminho, que eu não estou aqui para ouvir vocês detratando de Pai e de Mãe.
Chamei João Rufo, que escutava por perto, encostado no pé de jucá do terreiro:
— João, sele os animais desses moços, que eles já vão embora.
E, para rematar, me virei para os primos, procurando imitar o que eu ainda lembrava das palavras de Pai:
— Se acham que têm parte na herança, vão procurar os seus direitos na justiça. E agora adeus, boa viagem.
Entrei na sala, bati com força a meia porta e me debrucei nela, esperando a reação dos dois. O Irineu ainda se voltou pra mim:
— Mas prima! Que é isso? Que foi que a gente fez?
Já o outro puxou o irmão pelo braço, engrolou:
— Deixa, Irineu. Essa cascavelzinha tem a quem puxar.
Se montaram nos babaus que João Rufo trouxe depressa, meteram com força a espora nos pobres dos bichos, saíram num chouto alto.
E agora? Matar aqueles dois, nem pensar. Desta vez, só quem possuía motivo era eu mesma. Não tinha ninguém pra quem desviar a culpa. E o pior é que eles eram mesmo donos de dois terços da herança, eu sabia.
Tinham a parte da mãe deles e a parte do tio que embarcou para o Amazonas e vendeu aquela parte ao cunhado, pai dos meus primos. Vendeu pra levar o dinheiro na viagem. Muita vez escutei meu pai e minha mãe discutindo, ela falando na parte do irmão embarcado e ele alegando que o embarcado não deixou recibo, tudo foi feito com um aperto de mão. E depois da notícia de que o irmão tinha morrido de beri-beri, lá no Amazonas, que prova tinha essa gente para exigir parte nenhuma?
Mãe abanava a cabeça:
— Tenho medo dessas brigas de parente. Pode acabar mal.
Os primos foram embora naquele dia de manhã. Mas, já de tarde, soube-se que eles estavam no cartório, caçando as escrituras. Naturalmente que acharam. Só eu, de ignorante, podia pensar que, acaso se perdendo o papel das escrituras, eu estava garantida, pois não havia mais outra prova. Mais tarde é que soube: no livro do cartório se escreve tudo, seja caso de compra ou de herança. O papel que a gente guarda em casa é só uma cópia do que está no livro. Testamento também fica no cartório, para ter valor. Então o Tonho, agora, já estava seguro da parte deles. Só restava a parte do Embarcado; essa que, no dizer do Pai, foi venda feita só de boca, sem documento.
A nosso favor nós tínhamos a posse do sítio por estes anos todos — também ouvi Pai dizer isso mais de uma vez.
Fiquei meio inquieta, com medo de tanta trapalhada de lei. Mas uma coisa eu resolvi: da minha casa ninguém me retirava. Só à força bruta.
Pois veio a força bruta. Quinze dias depois da visita dos primos, quando eu dava já o caso por terminado, me aparece João Rufo, afobadíssimo, correndo me dizer que estavam me esperando no alpendre dois soldados da polícia da Vargem da Cruz, a mando do delegado.
Eu estava na queijaria, limpei no avental as mãos sujas de coalhada e fui ver o que era. Nunca tinha sido procurada por soldado nenhum.
Já conhecia de vista os dois praças, principalmente o magrelo, a quem chamavam Cabo Sena. Junto com os soldados, um outro homem em quem João Rufo não tinha falado, vestido de andar na rua e até de botas.
Debruçada na meia porta, sem sair para o alpendre, eu falei aborrecida:
— Aqui ninguém chamou soldado. Hoje ninguém cometeu crime nenhum neste sítio.
Eu tinha resolvido sair na malcriação. Se os primos me atacavam de soldado, achei que não devia mostrar que tinha medo deles.
Mas o tal senhor, que tinha retirado o chapéu quando me viu, se apresentou:
— Eu sou o Doutor Silvino, o advogado, minha senhora. Pensei que me conhecia lá da vila.
— É, eu já tinha visto vocemecê. Mas cuidei que trabalhasse no cartório do Seu Nicolino.
— E trabalho. Chego acompanhado dos soldados porque vim lhe trazer uma intimação.
Eu não me desarmava:
— Engraçado. E que é que o senhor quer de mim com essa intimação?
O Cabo Sena me estendeu um papel. E o homem explicou:
— Por esta intimação a senhora deve comparecer na delegacia amanhã.
Fiquei com mais raiva ainda. Aqueles dois idiotas estavam indo longe demais.
— A bem de quê? Eu não matei nem roubei! Que é que vou fazer lá?
O advogado levantou a mão aberta, como se pedisse calma:
— É o caso da partilha dos bens da senhora sua avó. Os outros herdeiros deram queixa contra a senhora.
Abri a porta e saí no alpendre:
— Vocemecê pode ir embora com os seus soldados e o seu papel. Esse delegado pode abusar com mulher da vida e cachaceiro, na Vargem da Cruz; mas comigo é diferente. Aqui eu estou na minha casa. Este sítio é meu, foi o que meu pai sempre me disse. Se os ladrões dos meus primos querem tomar o que é meu, que venham, com delegado e tudo. Eu enfrento. Da minha casa só saio à força e amarrada.
O tal do advogado me olhou de cara, botou o chapéu na cabeça e disse, aborrecido:
— Está bem. Darei a sua resposta.
Ele e os outros pegaram as rédeas dos cavalos, montaram e saíram a meio galope. Eu fiquei andando no alpendre, pra lá e pra cá, ainda fula de raiva. Desaforo, quem eles pensavam que eu fosse?
Ainda gritei, não sei se ouviram:
— Aqui não tem ladrão de galinha!
O desabafo não deu para esvaziar quase nada da minha fúria. Fiquei no mesmo vai-e-vem, rogando todas as pragas que eu sabia, contra os desgraçados dos meus primos. Afinal, quando me acalmei chamei os homens que eu tinha no sítio. Além de João Rufo, eram meus moradores dois velhos dos tempos de Pai: o tirador de leite, Eliseu, e Chico Anum, que tomava conta da planta — o feijão, o milho e a mandioca. Falei a eles:
— Chico, vem cá! Cadê aqueles seus dois filhos? Não tem um que até foi soldado? E o outro? Que é que eles andam fazendo?
Chico Anum se chegou, satisfeito. Tinha muito orgulho dos filhos.
— O Zé deu baixa, Sinhazinha. O mais novo, o Maninho, que sempre teve mania de sentar praça também, prometeram a ele que vai entrar de recruta um dia destes. Está esperando o chamado.
Chamei o outro velho:
— E você, Eliseu, cadê o seu sobrinho? Ele não andou um tempo trabalhando aqui no curral, com você?
— Ele anda por perto, dando uns campos para o vaqueiro do Olho d’Água.
— Pois eu estou precisando muito de falar com os três, e é pra já. Queria que viessem aqui ainda esta noite, como sem falta. Tenho serviço para eles.
Os dois não perguntaram pra que eu queria os rapazes. A visita dos soldados devia ter dado a eles um alerta. Eu ainda perguntei ao Chico Anum se os meninos tinham alguma arma.
Tinham:
— O José tem um bacamarte, que foi da tropa, já sem préstimo. O sargento ia botar no mato, o menino pediu, ele deu. Aí o José levou a arma pro ferreiro velho, que remontou umas peças mais gastas, trocou outras e fez um ferrolho novo para a pederneira. Fez obra tão importante que, hoje, quem não sabe da idade do bicho, pensa até que é novo, saído da loja... Aquele ferreiro velho faz milagre com qualquer coisa. Basta ser de ferro.
— E o outro?
— Já o outro, não conheço arma dele. Mas com aquela cegueira que tem por soldado, é capaz de já ter alguma. Ou arranja emprestada com os camaradas. Basta haver a precisão.
Para o Alípio, o sobrinho do Eliseu, eu estava pensando na arma do Liberato, escondida em cima do caixão da farinha.
— Digam aos rapazes que é pra trazer tudo que puderem. Arma branca também serve. E eu vou ver o que arranjo.
Os velhos já estavam atravessando o terreiro e eu ainda gritei:
— E tragam munição! Comprem fiado, que eu pago. Diga que é pra uma caçada, que tem uma onça pela mata querendo comer os meus bezerros.
E eu que quase me esquecia da munição! Boa guerreira que eu ia ser! Mas a gente aprende, aprende. João Rufo, que não tinha falado ainda, veio me cochichar:
— Tem um homem no mercado — aquele tal de João Calixto — que vende pólvora e chumbo. Diz o povo que ele fabrica de contrabando, porque é proibido. Só quem pode fabricar pólvora é o governo.
E aí eu dei outra prova da minha inocência:
— Pois eu pensava que pólvora se compra junto com as armas e vem tudo de país do estrangeiro...
Ainda me falta muita coisa pra aprender!
João Rufo até se riu:
— Ninguém pode esperar que uma moça de família saiba dessas coisas. A Sinhazinha nunca lidou com pólvora.
— Você pode mesmo dizer que, até pouco tempo, a Sinhazinha nunca tinha visto um dedal de pólvora. Mas vou aprender. Aprender e ficar sabendo. Todo homem não aprende? Eles não nascem sabendo.
Aquilo que eu dizia a João Rufo não era palavra à-toa. Eu sentia que tinha chegado a uma encruzilhada na minha vida e era a hora de escolher o caminho novo.
Tudo me dizia que os desgraçados dos primos, o Boca-Mole e o mimoso do Irineu, estavam com a lei do lado deles. Por isso é que eu gritava e esperneava: era o que me restava fazer. Aquela conversa de Pai a respeito dos documentos, a esperteza com o cunhado embarcado, tudo confirmava a minha desconfiança. Na verdade, eu só era dona mesmo de uma parte do bolo, eles tinham duas. E como eu ocupava a casa e as terras, eles iam fazer tudo pra me desalojar dali. Podiam até querer morar dentro de casa, comigo. Já pensou, qualquer dos casos?
Minha primeira ação tinha que ser a resistência. Eu juntava os meus cabras — os três rapazes, João Rufo (que em tempos antes já tinha dado as suas provas). Os dois velhos podiam servir pra municiar as armas, na hora da precisão. Eu queria assustar o Tonho. Nunca se viu mulher resistindo à força contra soldado. Mulher, pra homem como ele, só serve pra dar faniquito. Pois, comigo eles vão ver. E se eu sinto que perco a parada, vou-me embora com os meus homens, mas me retiro atirando. E deixo um estrago feio atrás de mim. Vou procurar as terras da Serra dos Padres — e lá pode ser para mim outro começo de vida. Mas garantida com os meus cabras. Pra ninguém mais querer botar o pé no meu pescoço; ou me enforcar num armador de rede. Quem pensou nisso já morreu.
Os rapazes chegaram logo depois do escurecer. O ex-soldado ainda usava as botinas reiúnas do fardamento. Vinham os três com a roupa de domingo, engomadinha, estavam muito influídos com o meu chamado. O antigo praça, então, que o pai me apresentou como José de Deus, mas que os outros chamavam de Zé Soldado, foi me mostrando logo o bacamarte reformado pelo ferreiro velho. Para mim era novo, lixado e azeitado. O Zé trazia a arma enrolada num pano, como se fosse um pedaço de pau. O rapaz mais novo, o Maninho, tinha mesmo, Deus sabe como, arranjado uma garrucha, velhinha também, mas que, dizia ele, não negava fogo. Os dois vinham cada um com o seu polvarim de chifre, chumbo grosso e fino, num saco; e a pedra que eles chamavam figo de galinha. Era a pedra do fogo, quer dizer, da faísca, pra acender a pólvora.
Traziam também as facas do uso, as pajeús que todo homem carece portar, antes de barbar e casar, conforme eles dizem.
O Alípio, sobrinho do Eliseu, de arma de fogo não trazia nada, mas arranjou uma grande faca lambedeira, que parecia uma espada na sua bainha de couro. Trocou a faca por um bezerro que o tio tinha tirado de meia na fazenda e lhe deu em pagamento pela ajuda.
Pela tarde eu já tinha ido em busca do bacamarte do Liberato (isso mesmo, dele! dele, tanto na vida como na morte, eu dizia comigo, consolada). Estava limpo, depois do último trabalho: eu tinha cuidado disso antes de guardar a arma no mesmo lugar de onde tirei. As meninas, me vendo esfregando o bacamarte, vieram me perguntar que é que eu queria fazer armada. Contei que à noite iam chegar os rapazes de Chico Anum e Eliseu: “Eles deram pra caçar onça, e ofereceram de me comprar o bacamarte velho”. Estava assim preparando uma explicação para a visita dos três meninos.
Já com eles a conversa foi pequena. Eu só contei que andava com medo de ser atacada por uns sujeitos, meus parentes, por uma questão de herança — questão de terra, sabe como é. Cada um deles que me ficasse com as armas à mão; de noite — esta noite ainda — podia haver uma surpresa.
— Não precisa que fique todo mundo acordado; basta um de sentinela. As meninas trouxeram duas redes que vocês podem armar no alpendre da lenha, atrás da cozinha. O de sentinela trate de se esconder na sombra. Pode até se sentar na sapata de pedra do oitão.
E terminei:
— Eu vou me deitar também, mas deixo mal cerrada a porta da frente.
João Rufo ajuntou:
— Eu vou armar a minha rede no quarto dos arreios. Mas também fico de olho aberto.
Fui me deitar, como disse. Me estirei na rede, fiquei me balançando no escuro. Em que é mesmo que eu estava me metendo? Não tinha levado em consideração a visita dos primos ou a intimação do delegado. Queria ver no que ia dar tudo. Podia jurar que o Tonho e o Irineu iam vir mesmo, com os soldados, dispostos a brigar? E quem era eu para brigar com autoridade? E, ainda por cima, brigar também com os primos que eu só conhecia de vista e das conversas de Pai e Mãe? Mas tanto Pai quanto Mãe só chamavam o pessoal das Marias Pretas de “gente ruim, gente muito ruim”.
Liberato, quando veio me trazer a procuração para assinar, dizia que era pra poder me defender da ação do Tonho, a quem ele conhecia muito. Dizia o Liberato que “o Tonho é capaz de tudo”. E o outro era mais mofino, mas não ficava longe em ruindade.
Na certa, os primos tinham em mão algum documento; como eu não possuía documento nenhum, eles se combinaram com o delegado e o advogado, pra me darem um susto. Vai ver aquele papel não era nem intimação de verdade. Eu não devia ter devolvido, devia ter ficado com ele como prova, se fosse falso. Mas no momento me deu aquela raiva, me sufoquei de ódio, queria desfeitear os homens. Me fervia o sangue, pensar que aquele bando de insetos tinha a ousadia de vir me ameaçar dentro da minha casa! A casa do meu pai e da minha mãe, a casa onde eu tinha nascido; que tinha sido a casa da minha avó, levantada de telha e taipa pelo meu próprio bisavô! Era ousadia demais.
E agora, que eu estava com o cabroeiro armado ao meu redor, só tinha mesmo que resistir. Era tudo ou nada.
Me levantei, passei o xale pelos ombros, fui ver como andava tudo.
Abri um pouco a janela da cozinha, vi as redes armadas, um homem dormindo em cada uma. No quarto dos arreios, à luz da candeia, João Rufo, assentado na rede dele, se balançava. Me disse que estava rezando. Fiz sinal para ele ficar quieto, cheguei na porta da frente, entreabri de leve, não vi ninguém. Era isso mesmo, tudo bom.
Saí no alpendre e João Rufo me acompanhou; trazia o seu pito de barro com o forno para baixo, pra não se ver a brasa. Foi até a sombra do juazeiro novo, no terreiro, espiar; quando voltou, lhe cochichei:
— Ninguém?
— Ninguém.
— Quem está de sentinela?
— Zé Soldado.
— Maninho e Alípio estão dormindo?
— Inhora sim. Achei melhor separar os irmãos. Podem ficar de combinação, inventarem alguma besteira. A gente nunca sabe.
Fui até o oitão, lá estava o rapaz, arma no joelho, sentado na sapata. Me viu, porque levou a mão no chapéu. Fui lá dentro, peguei uma garrafa com uns dois dedos de jerebita (lembrança do Liberato) e entreguei a João Rufo:
— Pra esquentar a friagem.
João riu:
— Só vai dar pra molhar o cuspe. Um gole pra cada um.
Voltei para o quarto, para a rede. Àquela altura, já estava começando a ter medo da confusão em que tinha me metido. Mas a raiva ainda era maior do que o medo. Pelo menos, se o pessoal chega e me cerca a casa, eu já posso me defender com alguma esperança de ganhar. Defender a minha morada e a minha pessoa, pra desgraçado nenhum botar a mão em qualquer das duas.
O pior, para mim, é que, desta vez, eu não preparava uma tocaia na noite, na sombra, como nas duas vezes antes. Desta vez eu tinha que me declarar. Resistir e atacar, porque — essa certeza eu tinha — eles não iam dar por menos.
E os meus cabras, será que eles davam conta? Era tudo novato, mas estavam muito entusiasmados. Liberato gostava de dizer que coragem de gente moça é só falta de entendimento, ignorância da vida. Sabem lá o que é uma luta de verdade — pólvora, tiro, aço frio? Gente nova pensa que tudo se resolve na valentia. E ele botava em mim aquele olho enviesado:
— Não vê você? Grita e esperneia, mas quando chegar a hora do pega-pra-capar, vai correr se esconder na cozinha, chorando. Se juntar com as cunhãs, já que não tem mais o rabo de saia da mãe!
Isso ele dizia, o Liberato. Pois eu acho é que esses meus meninos, embora sejam ainda uns novatos, vão brigar bem. De arma na mão, se atrevem a enfrentar até o cão do inferno.
E eu? Que é que faço, se os homens me cercam mesmo a casa? Vou me aconselhar com os mais velhos, Eliseu, Chico Anum, que eles têm alguma experiência nessas coisas. Chico Anum foi até capanga de meu pai, num entrevero que ele teve com os recrutadores da polícia.
Isso já faz anos, sei que Chico vai ficando velho, mas Pai dizia sempre que ali estava um cabra destemido, cabeça fria. E era disso que eu precisava: cabeça fria.
Voltei a fazer as minhas contas: foi bobagem eu pensar que os primos iam vir de noite, atacar a casa. Principalmente porque se eles andavam acompanhados da polícia — polícia só trabalha de dia, quem ataca de noite é bandido.
Eles podiam saber que eu tinha mandado buscar os homens na Vargem da Cruz. Mas João Rufo, quando foi na vila comprar a munição, me garantiu, ao voltar, que lá ninguém desconfiava de nada e acreditaram na história da caçada de onça. Os meninos mostraram que são de confiança e não deram um pio a ninguém.
Continuei me balançando na rede. O tempo escorria tão devagar que até me atacava o nervoso. Peguei no cachimbo de Mãe, guardado numa cuia com um resto de pele de fumo, do uso dela. Enchi o fornilho, peguei no artifício, tentei fazer fogo, mas não consegui. Estava tudo muito velho. Acabei com nojo do pito e o seu cheiro de abafado, nunca me dei com cachimbo, era isso. Mãe parecia uma índia velha, puxando fumaça. De pequena me acostumei a trazer para ela uma brasa, na colher. Vinha correndo do fogão para o quarto, medrosa de deixar cair a brasa em cima do meu pé.
Afinal cantou o galo da madrugada. O da meia-noite já tinha cantado e dormido outra vez. O de agora cantava e amiudava, a barra do dia estava rompendo.