Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 26 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 25 — Maria Moura

Maria Moura

 

A VOLTA DA SERRA dos Padres foi muito melhor do que a ida. Aqueles homens, depois que passam por uma trilha, não esquecem nada, nunca. Se lembram da jurema torta, da rebolada de pau branco, do juazeiro caído; são os marcos do caminho. Na volta já estão à procura deles, como velhos conhecidos.

A comida, a princípio, era só caça. Pescaria podia haver num açude que bordejamos, mas não se devia perder tanto tempo, armando linha e anzol.

Até que no terceiro dia, numa volta do caminho, demos com gente pela primeira vez. Era uma tropa pequena, carregada com uns surrões de palha. Ao mesmo tempo que os vimos, eles nos avistaram — só que o nosso ‘comboio’ era maior e não estava carregado com surrão nenhum.

Logo os tropeiros que vinham a pé, tangendo a carga, se amoitaram à beira da trilha, contendo com esforço os animais deles.

Montado no meio de uma das cargas, vinha um velho que se agarrava no cabeçote da cangalha. Os outros homens vinham a pé e eram três, rodeando o velho.

Ficaram parados, olho duro na gente, chapéu jogado pra trás, esperando o que ia acontecer.

Nós paramos também. Roque me disse em voz baixa:

— Pela cara do surrão e a poeira branca na palha, sou capaz de jurar que eles estão levando é farinha.

O Alípio também concordou:

— É farinha, sim, eu até sinto o cheiro.

Eu me adiantei um pouco, dei o bom-dia aos viajantes.

O velho, de cima da cangalha, tirou o chapéu, respondeu. Os outros não se mexeram, nem podiam, segurando o cabresto dos burros que se mostravam inquietos.

Aí me virei para João Rufo, já tendo lido na cara dos estranhos a surpresa de verem uma moça comandando um grupo de cavaleiro armado:

— Você fala com eles.

O João se chegou, maneiro, perguntou donde eles vinham e pra onde se botavam.

Enquanto isso, o Roque rosnava para os meninos, que cada um escolhesse o seu tropeiro, e avançasse, quando a Dona desse o sinal. Eu nem tinha pensado nisso, mas assumi a ordem, baixei a cabeça, confirmando.

O velho, que era fanhoso, contou que vinham de uma farinhada monstra, que durava três meses, moendo a roça sem parar. Levavam agora a sua parte da farinha, pra terra deles, a dois dias de viagem dali.

João Rufo disse pro velho, que era o chefe da família (os outros eram filhos e um genro):

— A gente podia lhe tomar a carga, os burros e espantar vocês pela estrada abaixo. E era mesmo no que se estava pensando...

O velho, assustado, se segurava na cangalha:

— Vossa Senhoria não ia fazer uma coisa dessas! Esta carga que se leva aqui é pra sustentar a nossa família, que é grande. Pagamos a farinha com o suor do nosso rosto.

O Roque, de lá, deu uma risada, o velho estremeceu. João Rufo estava todo importante de ser chamado ‘Vossa Senhoria’, mas eu não estava gostando daquela brincadeira de gato e rato.

Me adiantei também e disse pro velho:

— Vocemecê não se assuste que aqui ninguém é ladrão de estrada. Nós só queremos uma das suas cargas de farinha, porque estamos muito desprevenidos.

Um dos tropeiros, devia ser o genro, que era alto, magro, escuro, diferente dos outros, levantou a cabeça, raivoso.

A gente via que ele estava querendo resistir; tanto que foi levando a mão à cintura, na altura do cabo da faca.

Zé Soldado lhe apontou o bacamarte:

— Quieto, seu moço.

O homem não obedeceu logo, olhou os companheiros em redor, não viu sinal de resistência; só aí baixou a mão.

Os meus, por sua vez, puseram as armas à vista. E eu mandei:

— Tirem a carga de um animal desses. Só um.

Roque falou, não tão baixo que não desse para os estranhos ouvirem:

— Pra que botar a carga abaixo? A gente leva o burro junto!

Eu olhei para ele, já enfezada:

— A nossa burra está sem carga. E esses burrinhos deles, não agüentam até onde nós queremos ir. Vão lá, Maninho e Alípio. Mudem a carga.

Os dois saltaram da montaria, avançaram com cautela para os burros amontoados. O genro deu um passo atrás, como se defendesse o burro dele. Mas o Maninho estendeu a mão pro cabresto:

— Quero esse aí! Parece que são os dois surrões mais cheios.

O cabra não resistiu, soltou o cabresto. Maninho e Alípio pegaram cada um no seu costal. Botaram os surrões nos ombros e levaram para a nossa burra, que o Roque já estava desembaraçando de uns sacos.

Feito o serviço, eu levantei o braço:

— Podem seguir viagem. Vão com Deus.

Eu não perdia de vista o genro, que ainda resmungava. Mas ele percebeu a direção dos meus olhos, baixou os dele, meteu o chiqueirador no burro que, livre da carga, partiu num chouto alto.

O velho botou o chapéu, tirou de novo, despediu-se:

— Não me importo de ceder a farinha a Vossa Senhoria. Na estrada, a gente tem que se ajudar.

Eu, me deu vontade de rir: aquele podia cair do cavalo mas não perdia o aprumo!

Esperamos, calados, que eles sumissem na estrada, afundando pelo mato na primeira vereda.

E aí, antes de dar a ordem de partida, resolvi pregar um sermão:

— A gente pode fazer de tudo, mas faça sem abusar. Está bem que se tome a farinha dos homens, mas não precisa pisar em cima deles. Perversidade eu não quero. A gente se meteu nessa vida, mas não precisa se encher de inimigo. Não precisa maltratar.

O Roque coçou a cabeça:

— Mas eles carecem de ter medo de nós, Dona Moura.

— Pode ter medo, mas não carece ter raiva. O medo leva ao respeito. Mas a raiva só cria desejo de vingança.

João Rufo ajudou:

— E viram como o velho saiu satisfeito? Até disse que tinha cedido a farinha!

Os outros riram. Roque meteu o relho na burra, nós demos de marcha aos cavalos.

 

Uma légua adiante, num limpo de chão, debaixo de uma catingueira, nós estávamos assando um jacu que o Alípio matou de bodoque e enchendo a boca com os punhados de farinha. Era nova e bem torrada. Um dos meninos, fazendo graça, disse que o velho tinha arranjado freguês!

Uma hora descansamos da força do sol. Tudo continuava bem.

De noite, no acampamento, os homens não pensavam mais nas redes. Seguiam o conselho do Roque, que ia se fazendo uma espécie de sargento da minha tropa (quem lhe deu essa patente foi Zé Soldado) e passaram a dormir direto no chão. Era mês de verão, a terra estava bem seca, cada um limpava a sua cama. Em chão de pedregulho catavam os seixos até ficar tudo só na areia. Se perto havia um pé de pau com folha, arrumavam um ninho verde.

Roque explicava que esse negócio de rede é um atraso de vida. Tem que atar e desatar; nela, o sono é melhor, o cabra se esquece de que está de serviço. No chão, bota a arma encostado, ao alcance da mão. Já na rede, a arma escorrega pra debaixo dele, há que caçar ela... E ainda tem mais: se o cabra está deitado no chão e se acaso vem uma instância de perigo, basta o freguês dar um pulo, fica de pé, arma apontada.

E Roque mostrava como se faz:

— Cá estou eu estirado, no meu cochilo; mas ao menor barulho me sento, meto os pés e já estou empunhando o bacamarte — assim.

A gente ia aprendendo. O Roque era escolado e nós um bando de aprendiz chucro.

Mas assim mesmo eu precisava ficar de olho aberto com o Roque; ele era adiantado demais pro meu gosto.

Rede, pois, só se armava agora para mim, e isso era tarefa de João Rufo. Fingi que não ouvi um deles dizer pro outro, com um risinho, que João Rufo era “a mucama de Sinhá”...

E, de certa forma, era mesmo. Ele guardava o meu caneco, a minha colher. Protegia (de costas!) as minhas retiradas para o mato, para as minhas privanças. Até mesmo para eu mudar de roupa. Disso eu não tinha do que me queixar. O meu cuidado maior era não dar liberdade demais a eles — quero dizer, ter liberdade com eles, e eles comigo. Não consentia que me chamassem de Sinhá, que isso era coisa de cativeiro. Mas todos tinham que me chamar de Dona, ou mesmo Dona Moura.

Eu não podia ser apenas um bacamarte a mais, correndo as estradas na companhia deles; se nem arma de fogo eu tinha comigo. Fazia questão de só trazer na cinta o meu punhal de cabo de prata. Minhas armas andavam nas mãos deles. Como eu dizia: “Vocês atiram, mas sou eu que escolho a hora de puxar o gatilho”.

Eles me tinham medo ou respeito — não sei; as duas coisas, talvez. Mas nenhum se atrevia a me olhar no olho. De certo modo, as mortes do Liberato e do Jardilino — embora ninguém pudesse me culpar por elas — uma de tocaia que nunca se descobriu o mandante; a outra de um tiro dado por João Rufo, em defesa da minha honra; o fato, porém, é que essas duas mortes nunca tinham sido muito bem explicadas. No fundo, no fundo, muita gente achava mesmo que eu estava por trás delas, direto. Eu sabia disso muito bem.

E então, depois do incêndio e da fuga do Limoeiro, era nas costas de Maria Moura que a língua do povo açoitava de preferência. Deviam botar pra mim tudo que aconteceu de esquisito no sítio, coroado a mais com a minha fugida na companhia da cabroeira armada. E eu não dizia nada a ninguém, sequer deixei que alguém — mormente algum dos cabras — me tocasse naquelas mortes. Um que experimentou — eu olhei pra ele tão duro e de tão má cara que ele se afastou assustado.

Pra polícia eu podia negar, me fazer de pobre menina inocente. Isso era parte do jogo, todo mundo entendia. Pelo outro lado, eu tinha que ser temida para ser respeitada. Senão me arrastavam em pessoa pela rua da amargura. Não fazia mal nenhum que eles desconfiassem do que eu podia fazer. Minha idéia era meter na cabeça dos cabras e na do povo em geral que ninguém poda avaliar do que Maria Moura é capaz.

 

Passado um dia e mais outro, aconteceu novidade diferente. Nós tínhamos saído com escuro, na ânsia de ganhar tempo. Mal andamos uma légua, demos com um acampamento.

Lá estava um homem branco, vestido só com as ceroulas, se lavando na água de um caneco, que um moleque lhe despejava nas mãos. Perto deles, um negro alto assoprava o fogo numa trempe. O moleque era taludo e levantou os olhos quando nos viu chegando, saindo de uma volta do caminho.

Eu tomei a frente. Dei o bom-dia de regra, mas nenhum de nós tirou o chapéu. Pelo contrário, cada um mostrou a arma, como que por descuido. E eu perguntei:

— O senhor está arranchado aqui? Veio para morar?

O homem se estirou, zangado, depois, como os outros todos antes dele, fez cara de admiração ao me descobrir:

— Que negócio é esse? De onde vocês vêm?

Eu estava gostando da experiência de fazer medo a eles:

— De vocemecê não queremos nada. Não pode nos ter serventia. Mas já aquela canastrinha de couro, estou sentindo muita simpatia por ela.

O moleque deixava escorrer o resto da água no chão, apavorado. O negro grande se endireitou também e, empunhando o tição aceso, foi se postar ao lado do Sinhô. O Roque girou o cano da arma na direção dele:

— Solta isso aí, meu irmão. Bota as mãos na cabeça.

O negro ainda olhou para o lado, para o próprio bacamarte dele, que estava pendurado num galho seco de árvore, ali junto, enquanto ele lidava com o fogo.

Eu fiz um gesto pra Maninho, que ainda não tinha arma de fogo, e mandei:

— Pegue aquele bacamarte. E a sacola da munição que está junto. Agora você já tem arma.

O negro ainda estirou a mão, mas Zé Soldado lhe cutucou o espinhaço com o cano do bacamarte dele.

— Quieto.

Eu me virei pro moleque:

— Pegue a chave do seu Sinhô e destranque a canastrinha!

Era uma peça pequena, bonita, de couro lavrado, com um nariz de ferro na tampa, fechado por um cadeado.

O branco fazia até pena, segurando a ceroula que lhe escorregava pelos quartos, a barriga mole toda tremendo.

O moleque foi numa trouxa do chão, pegou na roupa do amo, tirou de lá uma chave.

O homem aí ficou com tanta raiva que lhe deu uma coragem:

— Vocês não têm o direito de fazer isso! Podem até ser enforcados! Eu sou funcionário do Governo Imperial!

Eu fiz que perdia a paciência:

— Zé, encoste a arma na barriga do Governo Imperial. Está carregada, não está?

Zé Soldado mostrou os dentes, adiantou o cano do bacamarte:

— Vossa Senhoria quer experimentar?

O homem se encolheu, deu um passo atrás. O ventinho fresco da manhã cedo lhe batia nas costas e ele soltou um espirro. João Rufo, por trás de mim, salvou:

— Deus lhe dê saúde!

Então eu disse para João Rufo:

— Pegue a chave e abra o cadeado. Mas não estrague nada. Eu gostei da canastrinha.

Parece que o homem falava a verdade, quando dizia que era gente do governo. A malota estava cheia de papel escrito.

E o sujeito levantou a voz:

— Viu? Só tem papel oficial aí dentro!

E eu respondi, aborrecida:

— Meu senhor, se componha! Que falta de respeito, quase nu na nossa frente!

E me virei para os rapazes:

— Um de vocês dê as calças dele!

Novo espirro.

— E a camisa também senão ele se constipa!

João Rufo, enquanto isso, remexia nos papéis. E o homem, enfiando as calças, não tirava os olhos dele. Afinal João levantou a mão, segurando um saquinho de couro, bem amarrado na boca, e me entregou. O funcionário deu um grito:

— Vocês não têm autorização de mexer nessa mala! Tudo isso aí é propriedade do governo!

O Roque deu a sua risada (já estava custando):

— Foi do governo. Mas agora é da Dona!

Com as pontas dos dedos desatei os nós da correia que fechava a boca da sacola. Estava cheia de qualquer coisa dura, como pedras. Na verdade, eram pedras: vermelhas, amarelas, roxas, cor de água. Umas poucas, verdes. Bem lavadinhas, dava para ver que eram coisa preciosa. E entre aquelas pedras, de que eu não sabia o nome, estavam cinco pepitas de ouro, de bom tamanho pra pepitas. Aquilo eu conhecia; o Liberato possuía uma, embora muito menor. Fechei de novo o saquinho. Tinha talvez o peso de meia libra de pedras ali.

O homem botou a camisa nos ombros, mas ainda tremia de frio.

— Isso é crime! Estão se apoderando de propriedade do governo!

Eu cheguei o cavalo mais perto dele:

— Eu sei. Mas vista a sua camisa, senão vocemecê adoece. E eu ainda lhe faço um favor: pensando bem, não vou levar a sua canastrinha. Ela é bonita, mas muito sem jeito pra carregar a cavalo. Fico só com este saquinho pequeno, que me cabe no bolso do coxim.

Puxei a perna pra frente, liberei uma ponta larga do coxim, dei ordem ao João:

— Guarde aqui, no coxim. Bote mais pra trás, para não me incomodar.

João Rufo levantou a aba do coxim, tateou, achou o bolso, enfiou lá o saco das pedras.

Com um olhar, reuni o pessoal e dei o sinal de partida.

Roque botou o escravo alto para andar na nossa frente:

— Vá andando, camarada. Faça caminho.

O coitado começou um trote, adiante dos cavalos. Eu tive uma idéia, parei e me voltei para o moleque que ficara junto do amo:

— Tire esses papéis todos da canastra... Espalhe pelo chão... Assim, espalhe bem... Depois, se o seu Sinhô mandar, junte tudo outra vez! Ele não vai querer perder esse monte de papel imperial!

Levamos o refém à nossa frente, correndo, um bom pedaço do caminho. Então paramos e mandamos que ele voltasse para o acampamento.

O negro era de brio. Nos encarou, quieto, com a cara feia. Depois deu meia volta e saiu calmo, sem dizer uma palavra.

Roque levantou o braço com o relho. Mas João Rufo pegou-lhe a mão e disse firme:

— Largue essa moda de bater de relho nos outros. Relho é pra animal. A Dona não gosta. Nem eu.

 

Durante o resto da viagem, de vez em quando, eu sentia o vulto do saco de pedras contra a minha perna. Tinha uma vontade louca de mexer nelas de novo, espiar de uma em uma, ver contra a luz. E as pepitas de ouro!

Quando chegasse no Socorro ia enterrar aquele saco no meu quarto da ‘fazenda’ dentro da mesma botija onde já escondia os meus ouros. Debaixo do chão limpo e socado, a botija havia de estar bem oculta. Só ia precisar mudar de cova quando ficasse pronta a casa da Serra dos Padres. Lá é que eu ia fazer o meu cofre definitivo.

 

A velha Libânia e os meninos, encostados nela, Juco, o velho Amaro de enxada na mão, nos receberam com alegria. E quase choraram quando viram os dois surrões e sentiram o cheiro da farinha nova.

Desde que estavam ali só comiam farinha de caco, feita pela Libânia. Aquela era farinha da farinhada, rapada no caititu, espremida na prensa, torrada no forno de tijolo, como deve ser. Só na fazenda do Sinhô velho tinham comido dela. E assim mesmo regrada, que a negrada era muita e o caixão de farinha tinha que durar o ano inteiro.

Aguardei a noite, deixei a candeia acesa, esperei que os outros dormissem. Peguei um terçado, cavei com ele um buraco na terra batida do quarto, dura que era quase um tijolo. O coração me palpitava um pouco; imagina se alguém buliu ali, na minha ausência!

Mas lá estava a minha botija, o barro vermelho quase se confundindo com a terra do chão. Esfolei um pouco os dedos na luta com a terra pedrada, mas afinal a botija saiu, deixando a sua forma cavada embaixo.

Retirei a tampa de imburana, lá estava tudo. Despejei as minhas riquezas no fundo da rede, fiquei mexendo nelas, ajoelhada no chão. Estava tudo ali: os palmos de trancelim, as memórias de ouro para os dedos, os broches, as moedas, tudo de ouro.

Derramei junto o que vinha no saquinho de couro do funcionário imperial; fiquei espiando as pedras à luz da candeia — pensando como seriam à luz do sol. E ainda não tinham recebido nenhum trato de ourives, era tal como saíram do garimpo.

Fiquei por muito tempo passando entre os dedos o meu ouro e as minhas pedras. Não que eu gostasse tanto assim daquilo — nem me sonhava aparecendo para o povo com tanta riqueza em cima de mim. Mas eu sabia que é o ouro que dá o poder aos ricos. Com ouro se compra terra, gado, armamento; com ouro se compra boa vontade, até amizade; com ouro se paga missa, se faz igreja. O Liberato falava de um barão que ele conheceu no Recife e tinha comprado a nobreza com um saco cheio de oitavas de ouro em pó. Igual ao ouro daquele frasquinho que vinha no fundo do saco do funcionário imperial e que eu só fui descobrir quando virei a camurça do avesso.

Nem sei quantas horas fiquei ali, embelezada com a minha semente de riqueza. De repente me deu medo de que amanhecesse o dia e me pegassem com a minha rede cheia de ouro.

Devolvi tudo à botija, tapei bem e voltei a enterrar o meu tesouro no buraco de onde tinha saído. Puxei a terra com as mãos, pisei em cima, encalquei, rematei alisando com a folha do terçado, molhando por cima com a água da moringa que toda noite Libânia me trazia.

Quando acabei, o dia já estava claro, o pavio da candeia queimado — eu nem dera fé de nada.

Já ia me deitar quando tive uma idéia: peguei a outra botija que as índias tinham me dado e que ainda estava vazia, enchi de terra até mais do meio. Saí fora de casa e catei pedrinhas miúdas que sempre havia delas por ali, e enchi desses seixos o saco do funcionário imperial, que eu tinha deixado fora da botija. Amarrei bem, com nó cego. Acabei de encher a segunda botija com o saquinho, tapei bem e chamei João Rufo:

— Olha, João, botei nesta botija os ouros da fazendeira velha, o saquinho do homem do governo. Pegue uma pá e uma enxada e vamos enterrar a botija embaixo do juazeiro grande. Fica sendo lá o nosso cofre. Quando estiver bem cheio, a gente começa a repartir.

Procurei ser nem tão discreta que não desse nas vistas de ninguém; nem tão apresentada que desse para eles desconfiarem de algum fingimento.

João Rufo fez o enterro da botija com um certo mistério, o que era de se esperar dele: aguardou que o pessoal saísse, uns para a guarda, outros para a pesca na lagoa, outros pra caçada. Mas eles sempre notaram o movimento, decerto cochicharam uns com os outros e era isso que eu queria. Me sentia mais segura e mais seguro o que era meu. Se algum mal-intencionado tentasse me roubar a botija dos ouros, ia cavar debaixo do juazeiro grande, que era um ponto de referência seguro. Um juazeiro dura mais que dez vidas de homem.

Desde o dia da chegada comecei a exercitar os rapazes para uma tarefa especial. A gente ia precisar de ferramenta para a construção: machados (nós só tínhamos um), pás, enxadas, picaretas, cavador, foice, serrote, martelo; um bom cepilho ou plaina e mais todos os ferros pequenos do uso de um carpina. E para dar emprego a toda essa ferramenta, se carecia de um carpinteiro. Tinha que se pensar nos portais, nas portas e janelas. No preparo das linhas que iam sustentar o telhado e os seus encaixes e emendas.

Ah, minha casa não ia ter porta de vara, como a barraca do Socorro.

Fizemos uma reunião no terreiro da ‘fazenda’. Chamei todos, menos os dois velhos e as crianças, que não precisavam saber do que não era da sua conta: e isso era uma garantia até mesmo para eles. Caso algum curioso ou malvado quisesse arrancar informações do Amaro, da Libânia ou das crianças, eles não sabiam nada pra contar a nosso respeito.

Eu tinha dois planos.

Primeiro: assaltar um armazém ou uma loja na Camiranga, ou em outro lugar povoado. Segundo: assaltar uma fazenda, pegando os ferros no depósito de material e ferramenta que toda fazenda tem. Para qualquer das duas propostas, carecia muita preparação. Tinha-se que ficar de olho no lugar escolhido, descobrir tudo a respeito do pessoal de lá. A que horas dormia, quando saía e quando voltava do trabalho. Se tinha cão de guarda — com certeza tinha — quantos e na casa de quem; a que horas se apagava a candeia em cada casa — não se fosse cair numa noite de novena ou cantoria.

O Roque tomou a palavra. Ele conhecia bem aquele pedaço de sertão, pelo menos umas trinta léguas em redor.

Na Camiranga só havia duas bodegas e essas mesmo muito mal sortidas. As sacas de feijão, milho, e farinha do costume, surrão de rapadura; alguma cachaça e olhe lá. Ferro pra vender, duvidava. Só os de uso dos donos, passados de pai a filho, muita vez só aquele caquinho de machado, já sem corte.

Agora — e aí o Roque fez gesto de quem descobre grande segredo — ele sabia era de uma fazenda. Não ficava perto; duas vezes a distância da Camiranga, desviando para o rumo do poente. Se chamava a Fazenda Pau Ferrado, e ficava a umas quatorze léguas do Socorro.

O dono, diz o povo que é o homem mais rico deste sertão. Chamam ele de Capitão Tertuliano; é um velho barbudo, gordo e malcriado; tem muito negro na fazenda, uns dez no eito, só na planta do algodão. Mas o forte dele é o gado. Se diz que ele tem mais de cinco mil cabeças de gado. Tem também a fama de ser meio carrasco com os cativos. Os vaqueiros, que são caboclos, se o velho aperta muito com eles, se somem na catinga e vão procurar outro canto.

— Você já se avistou com o homem, Roque?

— Só de longe; eu ia a cavalo e escutei o vozeirão dele passando um carão no moleque. Muito brabo. Dizem os caboclos que o Capitão Tertuliano se pabula de que, na Fazenda Pau Ferrado, só se compra o sal e a baeta. Tudo o mais se tira de lá. O algodão as negrinhas fiam e tecem. Queijo, doce, rapadura, mel de engenho, farinha, carne seca de sol, peixe, tudo se produz lá.

— E nesse Pau Ferrado tem carpinteiro? — eu perguntei.

— Tem carpinteiro, sim senhora; com a sua tenda, onde não falta de um tudo. Tem curtume para curtir sola; tem ferreiro para bater os ferros. Tem pedreiro — eu mesmo falei com ele — que fez um forno de barro, dos redondos, de quase meia braça. Que dava pra assar um capado inteiro...

Eu fiquei meditando. Dentro da minha cabeça estava armando as coisas e fazendo planos. Os homens se puseram a comentar em voz baixa as idéias deles. Afinal me virei pro Roque:

— Você conhece bem a posição de tudo, nesse Pau Ferrado? Sabe se tem alguma guarda de noite?

— A fazenda a bem dizer é uma cidade, Dona Moura. Tem a casa grande, um galpão comprido que serve de senzala dos escravos, as casas dos vaqueiros, a estrebaria, o paiol, a tenda do ferreiro, e a do carapina...

— E esse carapina mora na tenda?

— Mora pegado. Conheço ele até bem. Mestre Quixó é meio esquisito, viúvo, ele mesmo cozinha o comer dele.

— Pois então vamos fazer assim: vocês saem, todos os cinco. Levem mais o Juco com a burra e deixem o menino esperando num ponto bem seguro, o mais perto possível da sede da fazenda. Daí vão a pé, levem uma rede com vocês, depois explico pra quê. Procurem tomar a chegada no arredor da casa grande, quando já for noite com escuro. O Roque leva vocês, primeiro no depósito dos ferros da fazenda. Se a porta estiver trancada não arrombem: subam no telhado, retirem umas telhas e passem pelo buraco aberto: carreguem machado, foice, terçados — tudo que a gente precisa. Depois vão na tenda do carapina e peguem os ferros dele; botem tudo na rede, cubram com umas folhagens para disfarçar e parecer que é um defunto que vai dentro. Carreguem como quem carrega mesmo um morto e nem precisa fingir muito, porque o peso dos ferros vai ser grande. Sim, e peguem também o velho, amarrem mas não maltratem, que a gente vai precisar muito desse mestre.

— E se o velho gritar?

— Vocês amordaçam ele. Mas não batam, já disse. Se ele é assim esquisito, pode até mais tarde se acostumar com a gente.

— Quatorze léguas é bem longe pra se trazer esse peso todo numa rede.

— Deixem o Juco no lugar mais perto que for possível, como eu mandei. Mas sem risco. Vocês são cinco, podem ir se revezando no carreto. Podem até pegar de quatro, de uma vez.

— Quem fica aqui com a Dona?

— João Rufo. Espero que, na ida, vocês façam as quatorze léguas em três dias, no mais. E isso pra não estropiarem os animais. Na volta é que tem que ser mais demorado, levando em conta a carga.

Eles ficaram alvoroçados como meninos. Daí, fora o Roque, não passavam de meninos, mesmo.

De arma, levaram o bacamarte e a garrucha com alguma munição. Cada um com a sua faca. Eu recomendei o mais que pude o cuidado constante: se cheguem no escuro, no maior silêncio. Se forem vistos corram se esconder, de tal jeito que eles possam pensar que era assombração... Só atirem se ficarem acuados. Eu não quero valentia de ninguém! Olhem lá! Só quero a ferramenta e o carapina.

Encomendei um bom farnel à Libânia, para eles não se atrasarem com a caçada ou furto de comida pelo caminho. A Libânia sabe o que faz.

 

Saíram de madrugadinha, ainda escuro. Eu fiquei de coração nas mãos. Era a primeira empreitada grande que eu entregava só a eles. As correrias das parelhas, antes disso, pareciam agora brincadeira de moleque.

O Juco montou no meio da carga, glorioso. O Roque disse que conhecia, já bem dentro da terra do Pau Ferrado, um curral velho abandonado, onde os vaqueiros da fazenda, anos atrás, costumavam reunir o gado que eles pegassem no mato. Podiam deixar lá os cavalos, agora.

João Rufo estava meio aborrecido por não fazer parte da estripulia. Eu disse que não gostava de ficar sozinha, ele se aquietou. Na verdade eu tinha medo da prudência dele, João. Tem coisa que só gente meio maluca pode levar a cabo.

No sétimo dia, uma semana inteira, o sol já bem alto, eles chegaram. Nos cambitos, em cima da cangalha da burra, uns enrolados grandes com a ferramenta.

A rapaziada vinha cansada mas radiante. O Mestre Quixó não reclamava nada, e nem mesmo tinha mordaça. Maninho o trazia montado na sua sela, ele próprio na garupa, segurando o velho pela cintura, as mãos atadas, bem frouxo. Mas tinha sido um sacrifício levar o mestre da fazenda até o curral velho. Ele se recusava a andar na pisada dos outros; atirou-se no chão e declarou que podiam matar ele mas não dava mais um passo, que não tinha condição. Os rapazes, já debaixo do peso da rede dos ferros, tiveram que carregar o velho quase arrastado, riscando o chão com os pés. Mas, depois de montado, vinha até se rindo! E os dois cavaleiros não chegavam a sacrificar o animal: “O mestre tem o peso de um bode magro!”

Mestre Zé Quixó era um velhote escurinho, magrelo, cabelo pintado, sal e pimenta. Não vinha rindo coisa nenhuma, pôs-se a esfregar as juntas, de cara feia, quando lhe desataram os amarradilhos. Pediu água. Eu fui falar com ele:

— Como é a graça de vocemecê?

— José Nascimento da Conceição, seu criado...

E eu fui ainda mais macia:

— Mestre, eu sei, o meu convite foi meio grosseiro, mas os meninos já calculavam que, por seu gosto, o senhor não vinha...

Ele ficou calado, emburrado, depois voltou a esfregar os pulsos.

— Eu preciso do senhor e da sua arte. Quero o carapina e os seus ferros. Não vê, eu pretendo levantar uma casa de fazenda para mim, mas que seja um casarão. E esses meus meninos não sabem nem pegar num serrote... E o senhor é que eu quero que seja o meu mestre-de-obras.

Mandei a Libânia dar comida e água ao mestre. Era pra todo mundo tratar dele à vela de libra. A Libânia logo se apossou da ‘visita’, carregou com ele pra barraca. Fiz sinal a João Rufo:

— Fique de olho nele. Isso tem cara de tinhoso, é capaz de escapulir das mãos da negra velha...

Mestre Zé Quixó reconhecia o Roque. E isso ajudou, porque o meu cabra começou a contar as grandezas da Serra dos Padres: que ali a gente ia situar um fazendão; cada um dos meus cabras ia ter o seu pedaço de terra, criar o seu gadinho...

Fiquei ouvindo, não gostei das propostas do cabra. Não desmenti, mas se é isso o que ele espera, está muito mal enganado! Seria essa mesmo a idéia dele? Eu precisava trazer o Roque na rédea curta. João Rufo é que ia me ajudar a botar freio naqueles entusiasmos.

Daí pra diante, tudo correu acelerado. Agora, era preparar a grande mudança.

Todo mundo montado, dessa vez até o Roque. Os meninos tinham arranjado mais dois animais, nas suas idas e vindas. Deu para levar a carga toda, até Mestre Zé Quixó, que por sinal era muito bom cavaleiro.

No escuro da meia-noite, com todo mundo dormindo, eu desenterrei a minha botija. Tirei o que tinha dentro dela, fiz uma trouxa com os ouros e as pedras, botei no saco, no meio da minha roupa que eu ia levar comigo, atada na garupa do Tirano.

Enterrei no buraco a botija vazia, tapei bem, encalquei a terra, alisei. Pareceu que não dava pra desconfiar de nada.

Saímos quando a barra levantava; Libânia, como sempre, chorava feito um olho d’água, abençoando o Juco de momento a momento, rogando bênção como quem roga praga, em voz alta e a mão erguida.

O Juco já tinha que sumir do Socorro. O próprio avô veio me pedir que levasse o menino; pois se passasse por ali o capitão do mato e visse aquele moleque taludo — já sabe. Era mais um negro pra ele cobrar resgate do Sinhô.

Mestre Quixó não fez dificuldades; parece que estava gostando de viver conosco, dos carinhos e papinhas da Libânia. O pessoal até brincava, dizendo que ele qualquer dia ia roubar a negra velha, levar ela na garupa e ganhar o mundo.

Cada um levava a sua arma à bandoleira. Isto é, quem a tinha.

E eu me mirava neles, os meus cabras. Deus que me perdoe, mas até se podia dizer que era uma tropa bonita, gente nova e resolvida. E agora, que já se conhecia o caminho para a Serra dos Padres, a volta ia ser quase um passeio.

Os tabuleiros também estavam lindos. Mês de julho — fins d’água, a terra agradecia as chuvas e rebentava em flor.

 

Não tivemos nenhum encontro importante, em caminho. Uma família de caboclos, com os trastes na cabeça, quando viu a cavalhada levantando poeira, correu tudo se esconder no mato.

Fora eles, um ou outro camarada com a enxada no ombro, tudo encontro casual. Passou-se por toda parte sem perigo. Àquelas alturas, a gente é que era o perigo.

 

Afinal avistamos a serra. Parecia ainda mais bonita, depois que perdeu o mistério: já se sabia o que ia se encontrar nas entranhas daqueles serrotes. Eu, então, já via a minha Casa Forte levantada, encostada na pedra. E olhava as vargens onde ia pastar o meu gado. Vez por outra, em caminho, encontrava alguma rês, procurando pasto aberto, fora da mata; era o ‘gado do vento’ sem marca e orelhudo. Cada um podia pegar e levar. E eu ia ter que formar os meus vaqueiros — paciência não me faltava; nem paciência, nem esperança.

De longe, trepado numa ponta de pedra, o Pagão nos avistou. Pôs a gritar pela mãe, pulando, quase se atirando lá de cima. Afinal desceu berrando, sem parar:

— Mãe, mãe, é eles!

Nem sei como não foi atropelado entre os cascos dos animais. Atrás da Jove, que também se mostrava, apareceu o velho Zé Luca:

— Eu estava lá em cima, mas vi a poeira se levantando com a cavalhada. Desci pra salvar a Dona e os seus meninos.

Pegou no meu estribo, eu saltei no chão sentindo que pisava no que era meu.

E o Zé Luca se curvou, varrendo o chão com o chapéu:

— Já achei a mina de barro de telha e a do tijolo. Com aquele material, dá pra fazer até uma igreja!