Memorial de Maria Moura
Cap. 36 — Maria Moura
Maria Moura
AINDA NA AUSÊNCIA de Duarte, Cirino teve que fazer uma pequena viagem. Era a pedido do pai; o Seu Tibúrcio precisava de se avistar com o filho. Queria que ele assinasse o formal de partilha da mãe, morta há mais de dez anos, sem que se tivesse feito nada do inventário, que vinha se arrastando esse tempo todo.
Mas como o velho não desejava vir de novo à Casa Forte, pra não chamar atenção, nem Cirino podia chegar perto do Garrote, combinaram encontro na fazenda de um amigo seguro.
Mandei Roque acompanhando Cirino, que foi de novo disfarçado de vaqueiro, como da primeira vez.
Cirino fez festa a Roque, quando o viu chegar com os cavalos; e como eu lamentasse Duarte estar ausente: que é que o pai ia dizer vendo que o filho lhe chegava só com um guarda-costa! E eu, principalmente, ficaria mais tranqüila se o visse acompanhado pelo meu primo.
Cirino se encrespou:
— Detesto essa sua afetação de chamar aquele moleque de primo!
Eu só fiz sorrir (se ele soubesse o que Duarte também dizia — e pensava! — dele), depois lhe bati de leve no ombro:
— Deixe de malcriação! Faça a sua viagem e me volte em paz e salvamento!
E acontece que com Cirino eu ainda ralhava; com Duarte não tinha coragem de dizer nada, me doía a consciência. Afinal foi ele que perdeu, com a vinda do outro.
Pode até ser ingratidão, mas com aqueles dois ausentes, me sentia mais solta, mais desobrigada, andava pela casa, dava ordens à Rubina, chegava até a ‘usina’, fechada e misteriosa.
Mandei Pagão me selar o cavalo e saí galopando, no rumo da lagoa. Tinha andado quase nada quando encontrei o Beato Romano. Estava com uns cinco dos meus homens, ele sentado numa pedra, com uma varinha na mão. Levantaram a cabeça ao me ver, mas não se assustaram: não deviam estar fazendo nada de ruim.
O Beato se pôs de pé, apontou com a vara para o chão: num pedaço de terra que eles tinham alisado, dava para se ver umas letras riscadas. Beato Romano se aproximou:
— Estou tentando ensinar a ler a estes rapazes.
Maninho e Alípio, que eram do grupo, se levantaram junto com os outros e falaram meio encabulados:
— A gente é muito rudo, tem cabeça dura...
Eu me dirigi ao Beato:
— Por que vêm se esconder a esta distância, pelos matos? Em casa tem muito quarto que pode servir de escola.
Beato Romano abanou a cabeça:
— Não ia dar certo. Os rapazes já estão muito encruados nessa vida deles. Só vêm aqui comigo de vez em quando, têm medo de que os outros zombem deles — e aí pode sair briga.
— Pensei que o senhor fosse ensinar a eles era o catecismo...
Alípio se meteu:
— Ele conta pra gente a História Sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo — e como Deus criou o mundo, e como o Caim matou o Abel, e o Rei Davi matou o gigante Golias...
Um dos outros, um tal de Manduquinha, recruta novo, interrompeu:
— O que eu gosto mais é da história da cobra e da Eva.
Eu me lembrei de um assunto e disse ao Padre:
— Beato Romano, por favor feche a escola por hoje, que eu preciso conversar com o senhor.
Desde aquele dia da sua chegada à Casa Forte eu não tinha me aproximado quase nada do Padre. Depois de acomodado num quartinho, no alojamento dos homens, aos cuidados de João Rufo, ele a princípio só cuidava de dormir, comer (pouco), dar uns curtos passeios por perto. João Rufo me dizia que o pobre do Beato estava tão fraco que até um pé-de-vento era capaz de dar com ele em terra.
Os cabras gostaram dele, gostaram muito. Lhe tomavam a bênção e, quando saíam ‘com ordes’, pediam que ele fizesse o sinal da cruz na testa de cada um.
Vendo isso, uma vez, eu me admirei:
— O senhor não sabe para onde esses homens vão?
E o Beato levantou os olhos para mim, muito sério:
— Eles não me contam, mas eu adivinho, claro. Prefiro, contudo, não saber ao certo.
Eu não entendi bem:
— Mas Padre — desculpe! — Beato, o senhor, quando me procurou, não sabia qual era o nosso meio de vida?
O Beato ficou ainda mais sério, demorou um pouco a falar:
— Quando eu procurei a Casa Forte, estava ferido e maltratado, caçado como uma besta fera. Em todo estranho que eu encontrasse, só via alguém que podia me levar à forca.
Eu quis aliviar o assunto e disse, meio brincando, meio séria:
— Bem, eu não sou contra o senhor ensinar catecismo aos rapazes, mas não vá longe demais. Se a minha cabroeira se converter, virar tudo penitente e sair atrás do Beato, tocando matraca — que é que eu faço?
Ele não achou graça. Era um homem que não achava graça em coisa nenhuma:
— Eu só ensino um catecismo muito simples. E os dez mandamentos.
— Sabe, Beato, falando em mandamentos — na escola também me ensinaram. A gente aqui, nesta vida, não tem como cumprir tudo. Pode ser que, na rua, com Padre, delegado, juiz, advogado, possa vogar a lei dos mandamentos. Mas aqui? O senhor mesmo é prova; matou para não morrer e anda caçado como se fosse um animal feroz. E matar um demônio ruim como o Anacleto, ou um inseto como o meu primo Tonho, isso poderá ser o pecado de que fala o mandamento?
— O mandamento só diz “Não matarás”.
— Mas é justo? É certo? E quando eles querem matar a gente?
O Padre ficou calado. E eu continuei:
— Pra mim, a lei que vale é a do “Ou ele ou eu”. Se os meus cabras...
O Padre me interrompeu:
— Dona Moura, eu só ensino mesmo os elementos do catecismo; e porque eles pedem. Não tem perigo que, de repente, eles queiram virar santos. E quem sou eu para fazer de alguém um santo! Logo eu!
Enfiou o chapelão de palha na cabeça, apertou a corda da cintura e ia se despedindo quando eu lhe segurei a manga da samarra:
— Quando cheguei aqui, eu disse que tinha um assunto pra lhe falar. Pode ser importante.
Ele logo me encarou com aqueles olhos de carneiro acuado e eu tentei amenizar:
— Também pode ser bobagem.
O Padre se impacientou um pouco:
— Mas o que é?
— Foi o Pagão; ele estava conversando com os homens, eu ouvi um pouco e interroguei o menino: dizia ele que ‘ternantonte’ lhe apareceu um homem na estrada, quando ele saía do pátio, levar os cavalos pro cercado. O sujeito indagou se ele era da fazenda, gabou os cavalos, e aí tirou do bolso uma moeda de dez réis que deu ao menino para ele responder a uma pergunta. Eu até pensei que fosse coisa com aquele moço, o Cirino, que está asilado aqui. Mas não era. O homem queria saber do Pagão se a gente tinha um Padre morando na Casa Forte: o menino disse que se lembrou logo do Padim Beato, que a bem dizer é um Padre, mas não disse nada, porque teve medo do homem. Aí o sujeito perguntou se não tinha aparecido algum homem de barba grande, podia até nem estar trajado de Padre, só pra se esconder. O Pagão continuou negando, aqui não tinha ninguém desse jeito. E aí o homem fez uma cara zangada, lhe segurou o braço e disse o Pagão: “Eu pensei que ele queria tomar o derréis, mas era só pra me jurar: se você estiver mentindo, seu moleque, eu venho aqui e te capo. Dito isso, o homem deu meia volta e foi-se embora.”
Perguntei se o homem estava armado, mas, segundo o menino, só trazia a faca de costume, no quarto. Como eu lhe disse, Beato, pode ser maluquice do Pagão, mas me lembrei de que poderia ser um dos rastreadores que andam atrás daquele prêmio de um conto de réis.
Eu falava meio leviana, sem esperar reação maior do Beato; mas de repente ele levantou a vista e eu me espantei com o resultado da conversa. Estava branco, branco. Foi-se deixando cair sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos pontudos que a samarra cobria. Tremia as mãos e gaguejou:
— Então eles me acharam.
Levantando os olhos, me fitava, fixo, com aquela cara nova, apavorada:
— Alguém deve ter descoberto e contado a eles que eu vim parar aqui. São eles!
Eu morria de pena:
— Se acalme, Beato. Aqui, da minha casa, ninguém lhe tira.
Ele me encarou com uns olhos que já não eram só tristes, mas pareciam duros de raiva:
— Não é da morte que eu tenho medo. A morte que venha, quando chegar a minha hora. Eu confio na misericórdia de Deus. Mas estou cansado de correr, Dona Moura. Aqui, ajudando os homens, ensinando um pouco da doutrina, eu achava que estou cumprindo a minha penitência. Principiando a cumprir, pelo menos. Mas agora, vai começar tudo de novo. Tenho que voltar a ser um errante. Um proscrito, um vagabundo.
Cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, baixinho, mas com cada soluço fundo que lhe abalava as costas.
— Não quero cair nas mãos deles.
Eu não sabia o que fizesse para consolar o coitado. Sei, por mim mesma, o que é uma pessoa se sentir acuada. E, então, tive uma idéia:
— Não se assuste, Beato. Não vai acontecer nada com o senhor. Eu sei o que estou dizendo. Mesmo que eles venham lhe caçar até aqui, dentro de casa, o senhor vai estar seguro.
Fiz uma pausa, peguei no braço dele pra que se levantasse, enfiei as rédeas do cavalo no braço e fomos marchando lado a lado, de volta para casa.
E até sorri, para aliviar um pouco a situação:
— Vou lhe mostrar um segredo. Mas é como se fosse um outro segredo de confissão. Deixe chegar lá em casa.
O Padre foi me acompanhando, calado, dócil como uma criança assustada.
Em casa, levei o Beato até o meu quarto. Fechei a porta e pedi que ele afastasse o baú, descobrindo o alçapão. Tirei a chave do cós, abri a fechadura de segredo. Fui na cômoda, peguei uma vela, custou a sair faísca do artifício mas afinal acendeu. Botei a vela acesa na mão dele e mandei que entrasse lá.
O Beato recuou a princípio, mas depois tomou coragem e entrou pelo alçapão. Demorou lá dentro talvez um minuto e voltou muito admirado:
— Ninguém nunca me falou disso. Nem o Duarte.
— Mas ele sabe. Só quem sabe sou eu, ele e o João Rufo. Quem fez a obra já morreu.
O Beato olhava as paredes lisas do quarto, foi até a sala, comparou — não dava para desconfiar de nada! E eu prometi:
— Está vendo como é seguro? Se acaso — o que eu acho impossível —, mas se por acaso algum inimigo poderoso invadir a Casa Forte à sua procura, eu lhe escondo aqui. Já deixei uma vez uns soldados correrem a casa toda, atrás de um homem que eu tinha metido aí no cubico. Não encontraram ninguém.
Ele levantou os olhos:
— Como é o nome?
— Cubico. O nome é esquisito mesmo. Mas é assim que se chama.
O Beato pensou um pouco!
— Deve ser cubículo. Do latim cubiculum. Agora entendi.
Eu achei graça:
— Latim e Padre é como carne e sangue. Não se separam nunca.
O Padre fez um sorriso também:
— Só com a morte. Mas essas pessoas que a senhora escondeu não saíram por aí, contando?
— Não. A gente faz um mistério muito grande. E bota uma venda nos olhos da pessoa, diz que é um esconderijo no fundo do armazém. O senhor não viu lá dentro uma candeia? Só se acende essa candeia quando é para entregar o prato de comida, e isso de noite. Eles acreditam em tudo, ficam tão agradecidos que nem especulam nada. Só querem mesmo ter a vida salva. Saem de novo com a venda nos olhos, a gente dá voltas e voltas neles, e vai soltar o infeliz bem tonto, no meio do terreiro. E, ademais, muito poucas pessoas têm ocupado o cubico até hoje. A gente não facilita.
O Padre pediu licença, passou do quarto para a sala, foi ao outro quarto, estudando as paredes, resmungando: “Que engenho! Não parece coisa de mulher! Que cabeça! A senhora devia ter estudado, Dona Moura... ia ser melhor do que muito doutor!”
Eu contei:
— Bem, a idéia não foi minha. Pai que me falava no cubico da casa do avô dele, onde tinha um igual a este. Ele até me deu num papel o risco. Não para eu fazer outro igual, isso ele nem sonhava, mas para eu entender direito quando ele me contava. Guardei este papel toda a minha vida. Nem tinha idéia de que ia usar aquilo algum dia, mas guardava, porque era lembrança de Pai. No dia do incêndio, botei o papel, junto com outros, na trouxa dos salvados. Os outros eram lembranças de Mãe.
Beato Romano, a mão no queixo, resmungava:
— Cubico... cubículo... cubiculum...
Afinal virou-se para mim:
— Gostei do cubico. Assim mesmo, tenho que tomar cuidado nas minhas saídas para fora da fazenda.
— Eu sei que o senhor gosta de subir pela serra. Por lá é muito difícil de lhe rastrear, não tem acesso nenhum por perto. E pela entrada daqui ninguém passa, só os da casa.
O Beato Romano fez um pequeno sorriso e me convidou:
— Quer ir comigo ver a horta? Pra desanuviar um pouco. Faz dias que a senhora não vai lá. Ainda não lhe mostrei o meu canteiro novo de couve.
E eu saí para a horta com ele, contente de ver que o pior já tinha passado. Mas quando batesse a noite, o escuro, trancado naquele quartinho, só Deus sabe o que ele ia sofrer, atacado de novo pelo medo. Medo é muito ruim, eu sei.
As couves estavam mesmo uma beleza. E o Beato de novo me corrigiu porque eu, como todo mundo daqui, tinha dito ‘o couve...’