Memorial de Maria Moura
Cap. 3 — O Beato Romano
O Beato Romano
SAÍ DALI ZONZO. Tinha sido fácil demais. Meu Deus, eu que pensava ir encontrar uma fera — encontrei o quê? Um chefe de bando, um comandante, uma sinhá governando a sua senzala?
Ela mandou que o João Rufo me arranjasse uma rede. Jogaram no chão a trouxa que eu trazia e o João Rufo disse:
— Tome os seus molambos!
Mas falou quase como se fosse uma prosa, uma brincadeira. Via-se que não estava seguro a meu respeito; no começo me tratou com pouco caso, arrogante, mas agora parecia desconfiado. Não sei se engoliu a história do Beato Romano; eu não tinha chegado ali com roupa de beato, mas de calça e blusa, como um homem qualquer. E a espingardinha velha não era de cabra de respeito, a faca só servia pra picar fumo. Que é que eu vinha fazer para a Dona Moura, se não era um guerreiro?
E João Rufo chegou a me fazer essas perguntas, enquanto eu atava as cordas da minha rede. Pequena e ruim, por sinal. Me deram também um prato com pirão de peixe cozido, e um taco de rapadura.
Eu ainda pedi ao homem notícias do meu cavalo.
— Se não morrer de tão estropiado que está, vai engordar solto. Ainda tem por aí muita capoeira com pasto.
Na rede, onde eu caí, não devia parecer um adormecido, mas um defunto em caminho da cova. Só de ceroulas, sem camisa, o calor tão forte... Queria pensar, mas morria de cansado. Deus do céu, o que iria pela cabeça da Dona? Lembrar, ela lembrou tudo, disso eu tenho certeza... Mas a minha dúvida é outra: que é que ela vai fazer de mim? Não sei se acreditou na minha história e se a aceita. Quem sabe me mata?
Ora, se quisesse me matar já tinha feito... Mas, por outro lado, para que ela vai me querer vivo? Que serventia eu posso ter, nesta praça de guerra? Talvez ela ainda mande os cabras me darem um aperto. E pode ser que eu agüente. Afinal, mesmo debaixo de confissão, não posso dizer nada que interesse à Dona. Nada. Toda a minha tragédia se passou depois que ela foi embora. Na gente com quem eu andei e ando, ela nunca ouviu nem falar. Gente sem poder... sem dinheiro... sem força... Deus do céu, creio que, pelo menos por agora, eu já posso dormir.