Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 18 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 17 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

 

MINHA VIDA tinha se tornado um tormento — todo o meu dia-a-dia extremamente perturbado. Celebrada a missa, quebrado o jejum com um prato de coalhada que me trazia Dina, mãe de Onofre, minha caseira, eu não sentia mais gosto em sair no meu passeio matinal, procurando o lado da sombra nas calçadas, cumprimentando os amigos, fazendo uma cruz na testa e abençoando as crianças, ouvindo as queixas das pessoas, doenças, dificuldades de vida, o rol de mazelas da pobre condição humana.

Eu já não me comportava mais como o bom vigário que tenta compartilhar da vida dos seus paroquianos.

Tinha a impressão de que os olhares sobre mim estavam mais esquivos e mais curiosos. Qualquer palavrinha, talvez inocente, me deixava suspeitoso e irritadiço. Que seria que ele ou ela queriam mesmo dizer? E, para fugir aos olhares e aos comentários, eu me trancava em casa, tentando ler um livro devoto. Mas a cabeça não estava na letra nem na alma da leitura; e eu punha o livro de lado.

O que mais me aliviava era montar a cavalo, sair na rua, entrar pela primeira estrada, deixar o cavalo tomar galope e corrermos os dois pelo mato, que começava logo ao pé das últimas casas. Era bom receber o vento no rosto, até mesmo receber o açoite de um ramo de árvore mais adiantado, que me pegava de repente.

Mas não era sempre que eu podia me entregar a essa espécie de fuga, já que não tinha cavalo de meu. A côngrua mesquinha, a pobreza das espórtulas, mal dariam para me manter vivo, se a caridade dos paroquianos não se manifestasse com agrados carinhosos para o seu vigário: um bolo de carimã, um queijo, um capão gordo. No último Natal, a congregação, vendo o estado lamentável da minha batina do diário, fez entre si um peditório para me comprar uma batina nova, bem talhada e bem acabada por um alfaiate de fora. Eu nunca tinha tido uma batina assim, a minha do diário era feita por costureira.

Promovi a batina nova a batina de luxo e a que era dantes a ‘nova’ passou a ser a do diário. A velha, dei-a de presente a uma viúva pobrezinha, para que fizesse daquilo uma saia preta.

E a viúva, recebendo o presente, dobrou-o bem, ficou alisando no colo as pregas do pano, e pediu licença para tomar um atrevimento:

— É que sou muito agradecida ao senhor; não é a primeira vez que me faz uma caridade.

Hesitou um pouco para dizer o resto, afinal tomou coragem:

— Queria avisar o senhor que tome cuidado com a língua do povo. Já estão ignorando dessa moça casada com o marido longe, e o que se fala é que ela está sempre, viva e morta, no seu confessionário... Aquela Iria, a escrava da moça, conversa com a gente quando vai bater roupa na cacimba do riacho. Eu mesma já ouvi a Iria dizer que o Senhor Vigário é louco pela Sinhazinha dela. Só não dá demonstração com medo da Sinhá velha. Mas agora que a Sinhá velha morreu...

Eu me pus de pé, de braços cruzados, na frente da criatura:

— E o que é que vocemecês querem que eu faça? Eu não posso amarrar a língua do povo! Não sou louco por moça nenhuma, casada ou solteira. Se essa moça de que falou é a mulher do Seu Anacleto, o que eu posso lhe informar é que só fui à casa dela uma vez, para dar a Extrema Unção à sogra.

— Elas falam que o Senhor Vigário vive confessando a Belinha!

— E as senhoras acham que o padre pode namorar alguém durante a confissão? Com as beatas espiando, de ouvido arrebitado, resfolegando nas costas da penitente ajoelhada no confessionário? Mesmo que eu quisesse — e não quero! — era impossível.

A velha se assustou um pouco com a minha alteração:

— Eu não estou dizendo que vocemecê faça nada, Seu Vigário. Só disse que o povo fala; eu, eu sei que é falso testemunho. Só lhe contei pra vocemecê tomar cuidado.

Aí ela fez outra pausa e de novo levantou os olhos para mim:

— E aquela Dona Bela é uma moça muito imprudente. Eu conheço ela.

Agradeceu de novo, deu boa tarde e saiu.

 

A casa do vigário tinha um quintal fechado com boa cerca. No fundo, um portãozinho dava para um beco quase sempre deserto, serventia de outros fundos de quintal com os seus portõezinhos iguais ao meu, por onde transitavam os escravos de cada casa. Por ele (só fui saber disso mais tarde) à noite, deu para entrar a Iria, aquela escrava embiocada e mucama de confiança de Dona Bela. Eu ouvia raras vezes as conversas das duas na cozinha, ela e a Dina; o som vinha sempre fraco porque o corredor é grande. A Dina gozava de muita liberdade em minha casa; e, entre essas, a liberdade de receber visitas. O caso é que Dina não era escrava minha — de onde iria eu tirar dinheiro para comprar escrava? Pertencia a uma beata da vila, viúva rica, que a cedera por empréstimo para servir na casa do vigário — quem quer que ele fosse. Eu não era o primeiro; nem a Dina a primeira. Logo que cheguei, estava de serviço uma Maria Miudinha que, meses depois, morreu de parto. Só então me mandaram a Dina, com Onofre para me servir de pajem, o que me fazia um bom arranjo.

E eis que, numa sexta-feira, já noite escura, tinha ido eu repousar um pouco — a cabeça me doía feroz, numa daquelas enxaquecas que eu carregava como um castigo, desde os tempos de seminarista, quando um leve ruído me fez abrir os olhos e vi que, de pé, junto à minha rede, se postava uma mulher toda enrolada num xale preto.

Eu estava certo de que fosse a Iria, a escrava de Dona Bela. Levantei a cabeça, meio tonto, ralhei:

— Que é isso, mulher? Que é que veio fazer aqui, a estas horas?

A mulher descobriu o rosto. Não era a mucama Iria, era a própria Dona Bela.

O que então se passou, não sei. Pelas Cinco Chagas de Cristo, juro que não sei.

Eu estava semidespido na rede, voltei-me procurando um lençol para me cobrir o corpo — e quando vi ela estava nos meus braços, ou eu nos seus braços — que sei? Era a vida e era a morte, era o abismo, a perdição. A mulher, o perfume, o corpo macio. A paixão, meu Deus. A paixão. Senti que ia morrer e não me importava de morrer. Devemos ter caído os dois na minha dura cama de padre. Nela morremos juntos, os dois.

 

No outro dia ela voltou. E o meu corpo e o meu coração a esperavam. Durante uma semana inteira ela veio, e me parecia uma conjuração provocada por um sonho: a sombra escura que entrava, leve como se não pisasse o chão, o xale preto que caía sobre o ladrilho do quarto — e então era ela, ela, ela. O deslumbramento do amor que eu não conhecia, que eu não sabia assim, que eu ignorava, inocente como uma virgem. Ela que me guiava, me conduzia, me afundava consigo. E, depois de um tempo que parecia absurdamente curto, ela se erguia, se compunha, se envolvia no xale e ia embora, passando pela porta onde a fiel Iria a esperava. Nunca me deixou acompanhá-la e eu confesso que não insistia, não pelo meu corpo rendido, mas para não enfrentar os olhos da Dina, do Onofre.

Pela manhã, mal dormido, eu acabava de me despertar com um banho frio e então o dia começava na sua normalidade. Eu vestia a batina, gaguejava as orações como um bêbedo, fechava os olhos para ver se conseguia me esquecer de mim. Confesso que, na primeira manhã, não tive coragem de celebrar. Fiz todos os atos de contrição que sabia; chamava o padre, o levita que devia haver, tinha que haver, dentro de mim. Ajoelhado na igreja, antes que a onda das beatas a invadisse, eu rezava e pedia perdão com todo o fervor de que era capaz; mas não conseguia me concentrar completamente na oração.

Inventei uma doença, mandei Onofre avisar às mulheres — as cinco, seis, do costume — que eu tive cãibras no estômago de manhã cedo, tomei um remédio, quebrei o jejum. Não tinha condições, assim, de celebrar. Aliás, ainda continuava doente, por isso me recolhia.

 

Mas eu não podia usar o mesmo pretexto todos os dias. E estava levando esses dias sufocado em contrição, rezando, batendo no peito. Para não chamar mais atenção, passava o tempo fechado no quarto, ajoelhado diante da minha pequena Nossa Senhora. Prendia o olhar na Virgem Imaculada mas, de repente, me vinha à lembrança tudo que se passava naquele quarto e um rubor ardente me cobria o rosto. Dei para tirar a santa do nicho, levá-la para o outro quarto, antes que Bela chegasse. Tentei deixar de lado as orações espontâneas, os colóquios improvisados com os meus santos que eram, até então, a minha forma de oração preferida. Recorri à minha disciplina de padre, apelei para o Credo como o recitava no altar, em latim: Credo in unum Deum, Patrem Omnipotentem... Et in Jesum Christum, Filium ejus unigenitum... Credo in Spirittum Sanctum, Sanctam Ecclesiam Catholicam... in remissionem pecatorum... in Vitam Eternam...; Credo, credo, credo!

Eu dizia as palavras rituais, debulhava as contas do rosário, me engolfava no sentimento da culpa, tinha horror de mim. Mas, de repente, no meio daquela angústia, sim, de repente, parecia que um passarinho cantava dentro do meu coração, que uma flor se abria no meu peito. E de novo ela vinha e eu naufragava.

No terceiro dia voltei a celebrar. Inventei uma fórmula singular que me possibilitava sobreviver naquele maremoto. Dividi-me a mim mesmo em duas pessoas — o homem da noite e o homem do dia. Cada um era um personagem diverso, o diurno não poderia se responsabilizar pelas loucuras do outro. O sol, ao nascer, fechava a porta. Eu fazia o meu ato de contrição, confessava mentalmente, em globo, sem os discriminar, os meus pecados.

O Padre José Maria retornava então ao seu posto, desobrigado das insânias do louco amante de Bela. O Padre é que era eu, o outro era o Outro, o Íncubo, que só voltava a nascer depois que era noite cerrada na vila.

O portãozinho do quintal se abria para deixar passar dois vultos negros que caminhavam de leve entre as pitangueiras e os araçás do quintal; mas o meu ouvido atento os escutava! E então se abria a porta do meu quarto e ela entrava — e o Outro a recebia.

Esse artifício me salvou, me tornou a existência possível. Pude reassumir a identidade de padre, levar, no correr do dia, minha existência normal. Verdade que não mais com o descuido feliz de dantes; o Padre levava incessantemente o seu tempo, o seu dia, vigiando, desconfiado, o Outro; não se permitindo um descuido, um passo em falso. Consolava-se imaginando que, exausto das peripécias noturnas, o Outro repousava, recolhido. Dormia. Me deixava em paz.

Mas apesar das minhas astúcias, aquele delírio, aquela febre não podia ficar indefinidamente em tão alta temperatura — temperatura de mil graus — a que derrete o ferro. Começavam a arder também, ao contacto da chama, as coisas ao nosso redor.

Bela foi a primeira a acusar receios; em casa não tinha mais como esconder as saídas noturnas. Já esgotara todos os pretextos. As desculpas, quando alegava ir se encerrar no quarto, sonolenta, para fugir logo em seguida com a Iria.

Chegavam visitas, às vezes; ela saía então mais tarde, depois que as visitas iam embora. Mas houve uma noite em que não pôde vir. Chegou inesperada uma tia fazendeira, para passar uns dias. Nesse período só uma vez conseguiu escapar, dizendo que ia tomar uma garrafada, precisava ficar fechada, sozinha, que o remédio era muito forte e pedia resguardo.

Dona Eufrásia, a tia, não disse nada, mas desconfiou; foi perguntar coisas à Iria.

E não era nem tia dela, era tia dele, do Anacleto, a quem ela tinha “como filho”.

Mais tarde foi o problema do terço do Mártir São Sebastião, que a falecida sogra costumava rezar em novena, convocando a gente da casa e a vizinhança. E agora vinham as vizinhas cobrar o terço: “A Belinha bem que podia tomar o lugar da finada, ninguém mais sabe puxar aquela ladainha”. Bela se revoltava contra essa tirania da defunta: “Nem depois de morta me perdoa”.

Eu é que lhe aconselhava calma, paciência. Não se deviam mais alimentar suspeitas novas, bastava o que já não se poderia evitar.

De mim, também, já me estranhavam as ausências regulares, à noite. Certa vez, não pude nem acudir a um moribundo, porque o Onofre não se atreveu a me bater na porta do quarto. Dina e Iria também tinham saído um pouco, espiar uma reza na vizinhança. O moleque inventou para o portador que eu tinha saído sem dizer para onde, talvez para acudir a outro doente.

E me contou que o sujeito, depois de olhar para um lado e para o outro, desconfiado, resmungou:

— Difícil. Eu conheço o pessoal todo desta Vargem da Cruz e não sei de ninguém que esteja às portas da morte. Além do meu compadre Laurentino.

E havia também o problema da confissão. Isabel não podia deixar subitamente de freqüentar o confessionário, ela que antes era tão assídua. Combinamos que voltasse — mais espaçado. E lá na igreja nos portávamos como uns santos. Ela se acusava de uns leves pecados, os do seu cotidiano familiar, eu murmurava uns conselhos, dava-lhe uma penitência. Sem que eu lhe houvesse explicado, ela assumia o meu artifício e, ali na igreja, só me tratava como o seu diretor espiritual. Em vão as beatas apuravam o ouvido, não tinham nada a descobrir. O Padre José Maria se mantinha austero e breve, não chegava sequer o rosto à grade do confessionário; e ela nem um suspiro se permitia. Se havia o que reparar entre o confessor e a confessada, seria que as mudanças no comportamento de ambos eram todas para melhor.

Já íamos criando uma espécie de normalidade para a nossa situação. Afinal, estávamos conseguindo manter o segredo a custo apenas de alguns sustos. Só uma vez ou outra encontrava ela alguém, nas suas escapadas noturnas. Mas nos biocos em que se disfarçavam, ela e Iria, decerto eram tomadas por um par de escravas que saíam à noite, às escondidas dos amos. Já eu, para explicar o recolhimento noturno, apelava para a saúde e para os estudos que teria começado a fazer, tendo em vista uma futura ida a Roma. Roma, imagine! Mas aceitaram bem, as pessoas são crédulas.

Assim mesmo, demos de espaçar mais as visitas dela. Tínhamos a impressão permanente de que os milhares de olhos da gente da terra não se despregavam de nós dois.

Até que uma noite ela chegou, de leve como sempre, disfarçada no xale como sempre, mas diferente, sim. Entrou, não tocou em mim, sentou-se. Desenrolou-se dos panos, ficou um momento a dobrar o xale, como se isso fosse importante. Eu não entendia e esperava. Até que ela começou:

— Não sei como diga. Mas tenho que te contar isso...

Nova pausa. Eu esperava, de coração pequenino.

— Eu... nós... Bem... Eu vou ter um filho.

Saltei da cadeira. Meu Deus, um filho! Parecia estranho — mas nós não tínhamos pensado nisso.

Ela entrou em explicações. As coisas que as mulheres sabem que se passam no seu corpo. Não veio, como dizia ela, a ‘visita’ do mês. Coisa que, com ela, não atrasava nunca. E os seios duros, doídos. E os enjôos que ela, a princípio, atribuía aos sustos permanentes; e os desmaios, as ânsias de ‘provocar’...

— Provocar o quê? — perguntei, para dizer alguma coisa.

— Vomitar. Engulhos. O povo chama de entojos. Anteontem cheguei a desmaiar. Felizmente só a Iria viu.

Eu não sabia ainda o que dizer. Não ia renegar o filho — dela, meu — mas que é que nós iríamos fazer com um filho? Esconder? Como? Publicar?

Bela me pegou na mão, pôs-se a falar devagarinho, desenhando um plano:

— Estive pensando. Aliás faz uma semana que não penso em outra coisa. Daqui a uns dias começa o tempo bom na fazenda, a Atalaia. As vacas já estão parindo, o vaqueiro quer começar a fazer queijos. O meu menino — o Zequinha — você nunca o vê! está magrinho e amarelo. Às vezes até me culpo, porque, nessa loucura por ti, venho me descuidando dele. Pois agora eu vou alegar que preciso mudar de ares por causa do menino; aqui na vila está muito abafado, a casa é escura e triste em tempo de chuva. E é mesmo. Eu vou ficando por lá. Digo que me sinto melhor na fazenda do que na rua. Sem a presença do Anacleto aqui... o povo não vai se admirar.

— E eu? E nós?

— Bem, nós... Quem sabe, alguma noite a gente pode se ver. A Atalaia não fica longe. Você arranja um cavalo. Não chega a duas léguas. Na mesma noite dá pra ir e voltar.

— E lá?

— Lá, eu me arranjo. Roupa larga, vou ver se engordo um pouco. Tem lá uma índia velha que é parteira, me ajuda quando chegar a minha hora.

Eu olhava para Bela, assombrado. E ela continuava:

— Já pensei também no que fazer com a criança. Quando ela nascer, mando enjeitar na casa de Dona Floripes — a Tia Pite, como a gente chama. É parenta de minha mãe, prima, a gente chama de tia, mora o tempo todo na fazenda dela, a Noruega. E vive chorando, fazendo promessa para ter um filho. O marido também não se conforma e, pra se vingar, faz filho em toda rapariga que arranja. Tia Pite cria esses filhos apanhados, mas diz que não é a mesma coisa que se fossem dela. Queria um que, pelo menos, não tivesse mãe; e que fosse branco. Ela diz que moleque não é filho, é cria.

Fez uma pausa:

— O meu pessoal na fazenda pode desconfiar, mas guarda o segredo. Lá ninguém gosta do Anacleto. Ele é muito arrogante, muito bruto. Todos viam como aquele homem me maltratava. E tem mais: a fazenda não nos veio da parte dele. Foi o meu dote — era do meu avô que me criou. Gosto muito de lá, sou muito querida, quase todo mundo, na Atalaia, andou comigo no colo.

Outra pausa:

— A Iria leva a criança para a Tia Pite, já conversei com ela. Assim que nascer, pega nela, espera o escuro da noite, monta a cavalo, leva o neném e deita ele num balaio que vai carregar junto. Encosta na porta e bate palmas, faz zoada, até que alguém atenda. Quando de dentro derem sinal de vida, ela então monta de novo e sai a galope para ninguém reconhecer...

Eu estava totalmente desorientado diante dos planos complicados e da resolução de Bela. Fiquei pensando e quase dei um grito:

— E eu? Eu não vou nem conhecer o meu filho?

— Bem, você é o vigário. Pode ir fazer desobriga por aqueles lados, ficar amigo da casa, na Noruega. Tia Pite e o marido são muito devotos. Você pode até apadrinhar a criança.

Mas Isabel, afinal, não era tão prática quanto queria se mostrar. De súbito olhou para mim, com força, pegou nas minhas mãos e desabou a chorar, soluçando alto e fundo, me cortando o coração. Tentei consolar, libertei uma das mãos e fiquei lhe afagando o cabelo. Lembrando a primeira vez, a primeira noite, depois da morte da sogra.

Ela por fim acabou de chorar e só então nos abraçamos.

Parecia tudo tão seguro, fomos facilitando. Bela adiava a cada dia a partida para a fazenda, embora o ventre já fosse aparecendo. Ela quase não saía de casa; poucas eram as visitas que recebia. A novena acabara, não se começara outra. Mulher largada do marido, o melhor que faz é fechar a porta, diz o povo. E haveria alguém mas largado do que Bela? Quase um ano que o tal do Anacleto estava longe — dez meses completos. E nunca mandou sequer uma carta, só um bilhete enviado antes de chegar no território das minas; e que vinha junto com outra carta — de ordens para o gerente da loja, um antipático intrometido, com quem Bela não se dava. Assim mesmo, Anacleto entregou tudo a ele; só dava valor aos desafetos da mulher.

Passou-se um mês e, nesses entrementes, já se marcara o dia da partida para a Atalaia. Mas, na antevéspera do dia escolhido, Bela, que eu nem esperava naquela noite, me chegou esfogueada, com novidades grandes. E ruins.

Aquela tia do marido — eu não lembrava? — a tal de Dona Eufrásia, apareceu de novo, de mala e cuia. Bela falou que estava com a bagagem pronta para uma temporada na fazenda: começo do inverno, o leite, o queijo, precisava tudo do olho da dona.

A tia a princípio não disse nada, apertou os beiços finos, abanou a cabeça. Afinal falou:

— Pois é.

Bela não entendeu, mas se assustou. Ficou de guarda, não se punha contra a luz, meteu-se num roupão grosso de ganga, todo de pregas largas, alegando frio.

Mas, naquela manhã, estava no quarto tomando banho, em pé na bacia, nua, Iria lhe ensaboando as costas, quando a porta se abriu num rompante, a taramela cedendo ao empurrão de Dona Eufrásia, que já entrou falando:

“Desculpe, Belinha...”

— Eu estava toda nua. Iria correu apanhar a toalha e me enrolou o corpo. Mas já foi tarde. Li na cara da velha que ela tinha visto e entendido tudo: a barriga grande, os seios duros, crescidos. Os mais de seis meses em que já estou. Ela deu uma desculpa, disse que não queria incomodar. Eu fiquei calada, toda enrolada no toalhão, de repente tiritando de frio. Aí a tia se retirou, sem mais uma palavra. Iria me sussurrou: “Deixe eu ir atrás dela, Sinhá. Essa mulher está com o diacho nos olhos. Vou ver o que ela faz”. Iria me contou depois que a velha, no seu quarto, arrumava a canastrinha, jogando, sem olhar, a roupa e os pertences miúdos, como se estivesse com o pensamento fervendo, ocupado em outras coisas. Vendo a escrava chegar à porta, perguntou, às brutas:

— Rapariga, estás sabendo do que eu vi? Aquela mulher está prenha.

Contou Iria que ficou tão apavorada que “o sangue me saiu da cara, acho até que fiquei branca naquele instante”. Mas assim que pôde falar, foi negando: “Sinhá, não diga uma coisa dessas! Aquilo é só gordura. Sinhazinha come demais, não tem o que fazer aqui, só comer. Toda hora é doce, é queijo, é banana, é frango assado na brasa...” E a velha me olhou com tanta raiva que eu me tremi nas juntas: “Não me faça de idiota. Eu vi com os meus olhos. Sim, com estes olhos que a terra vai comer! A barriga prenha. Pejada!”

E aí ela deu um passo à frente a ainda ameaçou:

— E sabe o que é que eu vou fazer? Vou mandar um próprio, procurar pelo meu sobrinho por todas essas minas de Goiás. E quando achar, vai entregar a ele uma carta minha, contando tudo que está acontecendo aqui!

Iria se atirou de joelhos no chão.

— Pelo amor de Jesus Crucificado, Sinhá, pela alma de seu pai e da sua mãe, não faça uma coisa dessas! É tudo engano dos seus olhos! Sinhazinha está só — só, como uma moça donzela!

Mas não adiantou. A bruxa fechou a canastra, que deixou onde estava, ordenando:

— Chame um moleque e mande deixar isso na casa da minha prima, no sobradinho. Eu fico lá até voltar para o Remanso.

E como a Iria ainda continuava de joelhos, falou com uma voz que parecia uma

navalha:

— Saia do meu caminho. Senão eu piso por cima.

 

No dia seguinte cedo, Bela partiu para a Fazenda Atalaia. Levava consigo o filho Zequinha, a ama do menino e a Iria, com os dois filhos dela. Simão, o marido da Iria, ficou na vila, responsável pela casa. Na verdade, para se ter um intermediário entre nós dois, que recebesse e levasse recados. Muito discretamente, ele estava no nosso segredo. Era irmão de leite de Isabel, mamaram os dois no mesmo peito da negra Luzia.

Nem nos despedimos. Ela já fizera assustada aquela visita, correndo risco, mas precisava me contar as ameaças da tia.

Fui me refugiar na igreja, na hora em que Bela devia ir embora. Contudo, por mais que eu me esforçasse, o Padre não conseguia tomar o lugar do Outro que, pela primeira vez, invadia o Seu asilo junto ao altar.

Fiquei ali, tentando rezar, os dedos da mão trançados diante do peito, os joelhos no chão, o dorso curvado. Mas a cabeça teimava em acompanhar a comitiva pela estrada, Isabel montada na sua sela de andilhas, corada e linda, trazendo o filho no colo como um depósito precioso e oculto. Animada pela manhã bonita, contente por fugir daquela casa de rua, fechada, escura, com as suas camarinhas sem janela, dando as portas para um corredor comprido como um corredor de prisão.

Cinco dias passados, combinei com Onofre uma providência. Como já disse, naquele beco dos fundos, o nosso portão não era o único; havia outros que abriam para quintais vizinhos, e em dois deles existia uma estrebaria. Não seria possível a Onofre tirar ocultamente do vizinho um dos cavalos, que a gente sabia gordos e bem milhados? Era tomar emprestado só pela noite, enquanto eu ia e voltava da Atalaia, antes de se abrir a barra do dia. Sela e arreios nós tínhamos em casa, herança do vigário antigo.

Onofre deu um jeito, sim. Pediu só que eu lhe arranjasse uma rapadura para subornar o ‘colega’, que lidava com os animais do vizinho, dois portões além do nosso.

 

Foi assim que pude, várias vezes, visitar Isabel na fazenda. Na garupa levava Onofre, que conhecia bem os caminhos e ficava tomando conta do cavalo, enquanto eu demorasse na Atalaia. Nós amarrávamos o animal num angico que ficava junto à porteira do pátio e caminhávamos com cautela até um certo ponto combinado; de lá, Onofre soltava dois assobios especiais — ele fazia tudo, que eu não sabia nenhuma dessas astúcias de namorado.

E logo aparecia a fiel Iria, para dar entrada na casa e acalmar os cachorros. Defronte à porta do quarto, me deixava só. Eu batia de leve com os nós dos dedos — e o céu se abria, dizia o Outro. Ou se abria o inferno, com todos os seus pecados, diria o Padre; mas este só falaria quando eu já estivesse em casa, exausto, consumido e, como devia — arrependido.

 

Passados assim quase dois meses, certo dia eu, ansioso, ia me preparando para os sustos da visita próxima, quando — já era boca da noite — me aparece Simão, o marido da Iria, correndo, esbaforido. Em vez de entrar pelos fundos, como de costume, bateu na porta da frente, passou, correndo ainda e afastando Onofre que lhe perguntava o que tinha acontecido.

— Eu quero falar com Sinhô Padre!

Eu ouvira o alvoroço, cheguei assustado. Simão me segurou pela batina:

— Uma desgraça, Sinhô Padre, uma desgraça! O homem chegou. Tá aí e diz que vai correndo pra Atalaia!

O homem só poderia ser o marido.

— É o Anacleto?

— Inhô sim, ele mesmo. Chegou matando os cavalos, fazendo dez léguas num dia. Só trouxe um moleque com ele, montado no cargueiro.

Eu procurava me manter calmo:

— Bem, e o que ele disse?

O homem tentava recuperar o fôlego, via-se que estava realmente apavorado:

— Perguntou por Sinhazinha. Já sabia da morte da mãe dele. E quando nós respondemos que a Sinhazinha estava na Atalaia, junto com Sinhozim pequeno, ele olhou pra gente com uma cara horrível de mim, com aquele olho vermelho, mordendo o bigode: “Ah, ela levou o menino?” Aí ele gritou por um copo d’água, uma das mulheres ofereceu fazer um café, e ele disse que não queria café nem nada. Passou a perna no cavalo, gritou pro moleque dele que tirasse a carga e ficasse esperando. E saiu, apertando tanto o animal nas esporas que parecia o Satanás.

Eu fazia tudo para me conter, para não entrar em pânico. Gritei por Onofre:

— Vá me arranjar um cavalo! Se não conseguir emprestado, roube! Mas me traga um cavalo, correndo.

Simão se ofereceu:

— Eu vou com ele, Sinhô Padre. Eu conheço um menino do Seu Mundim e ele arranja o animal.

Enquanto eles chegavam, fui trocando de roupa, vesti o único trajo de homem que possuía, de brim grosso, feito para as caçadas e pescarias; aliás, a mesma roupa que eu vestia quando ia para as visitas à Atalaia. Calcei os coturnos, enfiei os pés nas esporas, peguei no rebenque, pus-me a andar de um lado para o outro, numa impaciência aflitiva, o coração na boca — sabe lá, meu Deus, o que estava se passando naquela fazenda!

Ah, minha Nossa Senhora, não olhe para a minha indignidade, tenha pena só dela, que é mulher também... E do inocente que está para nascer e não tem culpa das desgraças que vai causar...

Eu rezava, rezava, num grande atropelo, numa perfeita intimidade com os meus santos. Afinal, eles viam tudo; nós dois, ela e eu; nós não podíamos nos esconder dos olhos deles, na nossa loucura.

Simão chegou, por fim, com o cavalo; Onofre trouxe a sela, arreou o animal. Eu enfiei o chapéu na cabeça, montei. Saí também feito um desesperado, no rastro do outro, a besta-fera.

O cavalo era bom, nem precisava apertar com as esporas. Corria como se estivesse num prado, ganhando aposta. Mas parecia que a Atalaia não ia chegar nunca. A noite era sem lua, mas tinha muitas estrelas; o caminho branco nunca chegava ao fim.

Dessa vez não parei na porteira do pátio, fui direto à casa da fazenda. Larguei as rédeas no pescoço do cavalo, subi correndo o alpendre, onde havia algumas pessoas, mas ninguém me deteve. Parecia até que esperavam por mim.

A porta da sala estava aberta. E junto à porta do quarto, que estava cerrada, a Iria ajoelhada, chorava baixinho. Ela me agarrou pelas pernas e ficou me segurando:

— Não entre, Sinhô, não entre! Tem desgraça lá dentro!

Entrei no quarto. E à luz fraca da candeia, logo avistei Isabel, descoberta, estirada na cama. Do seu corpo branco não se via quase nada, o sangue o manchava todo.

Ajoelhado no chão, o rosto entre os panos do leito, o homem parecia morto também.

Mas não estava morto. Ouviu meus passos no ladrilho, levantou a cabeça, me olhou, esgazeado. Eu também o olhava num grande pavor — ou era ódio? Vi quando ele me reconheceu. Então pôs-se de pé, de um salto, os olhos luzentes, a cara de louco, e se atirou para cima de mim, com uma faca na mão.

Eu não tinha arma, não tinha nada. Defendi o rosto com o braço esquerdo; com o direito tateei atrás de mim — eu conhecia aquele quarto! — em procura do escabelo de madeira, onde costumava jogar a minha roupa. Consegui segurar o pesado banquinho, erguê-lo no ar. O Anacleto pela segunda vez me atingia com a faca e me feria o pescoço em direção do peito. Com toda a minha força arremessei o escabelo em direção à cabeça dele. O banco o apanhou no alto do crânio, de quina, e ouvi o osso estalar. Ele caiu, a faca rolou longe. Desabou no chão como um touro no abate.

Eu então me aproximei da Bela, me ajoelhei também; toquei de leve na mão, senti o pegajoso do sangue. Comecei a chorar, quase na mesma posição em que encontrei o Anacleto.

Iria caminhou até ele, segurou-lhe o pulso, assustou-se quando viu a cabeça partida. Afastou-se, veio murmurar no meu ouvido:

— Está morto. Louvado seja Deus.

Levantei a cabeça, ainda tonto:

— Como foi antes?

— Ela estava na cama e eu deitada também, numa esteira, aqui pertinho. Ela já estava dormindo e eu ainda rezava, quando empurraram a porta com estrondo. Era ele. Minha esteira ficava entre a cama e a porta e ele tropeçou em mim, me machucando. Berrou uma praga e me afastou aos pontapés, como se eu fosse um cachorro. Chegou aos tropeções até junto da cama, parecia bêbedo, mas devia ser só de raiva. Chegando perto, estendeu a mão — pensei até que fosse bater nela, mas pegou só a ponta da coberta, puxou com força, e a Sinhá rolou no colchão; ficou toda descoberta, a camisola levantada. Não sei dizer se ela acordou, nem se abriu os olhos. Ficou estirada, deitada de costas, respirando com força e a barriga tremendo. Podia ser até a criança, se mexendo lá dentro. O Sinhô Anacleto, eu não sei quando ele puxou a faca. Quando vi, já estava erguendo o braço, o ferro brilhou na luz e ele desceu a mão. Feriu primeiro a Sinhazinha no pescoço, duas vezes. O sangue esguichou e aí ele meteu a faca naquela barriga nua, enfiando até o cabo. Para pegar também a criança; e conseguiu. Matou mãe e filho!

E Iria suspirou:

— Mas foi o Sinhô Padre que matou ele. Deus é justo e está no céu.

Caí de novo de joelhos. No corpo de Isabel não se percebia mais qualquer sinal de vida, nem um leve tremor. A criança tinha que estar morta também.

Iria passou de leve a mão sobre os olhos ainda abertos da pobrezinha, escancarados no estupor da morte. Compôs as duas mãos sobre o peito, juntou-lhe os pés, mas evitava tocar no sangue que se coagulava por sobre o lençol. Apanhou a colcha em cima do baú, estendeu-a sobre a morta.

E aí desceu os olhos sobre o homem caído no chão:

— Esse aí fica assim mesmo. Merece. Outros que cuidem.

Baixou-se sobre mim, tocou-me o ombro, puxou-me pela mão:

— Vamos embora, Sinhô Padre! Vamos! Eu vou lhe esconder num lugar que eu sei. A gente tem que fugir, e depressa. Daqui a pouco a Vargem da Cruz inteira está por cá. Vão querer ver as mortes. Ver o sangue!

 

A sala já devia estar cheia de gente, mas respeitaram o corredor. Iria me puxava pela mão e eu, tonto, os olhos cegos, deixei-me guiar por ela. Passamos pela cozinha, descemos uns degraus de pedra que levavam ao quintal. Em certo momento apareceu Simão. Iria passou ao marido a minha mão, como se faz com uma criança. Eu, docilmente, deixei — estava entregue a eles, não tinha ação para mais nada. E ela determinou:

— Leva Sinhô Padre para o forno do carvão. Esconde ele na barraca dos carvoeiros. Ninguém dá com ele lá. Eu fico, vou esperar o povo.

De caminho, Simão me explicava que, no forno, era seguro mesmo: “O Sinhô Padre vê, não é tempo de queimar carvão, só no verão o forno trabalha. Além do mais, é arredado, lá no juremal, terra ruim, brejada, que não dá pasto nem planta, tudo mato espinhento. Bom só pro fogo, pra fazer carvão”.

Eu escutava sem escutar, nem sei como me ficaram na cabeça essas informações dele. Já por onde foi o caminho, como era o local em redor, não enxerguei nada. Parecia até que fora eu que levara a pancada na cabeça.

Por fim, me vi dentro de uma barraca toda feita de palha, parede e teto. O chão lá dentro era de terra; tinha um banco de jirau, armado em duas forquilhas — passei nele as horas mais horrendas da minha vida, num oco sem fundo, num desespero branco e gelado. Não era dor, propriamente, era o sentimento de que eu me afundava, me afundava, um peso, um poço me sorvendo para baixo. O que viria depois? Os soldados, a polícia, o povo enfurecido?

Simão me fez sentar no banco:

— Se encoste no esteio que ele dá apoio, Sinhô. Na parede não pode, que é de palha. Eu vou lá em casa correndo, o principal era botar o Sinhô no seguro. Vou pegar uma rede, vou pegar café (que eu sei que tem, era do uso da pobrezinha de Sinhá!), um copinho de cachaça para lhe dar sustância. Fogo não posso fazer, por causa da fumaça. Até já! Cuidadinho, Sinhô Padre, Deus lhe guarde!

Sumiu na vereda estreita. A princípio me deixei ficar sentado no banco, derreado em cima do esteio, como recomendara Simão. Mas chegou um momento em que me dei conta do braço que começava a doer, a latejar, lá fundo, embaixo da crosta de sangue. E, com a dor, começou a atacar também o medo, naquela solidão, naquele escuro, dentro da furna de palha. E se viessem me caçar ali, me tocassem fogo na cabana? Tentei me levantar mas não tive forças. E se tinha medo ali dentro, mais medo teria lá fora, quando o povo começasse a caçada ao padre assassino. O que desonra a mulher e mata o marido!

O banco era por demais incômodo, deixei-me escorregar até o chão, que pelo menos era de terra lisa. Dormi ou desmaiei.

Acordei — quanto tempo depois? — com Simão me levantando do chão. A princípio pensou que eu estivesse morto.

— Sinhô Padre, acorde! Credo, que susto! Eu trouxe a rede, o café e a comida. A Iria manda dizer que é pra ficar bem quietinho. O povo da vila já chegou; felizmente estão pensando que o Sinhô fugiu para o rumo de lá, no caminho mesmo do sertão.

Atou a rede no esteios, me levantou do chão:

— Valha-me Deus, foi sangue demais! Mas já coalhou. Eu só trouxe água de beber, mais tarde a Iria vem lhe lavar esse sangue.

Me deitou, me tirou os sapatos dos pés, enquanto me acomodava as pernas na rede. Ao sair, recomendou:

— A comida está naquele alguidarzinho, o café na garrafa. Ainda está morno.

Guardou tudo numa prateleira pendurada em corda numa ripa do teto, eu vi depois. E à saída, despedindo-se:

— Vou ver lá se as coisas estão mais sossegadas. Acho que vão fazer os dois enterros aqui mesmo, na fazenda. Era o que estavam falando...

E rematou, antes de fechar a porta de palha, como o resto:

— A Iria acha que Sinhô Padre tem que passar aqui um bocado de dias, até o povo se desvanecer. E ela disse também que até é bom, porque dá tempo de crescer o cabelo da sua coroa. Pra ninguém poder ver que o senhor é padre...

 

Daí a uns dias — dois, três, cinco? — (eu tinha perdido a noção do tempo, passei aqueles dias todos com febre alta, delirando), vi de novo o Simão ao pé da minha rede. Me tocou na testa, disse que a febre estava quase passada, me deu pra beber um caldo que Iria mandava. Depois foi buscar misteriosamente, num canto, um saco de estopa que me entregou:

— Ontem eu tomei coragem e dei um pulo na vila, pra ver como iam as coisas por lá. Ainda se fala muito no sucesso e todo mundo pensa que o Sinhô Vigário ganhou a estrada. Procurei o Onofre e ele me deu uma roupa branca pra eu lhe trazer e esta bolsa, que ele disse que o Sinhô Padre não se separa dela. Botei neste saco velho, pra disfarçar. O moleque não me disse nada, mas acho que ele desconfia que o Sinhô Padre ainda está por aqui. Na saída ele me disse: “Se tu vê algum dia meu Sinhô Padre, entrega tudo direitinho, pede a ele a bênção pra mim e pra minha mãe. A gente não vai se esquecer dele nunca...” Isso que ele disse. Só pode ser que eles dois desconfiavam que eu mais a Iria sabemos onde vocemecê está.

Peguei no saco; a roupa vinha enfiada numa fronha, eram umas ceroulas e uma camisa. A bolsa tinha dentro o meu missal (o pequeno, de mão) e uma estola velha que eu levava quando ia dar unção a moribundo.

Realmente, eu nunca me separava daquela bolsa. Só a deixava quando saía para caçar e pescar. E aí, o meu coração culpado acrescentou: e pecar.