Memorial de Maria Moura
Cap. 35 — O Beato Romano
O Beato Romano
LÁ UMA MANHÃ, já eu me sentia a salvo na Casa Forte. De certa maneira singular me achava mais em casa do que em qualquer outro lugar, em minha vida — seria pela perda total de todos os compromissos, pela perda de tudo, até da minha própria identidade? Certa manhã, pois, acordei alegre, gostei de ver o sol nascendo pela janela, quando a abri; fui tomar o café junto com os homens, na porta da cozinha, apanhei o embornal no quarto, joguei-o no ombro a tira-colo, peguei um terçado de andar no mato e avisei aos homens da guarda:
— Outro dia descobri lá em cima, na mata, um ninho de papagaio. Mas os filhotes ainda estavam muito peladinhos, não dava para tirar da mãe. Hoje, já devem ter chegado ao ponto. Vocês não acham que nós aqui estamos precisando de um papagaio falador, para alegrar a casa?
Um dos rapazes lembrou:
— Diz por aí que papagaio também é bom pra fazer sentinela. Qualquer estranho que vá chegando ele dá logo notícia.
Eu ri da idéia: papagaio sentinela! Ora essa!
Disse até logo, e os homens gritaram em coro:
— Abença, Beato Romano!
E eu, Beato Romano, os abençoei.
Dei um nó mais justo na corda que me apertava a cintura da samarra de beato; meti no caminho os pés calçados em apragatas de couro cru. Coitados dos meus pés. A sola, nos calcanhares, grossa e gretada, negras, rachadas. Pés de animal, pensei.
Há quantos anos que não entravam num sapato! Meus coturnos de couro preto, com uma fivela ao lado... Terão durado quanto tempo — um ano, dois? Aos poucos foi se furando a sola, rasgando o resto, não tinha mais conserto, joguei fora.
E a roupa? Bem, as batinas deixei quando tive que fugir da Vargem da Cruz, ou antes, da Fazenda Atalaia. Só levava no corpo o fato de brim pardo que eu usava nos dias de caçada e pescaria. Fui me vestir de novo no Seu Dão. E arranjando uma calça aqui, remendando ali uma camisa, ia tirando tempo. Agora Maria Moura me vestia com o meu disfarce de beato.
Entrei pelo mato fechado, abrindo caminho com o terçado. A subida da ladeira era forte, mas eu já vinha me acostumando. E as trilhas largas, abertas para se rolar madeira lá de cima, eram boas de galgar.
Era no mês de maio, tinha mais flores do que folhas pelo campo. Até dentro da mata havia flor; os grandes vultos dos louros se transformavam cada um num buquê de noiva, todos brancos da florada.
Passei por um pé de catingueira coberto de ramos amarelos. Cortei o mais bonito, segurei no braço, segui adiante.
Meu destino era um grande pau d’arco que eu havia assinalado em outra entrada. Era um patriarca, um pai do mato, a copa alta como uma torre, o tronco grosso que nunca ferro de machado ofendeu. Dava uma sombra escura e, debaixo dela, arbusto nenhum nem erva mais avultada poderia prosperar. Sob aquela copa só mato ralo, formando uma clareira grande, por toda a largura do círculo que a sua sombra encobria.
Lá chegando, olhei em redor, era ali mesmo. Sentei-me no chão, estirei as pernas, me estirei todo para trás, segurando nas mãos o peso do corpo.
Fechei os olhos, respirei fundo. O ar estava cheiroso, o calor da mata não incomodava. Fiquei um tempo assim, de olhos fechados, bebendo o perfume do ar. Me sentia bem; me sentia como se estivesse numa igreja. Era, na verdade, o que eu estava procurando: o calor e o mistério de uma nave de igreja, fechada durante o dia; o sol lá fora, e ela isolada do povo da rua e da vida dos homens.
Passado aquele instante de repouso, naquela minha espécie de mergulho nos ares da floresta, me levantei e me organizei para o que eu vinha fazer. Andei um pouco pelo mato em torno, até descobrir uma touceira de marmeleiro com as varas bem grossas — não davam para se abarcar com o polegar e o indicador. Com o meu terçado cortei duas dessas chibatas, bem linheiras. A maior teria mais de uma braça e meia de comprimento, a menor uns cinco palmos. Com a minha faca pequena arredondei a ponta de cima da vara grande e as duas pontas da menor. Ajeitei a vara pequena atravessada sobre a grande, atando com uma embira, formando os braços abertos de uma cruz. Com um pau talhado em ponta cavei um buraco ao pé do pau-d’arco, e nele plantei a minha cruz.
Voltei à mata, tirei quatro forquilhas pequenas, aparei tudo certinho, e armei um jirau defronte da cruz, com a sua mesinha de varas; ficou direito um altar. Enfeitei cruz e altar com as flores da catingueira. No bisaco, peguei um coto grande de vela, e logo consegui tirar fogo do artifício e acender o pavio. Aprumei bem o meu círio entre as varas do jirau — do meu altar. Isso feito, contemplei a minha obra e achei lindo.
Do fundo do saco tirei mais uma trouxa, onde guardava os meus tesouros ocultos, que eu nunca largava nem deixava ninguém ver. Retirei de lá uma estola bem velhinha, que me viera entre os salvados do Simão, que por sua vez os recebera do meu pajem, o Onofre.
Junto com a estola vinha o pequeno volume preto do meu missal. Pus a estola no pescoço, benzi a cruz, juntei as duas mãos em prece e comecei a minha missa:
Introibo ad altare Dei...
E como não tinha acólito, eu próprio fui respondendo:
Ad Deum qui laetificat juventutem, meam...
Cada palavra em latim que eu dizia me dava um gosto bom na boca. Meu peito se espandia, num profundo consolo.
Encostado ao tronco da árvore, aberto no altar, estava o missal. E fui fazendo as reverências rituais, dizendo os Oremus!
Li a Epístola e o Evangelho daquele domingo: In illo tempore...
No momento certo me virava, abençoava a mata. Às vezes por ali passava um bichinho pequeno — um tejo, um sapo, uma cobrinha verde. E, em certo momento, pousou no pau-d’arco uma graúna e cantou. Um cancão ficou um tempo me espiando com o seu olho amarelo. Tudo fluía tão bem — era como se eu fosse levado boiando, de mãos postas, na correnteza de um rio.
Mas quando chegou o momento da Consagração, parei, assustado. Eu não tinha mais direito de invocar a transubstanciação e transformar o pão e o vinho em corpo e sangue de Jesus Cristo. Seria um sacrilégio.
E, mesmo que eu ousasse, que iria fazer com o corpo, sangue, alma e divindade de Jesus, ali presentes por arte das palavras santas? Comungar? Comungar, consumir a espécie, eu, tão carregado de culpas que jamais ousei procurar confissão, para me reconciliar? Não. À consagração eu não podia chegar.
Ajoelhado, baixei a cabeça sobre o altar, os olhos de novo cheios de lágrimas, o peito me doendo. Eis quando, abrindo os olhos sobre o meu pequeno altar de jirau, me deu de súbito um grande alívio. Como é que eu poderia pensar em Consagração se não dispunha do pão nem do vinho? Nem que eu o quisesse, por loucura e arrogância. Não havia pão nem vinho em toda a terra da Casa Forte. Ninguém, lá, jamais comia pão de trigo ou bebia o vinho da uva. O pão era o de milho. A bebida era a garapa, a jerebita e, principalmente, a cachaça.
A negra Rubina inventou fazer vinho com mocororó de caju. Mas tinha um gosto ruim, um travo. Sabor, se tinha algum, era só da aguardente com que dosara a beberagem ‘pra encorpar’!
A falta do pão e do vinho me deu segurança, me levantou o espírito. Ergui a cabeça, sorri para tudo ao meu redor, me virei, devagarinho, de costas para o altar e disse, com voz embargada:
Ite, missa est.
E eu próprio respondi, em vez da congregação invisível:
Deo gratias!
Estranho como eu recordava tudo, todas as orações, todo o ritual. Passados tantos, tantos anos, não esqueci nada. Também, quantas vezes celebrei a missa durante os meus doze anos de Padre? Mais de umas três mil vezes, fazendo a conta de cabeça.
Dobrei a estola, apaguei a vela, enrolei tudo, junto com o missal, no pedaço de baeta em que viviam ocultos. De novo enfiei o pacote no fundo do alforje.
Depois me deitei no chão, fiquei ali muito tempo, com o coração estranhamente consolado. Creio até que dormi um pouco. Afinal, quando o sol ia alto, me deu fome, levantei-me. Estava em jejum. Claro, missa só se reza em jejum.
Desatei das embiras os braços da cruz, desmontei o altar, arrumei as varas num monte, ao pé do pau-d’arco. Ninguém seria capaz de dizer para o que serviria aquela madeira. Muito bem. Voltei para a Casa Forte, ainda de coração sossegado.
Quando entrei no alojamento, os rapazes cobraram:
— Cadê os papagaios, Beato?
Eu caí em mim, inventei:
— No ninho não tinha mais nada, só pena velha. Ou os filhotes cresceram e voaram, ou o bicho do mato comeu.