Memorial de Maria Moura
Cap. 26 — O Beato Romano
O Beato Romano
RESOLVIDO A PARTIR, convencido que chegara ao fim da existência pelo menos tolerável que eu me tinha feito no Bom Jesus, não tive mais pretexto para protelar a partida.
Assim, na manhã do terceiro dia após a saída do compadre, mandei buscar o Veneno no pasto que lhe arranjara Siá Mena.
E comecei, quase todos os dias, a dar umas andadas, indo de cada vez mais longe. Fazia indagação a respeito de caminhos, de localidades não muito próximas do Bom Jesus, onde eu pudesse encontrar um novo abrigo.
Com uma semana de buscas, consegui notícia de um povoado meio escondido num sopé de serra, do qual se contava que todos os habitantes eram parentes. O povo de fora maldava deles, dizendo que ali acabava se juntando irmã com irmão, de tanto se casarem em família.
Peguei informação do caminho que levava até lá, e me toquei para o lugar que se chamava Bruxa — ou ‘as Bruxa’, como eles dizem. Contam também os vizinhos que eles mesmos escolheram esse nome: seria gente que não segue a lei da Igreja, mas a lei dos bodes, ou da bruxaria.
Para minha admiração, chegando na tal de ‘as Bruxa’, vi que o lugar era muito mais habitado do que me tinham dado a entender os falatórios. Na rua única, no meio dos barracos de palha e das casas de taipa, se levantavam também três casas de alvenaria, oitão alto, sem alpendre nem varanda à frente. Pela rua de barro esburacado, havia gente; e o que vi logo foi um bando de crianças agachadas ao redor de quatro meninos, ocupados num jogo. Usavam de pedras pequenas, do tamanho de castanhas de caju; com a mão rente ao chão, atiravam as pedras para o alto e procuravam recolher essas pedrinhas na volta, antes que caíssem. Iam arremessando de uma, de duas, de três, aumentando sempre o número, até que não conseguiam mais pegar todas as pedras do arremesso e perdiam a vez. Seguia-se uma gritaria da assistência e outro jogador se apossava do lugar. A platéia era grande — uns oito, dez.
Parei o cavalo a mais de duas braças de distância e fiquei observando a brincadeira. A meninada estava tão entretida que nem me viu chegar; também, no chão de terra, as pisadas do Veneno não faziam ruído.
Notei logo que brincavam juntos meninos e meninas, coisa difícil de ver em outro
lugar.
E eram todos brancos, não se via um pretinho, um caboclo, um mulato. Brancos, de um branco curtido do sol, encardido de sujo, mas branco. O cabelo era quase todo amarelo e chegava a ser alvo como de velho, nas crianças mais novas. Dava para distinguir as meninas pelo cabelo mais comprido. Os meninos usavam apenas uns calções que iam só até abaixo do joelho. Já as meninas vestiam uma espécie de timão de pano ordinário, manga curta, a saia pelo meio das canelas.
De repente um dos jogadores levantou os olhos e me viu; parou com a mão no ar e gritou:
— Um homem e um cavau!
Logo apontaram para mim os olhos deles todos, olhos de um azul desbotado, alguns vermelhos de sapiranga. Até que outro menino reiterou:
— Tá montado no cavau!
E aí, numa correria repentina, se espalharam todos como ratos espantados. De longe, ficaram me espiando, se protegendo atrás de paredes e vãos de porta.
Desmontei, fiquei com a rédea do Veneno enfiada no braço, imóvel. Depois tive uma idéia: tirei do bolso uma das minhas moedas e falei alto, procurando dar à voz um tom amigável:
— Quem quer ganhar um derréis? Eu vou jogar bem longe, quem correr mais depressa, ganha! Lá vai: um! dois! três!
A moeda partiu zunindo, foi distante, ricocheteou numa pedra, tiniu, parou. A meninada esperava, encolhida nos seus refúgios, mas afinal um deles saltou, saiu desabalado, apanhou o dez réis. Os outros fizeram cerco, estendendo a mão, querendo ver.
Eu caminhei até eles, segurando sempre o Veneno, e me dirigi ao vencedor:
— Como é o seu nome?
Ele me olhava meio espantado, sem responder. Uma das meninas foi que falou:
— O nome dele é Cau!
E eu perguntei a ela:
— E você?
A menina se enrolava toda na saia, encabulada:
— Eu sou irmã dele, do Cau.
— Mas seu nome como é?
Foi a vez do Cau responder:
— Ela é minha irmã! E ela se chama Rana.
Pus a mão na cabeça mel-com-terra do menino, a outra mão no ombro de Rana e pedi:
— Olha, eu queria ser amigo de vocês. De vocês todos.
Um meninozinho, que não tinha se chegado mais perto, gritou de lá:
— Pru quê?
— Porque eu venho de longe, não conheço ninguém aqui, e a gente não pode viver no mundo sem conhecer ninguém. A gente precisa de amigo.
O menininho insistiu:
— Você dá derréis?
Eu me ri, confessei:
— Bem, dou, enquanto tiver algum... Vamos ver quantos me restam!
Meti a mão no bolso, tateei as poucas moedas; entre algumas de vintém e tostão, restavam duas de dez réis. Mostrei as duas na palma da mão:
— Está aqui: dois dérreis. Mas eu quero duas respostas pra duas perguntas, cada uma vale dez réis. Tá certo?
O Cau e outro menino, que eles chamaram de Vico, levantaram para mim aqueles olhos azuis avermelhados e indagaram, ainda desconfiados:
— E que é?
Me dirigi ao Vico, que parecia o mais falante e talvez fosse o mais esperto:
— Eu queria saber se tem um lugar onde eu possa dar um banho no meu cavalo e arranjar comida pra ele.
Gritaram todos ao mesmo tempo:
— Água tem no açudinho. Pode ir lá!
— E o pasto?
Ficou todo mundo calado. Até que a Rana, novamente, salvou a situação:
— Pasto, só se o Ti’Franco deixar o cavau comer no cercadinho dele.
Mostrei a primeira moeda:
— De quem é? Quem foi que respondeu à pergunta?
Pensei que ia recomeçar a gritaria, mas ninguém se adiantou. Eu então fui salomônico e estendi a mão com a moeda:
— Fica com a Rana, que falou do cercado. E pode repartir com o Vico, que falou no açude. Cinco réis pra cada um.
Os dois pegaram juntos no cobre. Eu continuei:
— Agora, a segunda pergunta: Aqui tem alguma pensão? Me mostrem onde é.
Não entendiam. Eu repeti:
— Pensão! Uma casa que dê quarto e comida pras pessoas de fora.
— Aqui não tem pessoa de fora!
— Tem, sim. Eu estou aqui, não estou? E eu sou de fora.
Eles ficaram ruminando aquela estranha novidade. Depois a Rana falou:
— Nas casas não tem de comer pros outros. Só dá pra gente.
E o Vico:
— Às vez não tem nem pra gente mesmo.
Houve uma pausa; as crianças se puseram a cochichar entre si. Por fim o Cau sugeriu:
— Podia falar com o Ti’Franco.
— E onde é que eu encontro esse Tio Franco?
Um que ainda não tinha dito nada, estendeu a mão, apontou:
— Tali, ói, naquela casa.
O menino apontava para uma das três casas de tijolo que eu notara ao chegar; a que ficava no meio.
Me dirigi pra lá, sempre segurando o Veneno, seguido da criançada. A casa era a que mostrava melhor aparência, tinham lhe dado até uma mão de cal na fachada.
Junto à entrada estava um velho, tomando a fresca da tarde. Era branco também, como talvez um marinheiro que já morasse por estas nossas terras há muito tempo; mais curtido de sol que as crianças, as mãos aparecendo como duas luvas ruivas sob os pulsos brancos.
O bando dos meninos tinha me acompanhado todo e até foram se chegando mais outros, saídos dos barracos. Duas mulheres, vestidas semelhante às filhas, um homem de ceroula, sem camisa. Também entre os adultos não se enxergava ninguém de cor diferente, só o alvação encardido que devia ser a regra geral. Parecia uma tribo, uma família só.
Eu me descobri, dei as boas-tardes, o velho nem tocou no chapéu de palha que trazia na cabeça, puxado sobre os olhos. Perguntou quem eu era — dali, na contraluz, não estava me enxergando bem.
Respondi:
— Eu? Eu venho de longe, meu senhor, das bandas do Cariri; andando pelo sertão para tratar da saúde. Tive uma doença do fígado, o meu doutor me mandou comer comida sem tempero e respirar os ares sertanejos.
O velho, então, me mandou entrar, apontou um banco defronte dele:
— Se abanque.
Sentei no banco, continuei explicando:
— Na verdade, eu gostava mesmo era de viver nos matos. Se fosse rico havia de ter a minha fazenda; mas, sendo pobre, me contento em andar pela terra alheia.
O velho me olhou, curioso:
— Quer dizer que vocemecê não pratica ofício nenhum?
— Não é isso, não senhor. Eu trabalho, eu tenho estudo. No lugar de onde venho, eu ganhava dinheiro escrevendo carta para quem precisasse, fazia conta, nota de gado — me chamavam até de escrivão! Mas o que eu gostava mesmo era de ser professor.
— E por que não é?
— Ah, essa gente que eu encontro por aí é muito rude, quer lá saber de leitura. Menino de cinco anos já está no cabo da enxada.
— Aqui também. Aqui também vai ficando tudo cada vez mais bruto. Precisava muito de se arranjar pra cá um professor ou professora, que desasnasse pelo menos os meninos. Que os pais já não têm mais jeito.
As crianças tinham se chegado mais perto, ouviram o tio falar em ‘professor’ ou ‘professora’ e reclamaram zangadas:
— Ninguém não quer aqui nem professor nem professora! Nós não quer! Nós atira terra nela!
Eu me virei pra eles:
— Mas por quê? Que raiva é essa?
— Ela açoitava a gente com a palmatória! Dava bolo. Doía que a gente gritava. E era todo dia, todo dia, porque a gente nunca sabia a lição!
O velho esperou um pouco, depois se virou pra mim:
— Viu? São mesmo uns brutos! Não querem aprender nem um O. E com os pais ainda é pior. Eu — eu pelo menos aprendi a assinar o nome. Já o meu avô, que deu começo a este lugar, meu avô era homem de saber. Não tinha letra que ele não lesse.
Os meninos continuavam resmungando, Seu Franco levantou-se, bateu palmas e enxotou as crianças, como quem enxota cachorro:
— Fora daqui, seu bando de moleque! Vai ter escola, sim. Vou fazer tudo pra pegar esse moço. É só ele querer!
E eu gritei para os meninos, que fugiam:
— Eu não possuo palmatória! E eu não açoito criança!
Não sei se escutaram, estavam correndo, assustados com o Tio Franco. Pelo menos tinham medo dele.
Voltamos aos bancos, conversando mais, acabamos acertando a combinação da escola. Não ia ser preciso nem sequer levantar casa nova. Tinha ficado vaga a casa de uma viúva que se mudou pra longe, depois da morte do marido.
— Vocemecê pode até se arranchar lá!
Mas enquanto nós tratávamos de pôr em funcionamento a escola, os meninos faziam guerra. Soltaram o meu cavalo na mata, por duas vezes, deu trabalho encontrar. Encheram minha porta de esterco de cabra. Me acompanhavam a toda parte, como sombras. Às vezes eu pegava um ou outro, puxava conversa; mas eles não respondiam nada, sempre emburrados.
Fiz questão de pagar os dez réis ao Cau, pela sua resposta à minha pergunta. Ele apanhou a moeda, saiu correndo. Como disse o velho Franco, nem sequer abanou o rabo.
À noite, Seu Franco convocou uma reunião, em frente à casa dele. Veio muita gente, até me admirou. E ele fez um discursinho:
— O pessoal das Bruxa continua cada vez mais burro e ignorante! Esses meninos são mesmo uma vergonha!
Uma das mães interrompeu:
— E que é que tem se eles é assim? Nós também somo bruto!
E um pai:
— A mim, nunca ninguém me ensinou nada. Por que eles, agora?
Seu Franco se levantou, danado da vida:
— Pois agora vai ter quem ensine: é este professor! Já falei com ele. A escola vai ser na casa da viúva do Zefe.
Os meninos romperam em choro:
— A gente já disse que ninguém não quer escola. Ninguém quer estudar nem apanhar de palmatória!
E a mãe que falara, concordou:
— Aquela professora era muito perversa. As crianças ficava de mão inchada. E nem aprendia coisa nenhuma.
Um dos meninos maiores mostrou a palma:
— A minha mão até rachou — tá aqui a marca — pode ver!
Era a minha vez de fazer discurso:
— Olha, pessoal, eu não sou professor do governo. Eu ensino por gosto. E torno a repetir o que já disse: nunca na minha vida eu possuí uma palmatória. Eu não gosto de bater em ninguém, quanto mais em criança.
Parece que não acreditavam; e um dos pais ainda objetou:
— E quem vai capinar a roça, se eles estão na escola?
— Capina você, seu preguiçoso. Fica o dia todo esparramado, dormindo, e a mulher e as crianças que se esbofem!
A mulher do preguiçoso exibiu o primeiro sorrido da noite:
— Lá isso é...
A meninada ia se calando. Seu Franco prometeu que, menino que fosse à escola, só ia ao roçado de tardinha, depois da aula. Os pais foram se retirando sem dizer mais nada. Aquela gente não dava nem boa-noite uns aos outros.
Mas, no dia seguinte, ele mesmo, Seu Franco, comigo e com boa parte dos nossos futuros alunos, fomos fazer uma limpeza na casa da viúva; derrubamos até uma parede, a da camarinha, para aumentar a sala de aula.
Improvisamos bancos e mesas em cima de forquilhas enterradas no chão de terra batida. “Escola de jirau”, chamou uma mãe, espiando o nosso trabalho, ao passar. Mas o quadro-negro, que eu exigia, ficou difícil. Acabamos descobrindo um moço carpinteiro, que fez o quadro com umas tábuas velhas e pintou de alcatrão. O giz era feito com pedra branca de cal.
As crianças já se divertiam com o movimento, até ajudavam com gosto. E já mostravam, a meu respeito, uma certa curiosidade amistosa.
Voltei ao Bom Jesus das Almas, peguei lá um dia de feira, a freguesia me esperava. Trabalhei o dia todo, já estava com cãibras nos dedos e estrompei meia dúzia de penas. Era a minha despedida.
Ganhei uns vinténs, iam me servir. Naquela tal de Bruxa, não parecia haver moeda corrente. Tudo se fazia na troca; e o que se comprava de fora, mandava-se a saca de feijão ou de milho, para apurar antes.
A todo mundo, no Bom Jesus, contei que ia fazer uma viagem à Bahia. Mas Siá Mena, levei-a para o meu quarto, tranquei a porta, contei-lhe da minha vida o que podia. Tinha me metido numas confusões, antes de lhe aparecer, e que confusões eram essas! — houve até uma morte, no meio delas. Eu era inocente, mas ninguém acreditava, e então tive que fugir à vingança dos parentes do defunto. Não lhe disse nada a respeito de ser Padre. Ela, desde os primeiros dias, quando me fiz escrivão, já sabia que eu tinha estudo. A causa da minha partida, Siá Mena já adivinhava, tinha sido a visita daquele amigo, o Julião. Homem bom e leal, mas de língua desembestada. Sem querer, só por imprudência, podia me descobrir. E como prometeu voltar sempre, não precisava nem que ele falasse, para me descobrirem. A família do defunto, ainda seca por vingança, era muito capaz de seguir a trilha do compadre; conheciam demais a nossa amizade.
Siá Mena entendeu tudo. Ao final me disse, muito triste:
— Siga o seu destino, meu filho. Eu já vi muita coisa neste mundo, sei entender. Vá com Deus. Mas quando precisar de uma amiga, a Pensão da Preta Forra está lhe esperando, de porta aberta.
Abracei Siá Mena, dei-lhe um beijo. Ela se levantou às pressas, correu banhar o choro do rosto. Eu estava de garganta presa. A gente por onde anda cria amor e desamor, e vai deixando atrás de si aqueles pedaços de coração. Bem-querer ou ódio.
Na segunda-feira, 3 de julho, abriu-se a minha escola nas Bruxa. Naquela bodega do Bom Jesus, onde eu me abastecia, descobri um saldo de velhas cartas de ABC e tabuadas, esquecidas numa prateleira. Cadernos não havia; comprei meia resma de papel, que as mulheres costuraram em cadernos. Livro, nem pensar. Também, com aqueles alunos, não iria eu tão cedo carecer de livro nenhum. Se aprendessem a soletrar, a somar e a diminuir, já me dava por satisfeito.
Inventei um sistema de ensino, ao ar livre, que agradou mais do que trancar a meninada na sala de aula, cochilando em cima da carta de ABC. Saía com eles quando o dia ia quebrando, o sol fazendo roda pra se pôr, como diziam por lá. O grupo se reunia como para o jogo de pedra — e às vezes eu até deixava que eles jogassem um pouco.
Depois, abria um limpo no chão, pegava meu cacetinho de matar cobra, e começava a riscar letras na terra. Por exemplo, a letra de cada um:
— Olha a tua letra, Rana, é um R! e você, Vico, é um V! e você, Cau, é um C! E você, Zefe, é um Z!
Cada um queria aprender a sua letra; e quem decorasse e aprendesse a riscar a letra mais depressa, era o vencedor.
O prêmio podia ser uma banana (coisa rara ali), um naco de rapadura. Ou ficava o ganhador dispensado da tarefa no roçado, no dia seguinte.
Também aprendiam a tabuada cantando, e era eu mesmo que puxava o coro, como se fosse uma ladainha.
Outras vezes, o sol já posto, ia-se pescar piaba no açude, com anzol de alfinete. Eu também tinha trazido os alfinetes do Bom Jesus; quando menino era o meu passatempo predileto, a pesca de piaba; e me lembrei de, com ela, atrair os alunos.
Deu certo. Eles furtavam as linhas dos poucos fusos em que as mães fiavam, as raras fiandeiras que usavam dessa arte. Armavam de linha e anzol a varinha de pescar, pegavam isca de minhoca na terra fresca da beira d’água. Tudo como ensinei.
Muitas vezes dava até para se comer não sei quantos espetos de piaba, torrados na brasa. E o número dos pescadores aumentava sempre.
Uma tarde, quando se ia chegando à lagoa, passando por uma carnaúba velha, rodeada de filhos de vários tamanhos, feito pintos ao redor da galinha, os meninos começaram com risadinhas, se cutucando e apontando para as carnaúbas.
Eu quis saber que gracinha era aquela, e eles aí é que riam, dando gargalhada. Afinal o Vico desembuchou:
— É porque ali é o cemitério das professora...
As risadas redobraram e eu falei sério:
— Afinal, que brincadeira é essa?
O Vico então explicou:
— Tinha uma professora mais danada, a gente já falou nela, se lembra? Um dia ela chamou os meninos tudo da escola, pra vim apanhar uns pau de lenha. E nós passamo pela carnaúba e aí ela perguntou que árvore era aquela. Nunca tinha visto uma carnaúba!
O Cau tomou a palavra:
— E aí eu disse a ela que ali era o cemitério das professora!
Uma das meninas continuou o caso:
— A mulher tomou um susto, ficou toda tremendo. Perguntou quantas professora tinha enterrada ali — e eu disse que era bem umas três...
Agora era a Rana:
— Com uns quatro dias ela foi-se embora. Não acabou nem a semana...
— Se fez de doente...
— Tomou uma purga!
Todos queriam falar. E eu perguntei, com a maior calma:
— E quantas professoras vocês enterraram mesmo aí?
Eles estavam às gargalhadas, adorando a brincadeira:
— Como é que a gente era de enterrar, se não morreu diaba nenhuma delas?
— E agora vocês querem me fazer medo?
Eles todos riram mais ainda:
— Não, ninguém tá querendo enterrar o Mestre Zé!
O pior nas Bruxa eram as noites. A luz das candeias de sebo era tão fraca que mal dava para enxergar os próprios pés.
Eu rezava e, quando cansava de rezar, recitava os versos que sabia de cor, mas não eram muitos.
E também não tinha livros comigo; os que conseguira por empréstimo no Bom Jesus, tive que devolver. E, nas Bruxa, livro ainda era mais escasso do que dinheiro.
Aliás, falando em livro, certo dia, quando eu findava a aula e tratava de apartar as brigas da meninada indócil, Seu Franco veio me convidar para ir a casa dele.
Queria me mostrar a ‘herança do Avô’.
Foi comigo ao quarto, lá dentro tirou de um armador na parede um surrão de couro muito velho e empoeirado, e despejou o conteúdo em cima do bangüê onde dormia, cheio de panos desarrumados.
Pegou primeiro uns papéis, que me pareceram oficiais, enrolados e selados com uma rodela larga de lacre vermelho, onde se via gravada uma coroa.
Havia também dois livros; um volume grosso, encadernado em couro preto, era uma Bíblia Sagrada. O outro dava para ver que era de versos, embora lhe faltassem a capa e a primeira folha, onde deveria estar o nome do autor.
Mas tudo escrito em alemão. Na contracapa da Bíblia, via-se uma assinatura em letra gótica. Digo isso porque conheci no seminário um padre alemão que escrevia assim, em gótico. Por fim uma caderneta, era de notas, usada só até à metade; e tinha as páginas cobertas com as mesmas letrinhas góticas, que mais pareciam rastro de mosca. Mas numa folha central, escritas em letras latinas e maiúsculas, de imprensa, como se abrissem um diário, liam-se estas cinco palavras:
FAZENDA PRÚSSIA — PROPRIETÁRIO:
FRANZ WIRTZBICK
Seguiam-se algumas notas, de novo em gótico, cada vez mais esparsas até poucas páginas além. E, então, nada mais.
— Seu Franco — eu perguntei —, seu avô se chamava Franz?
— Se bem me lembro, era. Mas só de raro em raro ele se dava esse nome em alemão. Na nossa língua ele se chamava Francisco. Tanto que o povo deu até pra chamar o Avô de ‘Marinheiro Chico’.
— E o nome desse lugar, como é mesmo?
— Olha, menino, de primeiro se chamava ‘Prussa’, que meu avô botou. Mas nós mesmos, depois, inventamos esse nome de Bruxa, porque o povo de redor tinha dado pra chamar de mangação a fazenda ‘das Bruta’ e a gente então era ‘os bruto’ porque, nascendo nas Bruta, bruto seria... Imagine quanta briga isso não deu!
— Seu Franco, o nome que seu avô deu à fazenda não foi Prussa nem Bruta. Foi PRÚSSIA, que devia ser o nome da terra dele, lá na Europa.
— Pode ser. Ele nunca explicava nada à gente. Dizia que ia se esquecendo, de tanto não ter com quem falar alemão.
No fundo do saco, um último papel era oficial — e brasileiro. Assinado por um Doutor João Luís Melgaço, Juiz de Direito da Comarca de Santa Isabel do Paraguaçu, Província da Bahia. Mandava um comunicado ao delegado de polícia para que fizesse saber ao denominado Franz Wirtzbick, súdito do reino da Prússia, e residente nesse termo, que, por ofício do Cônsul da Prússia em Salvador, o Sr. Ph. Ad. Plessing, informava que fora aberto, na cidade de Bromberg, no dito reino, o inventário do seu defunto pai, Hans Wirtzbick, e que já haviam sido notificados os demais herdeiros: Franz, Hanna, Karl, Viktor, Joseph e Maria Wirtzbick. Pedia-se o seu comparecimento ao consulado.
À margem do ofício o destinatário escreveu, também em letra de imprensa, as palavras: GEHEM ZUM TEUFEL! (que eu copiei).
O ofício do juiz era datado de vinte anos atrás. Me chamou a atenção o nome dos irmãos e indaguei do Seu Franco:
— Seu avô botava nome brasileiro nos filhos?
— Não. Ele dizia que o pessoal daqui só botava nas crianças nomes de diabo de santo papista. E deu aos filhos os nomes dos irmãos, para não se esquecer deles. Nós continuamos a usar esses nomes. Você não reparou como eles se chamam diferente dos da terra? Mas era nome alemão, muito difícil de dizer, e foi virando Cau, Rana, Vico, Zefe, que é como dá pra dizer na nossa língua... Ninguém sabe mais como era!
Bem, agora estava claro: Cau era Karl, Rana, Hanna, Vico, Viktor, Joseph, Zefe. E Franco Franz.
Seu Franco continuou:
— Os netos foram seguindo o costume. O povo de fora estranha muito quando escuta os nomes da gente...
Devolvi a herança do avô alemão a Seu Franco, que foi logo pendurar o surrão no seu armador.