Memorial de Maria Moura
Cap. 8 — Maria Moura
Maria Moura
A GENTE não via onde eles estavam. Mas dava para sentir que estavam perto. Eram pelo menos uns seis ou sete, calculava o Chico Anum.
Um dos meninos dele, o Zé Soldado, ainda cozinhava uma rixa velha com o pessoal das Marias Pretas: tinha sido desfeiteado por eles durante uma festa de novena. Não pôde reagir na hora porque era um só contra muitos. Ficou com aquela espinha atravessada na goela. Por isso queria sair no terreiro e acabar com eles, nem que fosse a ferro frio. Mas eu fiquei achando que era só entusiasmo do menino, pra mim ele não tinha aquela valentia toda. Bem, uns dois dos nossos tiros já tinham acertado neles, pena que sem acabar de vez com nenhum.
Eu já de véspera tinha tudo planejado na cabeça. Sabia que, na minha situação, era eu a parte fraca. Eles podiam juntar os homens que quisessem; já eu, só dispunha daquele punhado ali: Zé Soldado, Maninho, Alípio. E os dois velhos, Eliseu e Chico Anum.
Tinha também João Rufo, mas esse eu poupava. Me acompanhava há tanto tempo, que já parecia fazer parte da minha pessoa. Eu não passava sem ele, que me adivinhava os pensamentos. E respeitoso, calado, obediente. No dia que eu perder João Rufo, o mundo pra mim fica diferente.
Chiquinha e Zita tinham inveja e ciúme dele. Sei que, nas minhas costas, chamam o João de ‘cão de guarda’. E isso mesmo é o que ele é, meu cão de guarda, sem má tenção no dizer.
Me preocupava muito o problema da munição. Cercada como eu estava na minha casa, acabada a pólvora, acabado o chumbo da reserva, não tinha onde arranjar mais. Eles podiam conseguir a munição que quisessem — tanto quanto pudessem comprar ou roubar. E tinha mais: mesmo que eu lograsse enxotar o bando naquela primeira vez, eles podiam tornar quando quisessem, pegar reforço e voltar, com muito mais poder de ataque.
É, eu me sentia encurralada. E o meu coração me pedia para sair dali. Sentia que tinha acabado o meu tempo no Limoeiro. Que me adiantava ficar no sítio, me agüentando a ferro e fogo, sem recursos, mulher sozinha, nova? Qualquer um podia tentar pôr a minha pessoa debaixo da mão.
Mas esse meu desejo de ir embora não tem nada a ver com o meu amor pela casa e pela terra: aqui nasci e me criei. Acontece que sempre chega a hora de largar o ninho. Do pinto quebrar a casca e pular do ovo.
O mundo lá fora era grande e eu não conhecia nada para além das extremas do nosso sítio. E tinha loucura por conhecer esse mundo.
Quando menina, ainda, saía pela mata com os moleques, matando passarinho de baladeira, pescando piaba no açudinho, usando como puçá o pano da saia. Mas, depois de moça, a gente fica presa dentro das quatro paredes de casa. O mais que saí é até o quintal para dar milho às galinhas, uma fugidinha ao roçado antes do sol quente, trazer maxixe ou melancia, umas vagens de feijão verde. O curral é proibido, vive cheio de homem. E ainda tem o touro, fazendo pouca vergonha com as vacas. Fica até feio moça ver aquilo.
Restava ainda o banho no açude, tomado muito cedinho, a água ainda morna. Mas banho só naquela hora certa, que os homens respeitam. Já sabem que não podem chegar no açude e ai de quem vá espiar. Por causa de banho de mulher já tem morrido muito rapaz adiantado, pela mão de um pai ou marido mais zeloso.
Passeio na vila era ainda mais difícil, só mesmo nas festas da igreja. Mas nunca entrei numa dança — filha de fazendeiro não vai a samba de caboclo, nem mesmo a baile de bodegueiro da vila. E na casa dos fazendeiros ricos, ninguém me convidava, depois que Pai morreu, eu fiquei moça e Mãe caiu na boca do mundo.
E agora, naquele tarde da noite, o bando armado dos primos me cercando a casa, atirando, gritando, querendo entrar à força.
Vi que tinha chegado a hora principal da minha vida. Ou era hoje ou nunca. A minha casa, a impressão que me dava agora, era a de um mundéu se fechando em cima de mim. Eu tinha que me escapulir daquele aperto perigoso, ganhar o mundo protegida pelos meus cabras. E foi pensando nisso que me preveni.
O meu cavalo — isto é, o cavalo de Pai, o Tirano — já eu, nesses últimos dias, botei no trato, comendo ração verde e milho; para o que desse e viesse. Agora, mandei que Zé Soldado e Maninho ficassem atirando mais espaçado, só nas vezes em que um dos de fora chegasse perto. Chamei as meninas, disse que elas pegassem nas trouxas que já tinham preparado de véspera, com a roupa delas e alguma das coisas que Mãe me deixou — três lençóis bordados, uma toalha de mesa e uma peça de renda que Mãe guardava “para o meu enxoval”. À Chiquinha, que era a mais cuidadosa, entreguei, imagine! enrolados num cobertor de baeta, um copo de vidro fino, uma faca e uma colher de prata e a santinha que Mãe tinha no quarto. Era o que eu possuía de mais valor. O resto era só coisa grosseira, pano da terra, madeira e barro.
Assisti à saída das meninas, de uma em uma; iam chorando muito, embora eu ralhasse que não queria prantina. Fossem se escondendo pelo mato alto até à represa do açude. Aproveitassem enquanto os desgraçados não derrubavam a cerca do lado, fechando o cerco da casa. Por ora os fundos ainda estavam livres. Quando o dia amanhecesse, procurassem a casa dos tios e da avó delas, que não ficavam longe. E sempre guardando segredo, pra depois não serem perseguidas pelo pessoal das Marias Pretas.
Depois, foi a vez de Chico Anum, que sabia andar de noite, leve como uma sombra. Foi selar o Tirano; os arreios já estavam na estrebaria. Eu enfiei uma calça que tinha sido de Pai, pra montar com mais liberdade. Me servia perfeitamente, eu sabia. Pai era magro como eu, e tinha pouco mais que a minha altura.
Fui em seguida ao baú de Mãe, de onde eu já tinha tirado aquelas coisas que a Chiquinha levou. Peguei lá o papo-de-ema que Pai, quando viajava, usava para guardar o dinheiro. Nem sei como escapou do Liberato. Peguei também, no baú, todo o dinheiro que ainda tinha — doze patacas de prata, um dobrão de ouro, que era do tempo do meu avô. Enfiei tudo no papo-de-ema, e amarrei aquele rolo grosso em redor da minha cintura, apertado, como via Pai fazer. Vesti em cima o casaco de Pai, para esconder a cintura aumentada. As moedas de cobre entreguei a João Rufo no saquinho onde já estavam e que ele enfiou no embornal. Se precisasse pagar qualquer coisa pelo caminho, ele pagava. Escusava de mexer no dinheiro de prata que ia comigo.
Espalhei pelos cantos da casa uns canudos de pólvora que João Rufo tinha me ajudado a preparar. Derramei pelo chão e pelas paredes todo o pote de azeite de carrapato que se guardava para as candeias. Ensopei tudo de azeite, o mais que podia.
Trabalhava ligeiro, mas calma, nunca pensei ter tanta calma.
Desde a chegada da tal de intimação que eu estava me prevenindo para um ataque como o daquela noite. Adivinhava perfeitamente que esse ataque devia ser daquele jeito mesmo; a reação dos dois, o Tonho e o Irineu, eles não tinham dito? “Se não fosse na mão, eu ia na marra”. Uma mulher sozinha era um pratinho feito para eles. De menina os conheço de fama, Mãe sempre dizia: “Eles não prestam. Não tem pior do que aquilo”.
E, pois, logo que eles chegaram, dei seguimento aos meus preparativos. Antes que as meninas fugissem, mandei que elas enchessem o fogão com achas de lenha seca de marmeleiro e sabiá, que o Eliseu já tinha trazido do mato.
Enquanto eu ultimava os meus arranjos, Zé Soldado continuava a dar os seus tiros espaçados pela fresta que eu tinha cavado com as minhas mãos, a ponta de faca, na taipa da parede, junto ao portal da frente. O outro atirador, o Maninho, esse atirava pela janelinha do lado, para eles acreditarem que eu tinha muita munição.
As meninas, roxas de medo, tremendo e chorando, saíram pela portinhola da lenha, no fundo da cozinha. Pularam uma atrás da outra, já caíam agachadas, se escondendo na sombra do chiqueiro das galinhas. Passaram por um buraco da cerca, se sumindo dentro do mato alto.
Os homens do Tonho, na frente, não deram fé de coisa nenhuma. Mas quando o Chico Anum se esgueirou na direção da estrebaria, para me selar o cavalo, parece que eles viram uma sombra por trás da cerca e deram um tiro; mas o velho era ladino, se grudou na cerca, esperou e saiu afinal, como um gato.
Aquela cerca foi a nossa salvação. Era alta, de faxina, corria pelo quintal, saindo do lado da casa, até alcançar a outra cerca, a do curral. Protegia um roçadinho de fundo de quintal onde Mãe plantava melancia, milho, feijão para se comer verde. As chibatas do milho, pendoadas, tinham mais de uma braça de altura. Parecia uma mata fechada, aquele roçadinho de Mãe.
Pela tarde, eu já tinha mandado retirar uns paus de cerca para garantir a comunicação da casa com os cavalos, na estrebaria.
Depois de Chico Anum afastado, dispensei o velho Eliseu: que se esgueirasse também para a casa dele, seguindo a minha saída.
Mandei João Rufo ensopar com o resto do azeite o que encontrasse de madeira descoberta; e em seguida espalhar os tições de fogo, bem acesos, perto das poças de azeite, no chão. Os meus misteriosos cartuchos de pólvora ficavam ao alcance do fogo, mas espalhados, para estourarem de espaço em espaço. Lá de fora os excomungados deviam pensar que era tiro.
Botei a tiracolo o saco da munição; tinha ali o chumbo, e o polvorim grande de chifre, as pedras de isca e o artifício de fazer fogo. Tudo herança de Pai. Peguei também a faca que era dele, uma pajeú linda, com cabo de rodelas de osso e prata, na sua bainha bordada. Apertei bem as correias que atavam o papo-de-ema, me benzi, senti os olhos ardendo, aquele aperto horrível no coração. Fui até o quarto, beijei o lugar onde ficava a santinha de Mãe. Abri os braços, abracei e beijei as paredes da minha casa, me despedindo para sempre. Determinei aos rapazes que, assim que o fogo pegasse mesmo, fazendo labareda alta, eles aproveitassem o susto dos cabras do cerco, e fugissem também, pelo mesmo caminho nosso.
Saí pela mão de João Rufo, entre dois tiros dados por Zé Soldado e Maninho. Na estrebaria, já Chico Anum nos aguardava, segurando o Tirano pelas rédeas. O burro e o cavalinho de campo estavam também arreados, atados no mourão pelo cabresto. A porteira dos fundos do curral, para onde a estrebaria tinha uma saída, já estava aberta.
Montamos de mansinho. O Tirano, me vendo, ainda arregaçou o beiço para me dar um rincho de boa-noite, mas eu falei no ouvido dele, alisei-lhe a crina e ele se aquietou. Voei em cima da sela — sela de homem — claro que era também a sela de Pai. Ali era tudo dele, até eu — até eu, não —, principalmente eu, sangue e carne dele.
E saímos num passo maneiro, os do ataque não viram nem escutaram nada. Decerto estavam combinando entre eles o assalto da casa, mas se resguardando ainda dos atiradores lá de dentro, quem sabe esperando que se acabasse a nossa munição.
Só fomos olhar para trás quando chegamos ao nosso ponto de encontro, ao pé do juazeiro caído. E vimos que, de repente, uma labareda espirrou pelo frechal, no lado esquerdo da casa; outras línguas de fogo saíram entre as rexas das janelas e os vãos das telhas.
Os homens de fora se puseram a gritar de uns para os outros, descoroçoados. Nem desconfiavam, parece, que alguém houvesse saído da casa — e muito menos a cavalo. Chico Anum chegou ao capricho de amarrar uns trapos nos cascos dos animais, para abafar qualquer arruído nas pedras do caminho.
Vendo a minha casa transformada num fogaréu, e feito pela minha própria mão, desabei em pranto. Os outros, acho que choravam também. Esperamos mais um pouco. Chegaram afinal os meninos, correndo, afrontados. Deixei que eles retomassem o fôlego e dei as minhas ordens:
— Vamos sair a passo, para vocês nos seguirem. Fiquem de olho, que é pra pegar qualquer animal alheio que apareça em nossa frente. Vocês todos precisam de montaria. Nós vamos para muito longe.