Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 14 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 13 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

NÃO DIGO que o vigário da Vargem da Cruz fosse um padre santo, mas eu me esforçava. Talvez mais debilmente do que nos primeiros tempos, mas me esforçava. Já não conseguia me exaltar com o exemplo dos meus santos preferidos. Também naquele exílio, naquele canto perdido, naquela vila de Vargem da Cruz! que nem sequer tinha o seu nome escrito em qualquer livro do mundo — eu vegetava isolado da comunhão humana, entre gente primitiva, pouco melhor do que selvagens.

Recordo, por exemplo, que certa vez falando eu da alma, durante o sermão de domingo, dizendo que devíamos atender não só às exigências do corpo, mas às da alma, fui cercado pelos fiéis, à saída da missa.

Vinham me dizer que tinham medo de se meter com almas penadas, delas queriam era distância! E uma beata mais aflita chegou a declarar: “Seu Vigário, eu todos os anos pago uma missa pelas almas do purgatório — mas é só para elas ficarem do lado de lá e eu do lado de cá...”

Procurei explicar, foi impossível. Eles sabiam muito bem que a gente só vira alma depois de morto...

Naquele domingo voltei para casa, me ajoelhei diante do oratório, cobri o rosto com as mãos e me pus a chorar. De solidão, de desamparo. Recordei depois uma passagem dos nossos tempos do seminário maior: no meu grupo de seminaristas, começamos a ler e a meditar sobre a vida dos grandes místicos. Os que se maceravam com cilícios e, todas as noites, punham as costas em sangue, com o açoite das disciplinas. Mas o Padre Mestre, quando teve notícias do nosso interesse por essas experiências atrevidas, para grande susto nosso, nos chamou ao gabinete.

Era grave, ser chamado ao gabinete. Por sorte íamos em grupo — os quatro que andávamos buscando os caminhos da santidade.

Em primeiro lugar, Padre Mestre quis saber o que andávamos lendo, ultimamente. E, às nossas respostas, baixava a cabeça e resmungava: “Hum... Hum...” Indagou depois a respeito dos açoites: “São açoites mesmo?” e pediu que lhe mostrássemos as costas. Timidamente, desabotoamos a roupeta, desnudamos os ombros, exibindo as omoplatas cortadas de vergões roxos. Padre Mestre olhou rapidamente, não gostou do que viu e falou seco:

— Componham-se!

Nós nos abotoamos depressa e em silêncio. Padre Mestre tomou então um ar que, nele, era estranho, como se estivesse com grande pena de nós. Levantou os olhos para o teto, suspirou:

— Meus filhos, vou entrar num terreno perigoso, que eu vinha evitando até agora.

Olhou fito para cada um de nós, limpou a garganta:

— Pela natureza dos nossos votos de castidade, temos, de qualquer modo, que abafar os apelos da carne. E é duro isso, mormente quando são tão jovens. O corpo, a toda hora, exige a parte da besta que ele é. E a gente combate a besta com a prece, a arma mais simples e a mais poderosa. O jejum é outro recurso, mas nem sempre possível de praticar, dentro da disciplina do seminário: os rapazes têm que se alimentar bem, para que dêem conta dos estudos. Resta então o recurso heróico no combate ao fogo da carne — é o açoite, a dor, a maceração. Mas tenham muito cuidado, meus filhos! O açoite é uma arma de dois gumes: pode afogar os ardores da carne; mas às vezes, em lugar de abafar esses ardores, pode transviar a carne para caminhos ainda mais perigosos. O penitente é passível de terminar viciado no açoite, adotá-lo como substituto do comércio carnal. E termina sentindo um prazer perverso em se flagelar. Alguns até gozam, enquanto se açoitam. É esse um desvio que pode nos levar a pecados muito mais nocivos que as simples fantasias de adolescentes, por mais pecaminosas que elas lhes pareçam — e, aliás, o são.

Depois desse sermão, mandou que nos ajoelhássemos, nos concentrássemos e rezou conosco um Magnificat, invocando a Virgem Maria, a Mãe de toda pureza.

À nossa saída, cabisbaixos e impressionados, ele se permitiu sorrir:

— A escada de Jacó se sobe devagarinho, cada degrau ao seu tempo. Não vale saltar degraus... Boa noite. Vão em paz.

Recordo hoje esse episódio — o momento, as palavras — como se as estivesse lendo num livro. Na minha solidão, na Vargem da Cruz, eu não tinha sequer o recurso da penitência, para resistir às tentações. Padre Mestre me incutiu um medo permanente às penitências violentas. E eu me limitava a castigar a alma em vez de castigar a carne.

Ao mesmo tempo a tentação me assaltava por todos os lados. A vida das pessoas simples é muito aberta, muito exposta. Todos contam as suas intimidades, todo mundo conhece o cotidiano de cada um. Ah, o que chegava até mim, a mim, que os meus fiéis consideravam o seu ouvinte obrigatório, imóvel atrás das grades do confessionário. Especialmente as mulheres. Ou quase só as mulheres. Os homens se confessavam pouco, nem sequer uma vez por ano, segundo manda o preceito. E só se acusavam generalizando; pecados como fornicação e adultério, eles passavam de largo — eram fraquezas de macho que eu tinha a obrigação de entender. Creio que, apesar de padre, eles não me consideravam imune a essas fragilidades masculinas e até esperavam que eu comungasse das mesmas culpas: “O senhor sabe, padre, que pra nós, homens, é difícil governar essas coisas...” Nas casas cheias de mucamas e cunhãs, derrubar uma negrinha era fato tão sem importância quanto beber dois dedos de cana. Até a esposa achava natural; a negrinha achava naturalíssimo. Se pegasse um filho, então, botava um pé no futuro. E mesmo que, se por essa maternidade, não se tornasse forra, o filho o seria. Raro o senhor desalmado que não dê trato diferente a um filho seu; ou que, pelo menos, não o alforrie.

Os crimes mais comuns entre os homens da vila são os atentados contra a vida; mata-se muito em todo este sertão. A vida, aqui, é muito barata e a morte parece que resolve tudo. A morte cala a boca de quem fala demais, de quem repete o que não deve, ou de quem trai um segredo. Tira do caminho os inimigos: só com a morte se resolve uma pendenga grave. E há ainda muitas mortes por motivo de honra: bater em cara de homem, insultar um homem de certos nomes. Ou desvio de donzela, traição de mulher: “Honra só se lava com sangue”. E eles lavam a honra e a desonra — é um direito do homem ofendido. Mais até que um direito, é uma obrigação. Por isso os valentes matam e os covardes mandam matar.

Já com as mulheres, os critérios delas são outros. Esmiúçam os pecados mais íntimos no deleite de os contar e os compartilhar com o padre confessor. Os pecados realizados, os quase cumpridos — ah, a doce cumplicidade! “Ele quase me forçou, Seu Padre... eu resisti o mais que pude, mas o que era a minha força contra a dele? E o pior é que eu gostei... e de noite, ainda sonho com ele...”

Pelo confessionário passa tudo, os adultérios e os incestos. Já falei na penitente que cometeu o pecado da carne com o padrasto e por isso resolveu ‘mandar matar ele’... E queria que eu a absolvesse por antecipação!

Outra deu de vir se confessar com tal freqüência que acabei me assustando. Era nova e era bonita, eu já a conhecia de vista. Assistia missa e novena de um banco da primeira fila, que ela tinha como seu. O costume era os ricos da terra se assentarem ali na frente; os remediados nos bancos logo atrás. A ralé e os escravos se amontoavam pra lá de uma grade, que lhes vedava a parte da nave mais próxima do altar.

Aquela senhora chegava, de roupa escura, só, sem marido nem irmão — mas isso não era estranho. O único lugar que a mulher pode freqüentar sozinha é mesmo a igreja.

Às vezes ela trazia pela mão um filho pequeno e nesses casos sempre a acompanhava a ama, uma mulatinha de nariz arrebitado que se sabia ser filha do marido dela com uma escrava da casa. A moça entrava num ruflar de saias, se ajoelhava, fazia o pelo sinal, dava um suspiro afogueado e derrubava a mantilha para a nuca, como para aliviar o calor e mostrar o rosto bonito. Rezava de olhos fixos no altar, desfiando um terço de prata, sem baixar a cabeça, como faziam as outras. O povo da vila falava dela. Imagina, o marido andava longe há meses, seguira numa corrida de ouro, umas minas descobertas para os lados de Goiás. O homem já era antigo nisso, em moço foi garimpeiro. Diziam que a fortuna dele começou com o achado de uma grande pepita; tão grande mesmo que, com a venda dela, ele comprou uma casa na Praça da Matriz. Um casarão com seis portas de frente, quatro das portas servindo à casa de moradia, as duas restantes serventia da loja. Nessa loja ele negociava de um tudo — feijão, farinha, rapadura, panos, redes, couros de gado e de bichos do mato. Vendia também aguardente, mas só de garrafa. Não queria moleque bêbedo faltando com o respeito à sua família, ali vizinha.

Todo mundo na vila dizia que Seu Anacleto (assim se chamava ele) era desequilibrado — meio doido. Largar mulher, família e fazenda, para se atirar numa corrida de ouro que ninguém sabia sequer se teria fundamento. Mas é conhecida essa loucura do ouro que pode atacar um homem só, tal como no caso do Anacleto, ou até uma povoação inteira, como já se tem visto acontecer.

Eu mesmo já ouvi contar de uma corrida anunciada pelo sino da matriz: parecia que era a Peste Negra, até as mães punham as crianças em cima das cargas e acompanhavam os homens. Tudo levado pela febre da riqueza escondida debaixo da terra.

Tempos depois, iam voltando os desenganados; e mais pobres do que partiram, quase todos.

Lá um ou outro trazia o seu frasquinho de ouro em pó, ou as suas pepitas escondidas com ciúme. E muitos ficavam pelos caminhos. E lá mesmo, também, nas supostas minas, teimavam em ficar os mais renitentes, bateando o cascalho, no sonho de achar o ouro e as pedras. Esses nunca perdiam a esperança e acabavam mesmo morrendo das febres, ou de tiro, com as mãos ainda vazias, tal como tinham chegado.

Seu Anacleto já partira há quase um ano. O povo, na Vargem da Cruz, até o dava por morto. Como explicar de outro modo ter ele deixado a mulher, a tal Dona Bela, moça e bonita, o filho pequeno? A loja na mão de um grande relaxado, a Fazenda Atalaia (que era o dote de Dona Bela) no abandono. Contavam que Dona Bela recusava-se a viver sozinha ‘nos matos’ da fazenda e não arredava pé da casa da rua. E muito menos se afastava da igreja, que ela deu para freqüentar com uma assiduidade que me assustava — principalmente o confessionário.

O coração me batia, o suor me porejava na testa, ao perceber que ela se ajoelhava, se benzia, começando: “Padre, perdoai-me porque eu pequei...”

Mas o ritual da confissão ficava nisso. Ela só vinha ali para me tentar, para descrever as tentações de que padecia, dia e noite, e não a deixavam mais comer nem dormir: “Padre, eu amo e desejo um homem que não é meu marido, um homem que é pecado mortal eu amar... Ele nem olha para mim, se esconde atrás dessas grades...”

E eu, que mais podia fazer? Ralhava e advertia, tentado e apavorado. Chegava a ameaçar, levantar-me dali, na frente de todos. E ela continuava murmurando, obstinada: “O senhor não pode fazer isso. Não pode dar a menor demonstração... E o segredo do confessionário?”

Meu Deus, eu juro que fiz tudo. Baixava o rosto sobre as mãos, rezava, rezava, rogando a todos os santos que tirassem do meu lado aquele demônio tentador. A minha sorte é que, se eu não ousava dar um escândalo, ela também não o podia. E ficávamos os dois ali, aprisionados, a luxúria pulsando entre nós.

Afinal, eu sussurrava entre dentes: “Vá embora, vá embora, vá embora pelas chagas de Cristo! As pessoas já devem estar reparando”.

E estavam; como estavam! A vila inteira vivia de olho naquela assiduidade de Dona Bela à igreja e ao confessionário. E me contaram que até o engraçado da botica fazia troça: “Aquela se confessa tanto porque já pecou, ou porque ainda quer pecar?”

Nessa teima surda e latejante, ela provocando e eu ainda resistindo, o que nos valeu é que eu não ia à casa dela e ela não tinha como vir à minha casa. Ela só podia me procurar na igreja, que era o meu castelo sagrado, a minha trincheira.

Até que numa noite de segunda-feira, já seriam umas nove horas, me bateu na porta uma escrava, toda embiocada numa toalha (chuviscava um pouco lá fora), chamando:

— Seu Vigário, Seu Vigário! Minha Sinhá está lhe chamando, pelo amor de Deus!

Eu já estava deitado, àquela hora; mas enfiei a batina às pressas, acorri:

— Que foi? Que foi?

E a negra, chorando:

— É a Sinhá Velha, que está morrendo, já deu dois ataques. Minha Sinhá disse que ela está pedindo a Extrema Unção.

Acabei de abrir a porta, calcei as botas, botei na bolsa o frasco dos Santos Óleos, enfiei o chapéu na cabeça. Acompanhei a escrava que saiu correndo à minha frente. Eu não conhecia aquela negra — na verdade, como é que eu iria conhecer as escravas de todos os moradores da vila?

A mulher parou a corrida diante de uma casa de esquina. Eu nem sabia direito onde estava, a noite era muito escura.

Bateu na porta, alguém abriu e se mostrou, com uma candeia acesa na mão. Ao vê-la, dei um passo atrás, assustado. A casa, então, era a do Seu Anacleto!

A escrava passou rente à ama e se enfiou pelo corredor sombrio. Eu dei outro passo atrás, ia talvez fugir, mas Dona Bela falou:

— Seu Vigário entre, tenha compaixão. É a minha sogra que está morrendo...

A sogra deveria ser a senhora gorda que às vezes aparecia dia de missa, sentada no banco junto à nora, soltando suspiros de calor e se abanando com um leque da Índia.

Tirei o chapéu, entrei. Pelo corredor, me levaram até à camarinha, onde se via um leito, um oratório iluminado por uma lamparina e um grande baú preto.

Na cama a velha, cercada pelas crias da casa que choravam, junto com a escrava emissária, agora acocorada ao pé da cama e comandando o coro das carpideiras.

Eu abri a bolsa das urgências, tirei de lá a estola e o vaso dos Santos Óleos.

Fiz o sinal da cruz, e no que eu comecei a ministrar o sacramento à enferma, cessou o choro e a gritaria das mulheres. Dona Bela se mantinha atrás de mim, discreta, respeitando a gravidade do momento.

Toquei na enferma com o Óleo Santo, apenas na testa, e resumi a unção — “Per istam Sanctum Unctionem indulgeat tibi Dominus quidquid delinquisti.”

Ao terminar, quando lhe fiz a cruz com o Óleo Bento, a pobre de Cristo já ansiava, tentando balbuciar uma jaculatória.

Concluído o sacramento, eu ficara algum tempo de joelhos ao pé da cama, rezando ainda. Com o passar dos segundos, a respiração da doente ficou mais ofegante. E um pouco mais, já era o cirro da morte.

De repente parou tudo — entregara a alma.

Levantei-me, cerrei as pálpebras da defunta, abençoei-a pela última vez e a entreguei aos renovados gritos e cuidados das mulheres. Puseram-lhe um rosário nas mãos juntas e lhe compuseram o corpo, antes que a rigidez chegasse.

Saí do quarto. No corredor, encostada à parede, Dona Bela me esperava.

E, mal lhe olhei o rosto, ela começou a falar, atropelada, urgente:

— Padre José Maria, eu lhe digo como se fosse em segredo de confissão: essa mulher era uma fera! Morreu, graças a Deus, e morreu tarde.

Espantado, encarei a moça. Não é costume alguém dizer tais coisas a respeito de um defunto que ainda nem esfriou. Tentei aplacá-la:

— Acalme-se. A senhora deve estar nervosa, confusa...

Ela me apertou o braço com força e me puxou pelo corredor em fora:

— Venha cá, por favor, venha até a sala. Vou mandar fazer um chá.

Ainda tentei resistir, era difícil. A mulher me puxava com força redobrada. Tentei tirar aqueles dedos do meu braço — parecia que estavam encastoados nele. E assim, ela me puxando, eu resistindo — eu estava talvez mais confuso do que ela — chegamos à sala.

Dona Bela me fez sentar num cadeirão à cabeceira da mesa e nem então me soltou:

— Eu vivo aqui como uma presa na cadeia. Meu marido foi para uns garimpos em Goiás e me deixou nesta casa. Ele bem sabia o que estava fazendo: a velha ficou me vigiando, feito um dragão. Me espionava até quando eu dormia; sair, só me deixava ir para a igreja. Fazer visitas, conversar com uma amiga, qual! E, mesmo à missa, a princípio eu só podia ir com ela. O senhor não se lembra? Ela comigo no primeiro banco? Olhava mais pra mim do que para o altar, me perturbava até as orações!

Eu quis me levantar, ela de novo me prendeu o braço sobre a mesa:

— Quando, por fim, ela adoeceu, eu pensei que ia ter um alívio ao sufoco. Mas, mesmo de cama, se acabando de falta de fôlego, ela mandava as negrinhas pra me espionar. Até do meu filho, o pobre inocentinho, ela indagava se eu, na rua, tinha conversado com algum homem. Só para me assustar, inventou que estava escrevendo num caderno tudo que eu fizesse, de dia e de noite: o que eu comia, o que eu vestia, alguém com quem trocasse uma palavra. Só não me afligi mais porque, por sorte, lembrei que o meu marido tinha me contado: ela não sabia ler, quanto mais escrever! Pois assim mesmo a velha teve a coragem de me mostrar um caderno de papel, costurado, a pena aparada e um frasquinho de tinta roxa! Mas nunca me deixou pegar no caderno, ver por dentro das folhas dele: porque eu, eu sei ler, e muito bem, o finado meu pai me ensinou. Ela fingia só pra me fazer medo! Isso é para o senhor ver como aquela velha é malvada!

Nesse ponto a moça me encarou e repetiu o que dissera:

— É malvada?... É, não! Era! Graças a Deus Nosso Senhor e a todos os santos do céu! Era!

E Dona Bela abriu um sorriso feliz:

— Era, era, era. Não é mais! Está morta! Morreu!

Encostou-se no espaldar da cadeira, acomodou-se melhor no assento:

— Agora eu sou senhora de mim. Sou dona da minha casa. Quer ver?

Bateu palmas, deixou passar um instante, bateu com mais força.

Apareceu na porta a cara assustada da escrava, com um pano atado à cabeça:

— Que foi, Sinhá?

— Tem fogo aceso? Se não tiver, acenda. Faça um chá bem forte e traga aqui.

A escrava nem entendia:

— Chá? Mas Sinhazinha, a Sinhá velha já não morreu?

Dona Bela levantou a cabeça, imperiosa:

— A Sinhá velha morreu, mas eu — eu estou viva. Vá fazer o chá pro Senhor Vigário e pra mim. Vá! Agora sou eu que mando aqui.

A mulher saiu e eu continuava tentando aplacar a agitação de Dona Bela:

— Não será melhor a senhora ir descansar um pouco? Ou ir rezar — rezar por intenção da falecida?

Ela virou o rosto para mim, me encarou uns segundos, me segurou a mão que eu deixara em cima da mesa:

— Padre José Maria, o senhor não me compreendeu. Eu não vou rezar por alma daquela velha. Nunca! Eu posso rezar, mas é de agradecimento a Deus pela minha liberdade. Olhe, entenda: o que eu me sinto é alforriada. Nem acredito direito, ainda!

E imediatamente deitou a cabeça na mesa e desabou em prantos, soluçando.

— Nem acredito! Nem acredito!

O choro aumentava, os soluços foram ficando convulsos.

Eu lhe pus a mão no ombro, ela chorava mais forte. Passei de leve a ponta dos dedos pelos cabelos que lhe caiam às costas, numa trança. Senhor meu Deus, jurar é pecado; mas eu juro que, naquele impulso de fazer um carinho, foi só — posso dizer — foi só compaixão. Ela clamava que estava feliz e ao mesmo tempo chorava naquele desadoro, eu não entendia. Sentia-me profundamente perturbado e até mesmo aflito. E aí, num repente, ela de novo pôs a mão sobre a minha, puxou a minha mão até a boca e começou a cobrir de beijos os meus dedos. Retirei a mão bruscamente, assustadíssimo:

— Que é isso? Que é isso?

Ela me soltou os dedos, levantou até mim o rosto lindo, lavado em lágrimas, e balbuciou, como menina apanhada em falta:

— Perdoe, que eu estou fora de mim!

Levantei-me para ir embora. Procurei em torno o meu chapéu, não o vi; devia ter ficado na alcova da mulher morta.

Dona Bela se levantou também, enxugou os olhos na manga da blusa, implorou:

— Por favor, não vá! Agora não!

Eu ia respondendo, severo, mas aí entrou a escrava com a bandeja do chá.

Para não chamar mais atenção, sentei-me de novo. Ela sentou-se também, apossou-se da bandeja com um sorriso trêmulo; e, com os dedos também trêmulos, encheu uma xícara para mim.

A escrava avisou:

— Já está doce, Sinhá.

Eu olhei para a mulher. Será que ela viu alguma coisa? E lhe pedi também, sorrindo um pouco:

— Quer ver se o meu chapéu ficou caído lá no quarto? Creio que larguei o chapéu por lá.

A escrava curvou a cabeça e saiu. Eu me mantinha longe de Dona Bela, silencioso, a cara séria. Ela serviu-se de chá e nem ergueu os olhos para mim.

A escrava voltou, me entregou o chapéu e a bolsa, que eu também largara no quarto da moribunda.

— Sinhô Padre se esqueceu também desta bolsa, junto com o chapéu.

Eu já estava de pé. Dona Bela ergueu-se e ofereceu:

— Vou mandar alguém acompanhar o senhor. A noite está muito escura.

Eu agradeci, com certa rispidez:

— Eu sempre acerto o caminho de casa. Mesmo no escuro.

 

Saí, meio tonto. Era a primeira vez que eu enfrentava uma tentação direta e imediata, em carne e osso, sangue e sorriso.

A mulher estava ali, tão linda, tão doce, tão macia, com aquela trança desfeita que lhe descia pelas costas, o roupão caseiro, o pé sem meia numa chinelinha azul, aparecendo de vez em quando. O perigo era decerto pior do que as visões de Santo Antão. Não oferecia a tal nudez ondulante da serpente, era o suave convite da intimidade. Só nos olhos dela é que se via uma luz de malícia. E eu, com os meus olhos abaixados, o queixo enterrado na sotaina preta — a minha mortalha, que me separava dos vivos, do mundo.

O ar frio da rua que eu respirei a peito cheio, me aliviou um pouco a angústia, o desorientado senso do pecado. Pus-me a andar em passadas largas, escorraçado pela chuva que ia engrossando, carregado pelos meus maus pensamentos.

A casa parecia longe, a rua sem fim. Será que eu estava mesmo perdido, naquela escuridão? Mas então vi que chegara em casa, dei de frente com a porta fechada. Bati com força, gritando pelo menino que me servia:

— Onofre! Onofre! Abre essa porta! Depressa, que eu estou me molhando!

A chuva engrossara mesmo e eu já estava com as costas ensopadas, tremendo de frio, as mãos geladas. Onofre correu o ferrolho, olhou-me com os olhos assustados:

— Sinhô está mal?

Entrei rápido, entreguei-lhe a bolsa.

— Estou mal, sim, constipei na chuva.

Desabotoei a batina, deixei a roupa molhada cair no chão e, de camisa e ceroulas, fui ao baú, no meu quarto. Abri, tirei uma garrafa de aguardente que eu tinha ali para algum imprevisto — como aquele! Destapei a rolha com alguma dificuldade e, no gargalo mesmo, tomei uns goles grandes que quase me sufocaram. Onofre, que apanhara no chão a batina molhada e procurava pendurá-la no cabide, ouvindo a minha tosse engasgada, virou-se espantado, mas não disse nada. E eu, assim que pude falar, expliquei, para não escandalizar o rapaz:

— Bebida é sempre ruim. Tomei, para esquentar o frio, e quase me sufoco!

— Sinhô não tem costume! Por isso é que se engasgou.

Enfiei o camisolão, deitei-me um pouco na rede. Mas, no frio que me atacava, a rede não dava conforto.

Fui à cama, que eu raramente usava, estreita e dura; me enrolei todo na coberta. A aguardente também me deixara meio tonto.

Dormi. Mas dormi, Deus que me perdoe, com a mulher nos braços, como se a tivesse mesmo ali, viva, tépida, macia.