Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 23 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 22 — Marialva

Marialva

 

FOI UMA LUA-DE-MEL muito louca. A gente tinha que economizar o dinheiro ganho por Valentim na feira. O cavalo único se cansava com o peso de dois cavaleiros; mas afinal não se tinha tanta pressa assim em chegar ao ponto do encontro com os velhos, marcado por Valentim.

Pela primeira vez na vida dele, Valentim não sentia a obrigação de se preocupar com o que devia fazer nos pontos de parada — não tinha espetáculo nenhum para oferecer.

A gente saía de manhã cedo porque era bom enfrentar a estrada antes que o sol esquentasse, sentindo o cheiro da madrugada. Ainda estava tudo úmido do orvalho e, quando o caminho estreitava, os galhos molhados lavavam o nosso rosto. Eu trazia alguma coisa pronta da estalagem — ovo duro, pedaço de queijo, umas cocadas, algumas bananas. Se dava sorte, um bom pedaço de galinha assada. Numa das paradas comprei um frango inteiro, assado no espeto. Valentim tinha conseguido uma garrafa de vinho, vinho de verdade, de uva, vinho do reino. Presente de um conhecido dele que fazia o enterro dos ossos, depois de uma festa de casamento. Afinal, dizia Valentim, nós dois, também se tinha direito a um vinho de casamento.

O encontro de Valentim com os pais era na feira anual de uma vila grande, lá bem adiante, na estrada da Bahia; ficando também a meio caminho da estrada real que, dali, já corria era para a Corte, no Rio de Janeiro. E quando eu galopava, atrás de Valentim, não podia deixar de pensar nas distâncias que aquela estrada andava, léguas e léguas — mil léguas quem sabe!

Os pais deviam esperar por ele num lugar chamado Pedra do Ferro, acho que na extrema com Minas Gerais. Lá eles tinham um conhecido, português também, casado com filha de fazendeiro e estabelecido na vila com loja de panos e ferragens.

Mas eu, apesar de tudo, não sentia o coração sossegado, medrosa de enfrentar o encontro com os pais dele. Valentim, pelo contrário, estava muito alvoroçado, pensando no bendito encontro, em matar a saudade que sentia dos velhos — o que ainda piorava o meu medo — sabia lá o que iam pensar de mim, boa coisa não seria, moça maluca, pra não dizer pior, capaz de largar a família e se atirar pelas estradas do mundo, na garupa do namorado...

Quando eu falei isso pro meu marido — que tinha receio dos pais dele, do juízo que iam fazer de mim —, ele começou a rir. Nós estávamos a cavalo, eu agarrada nas costas dele; Valentim virava para trás a mão esquerda, mexia com o dedo anular, e no dedo só se via a aliança de ouro, novinha. E eu perguntei que é que havia com aquela mão, e ele então parou o cavalo e se virou para mim:

— Não se lembra de que já estamos casados, por um Padre da Santa Madre Igreja? Não estou levando nenhum contrabando para apresentar aos velhos. Estou levando a minha legítima esposa!

Aí eu comecei a rir com ele, sentindo outra segurança. Na verdade não eram os pais de Valentim que eu ia conhecer — ia conhecer o meu sogro e a minha sogra!

— E o tio — lembrou Valentim. — Não se esqueça do tio. Eu acho que talvez ele seja a pessoa mais importante da família.

 

Andamos muito. Valentim conhecia aquelas estradas; há anos e anos andava por ali. Às vezes a gente tinha que caminhar da madrugada à noite alta, para encontrar um pouso de gente que ele conhecesse. Afinal, quando achamos — ou ele achou — que já se tinha tomado bastante distância da Vargem da Cruz e das perseguições do Tonho ou do Irineu, resolvemos tirar uma folga; tínhamos chegado a um certo lugar onde moravam uns conhecidos de Valentim, a bem dizer amigos.

Era uma casa de sítio, a uma légua da vila. Tinha jardim e pomar, bonitos como eu nunca vira. Tinha até canavial com um engenho movido a roda d’água. O sítio se chamava dos Sete Riachos, que se vinham a reunir ali, enchendo um grande açude que já fora uma lagoa.

Tudo isso o dono nos explicou, no orgulho de mostrar aquela beleza. Mas a gente estava mesmo era morrendo de sono e de cansaço, sem falar da fome. Mal se segurava os bocejos. Afinal o homem entendeu, perguntou se o ‘casalzinho’ andava fugido. Valentim imediatamente mostrou a ele a certidão do Padre. Mas explicou que os meus irmãos não levavam o casamento a gosto, e arriscava virem atrás de nós.

— Por isso me desviei do caminho e vim lhe pedir guarida por uns dias, enquanto minha mulher repousa da estirada. Talvez até vocemecê possa me vender um cavalo. Ia ficar muito mais confortável. A gente até pode achar gostoso, andar abraçadinho de garupa, mas o cavalo é que não acha...

O homem devolveu o papel a Valentim, rindo:

— Pela data da certidão vejo que vocês se casaram há pouco tempo. Estão ainda de lua-de-mel! Vou lhe dar um quarto retirado, onde a gente bota hóspedes de passagem, pouco conhecidos. Posso até mandar comida de bandeja, para não perturbar os noivos!

Nos acompanhou ao quarto, que era pequeno mas tinha cama. E nos mostrou uma veredinha aberta no mato, pra se ir tomar banho no açude:

— Vocês devem estar empoeirados, loucos por um banho. Pois vão tomar um mergulho, enquanto eu dou umas ordens lá em casa, para arrumarem o quarto e levarem uma merenda reforçada. Lua-de-mel! Deus abençoe!

Fomos até ao açude e era a primeira vez que Valentim e eu — a primeira vez que a gente ia tirar a roupa na vista um do outro, e em plena luz do dia. Nossos abraços de noite, mortos do enfado da correria, não pareciam coisa muito real, era mais uma espécie de sonho no meio da canseira.

Valentim começou querendo ele mesmo me tirar a roupa, mas eu não deixei. Exigi que ele ficasse de costas, enquanto eu me despia e entrava na água, tão morninha do sol, tão gostosa no corpo — mergulhando até a altura dos ombros. Ele se conformou e quando eu gritei que podia vir, já ele tinha arrancado a roupa do corpo e mergulhado como um peixe, debaixo d’água, até me abraçar pelas pernas. Uma coisa que eu descobri então é que o amor nem sempre é muito sério e importante, pode ser brincadeira, correria, risada. Como nós, naquela hora.

A merenda era ovo frio, pão de milho, doce de coco, leite e café. Comemos, e depois dormimos até o dia seguinte.

Dez dias passados, em viagem mais descansada (cada um no seu cavalo, o dono dos Sete Riachos nos vendeu um quartau cardão) chegamos ao Pau de Ferro, onde nos esperavam os pais de Valentim. Lugarzinho meio triste, metido entre uns serrotes feios, quase sem verde. O povo lá dizia que era só derreter no fogo uma lasca daquelas pedras, que virava ferro. Será?

Gostei mais do pai do que da mãe de Valentim. Natural, porque a princípio ela me recebeu desconfiada e mal me falou. Já o português foi logo me estalando dois beijos nas faces, me chamando de menina, dizendo que estava com inveja daquele felizardo do filho.

A mulher chamava o marido de Tonico mas ele se apresentava ao público como Comendador Setúbal. Depois Valentim me explicou que o pai não era Comendador nem nada, mas é costume de todo mágico usar um título para impressionar. E dá mais respeito. A mãe se chamava Aldenora; e, depois de passado o primeiro choque de me conhecer, ela já estava mais amável. Afinal me disse, sorrindo um pouco, que eu tinha lhe roubado o filho, mas isso era de esperar.

Valentim aproveitou a deixa para contar que não tinha sido eu que o roubara, mas ele me roubara a mim, de uns irmãos muito carrascos. E como a mulher voltasse a me olhar enviesado, ele de novo sacou do bolso a certidão do Padre:

— Parece que Marialva tem cara de moça raptada; ninguém pensa que a gente teve o cuidado de se casar!

Aí o Seu Tonico, como eu já estava chamando o Comendador, pegou na certidão, leu o meu nome e disse:

— Em Portugal chama-se ‘marialva’ a um rapaz janota, em geral fidalgote. Aqui, chama-se Marialva às raparigas!

Eu não morria de encabulamento porque Valentim estava ao meu lado, com o braço passado no meu ombro. Todas as outras pessoas não tinham muita importância.

O tio estava ausente. Tinha ido trabalhar de ‘Hércules’ numa feira de gado, onde só aparecia vaqueiro, e onde só havia público para homens de força, os tais ‘Hércules’ de feira.

Daí a dois dias chegou, muito cansado, se queixando de dores no peito. Era um homem atarracado, com uns ombros de uma vara de largura, como dizia Seu Tonico, zombando do cunhado.

Debaixo da camisa dava para se ver a musculatura; não era à toa que mandava que lhe quebrassem uma pedra em cima da barriga.

Seu Tonico e Dona Aldenora estavam ansiosos para reunir o grupo e voltar a trabalhar. Desde a desastrada queda de Valentim, os espetáculos tinham caído muito.

— E com razão — interrompeu o português. — As mulheres sempre querem ver um belo mancebo, e são as mulheres que trazem seus homens para a função...

No dia seguinte começaram os ensaios. Primeiro só os do mágico, porque ainda não se tinha armado o trapézio. Com as dificuldades do transporte e Valentim ausente, os velhos acabaram vendendo os sarrafos do cavalete, muito compridos e pesados; agora era preciso adquirir outros. Valentim ainda tinha algum daquele dinheiro do Imperador do Divino: o problema era encontrar madeira de bom tamanho. Tiveram que cortar da mata e aparelhar por um carpinteiro.

Levou uns quinze dias para se aprontar tudo. Afinal já estava ali o cavalete, alto de quatro braças, com o balanço pendurado lá em cima. E nessa hora eu vi o meu Valentim, vestido num trajo de malha (que a própria Dona Aldenora lhe fizera nas agulhas de tecer meias) todo às listras — encarnado, azul e branco. Meu Deus, assim é que deve se mostrar um príncipe, era bonito demais.

Valentim se dizia enferrujado, fez algumas piruetas mas não se arriscou ao salto mortal. E eu já nem estava mais admirando a destreza dele, estava era morrendo de medo, não fosse Valentim cair, como da outra vez.

Enquanto se esperava aprontar o cavalete, o Comendador ensaiava as mágicas e botou tudo no ponto. A água virava vinho, as moedas brotavam debaixo do nariz dos meninos assustados, as bandeirinhas de todas as cores se desfraldavam, saindo de uma caixa vazia, tal e qual como Valentim tinha me contado.

Minha curiosidade era enorme, querendo descobrir o segredo daquelas mágicas; mas Seu Tonico não me mostrava. Dizia que “sabendo-se, perdem elas o encanto; e eu quero que elas te encantem...” Ele era muito galante, aquele meu sogro. Nem sabia ele que já me encantava o simples fato de ter um sogro, uma sogra, um marido — eu, a menina sozinha do sítio das Marias Pretas, sem pai nem mãe, sempre debaixo de unha da Firma, pior do que a pior das madrastas.

Para não ficar sem fazer nada, só olhando as artes deles, me ofereci para ajudar Dona Aldenora ou, antes, ajudar o mágico, nas sortes mais fáceis. Verdade que eu não tinha vestido nem de longe parecido com o dela, mas, remexendo no baú, a sogra descobriu uma saia de sedinha e um corpete de veludo preto que, posto sobre a minha blusinha cor-de-rosa, me ficava mais ou menos. Valentim disse logo que eu ficava linda, mas isso era lisonja de noivo. Assim mesmo eu me sentia feliz.

E, de número em número, fui aprendendo a fazer tudo que a sogra fazia. Também não era difícil, o mais trabalhoso era preparar os ‘aparelhos’, dobrar os lenços nos fundos falsos, puxar com jeito o guardanapo encobrindo o copo encarnado que fingia de vinho, e descobrindo o copo cheio de água, transparente. E trazer muito bem areada a varinha de condão, que Seu Tonico dizia que era de prata, mas escurecia fácil, como se fosse mesmo de ferro.

Aprendi a viajar com eles. O sonho do Seu Tonico era comprar um carroção onde se viajasse e se morasse, como numa casa de rodas. Mas isso tinha que ficar no sonho, pois, embora aparecendo o dinheiro para tanto, havia de ser impossível sair andando, numa tal almanjarra, naquelas trilhas sertanejas, que ninguém podia se atrever a chamar de estradas. Então se andava era a cavalo mesmo, cada um no seu; e se levava a mais duas mulas cargueiras, conduzindo, desmontado, o material do trapézio e as malas dos adereços. Gosto de dizer as palavras novas que aprendi com eles, como chamar de ‘maiô’ uma espécie de calção e camisa, todo de meia, que o Tio Hércules usa quando se apresenta. Em cima do maiô ele bota uma pele de onça, já meio velha e com peladuras, mas que o tio diz que lhe custou os olhos da cara, ainda no Rio de Janeiro.

Tomei horror àquele número da pedra. Era de fazer medo, o homem na tal posição de caranguejo, a pedra enorme em cima da barriga e Valentim, com a marreta, quebrando a pedra. Perguntei por que eles não contratavam um trabalhador braçal pra bater com a marreta e o Tio Hércules explicou que era preciso saber bater, saber onde corria o veio da pedra e abrir a rachadura nesse veio, para não maltratar muito o ‘paciente’ que estava por baixo. Valentim tinha prática nisso, vinha fazendo aquilo durante anos. Eles falavam assim, com a maior naturalidade, mas qualquer coisa me dizia que o velho Hércules, se não sentia medo outrora, quando mais moço, sentia muito medo agora. Os olhos dele ficavam meio baços, a respiração mais curta. E eu, por mim, morria de susto, vendo Valentim com aquela marreta na mão, batendo, batendo, até quebrar a danada da pedra em cima do coitado do tio.

Dei para me esconder quando começava esse número da pedra.

E certo dia nós fomos à feira de um lugar meio perto, ver outro pelotiqueiro que se exibia num número muito perigoso; era atirador de facas. Botava a mulher dele encostada numa tábua (no caso era uma porta) e, jogando dúzias de facas, de uma em uma, ia fazendo na tábua o desenho do corpo dela. As facas passavam pela vista da gente como um relâmpago, se encravavam na madeira e ficavam zunindo em redor dos ombros, dos braços abertos, da cintura e da cabeça da criatura. Vi que Valentim ficou maravilhado com aquele trabalho. Começou a dizer que, se aprendesse a atirar as facas, podia até largar o trapézio. Já não se sentia mais tão leve como nos tempos de rapaz e piscava para mim: “Quando ainda não era um homem casado, cheio de responsabilidades...” Ele fingia que brincava, mas duas coisas eu havia descoberto: primeiro que, com o acidente, ele tinha se assustado; já não era movido pela mesma ousadia. Perguntei isso à mãe dele e Dona Aldenora confirmou — ela própria morria de medo, também. A outra coisa que descobri é que o povo que vem ver o artista de feira, tem mesmo é sede de sangue. Talvez eu esteja exagerando, eles propriamente não pedem sangue, mas o que querem é ver e sentir o perigo. Que graça pode ter aquela brutalidade do número do tio com a pedra? Mas o artista está sempre arriscado a morrer debaixo do peso e das pancadas — e é isso do que eles gostam: o risco. Então, Valentim se sentia meio receoso de nova queda, não por ele, mas pela insegurança do aparelho, conforme dizia e tinha razão. E assim, procurava arranjar atração nova, arriscada. Descobriu então o arremesso das facas!

Desde logo eu fui contra. Acima de tudo temia que ele me pusesse como a mulher do outro, servindo de alvo para o atirador.

Valentim, quando eu falei nisso, ficou muito sério e me disse:

— Eu só vou lhe pedir para servir de alvo quando já souber atirar as facas sem fugir uma linha, nem a grossura de um cabelo.

Mordi o beiço, apavorada. Mas não respondi. Talvez ele não aprendesse nunca.

 

Dias depois, vi que ele me chegava em casa trazendo uma canastra pesada: afinal tinha comprado as duas dúzias de facas do homem. Parece que o tal sujeito havia dado pra beber e a mão já não lhe era bastante firme. A mulher começou a ter medo, ao ver que aquela mão do marido não parecia mais com suficiente firmeza para trabalho tão perigoso. Eles tinham juntado um dinheirinho — a freguesia era boa —, todo mundo quer ver um homem correndo o risco de matar a mulher com vinte e quatro facas! E não tem pena de pagar por isso.

Fez negócio com Valentim, trocou as facas por dois dos nossos animais, um cavalo e uma das mulas: a gente agora só ia precisar de uma, já que ele abandonava o cavalete.

E daquele dia em diante, Valentim começou o aprendizado. O próprio atirador veio lhe ensinar todos os macetes: o importante era o pulso firme, o golpe de vista seguro, o balanço da faca certeiro; quase tudo isso, o homem dizia, ele já trazia do ofício de trapezista. Agora era só praticar.

Durante muitas horas por dia, todo dia, Valentim praticava. Arranjava uma porta velha no lugar onde a gente estivesse, riscava nela, a carvão, o desenho do meu corpo (e só com isso eu já me arrepiava) com os braços abertos. Tivemos muitas brigas até eu concordar em ajudar ao menos naquilo.

E ficava atirando as facas, errando e acertando, horas e horas. No começo errava muito, errava muito mais do que acertava, e eu tive até esperança de que ele não fosse aprender nunca e acabasse desanimando. Mas qual, a cada erro, apertava os beiços e começava outra vez. Com umas dez semanas já era capaz de cravar todas as vinte quatro facas na madeira, sem um erro — senão de raro em raro, muito raro. E quando ele vinha comentar isso comigo, todo glorioso, eu retrucava:

— Mas basta um só desses “de raro em raro” para matar o coitado que lhe servir de alvo.

No fim das dez semanas, Tio Hércules veio se oferecer para trabalhar nas facas com Valentim. Mas meu marido não queria:

— Eu pratiquei com uma figura de mulher; o senhor faz muito volume e vai me atrapalhar o golpe de vista. Deixa eu praticar mais um pouco com o risco da Marialva...

 

E, enquanto ele praticava, a gente continuava na estrada, de feira em feira. Chegamos ao Brejão a tempo de trabalhar na festa do Divino Espírito Santo, conforme a combinação com o Imperador daquele ano. Ele mesmo mandou fazer um cavalete para o trapézio de Valentim — dos nossos números era o que mais apreciava. E Valentim de novo voou nos ares, lindo e leve que era ver um pássaro.

Tio Hércules mais uma vez enfrentou a quebra da pedra. E o Seu Tonico fez as mágicas do Comendador, já comigo como ajudante, para descanso de Dona Aldenora.

Ganhamos um bom dinheiro no Brejão; e apresentados pelo Imperador, fomos fazer outra festa do divino numa vila perto, onde tinham atrasado o calendário por causa de uma doença do vigário velho.

Eu continuava feliz. Nem me lembrava das Marias Pretas, a não ser de Duarte. Dele eu tinha saudade e muita. Mas quem sabe se fora de lá, junto com a mãe, depois que já não tinham preocupação em me defender da Firma? Duarte mais de uma vez me disse que só ficava ali por minha causa. E ele indo embora, iria a Rubina também. Das Marias Pretas e dos seus donos, ele não podia esperar nada, só desgostos.

E Valentim, incansável, continuava a praticar com as facas. Mal se tinha um dia de paradeiro, lá estava ele com o seu alvo (agora já tinha um, desmontável) de tábuas escantilhadas, que se armava num minuto. E quando a tábua se armava, logo aparecia a minha figura, bem riscada em tinta preta. Deus que me perdoe, até parecia um agouro.

E ele, a quatro braças de distância, pegando a faca com aquele jeito especial que o homem tinha ensinado, balançando a lâmina como pêndulo de um relógio grande, e de repente vupt! lá partia o ferro brilhante, em procura da linha dos meus ombros, dos meus braços, da minha cabeça.

Eu, defronte, tinha até arrepios de pavor. E sabia muito bem que Valentim não via a hora de se considerar pronto, me obrigar a abrir os braços, encostada naquela tábua. E ficar esperando, sem tremer, o zumbido do aço frio voando na minha direção. Será que eu gostava tanto dele, a ponto de ser capaz, um dia, de enfrentar o terror da morte?

Aos poucos, na nossa marcha de pra lá e pra cá, de acordo com o calendário das feiras, chegamos a um lugarzinho pequeno e paramos para a festa da padroeira que dava o nome à vila: Santa Luzia.

Fomos tratar com os festeiros, conhecidos antigos de Seu Tonico; nos receberam muito bem, prepararam para o nosso espetáculo um varandão largo de uma casa de rico; no dizer de Dona Aldenora, parecia um palco de verdade.

A rua estava toda enfeitada de bandeirinhas e folhas de coqueiro; o povo daquela terra tinha um grande amor à Senhora Santa Luzia e muito gosto com a sua festa. Depois nos contaram que, naquele lugar, antigamente a sapiranga dava de praga; e Santa Luzia ‘no seu cavalinho’, a protetora dos olhos, depois de um mês de novena, acabou com a sapiranga. Eu mesma tenho uma tetéia de ouro com os olhos de Santa Luzia, que Mãe me pôs no pescoço quando sofri de uma dor d’olhos — e nunca mais tive nada.

Como de costume, não se cobrava entrada em função de saltimbanco. Os donos da festa tratavam um preço com os artistas: e, ao alcance do povo, se botava uma bandeja ou um prato, onde quem quisesse deixava a sua moeda.

Seu Tonico e eu fizemos as nossas mágicas. Eu já tinha um vestido novo que Valentim comprou; e a Dona Aldenora, junto comigo, tinha reformado o trajo melhor dela, até assentar em mim.

Valentim não quis armar o trapézio em Santa Luzia; mas dançou na corda bamba, deu saltos mortais, fez acrobacias numa barra. O povo se entusiasmou, principalmente as moças. E eu fingia que não me importava com os gritinhos assanhados delas.

Por fim chegou a vez do Tio Hércules. A tarde inteira Valentim e ele tinham andado por um lajeado à beira do rio, até encontrarem uma pedra que servisse para quebrar na marreta, com os seus veios bem marcados. Valentim ainda aparou a lajota quebrando as pontas, alisando as bordas, para não maltratarem demais o velho.

Chegou a hora, Tio Hércules apareceu com a sua pele de onça por cima do maiô, ficava muito esquisito, mas o povo gostou e bateu palmas.

Ele se curvou todo, agradecendo ao distinto público, explicou a ‘experiência extraordinária’ que ia executar. Aí foi se curvando para trás, as mãos procurando o chão, até se colocar na tal posição de caranguejo. A pedra estava posta ali perto. Valentim deu um sinal e apareceram dois negros fortes que pegaram a laje e, com cautela, puseram em cima da barriga do tio. Ele deu o gemido costumeiro (Seu Tonico dizia que isso fazia parte da encenação). Valentim, em seguida, foi apanhar a marreta e veio, a passos vagarosos, até perto daquela estranha figura: o velho de papo pra cima, debaixo do peso bruto do pedregulho.

Valentim contou até três, levantando de cada vez a marreta. No três! desceu o peso, com força, mas sem carregar muito, porque não interessava quebrar a pedra e acabar com a cena na primeira marretada. No que ele bateu, o velho, de baixo, gemeu alto. E na segunda pancada, estirou os braços e se estatelou no chão, com a pedra ainda inteira por cima do corpo.

Vendo o tio cair, Valentim jogou a marreta longe e se ajoelhou junto ao homem derrubado. Com bastante esforço, conseguiu retirar a pedra. Corria sangue dos beiços do velho; e logo ele abriu a boca para soltar uma nova golfada vermelha. Valentim se abaixou sobre o tio — e só aí viu que ele já estava morto.

Dona Aldenora soltou um grito e caiu pra trás, com um ataque. Ela gostava muito do irmão.

Além da aflição e do choque, as despesas do enterro: mandar fazer caixão e mortalha, comprar a cova no cemitério, pagar os coveiros e o Padre que fez a encomendação, foi tudo muito de repente. A gente não estava pronto, nem com o coração nem com a bolsa para encarar isso tudo.

Dona Aldenora se trancou no quarto, no escuro, cumpriu os dias de nojo sem querer saber de nada, sem falar se não fosse do morto, e isso mais chorando que falando. Com a ausência dela, Seu Tonico ficava ainda mais desarvorado e — ninguém vai acreditar! — fui eu que mantive a calma, animei os outros. E o pior deles, apesar de ser o mais calado, era o Valentim. Numa hora em que ele estava olhando para o tempo, eu cheguei perto, peguei-lhe a mão; Valentim baixou os olhos para mim e disse, como se me contasse uma novidade:

— Foi a segunda marretada que matou o tio. Me pareceu até que eu senti o choque, debaixo da mão.

Que é que eu podia dizer a ele? Eu também achava que tinha sido a segunda marretada. Rematando o trabalho começado pela primeira. Procurei consolo em outra idéia:

— Quem sabe pra ele foi melhor assim? Talvez não sentiu dor. O boticário me disse que o coração deve ter estourado antes. Seu tio, pelo menos, não ficou muito velho, sem poder trabalhar. Tua mãe me disse que, desde rapaz novo, ele só sabia fazer trabalho de homem de força, em circo, ainda lá na terra de vocês.

Valentim me olhou, começou a se animar, contando que o tio chegou a botar no peito pedras de quase duzentas libras e saía assoviando de debaixo da marreta, como se não sofresse nada.

Era isso que eu queria: ver Valentim sair daquela dormência, arrancar com ele daquela Santa Luzia, onde não se ganhava nada e só se tinha despesa. Daí, minto: na última hora os festeiros fizeram uma coleta, nos indenizaram dos gastos e ainda nos deram uma ajuda para a viagem. Ninguém podia se dar ao luxo de não aceitar. Tratamos foi de botar o orgulho de lado, receber e agradecer.

Pela madrugada partimos, Dona Aldenora chorando sempre pelo Manelzinho, que Hércules era o nome de artista do irmão, ele se chamava mesmo era Joaquim Manuel.

O desastre do tio reforçou a resolução de Valentim de se despedir do trapézio. Ficava nos jogos do cavalete e da corda bomba e mais os truques de titereiro que praticava com o pai. Não tenho falado na rabeca, mas ele continuava tocando sempre, animando o trabalho dos outros. E agora, quando se apresentava comigo, era o Seu Tonico quem tocava. Sem esquecer, claro, a prática das facas. Todo santo dia, sem falha. Nunca mais falou comigo para lhe servir de alvo. Até mesmo na tábua nova desenhou a figura de mulher sem me usar de modelo: riscou sozinho, dizia que já tinha o meu corpo nas mãos.

Então, um dia, só para ver a que loucura a gente chega por amar — eu, da minha própria cabeça, sem ele falar em nada, numa hora em que o vi ensaiando e conseguindo acertar todas as facas na linha, sem nem sequer triscar por fora ou por dentro, uma só vez — sim, eu que, assistia de longe, me levantei, me dirigi para o alvo, me coloquei em posição e disse:

— Já está na hora de você praticar comigo.

Valentim, engraçado, reagiu com toda naturalidade, como se já estivesse esperando por isso:

— Hoje, não. Já estou com o braço cansado.

Só de noite, no escuro, calado e entre nós dois, me pagou de tudo.