Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 25 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 24 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

AFINAL O COMPADRE Julião foi embora. Eu já não podia mais. Voltei ao quarto, fechei a porta, me atirei na cama.

Agora, era preciso pensar na partida, e breve; estudar o destino que eu iria tomar.

Ai, como me maltratou o aparecimento daquela inesperada testemunha do passado! Veio me esfolar a pele frágil das cicatrizes mal saradas (saradas! quem dera!), revolvendo o que era indispensável esquecer para eu poder continuar vivendo. E como se fosse possível esquecer.

Eu tinha tentado levantar uma ponte que, partindo da Vargem da Cruz dos primeiros tempos, de quando eu ainda era inocente como um seminarista e, saltando os episódios de tragédias e fugas, desembarcar na vida atual de escrivão de Siá Mena.

Mas bastou que Julião chegasse e me chamasse de compadre, bastou que rememorasse os horrores daqueles dias, para que as lembranças de novo me sufocassem, aos golfões.

E no que elas me voltavam, essas memórias, bem que tive desejo de prender Julião ali comigo e desabafar e lhe contar nas suas minúcias toda a minha sofrida odisséia. Mas não tive essa coragem; antes, no que contei, no pouco que lhe contei, já começava por uma mentira. Tive que inventar aquele negro velho, que não existia senão diferentíssimo, na figura do negro moço — o Simão...

Inquieto, cada vez mais, passava da cama para a rede, ficava me balançando, querendo fugir à dor violenta trazida pelas evocações da Atalaia. Daquela noite, daquele quarto sinistro, com os seus três mortos; e a novidade da minha cabeça a prêmio e a caçada atrás de mim.

Horas depois, com a cabeça mais fria, procurei reduzir minha amargura, tentando recordar que não fora só gente má que eu tinha encontrado durante a minha via dolorosa. Houve gente boa, há muita gente boa. Sem falar em Iria, Simão, Onofre, que me mostraram amor e caridade, basta me lembrar daquele casalzinho tão jovem, logo no dia seguinte em que ganhei a estrada, que me abriu a porta da sua barraca. Ele mal apontando o bigode, ela pesada, esperando filho.

Eu caí sentado na soleira deles, e inventei o que me veio à idéia: que tinha entrado sem querer numa briga, e era com uma porção de homens, tudo bêbado, tudo armado. Eu nem tinha ficado sabendo por que seria que eles brigavam. No fim me dei muito mal, todo ferido, e ainda agradecia a Deus escapar com vida.

A moça me tratou o braço, me limpou a sujeira de sangue, me deu um chá de raiz do mato pra beber e diminuir o inchaço nos cortes. Fiquei lá mais de uma semana. Podia ter continuado ali, junto com o casal, mas ainda me via muito perto da Vargem da Cruz, para sentir alguma segurança. Então inventei que tinha uns parentes num lugar em que eles mesmos me falaram; disse que ia viver uns tempos junto com esses primos, até que o caso da briga ficasse esquecido. Eu não tinha culpa mas também não tinha testemunho nenhum a meu favor.

A moça, coitadinha, engoliu a mentirada toda, e ainda me deu a matalotagem para me sustentar no caminho. Nem ela nem o marido desconfiaram de nada. Também, eu não tirava nunca da cabeça um caco de chapéu de palha, me escondendo a coroa de Padre. Por sorte o cabelo cresceu depressa, já estava quase do tamanho dos outros e se misturava com eles.

Deixei também crescer o bigode para mudar a cara rapada. Eu já estava muito melhor, não tremia tanto, nem chorava. Me atirei ao caminho, andava devagar — muito fraco e, ademais disso, não tinha costume de viajar a pé. Afinal, passados uns quatro dias, acabei dando com o arruado em que o casal me falara.

Ficava a umas oito léguas de caminho e, chegando lá, vi que todo o pessoal da terra tinha se reunido num adjunto. Estavam cavando e enchendo de pedra o que iria ser o alicerce da futura igreja deles. Me ajuntei aos outros, fiquei trabalhando na obra, apenas pela comida. Ninguém me perguntou de onde eu era; achavam natural que qualquer pessoa se aliasse àquela empreitada de devoção. E ainda mais: eu já me apresentava tão sujo e rasgado, que podia passar muito bem por um mendigo de estrada.

Nós todos rezávamos juntos; um velho tirava a ladainha, no fim da tarde. E eu me ajoelhava entre aos mais pobres de todos, procurando ser na imagem o que já era na desgraça — um degradado entre os que estavam mais baixo.

Uma velha que morava com dois netos, num rancho, aceitou quando eu lhe pedi que lavasse a minha roupa e remendasse os rasgões. Um companheiro me emprestou umas ceroulas e eu fiquei a bem dizer me escondendo nas moitas, vestido só naquelas ceroulas emprestadas, enquanto a velha terminava mal e mal o serviço.

Houve um momento em que eu comecei a tremer de frio; é bem verdade que eu estava quase nu e me batia um ventinho fresco nas costas; mas creio que eu tremia mais de insegurança, me sentindo tão desamparado, tão só naquele lugar desolado. Talvez um recém-nascido se sinta assim, quando é lançado no mundo. Depois que eu me deixara levar para fora do seio protetor da Igreja, minha Mãe, só conhecera a vertigem do perigo, a privação dos sentidos e o terror, fechando ao meu redor o seu círculo de fogo.

A velha por fim me chamou e eu me vesti rápido, como se recuperasse a própria pele. Fui andando para a rua, pra ver gente, embora estranha. O povoado se chamava Cipó Vermelho, e muito poucas pessoas teriam ouvido falar nele. Era mesmo uma povoação nova, que foi se aglutinando ali, fazia já alguns anos. O primeiro morador simpatizara com o sítio, onde já vivia uma família de gente preta, diziam que fugitivos de um quilombo dizimado. O negro velho, que ainda estava por lá, era junto com uma índia gorda e de olho sonso, que mal se vestia com um trapo da saia e a camisa de cabeção.

Era ela, de nome Jaspim, que fazia a comida do adjunto, numa panela de barro, enorme, onde tudo era jogado na fervura: feijão, carne de caça ou de bode, toicinho, coentro verdinho. Ficava muito ruim, mas a fome ajudava a engolir.

A gente trabalhava de sol a sol, com grande boa vontade. Eles sonhavam com aquela igreja e não era só pela devoção. A igreja viria a ser o atestado de vida do povoado; seria a sua marca, aquela torre a se avistar de longe; representando muito mais que o velho pelourinho, perdida a sua importância desde que se acabou o tempo do rei. Agora o Brasil era um Império, onde não se aceitava mais aquela vergonha do pelourinho. E era portanto a igreja, com a sua torre alta, que iria dar a eles a carta de cidadania.

A casa melhor do povoado era feita de uma taipa bem trabalhada, rebocada, caiada, coberta de telhas de barro. Ficava para os lados do nascente, com cerca fechando o terreiro e o quintal. Os donos eram um casal de velhos, tinham fazenda ali perto, mas a mulher fazia questão de morar na vila, pra ficar junto do pequeno cemitério. No cemitério estava enterrado o seu filho único, morto de repente três anos antes.

O velho, a quem chamavam Seu Dão, simpatizou comigo. Ele gostava de assistir ao nosso trabalho; chegava cedo, sentava num monte de pedra, dava conselhos e, quando era preciso, dava até uma ajuda, ou advertia algum mais imprudente para não se machucar.

Talvez, entre todos, fosse o mais interessado na igreja, cujo orago seria o Mártir São Sebastião, o santo do filho. Os da terra murmuravam que Seu Dão e a Dona Mocinha tinham até forçado a escolha do padroeiro, passando para trás Nossa Senhora do Rosário, a primeira escolhida.

Seu Dão olhava tanto para mim que me constrangia. Se via que eu ia pegando um peso muito grande para as minhas forças, gritava a alguém que me ajudasse. Quando nos trazia rapadura e queijo para a merenda, sempre dava a minha parte com as mãos dele — aos outros mandava que dividissem. O pessoal já reparava; diziam eles que o velho me achava parecido com o finado filho Sebastião.

Até que uma tarde, quando nós saíamos do trabalho e eu ia descascando com o fio da faca os calos mais grossos da minha mão, Seu Dão chegou perto e me perguntou:

— Zé de Sousa, de onde é mesmo que tu vens?

Eu fiz um gesto vago, disfarçando o susto:

— Desse mundo por aí. Tenho andado por muitos lugares.

— Anda fugido? Pode contar sem medo, que não vou lhe entregar.

— E eu tenho cara de negro fugido, Seu Dão?

Ele me olhou bem, tocou no meu braço com a ponta da chibatinha que carregava sempre:

— De negro não tem cara não; mas de fugido, tem. Logo no primeiro instante se vê que nunca fez trabalho braçal.

O velho não parecia falar por maldade. E naquela hora eu estava exausto demais para resistir a um questionário. Fui andando devagar ao lado dele e confessei o que podia:

— Seu Dão, eu sou mesmo filho de boa família e tive alguma educação. Mas me meti numas brigas de política, quase me mataram. E resolvi então me perder de sertão adentro, até que me esqueçam.

— Daí você tem esse corte feio descendo do pescoço para o peito?

— Este e outros.

Levantei a manga esfiapada da blusa:

— Os dos braços são ainda mais feios.

O velho se compadeceu:

— E está mal sarado... O do pescoço ainda mina até um pouco de sangue. Zé de Sousa — se seu nome é mesmo Zé de Sousa (eu fiz sinal que sim) —, vamos até lá em casa, pra minha velha lavar e tratar esse corte! Com tanta sujeira, como está, pode até arruinar os ferimentos!

Aliviado, eu continuei andando. E respondendo sempre a Seu Dão, fui contando que era nascido na ribeira do Rio São Francisco; que era estudante quando me meti em política e me vira obrigado a fugir, para não ser morto ou encarcerado.

Nesse ponto, olhei para o velho e declarei com voz rouca:

— Agora estou nas suas mãos. Mas espero que não dê parte de mim.

Para surpresa minha, Seu Dão limpou com os dedos uma lágrima do olho:

— Menino, você me lembra muito o meu finado filho Sebastião. Ele era quase do seu tope e parecia um pouco de cara com você. E era entusiasmado pela política também. A mãe o queria Padre, como toda mãe. Ele sonhava em ser deputado! Para isso, precisa se ter muito saber, muito dinheiro... Não é com vinte vacas magras que se adquire a cadeira de deputado...

Nós estávamos chegando à casa dele. Dona Mocinha nos recebeu no alpendre, parecendo que já tinha conversado com Seu Dão a meu respeito. Respondeu rápido ao meu boa-tarde, disse logo para mim:

— Senta aí no banco!

Saiu e voltou com uma negrinha e um alguidar de água morna. Na mão trazia uns panos rasgados.

— Tira essa camisa velha. Eu mando lavar e remendar.

Eu segurei a camisa pela gola:

— Mas é só ela que eu tenho!

Dona Mocinha me afastou as mãos, arrancou a camisa:

— Eu arranjo outra que lhe serve. Deixe-me lavar esse corte. Tem arnica na água.

Com os trapos limpos, que passou num pedaço de sabão preto, foi me lavando as feridas do pescoço, do peito, do braço. Retirava as cascas secas, deixava à vista as cicatrizes frescas, algumas até ainda minando sangue, como notou Seu Dão.

A operação doía, mas não reclamei. Depois que me viu lavado, as feridas cobertas com folha de saião (cada curandeiro tem a sua folha predileta), Dona Mocinha foi de novo lá dentro. Trouxe de volta uma camisa, um par de calças, uma ceroula, tudo usado, a calça remendada, mas limpinha e passada a ferro.

Me entregou a trouxa de roupa e deu ordem:

— Vá ali no banheiro atrás de casa, tome um banho e mude a roupa. Deixe lá a que tirou, que eu mando pegar. E, cuidado, não molhe esses ferimentos.

Saí, meio trêmulo, a velha me deu ainda um pedaço de sabão.

O banheiro era um cercadinho de varas, formando um quadrado; tinha lá dentro uma tina cheia de água e uma cuia. Lavei o resto do corpo, saí do banho me sentindo outro. Lavei até as apragatas. Lavei muito bem a cabeça: apalpei a coroa. O cabelo já estava bem crescido, devia esconder qualquer sinal.

Dona Mocinha chamou, da cozinha:

— Pode entrar. O Dão já está aqui.

Sim, Seu Dão já estava abancado, metendo a colher num prato de coalhada. Outro prato me esperava.

Depois do chá de capim santo, Dona Mocinha me interpelou:

— Meu filho — posso lhe chamar de meu filho? Já faz dias que o Dão me fala a seu respeito. Tem muita dó de você, um moço branco, nesse trabalho bruto. Viu que você estava ferido e então eu pedi a ele que lhe trouxesse aqui, pra gente lhe tratar. Durante o seu banho, ainda agora, ele me contou que o seu caso era coisa de política. Ai, o meu finado Tião também era cego pela política: queria estudar em Olinda, vivia agarrado com os livros...

Suspirou:

— Depois que tirou a sujeira, você me lembra ele demais!

 

Daquela tarde em diante, tive mãe e tive pai. Seu Dão me mandou dormir no copiar, como dizia a Dona Mocinha.

Ele falou com o capataz da obra, na igreja, pediu para me darem trabalho mais maneiro, pois eu tinha uns ferimentos mal sarados. Eu comia com eles; de tarde vinha para casa com o velho; rezava com eles o terço, “tinha aprendido com o meu padrinho Padre”. E, assim, puxar a ladainha ficou sendo a minha obrigação em todas as tardes de novena.

Eu me sentia estranhamente aplacado. Seu Dão procurava me interessar pela fazenda. Mas o meu coração inquieto me dizia que eu não tinha nascido para me estabelecer de fazendeiro, criar gado, engordar e até mesmo ficar rico. Tomar mulher — na certa — e isso me apavorava. Se eu pequei foi por amor. Não iria recair no pecado por luxúria ou comodidade.

Na realidade, eu ainda me sentia Padre. A coroa podia estar escondida por baixo do cabelo novo, mas ainda me ardia no alto da cabeça. As mãos que consagravam, ainda as respeitava, como me tinha sido imposto. De noite, trancava a porta do quarto na casa de Seu Dão, ficava horas ajoelhado, rezando. Em latim.

Dona Mocinha tinha, na parede, um registro de Santo Antônio e eu me valia dele: pedia que me abrisse um caminho, me segurasse pela mão.

 

Até que um dia chegou no Cipó Vermelho uma carta que Seu Dão me pediu para ler alto. Ele era ruim de leitura.

A carta era assinada pelo vigário da vizinha freguesia de Mangangá, informando que, qualquer dia desses, iria ele aparecer pelo Cipó Vermelho, para ver como estava sendo construído o templo, se dentro das especificações canônicas.

Caiu-me a alma aos pés. Passei a noite acordado, andando de um lado para o outro, no quarto. Eu não podia me apresentar a esse vigário. Imagine, se eu me confesso a ele e ele então me dá a penitência de me entregar à justiça pela morte de Anacleto!

O pecado com Bela seria perdoado — eles sempre reconhecem que um Padre é também de carne e sangue. Mas a morte de um homem é outra coisa. E com o alarde feito na Vargem da Cruz (e eu ignorava o que dizia o relatório que mandaram para o bispo) o escândalo tinha sido muito grande.

E, se o vigário, me ouvindo em confissão, me perdoasse, me desse uma penitência secreta, sem me obrigar a comparecer à justiça? Ah, eu mesmo duvidava que isso fosse possível. Crime de morte é crime de morte, e ninguém parecia se lembrar de que o Anacleto me atacou primeiro!

Havia ainda uma hipótese do vigário não desconfiar da minha condição, o que seria muito difícil. Os Padres reconhecem de longe um companheiro, pelos modos, pelo jeito de falar, pelos cacoetes que a gente apanha desde seminarista... Era capaz de me apanhar numa armadilha, se desconfiasse. Citar alguma frase em latim, por exemplo, quando eu não estivesse esperando. E eu sei que caía, tinha que cair. Não sou assim tão ladino; não sei disfarçar bem, sou medroso, ou sou tímido, sei lá! No seminário os outros diziam que eu era esmorecido.

Poderia também esse vigário ser um Padre decaído, não ter moral para me punir; e, antes, querer me arrastar mais para baixo, com ele. E isso também eu não queria — ah, não queria, chegava a ter horror em pensar; cair mais fundo eu não queria.

 

Quinze dias depois da carta do vigário, os alicerces estavam prontos; já se amontoavam ao lado deles os milheiros de tijolos para se levantarem as paredes. E então, na hora do jantar, eu disse a Seu Dão e à Dona Mocinha que tinha chegado a minha hora de ir embora:

— Não vê — já se cumpriu a minha promessa. Já estão sarados os ferimentos... graças a estas santas mãos — e eu beijei as mãos da velhinha. E menti, tranqüilo:

— Estou pensando em voltar aos meus estudos, largar a política...

Dona Mocinha começou a chorar:

— Meu coração sempre me dizia que, a qualquer hora, eu ia te perder, meu filho.

Seu Dão engolia a canja, calado. Por fim, disse:

— Eu entendo. Isso aqui não tem futuro para você. Eu sonhei errado. Você não ia querer nunca ser fazendeiro.

Dona Mocinha, calada, ainda chorando, passava os pratos à mucama. Deu um suspiro:

— Deus dá, Deus tira. Foi o mesmo com o Tião. Pelo menos não vai por morte. Quem sabe ainda pode voltar um dia, para nos fechar os olhos. Promete que vem?

Seu Dão interrompeu:

— Não obrigue o moço com promessa arrancada. Se ele quiser, ele vem.

— Assim que eu puder, eu volto — prometi com o coração apertado, sabendo que não ia poder nunca.

Depois da janta os dois me levaram ao quarto do finado, fechado e limpo, como se o dono ainda morasse ali. Os livros, que eu já conhecia, na maioria eram de estudo, não me diziam nada. Eu não tinha veia política nem filosófica.

A mãe abriu o baú, tirou de lá um fato completo, não seria novo, mas parecia. Me serviu bem, embora um pouco folgado. As botas é que não me davam, eram grandes demais. Apesar das semelhanças alegadas pelos velhos, o Tião era bem maior do que eu, e mais forte.

Eu os consolei pelas botas, contando que no saco de viagem tinha ainda os meus coturnos. Mas a roupa era abençoada, porque eu não podia fugir com a roupa do corpo. Aquela sacola, contei que um amigo me trouxe com peças de uso quando fugi, depois da briga.

Seu Dão ainda me emprestou um cavalo e um moleque, para trazer o animal de volta. Ele ainda teimou, dizendo que eu mesmo podia trazer um dia os dois de retorno, mas me ardia a consciência de aceitar. Seria abusar demais, e eu não queria enganar os velhos a esse ponto.

Vestido na roupa do Tião, calçado com os meus coturnos, me despedi. Beijei a mão dos dois, tomando a bênção como um filho de verdade. Saí chorando também.

Mas fosse qual fosse o nosso desgosto, eu não tinha coragem de me arriscar ao encontro com o vigário.

Montei, com o pajem na minha garupa. Seu Dão me ensinou o nome de um lugar, distante cinco léguas, de onde eu podia tomar caminho para as bandas do mar.

Nesse lugar, por nome Japuri, passei uns dois meses, vivendo do dinheirinho que os velhos também me tinham dado — eu já com o pé no estribo — numa bolsinha de couro, que igualmente pertencera ao finado Tião.

Nesse Japuri, poupei tostão a tostão, procurando o que fazer. Durante uns dias servi no balcão de uma bodega, mas o movimento era pouco demais, passado o tempo das festas, e o patrão me despediu. Ele e a patroa davam conta do serviço.

Arranjei pra dar umas aulas a um mocinho, filho do dito bodegueiro; era só para desasnar o rapaz, antes de ser mandado para os estudos na cidade, em casa da avó.

E, numa tarde, estava eu na bodega, dando uma ajuda ao patrão porque era dia de feira, quando um senhor bem montado apareceu junto com um filho moço. Deu uma nota de compras, eu fui servindo, e aí o tal senhor perguntou:

— Seu menino, você não conhecerá por acaso, aqui na vila, algum professor que possa e queira ir morar na minha fazenda, pra dar lição aos meus rapazes? Por meu gosto iam os três no colégio na cidade. Mas a mulher não quer se separar dos filhos.

O patrão olhou para mim, riu-se, e respondeu ao freguês rico:

— Professor, compadre Honório? O senhor quer mesmo um professor?

E me pôs a mão no ombro:

— Pois está falando com ele.

E foi assim que eu fui ensinar aos rapazes, na fazenda dos Nogueira.