Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 3 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 2 — Maria Moura

Maria Moura

 

MEU DEUS, eu creio que me lembro dessa cara... É branco, usa roupa diferente, deve ser gente da rua. Que é que ele está dizendo? “Eu peço um particular...”

Não sei por que, engraçado, tive medo. De que cemitério me saiu aquela assombração? Muito amarelo, eu diria até descarnado, a roupa mais ou menos, mas velha e suja.

— Que é que o senhor quer comigo — e num particular? Que eu saiba, não tenho segredo nenhum com vocemecê.

Ele só fez um sorriso e eu fiquei mais curiosa. Falei para João Rufo:

— Vá esperar no portão, João Rufo. Mas fique de olho.

Quando João Rufo se afastou o homem olhou para mim, bem nos olhos, e disse devagar, em voz baixa:

— Queria saber se a senhora se recorda de uma confissão. Faz tempo, se lembra? “Padre, eu cometi o pecado da carne com o meu padrasto. E agora vou mandar matar ele...”

O que me valeu naquele instante foi a raiva que me veio diante de tanto atrevimento. Mas assim mesmo o sangue me fugiu da cara, me deu um aperto no estômago. Tentei fingir que não me lembrava de nada.

— Não sei do que está falando. Nem me lembro de confissão nenhuma. O senhor estará doido? Nem me disse como se chama.

Ele parecia muito seguro, me olhava dos pés à cabeça, até fazia um ar de sorriso. E insistiu:

— Sei que se lembra. A senhora devia ser muito mocinha, mas sei que se lembra. O assunto era sério demais. E, sobretudo, porque logo depois mataram o homem — Luís Liberato.

Eu aí me obriguei a fitar a cara dele, bem de frente, procurei fingir que, só depois de olhar bem, recordava aquela manhã na igreja.

— É verdade, mataram. E vocemecê não será o padre que me arrancou o nome do homem? Bonito segredo de confissão!

O padre (o coração já me dava certeza de que era mesmo o padre que estava ali) cruzou os braços no peito e falou muito sério:

— O segredo foi guardado. Desta boca não saiu uma palavra, a senhora há de saber disso muito bem. O povo deve ter desconfiado, mas nunca se soube. Parece que nem mesmo o matador falou.

Senti ainda mais raiva e medo. Fiquei sem saber o que ele queria com aquela ameaça disfarçada. E cortei a questão:

— O matador também morreu, logo depois. Era mais seguro.

Ficamos nós dois calados um momento. E em seguida eu disse:

— E o senhor? Também está com vontade de morrer?

O padre se desencostou da parede, deu um passo à frente e o cachorro rosnou para ele.

— Acalme o seu cachorro. Eu não vim aqui ameaçar ninguém; pelo contrário, vim pedir proteção.

— Mas logo o senhor? Um padre! Que espécie de proteção?

— Sua casa, sua confiança, sua ajuda. Antigamente se chamava isso ‘direito de asilo’. Pois eu vim lhe pedir asilo. Não sou mais padre, há anos. Larguei a batina. Também fiz uma morte, ando fugido já faz muito tempo.

Encarei o padre de novo:

— O seu segredo pelo meu?

Ele aí abriu os braços:

— Se a senhora quiser assim. Mas eu vim de graça, sem cobrança nenhuma. E posso pagar o que comer. Escrevo as suas cartas, faço as suas contas... Não precisa — nem deve — contar a ninguém que eu sou padre, mas posso batizar as crianças que nascerem, ajudar os doentes a morrer... E então?

Resolvi depressa. O perigo menor era deixar que ele ficasse. E se não desse certo, era mais fácil acabar com ele em casa, do que sair atrás, depois que ele botasse a boca no mundo.

— Está bem, mas tem que ficar sendo um cabra da Casa Forte, igual aos outros. Tem que seguir o meu regulamento. Anda com arma?

— Andava. Os seus homens tomaram uma espingardinha velha, uma faca.

— Está bem, quando for tempo, vai ter as suas armas. As da casa. Vou mandar o João Rufo lhe arranjar um canto para dormir. Tem um quarto vazio, me lembrei agora. Fica melhor para o senhor.

E o padre:

— Deus lhe pague, Dona Moura.

— Não bote nada pra Deus. Não deve ter muito prestígio com ele. O senhor mesmo me paga, vai ver. Eu dou, mas exijo.

E ele não tornou nada, fez de novo o ar de sorriso, bateu nas pernas com o chapelão surrado. Eu já ia chamando o João Rufo, quando me lembrei:

— E o seu nome? Que nome vai usar?

— Pra eu poder batizar os inocentes e ajudar os moribundos, é bom que me chamem de Beato. Assim ninguém estranha. Eu já venho pensando nisso há algum tempo.

— Mas Beato o quê? Beato só, não é nome.

— Que tal Beato Romano? Me lembra a Igreja Romana. É sempre uma homenagem.

Eu queria me livrar da presença dele. Me sentia muito confusa, na verdade, assustada.

— Está bem, fica por Beato Romano.

Chamei João Rufo, dei as ordens, os dois saíram.

Naquele dia, na igreja, eu mesma nunca entendi por que fui me confessar. Talvez só para tomar coragem. De certa forma, quem sabe, para botar Deus do meu lado. Era uma espécie de recurso desesperado, eu não sabia o que fazer de mim. Só o que sabia era que tinha de matar o Liberato. Falei com o padre no pecado da carne, mas o que eu temia mesmo não era o castigo do pecado... Eu tinha medo que o Liberato me matasse, como matou Mãe. Primeiro tinha sido Mãe. Agora ia ser eu.

E então, por que não morrer ele? eu indagava de mim, naquele terror que não me largava, com o vulto enforcado de Mãe sempre defronte dos olhos. Por que não ele?

O pior é que eu não podia falar com ninguém, nem tinha ninguém com quem falar, se pudesse. E já ia ficando com medo de acabar louca.

Por isso é que fui desabafar no confessionário.