Memorial de Maria Moura
Cap. 27 — Marialva
Marialva
O TEMPO SE PASSAVA; a gente, naquela vida, só não perdia noção dos dias, dos meses e até dos anos, por causa das funções tratadas com antecedência. E então a gente dizia que na segunda semana de novembro era para estar no lugar Fulano, e já pelas festas do Natal era para se comparecer em lugar Sicrano. Eu baralhava os nomes dos lugares na minha cabeça, as vilas, era tudo tão parecido uma com a outra, nem dava direito para diferençar.
Então, um dia em que a gente estava ensaiando o jogo das facas (e, da minha parte, só Deus sabe com que sacrifício, que eu nunca tinha vencido o medo. Continuava a tremer na hora, e de noite sonhava com Valentim me acertando com uma faca) — pois é, a gente ensaiava, enquanto de repente me deu aquele escurecimento da vista e eu caí no chão desmaiada.
A sorte foi que Valentim já tinha atirado a faca e ainda nem pegava na outra. Imagina, e se eu caísse da posição no mesmo instante em que a faca estivesse vindo, zumbindo no ar?
Valentim correu, me pegou nos braços, me sentou no colo, me sacudiu, sem saber o que fazer. Acordei com ele gritando o meu nome, pensando que eu estava morrendo.
Fui para o quarto, me deitar. Dona Aldenora chegou, às carreiras, mas em vez de se afligir como o filho, vinha mas era sorrindo:
— Ora ainda bem, já estava em tempo de vocês me darem um neto!
Seria? Então uma coisa importante como ter um filho começa de maneira tão idiota — se desmaiando? Eu pensava que, quando um filho fosse concebido, a gente havia de sentir a diferença — um calor por dentro, uma luz... e eu até me lembrava do Anjo e da Virgem Maria... Mas desmaiar, na hora do trabalho, cair no chão num faniquito...
E o pior é que, com os desmaios, vieram também os enjôos, ou os entojos, como dizia Dona Aldenora.
A gente estando casados há mais de três anos, eu até já tinha me desvanecido da idéia de ter família. Pensava que podia ser castigo de Deus, por eu zombar tanto da Firma, que era maninha. E depois a nossa vida — de Valentim e minha — ainda tão mal assentada, sem morada nossa. Posso dizer mesmo sem morada nenhuma, andando ao Deus dará das feiras e das festas de padroeiro, passando a noite em cada tipo de hospedaria, onde não se tinha às vezes nem cama para dormir...
Valentim, Dona Aldenora, Seu Tonico, não estranhavam. Acho que nunca na vida souberam o que era morar debaixo do seu próprio telhado. Mas eu — como Valentim dizia — não era raça de cigano, era moça de família, acostumada com a minha caminha quente e aos mimos da Rubina. (Que saudade dos mimos da Rubina!)
Bem, por mim não tinha tanta importância. Quando fugi com Valentim ele não me enganou a respeito do que me esperava. Até exagerou um pouco, para eu não me desapontar quando visse a cara da realidade. Mas com uma criança era diferente.
Assim mesmo, houve logo uma compensação: se os meus entojos eram danados, pelo menos me livraram da agonia do jogo das facas. Desde aquele desmaio, Valentim não aceitava mais que eu ficasse como alvo — o susto foi forte demais, que ele dizia.
— Não é nem por você, é mesmo por mim. A mão me treme toda quando pego na faca e você está na minha frente.
E já que não tinha mais o seu número de grande aparato, voltou a dançar na corda bamba, praticou mais alguns truques de titereiro, desenvolveu no que pôde a agilidade das mãos. E se não voltou ao trapézio, é porque já não contava mais com o pai e o tio para lhe garantirem a segurança cá embaixo, enquanto ele esvoaçava lá em cima.
É, nem o pai nem o tio. Pois o tio estava morto e enterrado debaixo da sua pedra, já que botaram em cima da cova dele a mesma pedra que o matou; e Seu Tonico mudou muitíssimo depois daquele triste sucesso. Se antes já bebia o seu tanto quanto, depois da morte do companheiro passou a beber muito mais. Dez vezes mais. A mulher se desmanchava em prantos, o filho suplicava, mas não servia de nada. Nem a esperança do neto afastava o homem da garrafa. Só eu não pedia nada — sempre tive medo de bêbedo. Acho que ainda me lembrava das estraladas do Tonho. Quando ele chegava batendo com o relho nas paredes, eu saía correndo desesperada, tremendo e chorando, e ia me esconder num canto escuro, atrás do caixão de farinha. E porque eu não o importunava, Seu Tonico se apegava a mim. Me botava a mão na cabeça, me abençoava, me dizia um relaxo na sua fala de galego: “Tu irás dar à luz um pequerrucho belo como o lume e bom como o pão...” Vinha sentar junto de mim e se punha a falar mal dos outros dois; a sorte é que eu não entendia quase nada, porque, se a fala do Seu Tonico já era difícil de entender quando ele estava bom, imagina só a língua engrolada de embriagado.
Assim mesmo, aos trancos e maus caminhos, a barriga foi crescendo, o coração do bichinho batendo e, afinal, chegamos aos nove meses. Tivemos que parar numa vila, chamada Água Linda. Valentim tinha se esforçado demais na última feira, estava exausto; felizmente Seu Tonico, acho que lhe doeu a consciência, parou um pouco com a aguardente e a Dona Aldenora largou as camisinhas de pagão e as fraldas e cueiros que costurava dia e noite para o bragal do neto; reocupou ao lado de velho mágico o lugar que tinha sido o meu, ultimamente. Assim, sempre juntamos algum dinheiro que deu para se alugar uma casinha. Era lá um lugar tão pequeno e atrasado que nem se poderia pensar em dar um espetáculo. Quer dizer, poder, podia, o povo até apreciava muito quando vinha assistir a algum ensaio nosso, ou, de uma vez, quando tentamos fazer uma função completa. Mas nem olhavam o pratinho deixado à vista, esperando que pusessem lá alguma moeda. E no que Dona Aldenora explicou para que servia aquele prato, uma senhora idosa ralhou com ela:
— Dinheiro? Vocemecês tão bonitos, tão bem prontos, cada trajo lindo, não se envergonham de botar pires de esmola, para tirar os vinténs dos pobres?
Valentim passou então a executar alguns serviços: ele era meio sapateiro, meio alfaiate, meio seleiro; tinha um pouco de todas as artes e ganhava assim um adjutório, apesar do paradeiro.
E o menino nasceu bonito, gordo, era um belo bezerro, como dizia o avô. Pedi a Valentim que me deixasse dar ao nosso filho o nome de Alexandre, para se chamar Xandó, como Pai. Valentim não achava o nome bonito e só quando baixei a vista, triste, foi que ele concordou.
Se o mês do resguardo foi bom para mim, para o Xandó e até mesmo para Valentim, que ganhou dois mil réis consertando um gibão de couro e uma sela, do homem mais rico de Água Linda, para Seu Tonico foi um desastre. Ele descobriu um sítio perto, onde funcionava um alambique de cana e assentou acampamento lá. Levava consigo Dona Aldenora que, em vez de ficar me ajudando com o resguardo do neto, se via obrigada a pajear o marido e a fazer o que ele fazia. Nem eu e muito menos Valentim — nenhum de nós sabia que ela era dada à bebida. Mas com poucos dias conseguia chegar em casa ainda mais embriagada que o Seu Tonico. Natural, ela não era curtida na pinga feito ele. Foi inchando e bebendo sempre.
Com pouco mais de um mês daquela penitência (o Xandó já tinha condições de viajar no meu colo, ou no peito do pai, numa tipóia), Dona Aldenora caiu doente, de cama. Um curandeiro que a gente chamou, declarou que a aguardente tinha avinhado os figos da mulher; receitou um vomitório, fez-lhe duas sangrias, deu-lhe nem sei quantos purgantes e chás de ervas. Mas não adiantou nada; continuou com a cor verde na pele, como uma folha, os olhos amarelos de enxofre. Ainda penou muitos dias. E enquanto ela morria, Seu Tonico continuava bebendo; dizia que era para abafar o desgosto.
Então afinal ela morreu e ficou enterrada na Água Linda, no mesmo lugar onde o neto enterrou o umbigo. E Seu Tonico dizia que a vida era desse jeito, enquanto uns nascem outros morrem e há de ser assim mesmo, senão lá se acabaria o mundo.
Vendemos o cavalo dela, vendemos uma saia de belbutina que a dona da estalagem cobiçava.
Desocupamos a casinha e tomamos a estrada.
Adeus, Água Linda, guarda bem a coitada da Dona Aldenora que muito penou no mundo.
Seu Tonico sofreu muito com a morte da mulher. E passou a beber ainda mais, desesperado, dizendo que queria morrer. A gente não tinha o que fazer com ele, o pouco vintém que se apurava mal dava para o leite do menino. Eu parecia uma tísica, de tão magra e chupada. Valentim se via de pés e mãos amarrados. Trabalho não havia mesmo, o lugarejo onde se tinha parado, ainda perto de Água Linda, era pouco interessado também nas nossas artes, pior ainda por não ser tempo de festejo. Mas aí veio uma festa na igreja, com procissão saindo na rua. Valentim teve a idéia de falar com o vigário e combinou sair com a rabeca, na frente dos homens que tocavam a matraca. Ele tocava primeiro uma música, dessas bem vagarosas, depois é que entravam as matracas. O povo gostou demais, a rabeca era mesmo uma beleza; não digo isso por ser meu marido o tocador, mas tinha gente que até chorava, acompanhando a procissão. O Padre, vendo que nós dois éramos casados mesmo, e não uns saltimbancos de vida airada, conseguiu que, da casa de uma beata rica, nos mandassem todo dia uma panela com a janta, enquanto nos passava aquela maré ruim. Logo depois Seu Tonico se encostou numa viúva gorda, a Ninosa (“ai, que me lembra da finada!”), a tal achou graça nele, e estalava toda em risadas com as sortes que ele lhe fazia: tirar dinheiro do nariz, descobrir pombo vivo dentro de uma caixa vazia, coisas assim.
E o sogro acabou se mudando de mala e cuia para a casa da Ninosa — ou melhor, para a tendinha dela, que era uma meia-água com dois vãos, o balcão na frente, o quarto no outro; a cozinha era de trempe num telheiro do quintal.
Nas noites de sábado para domingo, quando havia mais movimento, Seu Tonico improvisava uma função. Fazia as sortes de sempre, mas sem ajudante, que a Ninosa ficava servindo a jerebita aos fregueses. Ele punha o chapéu no chão, bem às vistas do auditório; e, atendendo à dona da casa, a freguesia sempre jogava ali alguns cobres para o mágico.
Quando Valentim resolveu que já estava na hora de mudar de praça, Seu Tonico não veio conosco. Chorou muito; não tinha mais coragem de ganhar as estradas: “Minha vida acabou com a Aldenora”, foi o que ele disse. Eu fiquei zangada e perdi o respeito com o sogro:
— Sua vida se acaba, mas é nas garrafas da Ninosa, Seu Tonico!
Ele sorriu triste, fez um afago no meu queixo e disse:
— Também...
Valentim levava o nosso filho na lua da sela, e foi um alívio quando deixamos aquela terra. “Batendo a poeira dos chinelos”, dizia Valentim. “Vamos atrás de alguma esperança.”
Mas nas duas vilas onde paramos, mal se fazia o que comer. Na última, já se estava tão ruim, que Valentim aceitou dar uma função num rancho de comboieiros, na beira da estrada, e onde já estavam dormindo outras duas tropas. Umas levavam cargas de couro para o sul, outras traziam cargas de ferramenta e louça para o sertão. Era o dia de São Cristóvão, padroeiro deles; os tropeiros acenderam uma fogueira, o dono do rancho tinha alguma bebida, e começaram então a festejar o santo.
Nós já estávamos arranchados ali, ao chegarem os tropeiros.
Eu começava a cozinhar o mingau do Xandó, quando um chefe de tropa reconheceu Valentim, de uma feira passada. Ao saberem que a gente andava em procura de trabalho, inventaram de improvisar um espetáculo. Valentim estava sem coragem de mexer na nossa bagagem, no escuro da noite. Mas o homem conversou com os outros, juntaram os cobres e tostões que tinham — deu mil e setecentos réis — fazia tempo que não se via em nossa mão tanto dinheiro. Abriu-se o fardo maior, os homens ajudaram a atar as pontas da corda bamba entre os mourões de amarrar cavalo, na frente do rancho. De uma das malas de couro tirei a rabeca e alguns dos ‘aparelhos’ que Seu Tonico tinha dado ao filho e que Valentim já sabia usar.
Jogaram mais lenha na fogueira, as labaredas subiram alto e Valentim começou a tocar a rabeca para animar a função.
Os homens a princípio ficaram só ouvindo, até que um engraçado começou a dançar um galope. Os outros foram se chegando e com pouco dançava todo mundo, fazendo pares de homem com homem; pediam a contradança para as ‘damas’ que se punham a falar fino imitando mulher.
O baile ficou tão animado que Valentim não chegou a fazer sorte nenhuma. Nem na corda armada dançou. O som da rabeca era só o que eles queriam. Com o beber e o dançar, não pediam mais.
Quando a dança ia no maior embalo, um deles veio pedir licença a Valentim para me tirar. Meu marido parou de tocar e falou sério, com o arco parado na mão:
— Minha senhora não dança. E já avisei a vocemecês que exijo muito respeito para ela e para mim.
Eu achei bonita aquela defesa dele. Mas estava com os pés formigando, tanta vontade me dava de dançar também. Acho que o homem se animou ao me ver embalando o menino, meneando a cabeça, no compasso do toque.
De manhã, ainda com escuro, os homens foram acordando, trazendo os animais, botando neles cangalha e carga, mastigando uma merenda ligeira, de bolacha e rapadura. Um dos tropeiros simpatizava conosco e até veio ajudar Valentim a atar os fardos e arrear os animais.
Combinou viajar conosco até a primeira parada, já que ia também na nossa direção.
Eu, me deu um palpite e perguntei se algum deles, mais adiante, na viagem, não iria passar perto da Vargem da Cruz. Ele ia; e, assim que chegamos no primeiro pouso, arranjei um pedaço de papel com a dona do rancho, que também tinha pena e tinteiro, e escrevi uma carta para Duarte. Contava o nascimento de Xandó, que eu queria fosse seu afilhado; e a morte do Tio Hércules e depois a morte da sogra e a separação nossa de Seu Tonico. Dizia que a vida andava difícil, principalmente por causa da criança. Valentim não gostava de queixas, mas deixou que eu abrisse o coração. E ele mesmo escreveu umas linhas, dizendo que o afilhado era um homão e por que o compadre não pegava um cavalo e não vinha se encontrar com a gente, passar uns dias? Terminava dando mais ou menos o nosso roteiro, o nome dos lugares onde se devia parar, “quem sabe o compadre não vai sentir vontade de se aventurar com os saltimbancos?”
A carta foi subscrita para a Vargem da Cruz, ao especial cuidado do seu Jordão, nosso padrinho de casamento.
Nem pensei em endereçar para as Marias Pretas, sei lá o que o louco do Tonho era capaz de fazer. Duarte ia sempre na vila, pegava a carta. E eu tinha muita esperança de que ele viesse nos ajudar, naquele desamparo em que a gente se encontrava. E ainda mais com a criança pequena.