Memorial de Maria Moura
Cap. 40 — Maria Moura
Maria Moura
AFINAL SE LEVANTOU, vermelha, a barra do dia — dei a noite por acabada. Me vesti, lavei o rosto, como se lavasse dele as teias de aranha todas. A casa ia acordando. Primeiro acenderam o fogo na cozinha; veio o moleque pilar o milho para o pão. Pagão passou para o curral com a vasilha do leite. Quantas e quantas vezes já tinha eu assistido a essas madrugadas. Mas hoje era diverso, o que era de ser natural parecia diferente; e só havia lugar na minha cabeça pra muita tristeza, muito medo e muita raiva.
Logo que Duarte apareceu — e pelo visto, ele também não tinha dormido, estava de olho fundo igual a mim — pedi que fosse buscar Muxió. E o cabra chegou, cabeça baixa, ostensivamente esfregando os punhos ralados da corda. Deu o bom-dia com voz sumida. Eu não respondi, pensando em como principiar a conversa com ele. Por fim falei:
— Antônio Muxió, pra lhe ser franca, eu nunca me confiei em você. Os seus modos, a sua maneira de falar, esse seu jeito adiantado, nunca foram do meu gosto. E pelo visto eu não estava errada — veja só o que você fez. E eu estou no meu direito de mandar alguém te cortar as goelas, que é só o que um traidor merece: degola. Traidor se deixa sangrar até que morra; depois de morto se puxa pela perna e se atira pro urubu comer... Assim mesmo, como neste caso tem outras coisas em jogo, vou te propor um acordo. E se você conseguir me ajudar, prometo, tomando Seu Duarte como testemunha, que depois de feito o que eu quero, não te faço mais nada. Te solto no mundo, te dou até uma montaria. E espero nunca mais botar os olhos na tua figura.
O homem baixou mais a cabeça, disse rouco:
— Eu estou nas mãos da Sinhá Dona. Faça de mim o que quiser. Mas deixe eu lhe dizer que o culpado...
— Eu sei quem é que foi o culpado: o culpado principal. Por isso mesmo, lhe dou uma saída. Duarte, manda ele puxar um tamborete e se sentar. Assim. Agora a gente conversa.
Por sorte o Muxió conhecia até bem a vila do Sumidouro e conhecia até a cadeia: um primo dele esteve lá preso, depois que furou de faca uma rapariga. (Eu e Duarte tivemos a impressão de que esse ‘primo’ era ele mesmo.) Disse que muita vez foi lá, de visita ao tal primo.
É uma cadeia nova, a do Sumidouro, foi feita depois que a família Mendes, Bacamarte na chefia, incendiou a vila. É de altos e baixos, no porão fica a cadeia mesmo, em cima a casa da intendência.
— E como é que se passa tudo lá, de noite?
— Bem, a cadeia tinha sempre uns três soldados que ficavam na sala de entrada, cochilando. É pra ter também ali um sentinela, dando guarda; mas, como eles dizem, sentinela é de carne que nem nós.
— Você ouviu quando o cabo falou que iam levar Seu Cirino pra lá?
— Ouvi, inhora sim. Quando a gente já estava metendo o pé na carreira, foi a derradeira coisa que eu ouvi, que o lugar dele era na cadeia do Sumidouro.
A meu pedido, Muxió explicou como era a disposição da tal cadeia: na sala da frente dorme aceso um lampião de azeite; mas a casa é toda atravessada, de ponta a ponta, por um corredor, para onde dão as portas das celas dos presos. E a porta que fica no fundo do corredor dá para um quintal pequeno. Na verdade essa porta é só uma grade de ferro, à moda de um portão, que se fecha com um cadeado pelo lado de dentro. Mas é fácil de abrir ele, pra quem sabe: é só enfiar a mão pela grade, que se alcança o cadeado; e que também vive aberto, pendurado na corrente. Dizem os presos que os guardas deixam ele assim pra facilitar saída de preso protegido: — vai e vem sem ninguém dar fé.
Duarte a princípio não queria saber da expedição. Me disse mesmo, de olho no meu, que, se eu queria salvar o Cirino, ele não tinha nada com isso. Lavava as mãos de tudo. Cirino de volta, aqui, ele ia se sentir obrigado a ganhar o mundo, para não ter que matar a criatura com as próprias mãos.
Eu levei Duarte para a outra sala e abri a ele meu coração. Disse tudo que tinha pensado durante a noite: eu queria Cirino de volta, mas só pra acabar com ele. Para ele me pagar pela traição:
— Eu sou a Maria Moura, Duarte! Foi ousadia e desaforo demais! Me envolver nas traficâncias dele! Isso eu não posso tolerar!
Risquei num papel a planta da cadeia do Sumidouro, seguindo as explicações do Muxió. Marquei até a cela onde devia de estar o Cirino: a maior, logo depois da saleta do delegado, onde se podia armar uma boa rede; tinha um pote de água — tudo regalias que os presos ordinários não têm. E era destinada só aos moços de família pegados em flagrante. Pelo menos foi lá que ficou aquele dono de loja que matou a mulher...
Juntos, nós três — eu, Duarte e o Muxió (eu tinha que tolerar a presença do descarado do cabra, já que ele era o nosso único informante) — fizemos o plano da campanha.
Pra se chegar no Sumidouro rápido e se fugir depois do trabalho, o nosso grupo tinha que ir a cavalo. Tudo bem armado, com boa munição, o que era a nossa grande vantagem: soldado de vila pequena quase não tem armamento e o que tem é velho e maltratado. Muxió achava que a hora boa de chegar lá era noite alta, quando o povo está todo de sono ferrado; como não tem rua calçada, nem mesmo no adro da matriz, os cavalos, andando, não fazem tropel.
Era preciso deixar os cavalos a distância pequena, mas não muito perto da delegacia, onde por azar podia estar algum dos guardas acordado. Dividir os nossos homens em dois grupos. Um dos dois dá a volta pelo oitão, até os fundos, abre a corrente da porta de trás: e quando eles apontarem lá, os outros entram pela porta da frente que vive aberta. Vão levando de roldão até defronte da cela grande. Que deve estar de porta aberta, ninguém tranca com chave um preso de consideração. (Quem segura os presos ricos na cadeia é o medo de serem mortos pelos inimigos, mal ponham um pé de fora; e quem garante a vida deles é a autoridade.)
— Aí é só pegar o preso, botar fora de combate algum soldado mais entusiasmado, montar o homem num cavalo com um companheiro na garupa pra segurar ele — e meter o pé na carreira. Os soldados não têm por perto nenhum animal de montaria; o mais certo é não terem cavalo nem perto nem longe, que soldado não anda montado nunca. E quando eles juntarem uns voluntários na vila, pra saírem com eles atrás dos fujões, vocemecês já devem de estar a uma boa distância. Também não têm como avisarem os amigos deles que vocemecês, na fuga, vão passar por perto; já que levam uma boa dianteira. Se tiverem cuidado e sorte, com poucos dias já podem estar aqui, na segurança da Casa Forte. E aí se vê Deus por quem e...
O plano tinha que ser mesmo esse que Muxió tinha na cabeça e passava para nós. Cabeça boa, a dele, era mesmo um desperdício o cabra ser tão ordinário.
Duarte saiu para avisar os rapazes e escolher os cavalos, verificar os arreios. Eu mandei prender Muxió de novo, dei a chave do quartinho pra Rubina guardar com ela. Como aquele quarto já tinha servido de prisão algumas vezes (eu não usava nunca o cubico, pra não espalhar o segredo) tinha mandado abrir na porta desse quarto uma janelinha, por onde se podia espiar o preso e passar um prato de comida. Rubina ficou encarregada de tomar conta dos dois: Muxió e Novato. Eles não reclamavam de nada, estavam feito uns corderinhos. Enquanto estivessem vivos, tinham esperança. E o Juco ficou de ajudante da velha.
Resolvi que bastava levar quatro homens; comigo completava os cinco. Duarte fez tudo para me tirar da cabeça a idéia de ir junto, mas eu me irritei logo, não deixava nem que ele acabasse de falar.
Os quatro eram Duarte e seus dois capangas, Maninho e Zé Soldado e mais Roque. Levamos seis animais, para o caso de algum se estropiar (ia se andar um bocado de caminho) e talvez para nele trazer o Cirino, amarrado, se o cavalo com dois cavaleiros não agüentasse a carga dobrada.
A nossa questão era a segurança na viagem: isto é, a segurança vinha logo depois da velocidade, que era o principal.
No cavalo sem cavaleiro se levava uma matalotagem farta, comida que desse para mais de uma semana e a borracha d’água. A gente andando por território desconhecido ou inimigo, tinha de comer cavalgando, sem parar nem pra fazer fogo e só procurando água de beber de longe em longe. Eu já tinha muita experiência desse tipo de correria; afinal, não fazia tanto tempo assim que eu ainda andava nelas. Levava-se a mais o milho para os cavalos. Era o que fazia maior volume, mas a gente não podia confiar nos recursos do caminho, nem perder tempo esperando que os animais pastassem, se por acaso se encontrasse pasto.
Eu me trajei de calça nova, casaco novo, chapéu de couro bem leve, bota de meio cano, como eu gostava. E era como a uma festa que eu ia, com o diabo dançando na frente, de rabo empinado, enquanto eu curtisse a minha vingança. A raiva continuava ou talvez tivesse até aumentado, minha coragem crescendo com todos os preparativos. De vez em quando eu me pegava rilhando os dentes. Espera por mim que eu já vou, Cirino.
Não consigo recordar muito bem como foi a jornada de ida até ao Sumidouro. Nós não puxamos demais, para não esbofar os cavalos. E sempre se descansava algumas horas por noite, isso mais por causa dos animais que pela nossa. Já se vinha acostumando, desde antes, a cochilar enquanto o animal andava, o que dava para desenfadar bastante a gente, em especial quando era noite. Os cavalos sabiam achar o caminho no escuro melhor do que nós.
Fiz questão de não levar rede para mim; dormia no chão, igual aos outros, sem perder tempo com armar acampamento. Já não disse que até se comia montados?
Um sertão tão deserto que parecia sem fim: mata, várzea e catinga; alguma serra e serrotes, que o caminho costeava, dando voltas para fugir das ladeiras mais a pique. Riacho com água, só um, e era água pouca: mais uns poços. Rios largos passamos dois, um só com um fio de água escorregando entre as pedras e o outro era feito uma praia de areia seca. Não se podia viajar a noite toda, porque era preciso perguntar de vez em quando, pelas casas que se passava, a direção da vila de Sumidouro.
A chamada estrada real não merecia esse nome. Era só pedregulho e buraco, um areial de vez em quando, o mato invadindo as trilhas.
Mas ao chegar mais perto do Sumidouro, foi também ficando mais habitado. Tinha umas aldeias que ainda nem se podia chamar de vila, eram antes uns arruados. Três vilas maiorzinhas passamos, rodeando pelos fundos, eu não queria atravessar a rua principal e chamar a atenção do povo. A gente ainda tinha que voltar por ali, conduzindo um preso. Tratei mesmo de estudar esse caminho de arrodeios, pensando justamente na volta. A perseguição, se houvesse, era de vir atrás, e quanto menos rastro e lembranças de passagem se deixasse, melhor.
Afinal, uma tarde, ao pôr-do-sol, descobrimos a vila do Sumidouro, e nem sei por que tinha esse nome, já que se erguia num cabeço de morro e a entrada pra lá era uma ladeira.
Passando pelo pé do morro, corria um riacho que, no inverno, devia ter água bastante, tanto que era atravessado por uma ponte de madeira; mas agora estava seco de todo. Duarte lhe botou o nome de Riacho da Areia. Dentro do leito dele nós acampamos, subindo um pouco o morro e encobertos pela ribanceira. Quem passasse não podia ver a gente; só ia nos encontrar quem estivesse à nossa procura. A comida, que vinha dividida em dois sacos, ainda deu para se comer naquela noite, sem recorrer ao segundo saco. O milho dos bichos é que estava no fim; mas de volta, em território nosso, talvez se arranjasse algum. Eu trazia dinheiro — quer dizer, Duarte trazia, que eu tinha feito dele o tesoureiro.
Mandamos Roque, que era o mais experiente, fazer o reconhecimento da vila. Não era pra ele chamar atenção, nem se mostrando muito, nem se escondendo muito; mas andando natural, como pessoa que tivesse coisa certa a fazer no lugar. Não perguntasse nada a ninguém, procurasse localizar bem a casa da cadeia, os pontos de importância — quantas esquinas a dobrar, as casas maiores, algum sobrado de rico. A praça principal, com a sua igreja. Muxió tinha ensinado que a cadeia ficava às direitas da igreja, numa das esquinas da praça.
Noite fechada. Roque tinha chegado mais cedo, trazendo as nossas guias. Já devia andar pelas nove horas — deu-se um tempo pra descanso.
Amarramos os cavalos, selados e arreados, numa umarizeira grossa, que segurava o barranco com o tronco e as raízes. Maninho ficou nos esperando, tomando conta dos animais.
E nós subimos a ladeira, o Roque nos guiando; rara uma casa em que se enxergasse luz pelas rexas das portas fechadas. Mas, na falta de lua, as estrelas eram tão claras no céu limpo, que dava para avistar bem direito o caminho. E o Roque não perdia nenhuma das referências. Afinal, demos com a praça com a sua torre, que parecia preta contra o céu. E dobrando às direitas, a Casa da Câmara no sobrado, com o seu porão alto, que devia ser — e era — a cadeia.
Fomos andando devagar, tomando chegada. Por sorte, o chão continuava de terra lisa, abafando os nossos passos.
Eu não gosto de cadeia. Quem gosta? E aquela parecia feia demais, com o seu portão de grade de ferro e as janelinhas também gradeadas, dos dois lados da porta.
Realmente, como previu o Muxió, na saleta da entrada tinha uma candeia acesa, o morrão fumaçando. Roque chegou-se à grade da frente para espiar; e na verdade viu, estirados nos bancos que ladeavam a sala, os dois soldados dormindo, pés descalços, farda desabotoada. Combinei com Duarte que ficasse na frente, de olho nos guardas, que eu ia tentar a entrada dos fundos, fechando a saída.
Ele empurrou de leve a porta — não tinha tranca, estava só encostada; o povo dali devia ser ordeiro —, ninguém trancava nada, nem a cadeia!
Fui então dar a volta por trás, experimentar a porta dos fundos. E, no que entrasse, ia tratar de subir o corredor, procurando descobrir a cela onde estava Cirino. Eu não queria que fosse Duarte o primeiro a avistar o outro. Podia haver uma estralada entre os dois, estragar tudo.
Fui com o Roque. Meti a mão pelas grades e achei o cadeado; mas estava meio fechado, duro, enferrujado. O Roque foi que conseguiu abrir, mas aquela grade de ferro girando nos gonzos soltou um tal rangido que deu para acordar os dorminhocos lá da frente, e se ouviu uma voz sonolenta perguntando o que era. Entramos nos esgueirando, o Roque e eu, sem tocar na porta, com medo de mais barulho. Mas não adiantou o nosso cuidado, porque o guarda se levantou. E, antes que ele caminhasse na nossa direção, para o fundo do corredor, Duarte entrou na sala e atacou, segurando o guarda pelas costas. Zé Soldado atacou o outro, os guardas rolaram no chão, já com os meus homens em cima deles. Um se levantou, Duarte lhe deu um grande murro e o sujeito desabou no chão como uma jaca. O Zé bateu com o cacete na cabeça do outro, o soldado ainda se virou, querendo resistir, mas nova cacetada, dada com jeito na fronte, também derrubou o segundo guarda. E tudo foi feito em silêncio, eles não tiveram nem tempo de gritar. O Roque e eu estávamos parados no corredor, esperando o fim do combate lá na entrada. E quando os nossos começaram a amarrar os guardas, nos adiantamos pelo corredor, experimentando cada porta de cela. Estava escuro ali; na primeira delas, alguém se levantou e veio perguntar: “Que zoada é essa, seu cabo? Algum preso novo?”
Eu empurrei a porta gradeada, que estava aberta, e disse baixinho:
— Não é guarda não. Nós estamos soltando os presos. Pode sair.
O homem parece que nem acreditou, ficou parado esperando. Eu deixei ele ali e saí pela direita, Roque pelas esquerdas abrindo as portas; quase todas a celas estavam vazias. O Roque encontrou outro preso, parecia que era doido, porque não entendeu nada e se pôs a chorar.
Nessa altura, Duarte, que já tinha acabado o trato dele com os guardas, pegou na lamparina acesa e veio com ela clarear o corredor.
E eu, que estava chegando diante da cela de Cirino (que também tinha escutado o barulho) — quando a luz fraca bateu nele, vimos que estava encostado na parede, ao lado da porta, prevenido contra qualquer atacante.
A luz me clareou também. E Cirino, me descobrindo, deixou cair no chão o pedaço de pau que segurava como arma. Recuou, naquela surpresa, o rosto dele se abriu de alegria, e ele foi estendendo os braços para mim:
— Moura! Você! Veio me livrar?
Antes que Duarte chegasse perto de Cirino, eu dei um passo a frente:
— Vamos logo. É pra correr. Os guardas estão amarrados e os cavalos esperando lá embaixo, no riacho. Vamos logo!
Não se pode dizer que Cirino fosse curto de entendimento; não precisou que eu repetisse. Correu pro fundo da cela, pegou lá uma trouxa pequena, um chapéu, um par de botas, saiu e veio se juntar a nós, descalço, ainda de ceroula e camisa.
Fomos escapando de um em um, espiando a rua. Na praça não se via ninguém, gente ou bicho. Duarte comandou em voz baixa:
— Não se vê nada, mas é melhor a gente ir um atrás do outro, rente com as paredes e aproveitando a sombra das casas.
Cirino, que andava ao meu lado, foi indagando no meu ouvido:
— Como é que vocês souberam...
Eu dei um “chiu!” entre os dentes.
— Cala a boca. Lá embaixo a gente fala.
Seguimos na escuridão, debaixo das estrelas; quebramos esquinas, descemos a ladeira; alguém deu uma topada, gemeu, eu reclamei. Voltamos a descer com pés de gato.
Afinal se chegou ao riacho. Lá de cima ainda não vinha nenhum barulho. Duarte tinha se lembrado de amordaçar os guardas, um com o lenço dele mesmo, o outro rasgando-lhe a fralda da camisa. Mãos e pernas amarradas, boca entupida de pano, iam demorar a dar o alarme.
Com os olhos já acostumados à noite, Cirino, vendo os cavalos esperando, se sentou no barranco e pediu licença:
— Espera aí, pessoal. Deixa eu me vestir e me calçar.
Duarte ia dizendo qualquer coisa, mas eu lhe toquei no ombro, pus o dedo na boca. Cirino tirou a roupa da trouxa, vestiu-se, limpou a terra dos pés, calçou as botas e se virou para nós com a velha petulância:
— Não trouxeram o meu cavalo? Em qual é que eu monto?
Aí Duarte saltou por cima dele e o derrubou no chão. Zé Soldado e Roque ajudaram, amarrando-lhe as mãos, pulso com pulso; em seguida os dois levantaram Cirino do chão e o montaram num dos cavalos. Cirino deu um grito e ia gritar de novo, mas Duarte rosnou no ouvido dele:
— Se gritar, leva mordaça.
Eu via aquilo tudo, sem me mexer. Não tinha combinado nada antes com Duarte. Vinha até pensando, durante a descida, como é que a gente ia fazer com Cirino. Duarte resolveu por mim; eu tive um choque quando vi os dois embolados, mas não disse nada. Se tinha que ser assim, que fosse.
Com Cirino em cima da sela, o Roque veio com uma corda e amarrou cada um dos pés dele pelos tornozelos, a corda passando debaixo da barriga do cavalo, imobilizando também as pernas do preso. Cirino não tirava os olhos de mim e eu fingia que não via nada.
Nós todos montamos. Maninho saltou na garupa de Cirino, passou-lhe os braços em redor e segurou as rédeas que ele não podia pegar, com as mãos atadas. E quando eu passei rente do nosso preso, para tomar a dianteira da marcha, ele não se conteve e berrou para mim:
— Maria Moura! Que é que está acontecendo?
Eu cheguei a cara perto dele e disse, de dentes trincados:
— Peça a Deus que não passe disso!
Meti então a espora no cavalo e disparei na frente a todo galope. Os outros quiseram me acompanhar, mas ouvi a voz de Duarte:
— Agüenta a mão! Deixa a Sinhá ir na frente. Ela gosta de dar uma galopada sozinha.
Galopei sozinha bem meia légua. Aí parei, fiquei esperando que os outros me alcançassem. E logo que os vi a umas dez braças, botei o cavalo numa andadura maneira, marcha de viagem, igual à dos outros.
Eu não olhava para trás, para não ver a cara de Cirino; verdade que, no escuro, naquela distância, a cara, propriamente, eu não podia ver. Mas num relance em que me virei pude divisar o vulto dele, mãos amarradas, chapéu enterrado na cabeça, todo curvado em cima da lua da sela, como um velho.
O resto da viagem foi toda inteira assim: mal se dava partida aos cavalos, eu tomava a frente, me adiantava, não a ponto de me perder de vista, mas guardando aquela distância que me isolava dos outros. Das conversas, das reclamações que o Cirino podia fazer, ou mesmo do silêncio dele. Eu não queria ter parte nenhuma com ele — ou será que me pesava demais o ver naquela humilhação, amarrado no cavalo como um criminoso? Ora essa! Se estava amarrado era por ser criminoso. Por fazer duas mortes a sangue frio e sem motivo. E o crime pior dele não eram nem as duas mortes — o grande crime foi praticado contra mim. Foi em mim que ele deu o tiro de bacamarte, foi na minha carne que ele enterrou a faca.
Que é que estaria se dizendo da Maria Moura naquela vila do Sumidouro (que, sem ninguém saber, ela acabava de invadir)? Mulher traiçoeira, quem podia mais ter confiança nela? Qual o coiteiro que entrega o acoitado ao seu pior inimigo? Entrega, não, vende! Porque o Cirino vendeu o infeliz do Peba Preto — vendeu o homem pro Bacamarte — estando ele debaixo da minha proteção; debaixo da minha responsabilidade, debaixo das minhas telhas!
Tudo me fervia lá dentro quando eu pensava nessas coisas. E ao mesmo tempo eu pensava em Cirino, tão bonito, meu Deus, tão branco, até louro! Um moço fino, cheio de luxos, amarrado no cavalo como um cigano ladrão.
E daí? Cigano eu sei que ele não é, mas ladrão ninguém podia negar. E ladrão capaz de roubar da mulher que dormia com ele; da mulher que o adorava, que era capaz de morrer por ele se ele pedisse... — se ele pedisse, não, que disso ele era bem capaz, não só de pedir, mas até de ajoelhar no chão, implorando se lhe trouxesse vantagem. Mas da mulher que era capaz de dar a vida por ele — se ele merecesse.
E se durante a marcha era péssimo para mim, de noite era ainda pior. A gente caminhava até os cavalos não poderem mais; então se parava, se fazia uma fogueira, se cozinhava o de comer, quando a fome dava para esperar. Senão, se comia farinha com rapadura ou, no melhor dos casos, um preá que os rapazes tivessem caçado durante a marcha e que se assava no espeto, nas brasas da fogueira. Depois, era limpar uma cama no chão, deitar em cima do coxim, a sela de travesseiro. Os cavalos comiam o milho nas mochilas, as mais das vezes nem se conseguia água para um banho neles.
Cirino desapeava, Duarte desatava as mãos dele, que ficava muito tempo esfregando os dedos nos pulsos, para chamar o sangue. Os pés, quem soltava antes era sempre o Roque, Duarte não iria se abaixar para desamarrar pé de ninguém, principalmente de tal sujeito. Cirino, então solto, se punha de pé, dava uns passos. Os homens deixavam que ele se mexesse um pouco; depois o Roque se punha diante dele e dizia:
— Se deita, Seu Cirino.
E quando Cirino se sentava no chão, Roque pegava uma corda de couro, fina, de laçar gado, lhe amarrava a cintura com o relho e trazia as duas pontas que vinha atar no próprio pulso dele, Roque. Assim ficava-se livre de Cirino fazer alguma arte, se soltar; desatar o nó. Qualquer movimento dele mexia com o pulso de Roque; e o cabra dizia que tinha o sono leve.
Eu ficava de longe, de costas para todo mundo, fazia como se não visse nem ouvisse nada. Nunca vi Cirino comer, durante aqueles dias; ele podia jogar na boca um punhado de farinha, um taco de rapadura, quando estivesse com muita fome. E pela manhã aceitava um gole de garapa quente, pra quebrar o jejum. Fumava então um cigarro de palha que o Roque mesmo enrolava, lhe trazendo uma brasa para acender.
Uma manhã assisti — de longe — essa cena da garapa e do cigarro. Quando o Roque chegou com um tiçãozinho aceso, para dar fogo ao cigarro, Cirino de repente lhe tomou o tição; o Roque deu um passo atrás sem saber o que o outro ia fazer com aquilo; afinal, um tição aceso era a bem dizer uma arma. Mas Cirino deu um risinho de pouco caso, acendeu devagar o cigarro, puxando o fogo fundo. Depois, de olho na cara do Roque, balançou entre os dedos o tição e, num gesto rápido, rebolou longe a lasca de lenha acesa. A brasa caiu no mato seco e começou a fumegar. Duarte foi até lá, pegou de volta o tição que jogou na fogueirinha. Chegou depois junto de Cirino, que nesse ínterim tinha se sentado e olhava para a gente com cara de desafio, e disse, de beiço apertado:
— Vocemecê não me faça isso outra vez, senão vai ter que dormir com as mãos amarradas.
Tudo aquilo me dava muita agonia. Nem sei se ninguém me entenderá, porque eu mesma não estou me entendendo. Eu era a ofendida, mas no que maltratavam a ele, sentia que me maltratavam a mim também. Acho que, se batessem nele, quem ia sentir a dor maior era eu. De vez em quando eu me apanhava esfregando o meu próprio pulso — como se ele, também, estivesse ralado da corda. Mas logo me vinha aquele ódio e eu tinha que me segurar para não sofrear o cavalo, deixar que ele chegasse perto do Cirino e lhe meter rebenque, naquele meio sorriso insolente que não o deixava nunca. Era um ódio me sufocando tanto que eu tinha até medo de abrir a boca e soltar o golfão de sangue roxo, envenenado, que parecia estar me tirando o fôlego. O meu único remédio era galopar para a frente e refrescar a agonia com o vento frio que me banhava o rosto.
Afinal chegamos. Cada hora daquela viagem para mim custava um dia, cada dia uma semana. E o último dia, então, passamos todo sem comer; as provisões tinham se acabado e eu não deixava que se parasse para adquirir qualquer coisa. Até os cavalos sofreram.
Meia légua de distância de casa, mandei Duarte tomar a frente e preparar a nossa chegada, afastando qualquer curioso. Eu não queria que vissem o Cirino naquelas condições. Ou antes, não queria que ninguém o visse, de nenhum jeito.
Era hora de sol quente. João Rufo devia estar com os homens pelo campo, talvez só o Pagão rondasse pelo terreiro. Duarte inventou um mandado para desviar o guarda do portão, responsável pelo cadeado, e ele mesmo nos abriu a entrada. Ele mesmo pegou as rédeas do cavalo de Cirino. Maninho saltou da garupa no chão, desatou os pés do preso, que ainda vinham amarrados, frouxos, por baixo da barriga do animal. Cirino escorregou da sela, abatido, queimado de sol, a cara quase da cor do cabelo. Tropeçou um pouco e, ajudado pelo Roque, subiu o ladrilho do alpendre da Casa Forte.
Eu assistia a tudo, calada, ainda montada. Só depois que vi Cirino de pé, debaixo das minhas telhas, me apeei. Me virei para os homens e dei as minhas ordens:
— Agora, Seu Duarte toma conta do preso. Vocês levem os cavalos, tratem deles. Depois podem vir na cozinha comer.
E aí levantei um pouco a voz:
— Eu não quero que se dê um pio a ninguém, a respeito de tudo que se passou nestes dias. Uma palavra que seja, para mim é caso de morte. Caso de morte, Seu Roque. Palavra de Maria Moura.
Os homens saíram de cabeça baixa. E eu disse então a Duarte:
— Vamos levar ele pro cubico.
Duarte me olhou, espantado, e eu vi uma faísca alegre nos olhos dele. E indagou, no meu ouvido:
— E o segredo? Não é arriscado?
Olhei também para ele, de cara ruim. E respondi, quase rosnando:
— Ele não vai ter a quem contar.
Se Cirino tirou alguma coisa do que eu disse, não deu sinal. Eu saí na frente, passei pela porta da sala, seguida pelos dois, entrei no quarto do baú. Só então me dirigi a ele:
— Você agora vai conhecer o segredo da Casa Forte. Pensava que sabia de tudo a meu respeito, mas ainda tenho muita coisa escondida debaixo da mão.
Cirino me olhou, sem entender direito e senti que, além de curioso, ele estava com muito medo; e não dava o menor sinal de reação.
Pedi a Duarte que puxasse o baú e descobrimos o alçapão. Duarte pegou dentro do baú a chave que eu tinha posto no meio de uma cambada grande, fora de uso, pra disfarçar bem. A chave que nos interessava tinha uma marca, uma mossa no ferro, como sinal.
Duarte rodou a chave na fechadura, o alçapão caiu. Cirino deu um passo atrás, assustado — e eu, de novo, rosnei pra ele:
— Quieto.
Ele se virou pra mim, muito branco.
— Que é isso? Pra onde vai esse buraco?
E eu repeti:
— Quieto. Daqui a pouco vai saber.
Duarte deu uma olhada lá dentro: não devia estar muito escuro porque a claridade do sol passava pela telha vã, e a meia parede que cerca o cubico, embora alta, também deixava passar a luz.
Fiz sinal a Duarte para que desatasse a corda das mãos de Cirino; ele se pôs a abrir e fechar os dedos dormentes.
Duarte esperou um instante, depois tocou de leve com a mão no ombro do outro:
— Agora se abaixe e entre por essa portinha.
Cirino de novo se virou para mim, ainda mais apavorado:
— Que é que eu vou fazer aí? Vão me matar?
Eu demorei um pouco a responder:
— Pode entrar, entre. Ninguém vai lhe matar. Você vai ficar aí uns tempos, pra pensar nos seus pecados.
Ainda de botas e roupa empoeirada, fui à cozinha procurar Rubina. Olhei a comida no fogão e mandei:
— Bote num prato um pedaço desse pão de milho, com leite, pegue uma quartinha d’água e traga a mim.
Voltei lá, Duarte me esperava junto ao alçapão, ainda aberto. Não se via nem ouvia sinal de Cirino. Enquanto Rubina não chegava, perguntei a Duarte:
— Sua mãe já sabe da existência do cubico?
— Deve saber. Ela sempre sabe de tudo, mas não faz diferença. Ela não fala nada a ninguém.
Realmente, daí a instantes, Rubina chegou com comida e água no tabuleiro e não mostrou admiração nenhuma diante do alçapão aberto. Dei novas ordens a ela:
— Seu Cirino está aí dentro; entregue essas coisas a ele. Vai passar preso uns dias e você fica encarregada de trazer alimentação e água pra ele. Tudo já cortado, não traga faca, só uma colher de pau. Toda vez que vier, peça a Duarte para lhe abrir o alçapão. E enquanto você fizer a troca dos pratos, Duarte é pra ficar de lado, prevenindo qualquer alteração.
E aí pus a mão no braço da velha e falei, mais sério ainda:
— Cuidado, Rubina. Só eu, Duarte e você sabemos que ele está aqui. Eu quero que ninguém mais saiba — nem da presença dele e, muito menos, da existência deste cubico.
Rubina levantou os olhos para mim:
— Mas Sinhá, com quem eu era de falar? Essas meninas...
— Eu estou pensando é na Marialva e no marido. Nem uma palavra a eles, ouviu?
Rubina baixou a cabeça, concordando, mas emburrada. Não gostava de deixar a Marialva fora de nada, feito uma estranha. Mas ia me obedecer, principalmente sendo a ordem dada na presença do filho.
Deixei os dois, Rubina ainda com o prato na mão, e fui para o outro quarto. Me sentia como morta, suja, empoeirada, calorenta. Me deixei cair no ladrilho fresco, me estirei, com os braços em cruz, sem nem ao menos tirar as botas. Chorei, chorei, não sei quanto tempo. Muito depois ouvi os passos de Duarte e da mãe, se retirando. E ali mesmo caí num sono de pedra.
Acordei, já estava quase escuro, com Rubina ajoelhada no chão, ao meu lado, me puxando pelo braço:
— Sinhá! Sinhá! Já está na hora de acordar!
Me sentei no chão, ainda tonta. E ela:
— Preparei um banho morno pra Sinhá. Vamos tirar essa roupa suja. Deixe que eu puxo as botas.
Acabei de acordar, indaguei logo:
— E ele?
— Agora está calmo. Teve uma hora que começou a chamar pela Sinhá, mas Duarte disse a ele que ficasse quieto, senão tinha que ser amordaçado: era ordem da Sinhá. Daí pra diante ele acalmou.
— E Duarte?
— Mandei ele ir tomar um banho e comer qualquer coisa. E fiquei no lugar dele, botando sentido no moço. Depois que ele voltou do banho, deitou-se no bangüê, está descansando. Mas acordado.
Deixei que Rubina me tirasse a roupa, me enrolei no roupão, fui tomar o banho. Comer é que não pude, não passava. Mas Rubina me obrigou a tomar pelo menos um caneco de leite.
E a velha veio me indagar, enquanto recuperava o caneco vazio:
— Está quase na hora da janta. Eu levo a dele antes ou depois da de vocemecê?
— É melhor levar logo. Marialva e Valentim podem aparecer daqui a pouco. Como é que você faz para as meninas não desconfiarem de nada?
— Na hora de fazer o prato mando as duas buscar qualquer coisa no paiol ou no quintal. E sempre posso dizer que é pros presos, no quartinho. Desses elas sabem, todo mundo sabe.
Marialva e Valentim apareceram quando Duarte e eu estávamos nos levantando da mesa. O Xandó tinha ficado dormindo, com a ama.
Antes de viajar para o Sumidouro eu tinha dado uns toques a eles, a respeito da traição de Cirino, no caso do Peba Preto; já sabiam das mortes do Luca e do Zé Pretinho, como todo mundo sabia, era impossível esconder.
Assim, quando me perguntaram o que era feito do rapaz, eu calmamente contei que tinha mandado entregar ele ao pai; os dois que se entendessem.
Duarte não se metia na conversa; ficava ostensivamente de longe, sentado no banco de pau, de uso dos homens, no alpendre. Marialva se desmanchava em “Minha Nossa Senhora! Será possível? Coitado do velho!” Valentim só balançava a cabeça, ouvindo as minhas explicações.
Saíram cedo, preocupados com o Xandó. E eles nem tinham ainda atravessado o portão, corri para o quarto, escutar junto ao alçapão, já disfarçado, por trás do baú.
Ele devia estar dormindo. Me disse certa vez que era capaz de dormir dois dias seguidos, quando estava muito cansado. E, cansado, tinha que estar mesmo, quase morto.
Morto? E se ele tivesse se matado? Por mais que eu encostasse a orelha à parede não ouvia sinal da respiração de Cirino. Mas se matado com quê? Com uma colher de pau, com um caco de prato de barro, ou da quartinha? Não dava. Enforcado, com uma tira da roupa, mas onde é que ia se pendurar? A parede do cubico era lisa, não tinha gancho ou armador de rede. Só se apertasse o nó no pescoço com as próprias mãos...
Qual, Cirino não era homem para se matar. Com a natureza que tinha, o que devia valer pra ele era a lei do “enquanto há vida, resta esperança”...
Escutei de novo. Nada. Fui atrás de Rubina:
— Ele comeu?
— Nem metade do que botei no prato. Na janta, ainda não sei. Não apanhei a louça.
— Pois vá lá dentro, traga uma bacia d’água, um pedaço de sabão e uma toalha pra ele se lavar. A gente tinha se esquecido disso.
— Eu me lembrei. Mas esperei que a Sinhá desse a ordem. Pensei que era pra ele ficar sujo mesmo, fazia parte do castigo.
Eu me impacientei:
— Pois vá buscar! Traga junto um caneco de leite, para ele tomar de noite, se tiver fome. Caneco de barro.
Quando Rubina chegou, bacia num braço, sabão na outra mão, toalha no ombro, botou tudo em cima do baú:
— Agora vou pegar o leite; as mãos não davam pra tudo.
À volta, ela tornou a reclamar:
— Acho que não posso com este baú. Da outra vez, Duarte ajudou.
Eu me aproximei, juntas afastamos o baú, que precisava ser pesado mesmo, pra ninguém bulir com ele, correndo risco de descobrir o alçapão. Rubina girou a chave, abriu a portinhola, meteu a cabeça dentro:
— Sinhozim?
Eu me encostei na parede, parando até de respirar, para ele não desconfiar da minha presença.
Lá dentro, Cirino gemeu:
— Rubina?
— Trouxe água pro Sinhozim se lavar um pouco e um canequinho de leite, pra beber de noite.
Cirino fez ruído, se mexeu.
— Eu já estou quase nu; não agüentava mais esta roupa imunda. Foi boa idéia a sua.
Rubina passou a bacia, o sabão, a toalha. Pediu:
— Agora me devolva o prato da janta.
Veio o prato de barro, mal tocado.
Rubina ralhou:
— Sinhozim não comeu nada. Assim não pode. Veja se toma o leite. Ou quer que eu traga outra coisa?
Cirino parece que chegou o rosto bem perto do alçapão. A voz dele estava muito clara:
— O que eu quero é que você me tire daqui.
Rubina deu uma risadinha triste:
— Quem sabe? Mas hoje, não. A Sinhá está dormindo aqui junto.
— Sinhá? E o teu filho?
— Duarte também está dormindo aqui perto, na sala.
Mentira dela. Eu tinha mandado Duarte pro quarto dele; não se carecia de ninguém ali perto: o alçapão era segurança bastante. Mesmo que ele gritasse, não tinha quem acudisse, senão Rubina.
Ouvi o barulho de água na bacia, me lembrei do corpo nu de Cirino, tão desprotegido. Homem nu parece sempre menino.
Rubina perguntou:
— Sinhozim tem roupa sua aqui?
Veio a resposta, meio abafada:
— Devo ter, no meu quarto... quer dizer, no quarto em que eu dormia.
Rubina, de ajoelhada que estava, no chão, levantou-se:
— Eu vou buscar. Sinhozim desculpe, mas eu vou fechar a portinhola.
Fiz sinal pra ela, e eu mesma passei a chave. Do lado de lá, Cirino bateu na madeira:
— Não fecha, Rubina. A gente fica aqui sufocado!
Rubina já ia longe. Eu fingi que não ouvia.
Quando a velha chegou, com a muda de roupa dele, já tinha acabado o barulho da água na bacia. Ela destrancou a fechadura, enfiou o braço lá dentro, pediu:
— Me dê a roupa suja. Achei uma muda limpa.
Cirino devolveu bacia, toalha, sabão. E disse, com voz mais animada:
— Depois de limpo, até me deu vontade de tomar o leite.
Rubina recebeu o caneco vazio, meteu a cabeça na abertura:
— Agora boa noite, Sinhozim. Até amanhã.
— Amanhã, quando você abrir, pode até me encontrar morto.
Rubina se assustou, enfiou de novo a cabeça:
— Morto? Por quê? Sinhozim não estará pensando em fazer alguma besteira?
— Que besteira eu posso fazer, Rubina? Posso é morrer de raiva, sufocado.
Rubina foi fechando o alçapão, devagar:
— Até amanhã. Deus abençoe, Sinhozim.
Olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas:
— Me dá uma dó!
Eu fui ajudando a botar a tralha toda dentro da bacia esvaziada. Estava também com a garganta apertada. Mas ralhei com Rubina (em voz bem baixa, para Cirino não ouvir):
— Deixa disso, ele não merece, morre nada. O que ele sabe é matar os outros. Lembre-se do Luca, do Zé Pretinho. Duarte não te contou?
Rubina enxugou os olhos, pegou nas coisas, saiu sem responder.
Eu fui me deitar. Tremendo — de raiva, de pena? Sei lá. E, claro, rolei na cama a noite inteira, sem conseguir dormir, o ouvido no cubico, de onde vinha, vez por outra, um gemido ou um suspiro. E também se passava muito tempo sem vir ruído nenhum, e isso ainda era pior.
Enquanto eu passava aqueles dias e noites de pesadelo, a vida na Casa Forte continuava sem grande alteração. É verdade que, além de Cirino no cubico, estavam também presos os dois no quartinho; mas isso era coisa que acontecia de vez em quando, tanto que já existia aquele quarto com a portinhola de cela, arrumado especialmente para castigar os errados. Numa casa como a minha, era forçoso, acima de tudo, manter a disciplina. Eu dou prêmio aos meus homens, aumento a porcentagem deles e até, às vezes, quando o apurado é pouco, abro mão do meu. Mas quando eles erram — e até agora nunca tinha havido um caso tão grave quanto o do Muxió e o Novato: eles se meteram num crime de morte, sem falar em se juntarem numa revolta contra mim, era sério demais. Mas confesso que, naquelas alturas, tinha me esquecido deles. Foi Rubina que veio me lembrar os dois: eu dei licença para melhorar a comida, botar um pedaço de peixe ou carne no feijão com farinha. A idéia de Duarte sobre eles era dar-lhes uma boa pisa. Zé Soldado é que é o carrasco dessas surras; quando era praça aprendeu a meter o chanfalho nos ‘elementos’, batendo só com a folha do sabre, no lombo e nos quartos do cabra. Não tira sangue, mas dói tanto que até nego dos mais duros acaba gritando.
Eu disse, contudo, a Duarte que deixasse essa operação para mais tarde. Tinha que resolver primeiro o problema de Cirino.
E falando em Cirino: pensei em levar o Beato Romano conversar um pouco com ele. Mas quando lhe falei nisso, o Padre se recusou:
— Lembre-se, Dona Moura, de que eu não sou mais sacerdote. E o moço, filho de fazendeiro, não vai querer se abrir com um reles beato de penitente: não vai nem me levar a sério.
— Quem sabe o senhor está errado? Quem sabe ele lhe conta tudo que a gente quer saber — como foi que se meteu com o pessoal do Bacamarte, como é que descobriu o paradeiro do Peba Preto. Eu preciso muito descobrir se ele soube pelo pai ou se foi alguém daqui que me traiu.
— Dona Moura, eu vou fazer de conta que não ouvi o seu pedido. Tantos anos passados e a senhora ainda não entendeu que não se pode usar um sacramento da Igreja para proveito pessoal? Eu posso ser um renegado, mas não perdi a minha consciência de padre. O moço só iria me contar qualquer coisa em segredo de confissão. E a senhora sabe muito bem que, até hoje, eu guardo, invioláveis, os segredos da confissão!
— Mas eu sei também que recebi aqui o senhor por causa de um segredo de confissão. No princípio, quando o senhor me procurou, devo dizer que a minha intenção, lhe acolhendo, era só de tapar a sua boca. Depois é que fui me acostumando com o seu jeito e até aprendi a gostar do senhor. E a lhe respeitar, também.
— Pois o que a senhora me pede agora é, principalmente, uma falta de respeito.
— Desculpe, Beato. Mas fico pensando também que o senhor está exagerando. Achei que eu estava querendo só me valer de um amigo. Não vejo mal na gente querer se defender de uma traição. Mas, como dizia o Marinheiro Belo, “certos padres querem um Deus pra si, e um diabo para os mais...”
O Beato Romano se levantou do banco e se despediu com estas palavras secas:
— Não precisava ofender, Dona Moura. Eu nunca quis um diabo para ninguém.
Segurei o braço dele:
— Não sou eu que digo isso, Deus me livre! Isso falava o Marinheiro Belo, pai do meu avô. O Marinheiro tinha birra de todos os padres, que ele chamava de ‘curas’. E quem contava os ditos dele era o Avô, mesmo. Eu nem cheguei a conhecer o Marinheiro Belo.
Beato Romano fez um sorriso, traçou uma cruz na minha testa apertou a corda na cintura — já era um cacoete — e foi embora para a horta. Passava os dias naquela horta, ultimamente. Também os canteiros já estavam parecendo um jardim, as couves e os maxixes entremeados com flores, bogaris e resedás.
Uma vez ouvi o Pagão reclamando dele: “Ninguém come flor, Padim Beato”. E o Beato: “Come sim, José. Come com os olhos.” Ele tinha batizado o Pagão por José, como fazia com toda criança que batizava: se fosse mulher dava o nome de Maria, se fosse homem José.
Aí, procurei distrair o juízo, pensando em mandar meter o chanfalho naqueles dois sem-vergonhas, tentando entender as esquisitices do Beato, mas estou sempre com aquele prego me furando a testa, bem em cima dos olhos: Cirino, Cirino, Cirino.
Foi um erro péssimo prender Cirino tão perto de mim no cubico. Afinal, o alçapão dá pro meu quarto, é mesmo como se ele estivesse ali dentro, comigo. Não adiantava eu me passar para o outro quarto, o vizinho, como fiz das outras vezes em que escondi gente no cubico. Em qualquer das duas salas, em qualquer dos dois quartos, estarei sempre paredes-meias com ele. E só tocar na taipa de um lado que logo se escuta no outro.
Como na véspera, fiquei rolando na cama. Levantava, bebia um gole d’água, deitava de novo. O baú estava afastado, já que não podia mesmo entrar ninguém estranho ali e descobrir o alçapão; e ficava mais fácil para Rubina, no seu leva-e-traz.
Afinal houve um momento em que não pude mais resistir. Cirino tinha dado um gemido alto, logo deu outro. Creio que fazia aquilo para mexer comigo: e conseguiu. Eu tinha me deitado, sem paciência pra trocar de roupa, só descalça. No terceiro gemido não agüentei mais, me levantei, destranquei o alçapão, meti a cabeça na abertura:
— Alguma coisa?
Cirino não respondeu. Lá dentro era escuro, mas pude divisar o vulto dele contra a parede branca, agachado. E senti que precisava falar com ele, fosse como fosse. Não quis entrar no cubico, o lugar era pequeno demais; e se ele me agarrasse — tinha mais força do que eu.
Falei:
— Quer sair um pouco? Mas tenha cuidado, porque estou com uma arma apontada para você. E lá fora tem três homens patrulhando o terreiro.
Era verdade, Duarte tinha me dito que ia botar essa guarda; também receava alguma arte de Cirino, preso tão perto de mim. Ou talvez ele tinha era medo de alguma fraqueza minha, como agora?
A princípio, Cirino não deu sinal de ter ouvido. Depois, com muito cuidado, apareceu no vão aberto uma mão, depois a outra, afinal a cabeça. E num instante ele já estava de fora, de pé, quase nu, só de ceroulas. Deu-me lembrança do tempo em que se levantava assim da minha cama. Fui recuando, segurando a garrucha encostada ao meu corpo, mas apontada para ele.
Ficou de pé, abriu os braços e disse em voz baixa:
— Largue essa arma. Eu não quero lhe atacar.
Eu continuava com a arma apontada, olho no olho dele. E de repente, nem vi como, devo ter, só por um segundo, desviado a vista para a janela, e Cirino saltou para cima de mim, me derrubando na cama. Como da primeira vez. Me tapou a boca com a dele, me cobriu o corpo com o seu.
Foi um amor desesperado, furioso, que doía e machucava; amor de dois inimigos, se mordendo e se ferindo, como se quisessem que aquilo acabasse em morte.
Afinal — quanto tempo durou? — nos separamos, exaustos. Ele rolou para um lado, de costas para mim. Eu me recuperei primeiro; enquanto ele ainda dormia, me levantei devagarinho, despida. Peguei o roupão no torno, me cobri. A garrucha tinha rolado para o ladrilho, peguei nela. Destravei, de mansinho, vi que tudo estava em ordem. Então acordei Cirino, tocando nele com o cano da arma:
— Levanta. Acabou! Volta pro teu lugar!
Ele a princípio sacudiu a cabeça, sem entender bem. E quando firmou direito os olhos em mim, viu a garrucha apontada na sua direção, assustou-se, sentou-se na cama, me estendeu um braço:
— Que loucura é essa? Ainda há pouco...
— É, mas acabou. Levanta, entra logo no cubico, senão eu te mato, aqui.
— Não, não me mate, endoidou? Você era capaz?
— Se sou! Sou muito capaz. Para mim a melhor solução é acabar com você.
Ele firmou os pés no ladrilho; baixou o rosto sobre as mãos e, para surpresa minha, começou a chorar. Sim, de repente, para susto meu, que não esperava por aquilo. E dizendo, entre um soluço e outro:
— Você está mesmo com ódio nos olhos. Eu vi! Com ódio! Já vi isso na cara de um homem que estava matando outro. É horrível, em você!
Eu não quis ouvir:
— Não chore, que eu não tenho pena. Que homem é você? Chorando?
— Eu tenho medo da morte, sim. Não quero morrer. Não quero morrer nunca! Eu sou moço, sou bonito, vou ser muito rico um dia, quando aquele velho me deixar tudo. Eu gosto de estar vivo, não quero morrer, viu? E você não vai se atrever a me matar!
Eu estava muito aflita, querendo ver se ele ia embora. Minha mão começava a tremer; e o pior é que ele não estava fingindo, estava de verdade com medo de que eu apertasse aquele gatilho e lhe acabasse com a vida. Dava até para sentir o cheiro do medo no suor dele. Nos olhos apavorados que levantava para mim.
Consegui segurar a voz, continuei:
— Se eu te matasse agora, não ia haver mais nenhum problema para mim. Vá embora, senão daqui a pouco o cão atenta, e eu atiro. Assim tão de perto não posso errar.
Ele se levantou, tomou o rumo do alçapão. Virou-se mais de uma vez:
— Não aproveite que eu estou de costas, para atirar em mim. Tenho que lhe dar as costas e me agachar para entrar nesse buraco!
Os músculos das costas de Cirino tremiam mesmo. Ele não estava fingindo; não estava.
Apanhei a ceroula que ele deixou cair, fiz dela um bolo, atirei pela portinhola, em cima dele:
— Pegue seus panos! Suma!
Bati o alçapão com força. A mão me tremia tanto que eu mal pude dar a volta na fechadura. Me atirei no chão, encostei a testa no colchão da cama e então chegou a minha vez de desabar em soluços; um choro tão fundo e tão duro que me rasgava a carne do peito, lá dentro. Mas eu entendia, no meio daquele desadoro, que eu tinha mesmo que matar Cirino. Entre nós dois não podia mais haver solução. Se ele escapasse, voltava atrás de mim pra me pegar. Não ia nunca me perdoar, tinha que se vingar dessa hora de humilhação. Era impossível ele esquecer o que eu tinha dito, o que ele tinha lido nos meus olhos.
Agora era ele, ou eu.