Memorial de Maria Moura
Cap. 32 — Maria Moura
Maria Moura
CIRINO, COMO eu já disse, foi dormir no quarto vizinho ao de Duarte, no puxado dos homens, às direitas do corpo da casa. Estranhou a cama, pediu uma rede, é todo cheio de luxos. A sorte é que é bem criado, não reclama nada de mim, vai é falar com Rubina. E a velha, encantada com a lindeza do moço louro, acha graça e lhe faz todo os paparicos, iguais aos que ele estava acostumado no Garrote.
Duarte é que continuava não gostando nada do Cirino. Tinha ciúmes da mãe — ou seria ciúmes de mim? Nesse tempo todo, a gente, Duarte e eu, continuava com a nossa amizade encoberta. O nosso costume era eu dar o sinal, na hora da ceia, apertando a mão ou o ombro dele, quando achava que a noite ia consentir. Para ser franca só lhe dava o sinal quando sentia saudade; eu não queria assumir obrigação na cama, como se fosse casada. Nos primeiros tempos, também, eu morria de medo de pegar filho. Mas com os meses se passando e nada acontecendo, tomei confiança. Afinal no tempo do Liberato, também não peguei filho nenhum; a falta era de ser comigo mesma.
Cirino se interessa pelo gado. Manda o Pagão pegar o cavalo dele e selar. Então se junta com os vaqueiros, quando vão dar algum campo no pé da serra.
Rubina botou uma cunhã só para cuidar da roupa dele; a menina lavava e engomava com tanto amor que a Rubina ficou até desconfiada. Mas parece que o moço é respeitador — pelo menos com as crias da casa.
Foi aí que chegou por um próprio, da Vargem da Cruz, uma carta de Marialva para Duarte. Deixada na vila por uns tropeiros, nas mãos do compadre de Duarte, o Seu Jordão.
Parece que a menina não andava feliz. O Tio Hércules tinha morrido uma noite, em plena função, na vista de todo o povo, quando Valentim lhe marretava a tal pedra de cima da barriga. O que não é de admirar, diante de tanta brutalidade. A sogra logo depois adoeceu, morreu também. A boa notícia é que Marialva e Valentim já têm um filho; botaram o nome do avô, Alexandre, que já chamavam de Xandó; convidavam Duarte para padrinho do menino.
Uma coisa eu reconhecia: Marialva nem parecia ser irmã daqueles dois renegados.
Duarte estudou o roteiro que eles mandavam; descontou os dois meses que a carta levou para chegar na Casa Forte e calculou onde é que podia ir encontrar a irmã, seguindo as pistas que o próprio Valentim dava.
Veio me comunicar que precisava sair em procura dos dois; ele se sentia meio responsável pelo destino da irmã e eu concordei. Parece mesmo que estavam atravessando um tempo ruim.
Peguei num dinheiro, que dei a ele, Duarte ficou meio sem graça e eu me aborreci:
— Você, aqui, já ganhou muito acima disto. E tem mais: leve esta outra bolsinha que eu estou mandando para o seu afilhado. Se ele já não tiver madrinha, eu quero ser.
Depois fomos até o nosso arsenal, escolher as armas para Duarte levar em viagem. Faca e punhal já tinha os do uso diário. E pus na mão dele a jóia da nossa coleção, uma espingarda nova, leve e bonita. Tinha sido tomada, fazia pouco tempo, pela turma de Roque e Muxió; nas mãos de um marinheiro que andava com o pessoal do governo, fazendo levantamento das velhas datas de sesmaria. Roque achou por bem destroçar o grupo, antes que eles chegassem para as nossas bandas. Se bem que eu tenho a escritura, mas esse pessoal do governo, nunca se sabe se eles não vão inventar contra os direitos da gente.
Cirino não escondia o muito que lhe agradava saber da viagem de Duarte; maior ainda depois, quando o viu arrumar o rolo com a rede e a muda de roupa na garupa da sela. E teve o topete de dizer ao outro que partisse sem sobrosso, porque ele ficava “cuidando das coisas”. Duarte franziu a testa e respondeu, curto:
— Vocemecê é que fique sem cuidado; já tomei todas as providências para durante a minha ausência.
E virou-se para mim:
— Ninguém precisa mexer com nada, na usina. Deixo guardada no paiol reserva bastante de pólvora para toda a freguesia. E só João Rufo tem as chaves.