Memorial de Maria Moura
Cap. 9 — O Tonho
O Tonho
OS PONTOS de fogo na casa estavam se virando numa fogueira só, com uma rapidez pavorosa.
Quando a labareda grande subiu, deu-se um grande estalo na cumeeira, mas ninguém gritou lá de dentro.
Que diabo estava se passando com aquelas mulheres?
Parecendo até resposta à nossa pergunta, de repente pipocou um tiro, logo outro. Como é que eles agüentavam ficar dentro daquele inferno, seriam raça de saramanta? Outro pipoco de tiro. E continuava sem se ouvir um grito. Meu Deus, o diacho da mulher teria mesmo pauta com o cão?
Mais outro estampido de tiro. Porém, aí, a gente reparou que se escutava só um estalo forte, como um traque; chumbo não aparecia nenhum.
Então será que fugiram? Mandei um dos cabras espiar mais de perto e ele se encolheu:
— Se eu me mostrar, um dos diabos lá de dentro não vai me acertar?
E aí eu botei em palavras o que já vinha pensando:
— Acho que dentro da maldita daquela casa não tem mais ninguém.
O calor já era medonho e a casa velha, feita de taipa, queimava com o seu madeirame como se estivesse entupida de pólvora.
Pólvora! E eu então entendi. Os estampidos não podem ser de tiro. Devem ser alguns cartuchos de pólvora que eles deixaram por lá.
Nesse momento ouviu-se o maior estrondo e a cumeeira desabou, levantando um poeirão de fagulha de fogo que subia para o céu. A casa toda virou aquela fogueira sem tamanho. Voou caco de telha pra todos os lados; aí, o oitão esquerdo, ainda armado na taipa, desabou inteiriço para dentro.
Se fosse casa de tijolo não resistia tanto, mas o madeirame era de aroeira curtida pelo tempo, enfrentava até fogo.
O Irineu estava encolhido, acocorado, apavorado. Mas quando menos se esperava, acordou e se pôs a gritar:
— E a Maria Moura? Está morrendo ali dentro, está morrendo queimada!
Eu dei um safanão nele, para lhe curar o ataque:
— Que Maria Moura? Nessa casa não tem mais ninguém. Ou você já ouviu falar em alguém morrer queimado sem gritar?
— E cadê elas? Cadê elas?
— Fugiram. Só podem ter fugido.
— Na nossa cara? É impossível. Eu sei, eu fiquei o tempo todo aqui, olhando. Não vi nem uma sombra saindo.
Um dos moleques se chegou a nós e concordou comigo, ressabiado:
— Parece mesmo que fugiu tudo. Mas como terá sido, Seu Tonhim? Nós tamos com a casa cercada e não se viu nem um gato passar.
— Nós cercamos só pela frente, foi o erro. Como se avistava a casa toda, pelos dois lados, nos descuidamos dos fundos.
O Irineu já estava tornando do ataque. Levantou-se, tentou dar a volta à casa, mas não pôde porque a cerca empatava. E insistiu, ainda meio tonto:
— Mas fugir pra quê? Fugir do fogo?
Eu já ia perdendo a paciência com a estupidez daquele meu irmão:
— Ela não fugiu do fogo, deve ter tacado fogo na casa de propósito. E aproveitou a confusão para escapulir.
Enquanto a gente falava, desabou o resto do telhado. Tornou a subir para o céu fumaça e chama, dentro de uma poeira de faísca.
Chamei os homens:
— Tragam depressa os cavalos. Se eles fugiram, foi a pé. Não dá pra estarem longe.
Montamos, alvoroçados, saímos a galope. Os homens iam num chouto veloz. Irineu, que tomou a frente, pegou o caminho da vila. Estava mesmo louco! Gritei pra ele:
— Por aí não, seu maluco! Se ela passasse por aqui, a gente tinha visto! Devem ter ido pelo outro lado e se esconderam no mato.
Viramos todos de direção, seguimos para os lados do açude; ali nos dividimos, uns pela esquerda outros pela direita. O açude, pequeno, era só um barreiro; mal empregado chamar aquilo de açude. Mas afinal dava conta do resto de gado do Limoeiro. Eu perguntei pro pessoal:
— Por falar em gado, que será feito do gado daqui? Ninguém viu rês nenhuma.
E o Irineu:
— Diz o povo que o tal sujeito, o Liberato, estava mesmo acabando com o que era delas. Será que vendeu tudo?
Num instante os nossos dois grupos iam se encontrar do outro lado. Assim mesmo era difícil fazer o cavalo andar, naquele escuro. O clarão do incêndio é que nos alumiava, mas já ia enfraquecendo. Às vezes se topava com uma veredinha quase fechada, cheia de garrancho. E, de vez em quando, um de nós gritava de cá e os de lá respondiam.
Afinal nos encontramos: só nós, mais ninguém. Em toda a volta do açude não tinha mesmo alma viva.
Demos pra trás, de olho pregado no fogaréu da casa. Das paredes que ainda estavam de pé já tinha caído todo o barro, só restava o esqueleto dos enxameios, por onde as labaredas se enroscavam. Afinal, quando tombou a parede da frente, deu para se divisar todo o espaço que a casa tinha ocupado; e lá dentro não se via ninguém, nem era possível se ver.
Criatura nenhuma podia estar viva ali. Se ficou alguma, tinha que estar caída no ladrilho, morta e virada um tição.
Chegamos de novo ao terreiro da frente. Ali se parou, mas nenhum de nós teve coragem de apear.
Tanto nós dois, quanto os homens, estava tudo apavorado com aquele horror. Como é que a gente iria adivinhar, antes, uma coisa daquelas?
E o mano e eu, até se imaginava que aquela nossa expedição ia ser quase uma brincadeira! Assustar as mulheres, passar a mão na Maria Moura, carregar com ela para as Marias Pretas.
Que natureza de fera o diabo daquela mulher! Falam da Firma, mas a Moura deixa a Firma longe! Tocar fogo na própria casa e sair escondida na fumaça e nas faíscas!
Um dos caboclos falou por todos:
— Isso é coisa de bruxa! Foi feitiço! Como é que ela fez se levantar esse fogo todo, sem dar antes o menor sinal?
O Irineu ajuntou, gaguejando de raiva:
— Eu já não disse? É pauta com o cão!
Ficou-se um tempo, tudo calado, vendo o fogo lamber os restos de madeira; vendo as nuvens de fumaça escura que o vento carregava, tangendo às vezes para o nosso lado e sufocando até os cavalos.
— Foi-se a casa do Limoeiro!
O Irineu passou as mãos pelos olhos, esgaseado, e perguntou:
— E que é que se faz agora?
Era nisso mesmo que eu estava pensando. Custei a falar, afinal disse pros homens:
— Acho que o melhor é a gente ir dar parte ao delegado.
Mas o Irineu se assustou:
— Está doido? O delegado, na certa, bota a culpa do incêndio na gente!
— Ninguém precisa contar ao homem que nós cercamos a casa e se ameaçou a moça. Basta dizer que nos viemos pra cá em paz, procurar a prima, com a intenção de propor um acordo. Mas já encontramos aquela fogueira horrível, devorando tudo. E digo mais que nenhum de nós sabe o que é feito do pessoal do sítio. Se morreram, já estavam mortos quando nós chegamos. Quando o fogo apagar, é que vai se ver. Ou antes, a polícia é que vai ver, porque nós não mexemos em nada. Mas deve de ter lá dentro algum resto.
E, nesse ponto, tive mais uma idéia:
— Vamos só nós dois falar com o delegado. Não precisa ele saber que a gente levou os rapazes. Vocês voltam para as Marias Pretas. E é melhor que ninguém os veja.