Memorial de Maria Moura
Cap. 1 — O Padre
O Padre
OUVINDO O TIRO, eu me apeei do cavalo. Então, tinha chegado o lugar. Saí do caminho, puxando o Veneno pela rédea, meti-me pelo mato já zarolho, àquela altura de julho.
Outro tiro. Não devia ser comigo — quer dizer, apontando contra mim. Talvez estivessem fazendo exercício de pontaria. Distante, escutei o latido de um cachorro. E, de tão exausto que estava, sentei-me debaixo de uma moita e estirei as pernas no capim seco do chão.
Se eu chegar na frente da casa, a descoberto, podem me receber com fuzilaria, pensando que sou um atacante. Se fico quieto, eles acabam me achando e me levam vivo. Vão querer descobrir o que eu vim fazer por aqui.
E aí eu peço que me levem para falar com a Dona. Digo que nós dois somos conhecidos velhos... E não somos?
Bem, ela deve se lembrar da confissão. Não é todo dia que se faz uma confissão daquelas. Ela tem que se lembrar.
A manhãzinha na igreja, quase escura ainda. A moça ajoelhada, falando com voz rouca:
— Padre, eu me confesso porque pequei... Cometi um grande pecado... O pecado da carne... Com um homem... O meu padrasto! E o pior é que, agora, eu tenho que mandar matar ele...
Pela grade do confessionário dava para enxergar alguma coisa. Ela parecia nova, talvez até bonita. Falava frio, sem raiva descoberta, mas decerto com um ódio muito grande no coração. Fiquei agitado — excitado? — e muito assustado. Mas consegui dizer:
— Tirar a vida dos outros é um crime muito maior que o pecado da carne, minha filha. Quem é esse homem?
Ela primeiro engoliu em seco, depois disse o nome. Mas fez isso sem querer, pois, quando entendeu o que dissera, quase gritou de raiva:
— O senhor fez eu dizer o que não devia. O nome dele, não! Foi iludição sua! E agora, vai me denunciar?
Baixei mais a voz:
— Calma, minha filha, calma. Lembre-se de que está garantida pelo segredo de confissão.
Ela se levantou num repelão, tapou o rosto puxando a mantilha. E disse esta única palavra:
— Tomara!
Como se fosse uma ameaça. Saiu em passo duro, martelando as lajes da igreja com o tacão do sapato.
Me lembro de que não me levantei, não tive reação nenhuma. Fiz foi esconder o rosto entre as mãos e me pus a gemer: “Meu Deus, meu Deus! Como é que um pecador pode absolver os pecados de outro pecador?”
E agora, tantos anos passados, tantos anos. O homem, o tal padrasto, morreu mesmo, numa tocaia. E eu nem morri, como pensava. Sofri, penei, fugi. Corri tanto. E agora estou aqui, exausto de tanta fuga, de tanta correria desesperada.
Olhei para mim mesmo, ali, sentado no chão, a roupa de brim pardo, as grossas botas reiúnas, o lenço no pescoço. Tudo surrado e encardido. Passei a mão pelo bigode de pontas caídas, pela barba, pelo cabelo que chegava quase aos ombros.
Sem a batina, com esta cara de hoje, ela não me reconhece. Mas o meu nome ela sabe. Todo mundo sabe o meu nome, naquele lugar. E pode nem ter me visto direito, encoberto na sombra do confessionário. Minha segurança é que os cabras dela não vão matar um desconhecido. Primeiro, vão querer saber quem eu sou. E o que eu vim fazer neste fim de mundo. Nesta Serra dos Padres, ‘dos Padres’, imagine só.
Sentado debaixo da moita, perdido nas velhas lembranças, no braço a rédea do cavalo que retouçava o capim seco ao redor, nem vi quando os dois homens chegaram: um caboclo escuro e um branco amarelo, de bigode ruivo.
— Ei, meu senhor! Que é que vocemecê está fazendo aí?
E o outro:
— É tocaia? Contra quem?
O caboclo me tomou a rédea do cavalo, o ruivo me puxou, cabeça acima, a bandoleira da velha espingardinha. Depois me retirou ainda a faca da cintura.
Acho que não me bateram porque viram que eu não era um cabra à-toa, estava calçado, roupa velha mas regular. Me levantei devagar, abri os braços para eles verem que eu não trazia arma escondida, e aí pedi:
— Quero falar com a Dona Moura.
Os homens me olharam, o ruivo riu-se:
— Ficou maluco? Quem é vocemecê?
— Quero falar com ela. Só digo a ela.
Os homens se puseram atrás de mim e um deles me tocou no ombro, meio bruto, com a coronha da arma:
— Vamos. E é marche-marche. Se não quiser que a gente lhe quebre de pau.
Saindo da moita, tomamos pelo caminho estreito por onde eu viera, ao deixar a estrada. Andamos mais um pouco, até que pude ver o que já entrevira à distância. No fundo do pátio aberto, a casa atarracada ficava à frente de uma espécie de barreira formada por dois serrotes, um maior outro menor, e que eram os contrafortes de Serra dos Padres, erguendo-se em pedra, logo atrás. E, isolando a casa, enquadrando o grande terreiro à frente, uma cerca de faxina, alta de oito palmos, toda feita de mourões grossos, como paliçada em aldeia de índio bravo.
O portão tinha corrente e cadeado, mas estava entreaberto, decerto o abriram para dar passagem aos dois homens que foram me pegar; e aberto ficou, para facilitar a volta deles.
Lá dentro a casa — e me dá vontade de dizer ‘as casas’, porque não era um corpo de casa, só. Na frente se adiantava o alpendre do que devia ser a casa grande. Em redor saíam telhados e paredes de todos os feitios, que decerto serviam de morada para a cabroeira, de paiol para o legume seco, o quarto dos arreios, depósitos.
Do lado de fora da cerca alta, o curral do gado, o chiqueiro da criação.
Tudo limpo e tratado, parecia mesmo uma fazenda igual às outras, não fosse aquele jeito quase de quartel.
O caboclo levou o cavalo arreado, com a minha mesquinha bagagem amarrada na garupa. O homem ruivo mandou que eu ficasse quieto, encostado à parede. Encostou-se ele também a uma coluna e também ficou quieto, esperando e vigiando.
E então apareceu a Dona. Calçava botas de cano curto, trajava calças de homem, camisa de xadrez de manga arregaçada. O cabelo era aparado curto, junto ao ombro.
Alta e esguia, podia parecer um rapaz, visto de mais longe. A cara fina seria mais bonita não fosse o ar antipático, a boca sem sorriso.
Fiz um esforço para descobrir naquela criatura nova a jovem penitente zangada, de tantos anos atrás.
Ela perguntou, muito seca:
— Quem é o senhor? Tem negócio comigo?
— Eu realmente disse que desejo falar com a senhora. Mas peço um particular.