Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 24 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 23 — Maria Moura

Maria Moura

 

 

ENFIM, ACHEI que tinha chegado a hora de fazer a minha grande viagem — quer dizer, a romaria em procura da Serra dos Padres. Lá ficava o meu destino: disso eu tinha a maior certeza.

O caminho era sabido, todo mundo ensinava a quem quisesse ir à Serra dos Padres; quase uma rota batida.

Passa por catinga e por serrotes; por mata e cerrado, por léguas de campos e alagados. Dois rios se atravessa, sempre secos no verão; mas no inverno eles correm encachoeirados, das águas que descem da serra. E, depois que se atravessa os dois rios, e se topa com os primeiros contrafortes do pé da serra, segue sem desencostar, até encontrar com dois serrotes juntos, um pequeno e mais baixo, o outro comprido e alto, e que se chamam o Pai e o Filho.

Essa é que era a referência importante. Avistando os dois serrotes, a gente quebra às direitas, anda mais de uma légua, costeando sempre o pé da serra, até alcançar um ponto em que as pedras se amontoam, grandes e pequenas; e, no meio delas, dá de cara com o Pai e o Filho. Só que aquele amontoado não é pedra caída lá de cima, é pedra firme, enraizada no chão. Então já se está nas próprias quebradas da serra.

E o local especial onde fica a furna é onde o mato está sempre verde, de verão a inverno; lá fica a nascente, o olho d’água.

Nesse canto devem estar os restos da tapera de que falava o Avô. E onde, ainda, quem sabe, mora gente da raça do índio que era genro do ruivo, o posseiro antigo.

Como se vê, eu tinha todo aquele roteiro na cabeça. Aprendi como quem aprende reza, ensinada pelo Avô. Que o velho, no desgosto de não ter um neto macho, me obrigava a aprender tudo dos nossos direitos na terra da Serra dos Padres, para eu fazer o meu marido, ou um filho, um dia, recuperar aquele chão que valia mais do que ouro, com a sua água perene, com suas terras frescas.

E era nosso, nosso! Nosso, que se tinha comprado, parte da sesmaria da Fidalga Brites. Na mão dos herdeiros dela.

Eu agora já tinha mais tenência com as coisas. Sabia esperar para fazer, e fazer com o propósito. Bem me tinham servido de lição as correrias e prejuízos da nossa fugida do Limoeiro. E, mesmo agora, os erros da emboscada no Irineu, que deu naquele mau sucesso.

Primeiro juntei e dei revista no armamento. Os dois bacamartes, e mais o do Roque; a garruchinha velha, que era a minha arma pessoal. E as facas e o punhal do fazendeiro, que eu também tomei pra mim. Tinha-se pólvora, chumbo grosso e miúdo, munição grande para os bacamartes. Que bacamarte é como ema, engole tudo que lhe botem no bico, diz João Rufo.

 

A nossa ausência do Socorro não devia ser longa. A gente ia, mas era pra voltar. Os velhos, mais o Juco e os pequenos, ficavam tomando conta da ‘fazenda’: a vaca Indez com a sua cria, a miunça, já aumentada de uma marrã de ovelha e um casal de bodecos que as minhas parelhas tinham trazido numa das suas saídas. Libânia também engordava, no chiqueiro, um capado da mesma procedência. E ficava milho no paiol, uns sacos de feijão, mandioca no roçado. Os negros velhos viviam rindo pro tempo, se considerando ricos. Libânia de vez em quando suspirava, pensando nos filhos, que penavam no cativeiro, enquanto eles nadavam naquela fartura toda.

— Ai, Sinhá, Deus é pai, mas maltrata!

João Rufo preparava os animais, ripava as crinas dos cavalos, aparava o rebordo rachado dos cascos. Libânia lavava a roupa, passava com carinho as minhas calças e camisas; às vezes dava um suspiro por não ter anáguas pra botar na goma.

— Sinhazinha, não sei o gosto que sente em andar nessa calça velha, feito um cabra macho.

Eram velhas mesmo, aquelas minhas calças. Herança de Pai, que eu nunca deixei que Mãe desse ao Liberato. Ela bem que tentou, mas eu fiz um escândalo, me agarrei com a roupa de Pai, saí correndo abraçada com a trouxa delas para esconder no meu baú. E nesse tempo eu nem tinha idéia de usar aquelas roupas, era só pela relíquia que queria guardar e, naturalmente, pra não ver o Liberato se pavoneando com a roupa de Pai. Já bastava o que ele tinha.

Mas agora eu sentia um gosto especial em enfiar as calças pelas pernas, apertar no cós o cinturão (também dele), arregaçar as mangas da camisa, compridas demais para os meus braços.

Ai, Pai, se o senhor não tem morrido, a vida nossa seria tão diferente. Talvez eu já estivesse casada, dormindo nos braços do meu marido.

A idéia de um marido não era ruim — pelo menos no que tocava a me satisfazer o coração. Mas que marido? O homem que eu pensava não devia existir no mundo. Pelo menos eu não conheci nenhum. E quem iria me procurar, naquela vila velha da Vargem da Cruz? Algum daqueles bichos brutos, bigodudos, dente falhado, cheirando a cachaça, como o Tonho? O Irineu era o meu pretendente eterno. E quem sabe Pai acabava me dando a ele, afinal era o meu sangue. Pai, em matéria de casamento, era muito sistemático, ia sempre por essas idéias de sangue, família. Embora costumasse me dizer que aquela raça das Marias Pretas era tudo gente de veia ruim. Mas, sei lá. De qualquer modo, o Irineu não era tão sem presença, pelo menos não cheirava a cachimbo nem a jerebita. Naquela hora em que me abraçou à força, tinha até um cheiro bom.

Ah, isso tudo é imaginação de mulher. Tenho que deixar para mais tarde esse pensamentos. E, além do mais, onde é que eu posso encontrar este homem? Afinal, não sou nem a Princesa Magalona, que o rei seu pai mandava chamar os homens do mundo inteiro para escolher o noivo dela. Nem pai tenho. No que toca à minha vida — minha vida particular — só me resta ser eu mesma o meu pai e a minha mãe. E quem sabe o meu marido.

Nos meus sonhos de menina, eu esperava que o meu noivo chegasse, todo vestido de branco, de bigode louro como o de Pai, montado no seu alazão.

Deixa isso tudo pra lá. Agora o que eu tenho mesmo a fazer é cuidar da descoberta da Serra dos Padres, e procurar a parte que eu herdei da data da Fidalga Brites.

 

Se tudo der certo, então, bem, só então, quem sabe o meu cavaleiro aparece. Um outro dizer do Marinheiro Belo, Pai contava, era que “a sorte, boa ou má, sempre nos chega em marés: maré boa traz aos poucos, maré ruim leva em arrastão”.

 

Me arrumei com o maior capricho, como quem vai para outro mundo, sem volta. Tirano, de tão ripado, tão limpo dos cascos, tão milhado, estava gordo e parecendo uns dez anos mais moço. João Rufo fez reparos nas selas — agora a gente já tinha sela para todo o mundo. Remendou-se tudo que era arreio. Cada um ia levar o seu rolo de bagagem amarrado na sela, a rede, a muda de roupa lavada. A burra ia de cargueiro, levando os mantimentos que davam para alguns dias; o principal deles era uma boa manta de carne-de-sol. E mais feijão, farinha, rapadura, milho: o de sempre. E o peixe salgado da lagoa. Remendou-se também, mais uma vez, o couro da borracha velha de Pai, tampou-se o menor furinho. Num estirão como o que a gente ia enfrentar, a água era o mais importante de tudo. Roque estava querendo ir a pé, mas não deixei, podia assim atrasar a nossa marcha. Desta vez não se tratava de enfrentar luta, arriscar briga; a gente estava querendo só ir conhecer o terreno, ver se tinha ainda alguém ocupando o lugar que era meu. Pai, quando saiu de lá, tinha deixado só o velho ruivo com o genro índio: podia se dar o caso da família ter crescido e agora já ter um bando de mameluco brigador. Ou podia ter se reduzido a uns poucos velhos nas últimas. Ou mesmo não ter mais ninguém.

Era isso, exatamente, que a gente ia descobrir. Pisar na terra, fazer visão do lugar, avaliar os recursos. Pai também contava que viu por lá uma sementinha de gado e cabra. Quem sabe tinha se formado um rebanho, durante esses anos todos?

Eu preferia que não, porque se lá tinha gado bastante, havia de ter também gente bastante pra aproveitar. Criando a meninada com leite de vaca, podia medrar que era um horror, talvez já formavam até um arraial.

 

Partimos do Socorro pela madrugada, ao quebrar da barra. Escolhi uma sexta-feira para dar sorte, com a proteção das santas almas do purgatório. Conselho de Libânia. Dizia ela que sabia de tudo, até onde as cobra dorme. Então, não era raça de africano?

Caminho, a bem dizer, não havia, ou, se havia, passava por muito longe de nós. Umas trilhas mal riscadas no chão da mata, que naquela altura era toda catinga branca, com algumas reboladas de mato grosso nas baixadas mais frescas.

Roque e João Rufo, debaixo do meu comando — nós três dávamos o rumo. Minha idéia era seguir entre o norte e o poente, como ensinava o Avô. Mas, “entre o norte e o poente” é bom de falar. Na prática, parece que o mundo inteiro pode ficar entre o norte e o poente. Afinal, isso quer dizer a quarta parte do horizonte. Mas eu me fiava no tamanho da serra que era grande, embora não fosse muito alta.

Dizia o velho: “No que se avistasse a serra, era procurar os serrotes do Pai e do Filho”. Pelo menos a gente tinha esta referência, os tais serrotes de pedra que não mudavam de rumo, nem desabavam no chão, como casa velha.

A marcha foi custosa. A cada hora se perdia o rumo, porque se tinha que andar ao capricho das trilhas e não se sabia bem para onde botavam; e às vezes se afastavam demais do nosso rumo norte-poente.

E ainda se era obrigado a costear os brejos, fugir da mataria muito fechada, principalmente mato de alagadiço, que só tem jurema e unha-de-gato, com os seus espinhos cortando a cara e as mãos dos cavaleiros.

Por três vezes encontramos sinal de gente. A primeira vez foi no segundo dia de viagem — era um rancho de taipa coberto de palha. Mas não tinha pessoa viva lá dentro, nem bicho sequer. As três pedras da trempe estavam frias e entre elas nem um tição apagado, só cinza antiga. Ali não morava mais ninguém, fazia tempo. Nem sinal de roçado, só uns paus desmantelados de um pedaço de cerca.

No quinto dia vimos um rancho, que era só uma latada, coberta com galhos de folha murcha. Um rancho de pousada, via-se rastro e estrume de cavalo. Rastro de gente também, marcas de corpo no chão. Com certeza esses passageiros levavam sua provisão de água; por perto não havia aguada nenhuma.

Deviam ter ido embora a mais de uns dois dias e os rastros deles tomavam o rumo do nascente, oposto ao nosso.

O terceiro encontro foi uma casa onde só estava uma menina de uns dez anos, mal coberta numa saia, e uns três moleques, tudo nu. A menina não queria falar com ninguém, empurrou os irmãos para casa, bateu a porta, assustada. A gente disse que era de paz, não tivesse medo. E a menina gritou de dentro: “Pai e mãe tão longe, foro no roçado velho. Pode seguir caminho!”

Eu perguntei se eles não tinham água ali, para encher nossa borracha seca.

E a menina gritou de novo, num guincho fino:

— A cacimba fica aí atrás, pode pegar água lá.

A porta aí deu uma espécie de tranco; a menina devia ter conseguido firmar nas tábuas e estaca de escora.

A água era ali mesmo. Bebemos, enchemos a borracha, demos de beber aos animais e fizemos caminho. Num lugar daqueles não havia nada de interesse. Para nós, só miséria demais.

Pelos nove dias de viagem, era sol alto, nós tínhamos saído da mata mais fechada e entrado num vargeado, quando de repente levantei os olhos e soltei um grito:

— Lá está! Lá está!

Na verdade, bem no meio do rumo entre o norte e o poente, se levantando aos poucos até tomar mais altura, se via muito bem o lombo azulado da serra.

— Lá está! — e eu apontava com a mão trêmula. — Lá está a Serra dos Padres!

Avançamos quase a galope. Até os cavalos pareciam animados. Então o caminho estava certo! O rumo dado pelo Avô servia mesmo de guia seguro. A serra parecia tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Naquele céu quase branco de tão limpo e tanta luz, o vulto da serra era quase como uma nuvem, só um pouco mais escura, se deitando no horizonte. Mas era ela mesmo; era a Serra dos Padres, não podia haver engano. Pela informação dos antigos, não tinha outra serra nenhuma por aquelas sertanias.

Pelos nossos cálculos, nós já tínhamos caminhado perto de trinta léguas, desde o Socorro. E o Avô dizia: “Não passa de quarenta léguas, e a gente avista o começo da serra”. E ele falava do Limoeiro, a mais de dez léguas do Socorro.

“Aí é só chegar mais perto, quebrar às direitas e ir acompanhando a estirada da serra na direção do nascente, até encontrar os dois serrotes: o Pai e o Filho.”

Seguimos em frente, costeando o vargeado e descobrimos uma trilha que ia na boa direção. A serra crescia: de azul ia ficando mais preta ou mais verde: dava para ver que ela era só pedra pura; e nos covões, onde o vento juntava terra, é que se levantava cada partida grande de mato viçoso, mas esgalhado, batido pelas ventanias.

Chegando a hora do almoço, os serrotes ainda estavam escondidos. Como disse João Rufo, no alvoroço em que a gente estava, não dava para pensar em acender fogo; era só comer uma consoada fria, rapadura, farinha, água pra lavar a boca e olhe lá.

Para falar a verdade, nem ao menos afrouxamos a cilha dos animais; e só quem apeou foi João Rufo, para ir buscar a comida e a borracha na carga da burra.

Logo trotamos em frente, e à medida em que a gente avançava na trilha, a serra ia se modificando. Crescendo, se aproximando. Os cavalos é que cuidavam dos buracos no caminho; nós estávamos o tempo todo de cara para cima.

Devagar, devagar, se desenhando dentro da claridade, foi aparecendo o serrote grande todo cinzento e manchado de listras pretas; um cabeço de pedra pura, arredondando o vulto, no alto. Tinha que ser o Serrote do Pai. E quando andamos mais um pouco, logo deu para ver, à direita do Pai, o serrote menor, como se agasalhando na sombra dele. Lá estava o Serrote do Filho!

A nossa trilha, desde certa distância, vinha tomando largura. E ao defrontar os serrotes, dobrou pela esquerda, se alargando ainda mais. Sinal de que a morada junto ao olho d’água não estava abandonada; andava gente por ali, batendo o caminho.

Uma fumacinha fina subia para o céu, entre as pedras. Chegando mais perto, viu-se que, no desvão separando o Pai do Filho, levantava-se um barraco, de onde a fumaça saía. Pouco mais que um rancho de palha ligando os dois muros de pedra. A parede de frente era de taipa grosseira, esburacada. O terreiro defronte, mal varrido, não dava sinais de ocupação bem assentada; num chiqueiro apertado, um cabritinho soltava de vez em quando um mé-é desconsolado. Decerto tinham soltado a mãe para ir pastar, mantendo a cria presa; não diz que quem quer a cabra prende o cabrito?

Nós estancamos os cavalos em frente do rancho e dos dois serrotes. Mandei que os homens se alinhassem como tropa de cavalaria, todos de frente, com as armas à vista, para logo ir assustando quem estivesse dentro da casa.

Salvamos com o “Ô de casa!” Ninguém respondeu. João Rufo já ia apeando, quando, na porta do rancho, apareceu primeiro um menino nu. Atrás dele veio uma mulher que talvez fosse branca, debaixo do mau trato e da sujeira. Vestia uma espécie de camisola solta, imunda, parecida com camisa de índia aldeiada. Mas a criatura não tinha cara de índia. Olhou para nós com um sorriso assustado, mostrando os dentes fortes e amarelos. E disse:

— Jesus da minhalma! É soldado?

Eu adiantei um pouco o Tirano:

— Não, não tem soldado aqui. Nós estamos de passagem, queremos só beber água. Pode ser?

A mulher olhou para mim, espantada, atrapalhou-se ainda mais, parecia tudo confuso na cabeça dela:

— O sinhô é mulher?

Todo mundo riu, eu também.

— É, eu sou mulher; sou uma moça. Ando vestida de homem porque dá mais jeito para montar a cavalo.

Ela aí riu, ainda meio estonteada:

— Veja só! Mas não querem se desmontar?

Nós nos apeamos, João Rufo enfiou as rédeas do Tirano numa estaca solta, junto à pedra grande. Provavelmente era o que restava de uma cerca. A mulher ofereceu:

— Querem ir beber no olho d’água? Lá a aguinha é bem fria e bem limpa. Água de mina.

Tinha-se que dar a volta ao Serrote do Filho para chegar ao olho d’água. Subia-se uma rampa na pedra que ficava por trás dos dois serrotes e do rancho de taipa. Mais um degrau ou dois, e aí caía de uma fenda, na pedra, o jorro fino de água da mina — o olho d’água. Num ressalto da barranca tinha uma cuia pequena, bem usada. E embaixo do fio d’água (que não era mais do que isso, um fio) um balde de madeira, que os moradores deviam usar para levar água e encher o pote.

Eu bebi na concha das mãos. Os homens usaram a cuia. A gente estalava a língua depois de beber. Era melhor do que mel, aquela água, principalmente depois de tanta água choca e suja que se tinha bebido pelo caminho.

Zé Soldado esperou até que enchesse o balde, para ir dar de beber aos cavalos.

Pedi licença à mulher de camisola para a gente se arranchar ali, tirar os arreios dos cavalos, armar as nossas redes nas árvores que havia ao redor. Ela concordou com tudo:

— Faça tudo que quiser, Dona. Até dormir na minha casa, mas é pequena demais. Mal me cabe e o menino. Mas se vocemecê quiser se acomodar lá dentro, eu boto o menino do lado de fora.

Cheguei até a entrada do rancho, olhei lá dentro. Era escuro, parecia mais uma furna que uma casa. Me virei e perguntei à mulher:

— Como é seu nome?

E ela disse quase no meu ouvido:

— O meu nome é Jovelina, mas o povo me chama de Jove.

— Que povo?

— Minha gente, meus irmãos... Até o meu marido.

— E onde é que eles estão?

Jove deu uns passos em frente, sentou-se numa tora de pau que devia estar ali para servir de banco, e falou:

— Morreu tudo. De um em um. Só me resta agora este menino.

A gente não entendia direito:

— De um em um? Foi peste?

— Não senhora. Acho que foi mal de tísica. Depois dos meninos foi o pai. Esse morreu ligeiro, botou sangue pela boca duas vezes; da terceira se acabou. Ficamos só mãe e eu. Daí a uns tempos apareceu aqui um homem. Primeiro ele quis casar com mãe, mas como ela não queria, acabou se casando comigo. Eu, nessa hora, já estava me pondo moça.

Eu queria entender, mas era difícil.

— Como é que vocês casaram?

Jove tapou com a mão o riso encabulado:

— Bem, casar mesmo a gente não se casou. Com que Padre? Padre aqui não anda. E o Terto, o meu marido, vivia me prometendo: “Quando eu pegar num dinheiro, compro um vestido novo pra tu e aí a gente vai na vila e se casa”. Mas nunca ele pegou num dinheiro. Aí mãe morreu...

— Do peito também?

— Inhora não. Ela morreu de uma queda. Foi pegar um frango que estava fugindo pelas pedras, escorregou, caiu, quebrou qualquer coisa dentro, lá nela. Doía o corpo todo, não podia nem trocar a passada. Eu dava chá a ela, esfregava erva... mas não teve jeito.

— Ficou então você com o marido e nasceu o menino. Cadê seu marido?

Jove enterrou o queixo no peito:

— Não sei.

Levantou o rosto, agora estava chorando, mas com o mesmo sorrizinho envergonhado:

— Desde o inverno passado que a gente não sabe dele. Saiu pra uma caçada de tatu, levou a enxada e a picareta pra desencovar os bichos. Subiu de serra acima, não voltou mais. Tenho pensado que a onça comeu ele.

— Você procurou?

O menino nu tinha chegado e agora se encostava nos joelhos da mãe:

— Eu fui até onde pude. Mas tinha que levar o menino, não podia deixar ele só. E ele não agüentava subir nem eu agüentava carregar com ele. Então voltei pra cá. Esperei muitos dias. Se o Terto estivesse vivo voltava, não é? Mas nunca voltou.

Olhou para nós todos e disse, como se desculpando:

— Aqui tem muita onça.

Apesar de tudo, nem ela nem o filho pareciam muito magros. E eu perguntei ainda:

— E de que é que vocês dois vivem?

Jove se levantou:

— A gente tem uma cabra. É boa de leite, dá sempre mais de um caneco. Tem mandioca, sempre que preciso faço um meio saco de farinha; ralo na pedra, espremo no tipiti, torro naquela outra pedra ali... Tem também umas galinhas meio brabas. Mãe dizia que elas já estavam amontadas... Mas sempre se pega algum frango, se acha um ninho de ovos que elas botam no meio do mato, aqui perto. Dá pra se escapar.

O menino tirou a cabeça do colo da mãe, onde escondia o rosto, e declarou:

— Eu mato rolinha de pedrada. Com a minha baladeira que o meu pai fez pra mim.

— Como é que você se chama, meu filho?

O menino escondeu de novo o rosto, talvez encabulado, depois do rompante de caçador. A mãe acudiu:

— Bem, vocemecê não repare, mas a gente chama ele de Pagão. Mãe queria que a gente fosse na vila batizar a criança e a gente nunca podia ir. Ela não se conformava e jurou que, enquanto não se batizasse o neto dela, ia chamar ele de Pagão. Eu achei um nome muito horrível, mas acabei me acostumando.

— Vocês plantam?

— Plantava, mas depois que o Terto se sumiu, a gente planta muito pouco. Ficou difícil.

— É, vocês dois sozinhos...

— E nem é só isso. O Terto, pra tal de caçada, levou a picareta e a enxada pra escavacar a cova do tatu. Me fez muita falta a picareta e mormente a enxada. Fiquei só com um caquinho de enxada velha, não dá pra nada. Tenho que limpar o mato arrancando, e esfola a mão toda.

Durante essa falação, os homens estavam calados. Aquela nossa conversa não dava vez pra homem.

Eu então me sentei na outra ponta da tora de pau, arranquei o calçado que já me doía nos pés e disse pra moça:

— Escute bem, Jove. Olhe pra mim e ouça o que eu lhe digo: eu sou a neta dos donos desta terra. Meu nome é Maria Moura.

Jove parece que não se admirava de nada:

— Neta? Taí, pai me contava que, quando ele era menino, andou um homem por aqui e disse que era dono da metade desta serra. Disse que ia buscar recurso pra situar uma fazenda aqui. Mas foi-se embora e nunca mais voltou. A gente tinha medo que ele chegasse e enxotasse nós tudo daqui. Mas ele não veio e a gente foi ficando...

 

Então, aquela mulher, a Jove, era filha ou antes neta do tal índio, casado com a branca e portanto genro do posseiro das nossas terras, ali na Serra dos Padres...

Eu continuava indagando:

— Tem por aqui alguma tapera antiga, alicerce, forquilha, sinal da casa velha do seu avô?

— Tinha. Mas a chuva foi levando. Em inverno forte desce muita água da serra. As águas e o barro levaram tudo. E a madeira se foi queimando. Este pau que a gente está sentada nele, devia de ser uma das forquilhas da casa do avô. Também é só o que resta da morada dos velhos.

Os rapazes se mexiam enquanto a gente conversava. Já tinham arriado a carga e ainda conseguiram achar no saco um resto de feijão, uma ponta de carne e farinha pro pirão. O menino Pagão foi buscar lá atrás uma panela de barro, preta de fogo, mas parecendo limpa.

Zé Soldado e Maninho, que eram os mais espertos, arrumavam o feijão e a trempe. Alípio foi à mina buscar um balde d’água pra cozinhar a carne. Jove, vendo que eles tiravam do saco o que sobrava da rapadura, entrou no rancho e voltou com uma vasilha de ferro:

— Tá aqui esta caneca pra ferver o resto da rapadura e se tomar uma garapa quente... Enquanto se espera o de comer.

Eu peguei na rapadura, quebrei um canto, dei o pedaço pro Pagão. Ele aceitou, desconfiado, mas a mãe aconselhou:

— Pega, lambe. Vai ver que é bom, é doce.

E se virando para nós:

— Esse aí nunca viu na vida um pedaço de rapadura. Já eu me lembro, mas faz muito tempo. A última vez foi quando um homem passou por aqui e trocou com nós quatro rapaduras por um saco de feijão.

Pegou o pedacinho de rapadura da mão do filho e ensinou como é que se chupava. Mas devolveu logo, envergonhada, disfarçou:

— Falei em fazer a garapa porque mãe dizia que, quando a rapadura é pouca, rende mais feito garapa. E engrossando com um punhadinho de farinha, então! Ela chamava de chibé.

Esquentou-se a água, desmanchou-se a rapadura, fez-se o chibé. O caneco passou de mão em mão. Jove virou a cara, se escondendo dos nossos olhos, para tomar o seu gole. O Pagão recebeu a bebida no último lugar — mas todos tiveram cuidado em deixar boa parte para ele. Primeiro lambeu as gotas da garapa que viu nas bordas do caneco, depois foi chupando, devagarinho, aquela delícia desconhecida, até chegar ao fim e ir virando a caneca para cima e escorropichar o último pinguinho. Espiou o fundo, viu que não tinha mais nada lá dentro. Olhou a nossa cara, de uma em uma. Soltou uma risada curta e desabou no choro, escondendo de novo o rosto entre os joelhos da mãe.

 

Enquanto a Jove cozinhava o feijão e escaldava a carne seca, eu me sentei em separado com João Rufo, para decidir o que nós íamos fazer. Eu não podia negar o alívio que sentia. Esperava encontrar gente armada, a raça dos posseiros em pé de guerra e afinal estava ali só a triste Jove, viúva, desvalida, com o pobrezinho do Pagão, que, só de olhar pra ele, dava um aperto no coração.

João Rufo queria saber se não seria bom eu ir até a Vargem da Cruz, procurar no cartório as escrituras velhas do Avô, e exigir que me dessem a posse da terra. Mas eu achei que era arriscado mexer com gente da justiça. Quanto mais eu, já toda encrencada com o caso do incêndio e as mortes violentas de Mãe, do Liberato e do Jardilino.

Felizmente a terra era herança do Avô, pai de Pai, não tinha nada a ver com aqueles almas de sapo das Marias Pretas.

Não, do Limoeiro eu queria a distância e as poucas lembranças.

— Quem faz o dono é a posse, João. Se nós temos as escrituras no cartório, melhor. O que eu quero é tomar posse da terra, fazer aqui a minha casa. Se eu fosse o Liberato, dizia que quero fazer o meu castelo. Ele gostava de falar em castelo, desde que ouviu contar a história da Casa da Torre de Garcia d’Ávila. Pai que contou a ele, na primeira noite em que o Liberato apareceu de visita. Eu ouvi.

O João ainda estava em dúvida:

— Mas, como é que vai ser essa posse? Aqui não tem nada, nem um começo de nada.

— É assim que eu quero. Quero fazer uma casa pra mim, defendida por estes serrotes e as suas furnas. Quero uma casa que cachorro de Tonho nenhum, ou outro qualquer, se atreva a cercar.

Dito isto, pensei um pouco, determinei:

— Nós demoramos aqui uns dias, descansando e tomando sentido das coisas. Depois se volta para o Socorro. Vou arranjar uns machados e mais toda a ferramenta que for preciso para se levantar a casa. Nesta terra tem muita madeira de lei, é só olhar, até daqui se vê. Dá pra fazer cem casas de taipa, quanto mais uma.

— E a telha? Cobrir com quê?

— Você vai me descobrir um oleiro. Não precisa nem ir na Vargem da Cruz para encontrar. Na Camiranga não tem casa coberta de telha? Então, tem lá quem sabe fazer. A gente traz um mestre telheiro nem que seja à força; depois se vê o que se faz com ele. Daí, tem que se alistar mais uns homens. Nós vamos precisar de gente. O Roque pode ajudar nisso: o alistamento é de se fazer devagarzinho, de um em um, pra não se correr risco. Afinal, pra que é que eu quero as minhas parelhas, se não for pra me arranjarem não só gente, como toda coisa de que se careça?

João não disse mais nada. Que estava meio assustado, isso se via. Mas ele já devia estar acostumado comigo e com a minha cabeça. E ainda podia se benzer com as duas mãos, já que a gente se via, com toda facilidade, se apossando da terra, na paz, sem atirar sequer uma pedra de bodoque.

Descansamos à tarde, depois de comer o almoço. A Jove achava graça da nossa fome — como se ela e o Pagão não vivessem também esfomeados. E metendo umas ripas de carne seca na boca do filho, ela se gabava:

— Tendo comida na panela, eu bem que sei cozinhar!

 

A cavalo, a pé, começamos a travar conhecimento com a Serra dos Padres, e com a vargem larga e comprida que ficava no sopé. Lá em cima, os serrotes se entremeavam com os morros; e quanto mais esses morros tomavam altura, mais a mata ia engrossando. Por toda parte os homens me mostravam a madeira de lei, os paus d’arco, as aroeiras, os angicos, os cumarus, e tudo esperando ser cortado e servir na construção. E quando eu falei na dificuldade de descer essa madeira grossa serra abaixo, eles se riram de mim:

— A madeira é tombada de cima e escorrega pela rampa que se faz na ladeira. A Sinhá Dona não sabe que a terra puxa tudo pra baixo? Pra baixo todo santo ajuda...

Se a serra subimos a pé, pelas várzeas lá de baixo a gente andou a cavalo, conferindo as esperanças de comida e bebida para o gado. É verdade que tinha o olho d’água, muito bom para servir a uma casa; mas dar de beber a um magote maior de reses, já era outra empreitada. E o Roque que, anos antes, tinha trabalhado nas obras de um açude, acabou descobrindo um riacho com umas ombreiras muito boas para levantar uma barragem apoiada nelas.

— Dá uma parede famosa, vai ser água muita. Essa barranca é só pedra e piçarra. E olhe, Dona, o espraiado pra represa! Vai ser um pai das águas!

Derrubamos o rancho velho da Jove, fizemos uma casinha nova pra ela, ainda coberta de palha, era o jeito. Mas ficava prometido que logo estaria coberta de telha. Era só eu trazer o oleiro, pois o precioso Roque já tinha descoberto barro de telha na terra onde ia ser a futura represa do futuro açude.

Os rapazes saíram uns dois dias para caçar nas matas da serra. A gente precisava de carne para a nossa matalotagem e para deixar alguma reserva pro Pagão e sua mãe. Sal não havia; mas estava ali mesmo o sol pra secar a carne e todo mundo já estava acostumado a comer ité, feito índio.

Caçaram um porco caititu, perderam uma veada catingueira que fugiu, mas trouxeram a cria, um veadinho todo espantado e sarapintado de branco. O Pagão se apaixonou por ele, como era de esperar. Abraçado com o bichinho, chorava se alguém chegava perto e gritava: “Este bicho é meu, vou criar pra mim! Ninguém mata ele!”

Eu garanti ao Pagão que ninguém ia matar o veadinho. E ele o trazia por uma corda, como um cachorro, e ia caçar matinho fresco para lhe dar de comer. De noite dormiam juntos, na esteira velha. Botou nele o nome de Calango. Dizia o nome e se ria, achando muito engraçado. Jove contou que um tempo atrás ele criava um calango, mas um dia achou o bicho morto, já coberto de formiga. Chorou três dias por ele. Pra gente ver as coisas: pro Pagão, o nome de calango não era o de um bicho feio, de raça de cobra; era amor e recordação.

Fui descobrir a furna que já era famosa desde o tempo dos Padres. Era mesmo um esconderijo difícil de se achar igual. Nascia numa fenda de pedra, embaixo, seguia por um corredor de umas duas braças de comprimento e saía disfarçado, mas tão bem encoberto que só podia dar conta dele quem já de antes soubesse onde ficava.

Depois de um mês, na madrugada, nos arrancamos de lá. Eu, pelo menos, me arranquei, e com dor. Ali eu senti, de verdade, que tinha encontrado o meu canto no mundo, o meu condado.

 

A Jove ficou muito assustada quando descobriu que a gente ia embora. Tinha se acostumado conosco; o Pagão pôs-se a chorar aos gritos, como fazia toda vez que sentia raiva, medo ou desgosto. Eu chamei a Jove para um canto do terreiro e conversei com ela num particular:

— Desde que a gente está aqui eu já te enganei alguma vez, Jove?

Ela abanava a cabeça, enquanto enxugava os olhos na manga rasgada da blusa.

— Pois então, acredite agora. Eu vou mas eu volto. Esta terra é minha! Vou levando os homens comigo porque careço deles pra adquirir as coisas pra casa nova. Os ferrolhos e as dobradiças, os ferros todos que se precisa para uma casa de gente rica. A nossa casa, aqui, vai ser uma casa de rico, e você vai morar com a gente, vai ter o seu quarto, seu e do Pagão, por toda a sua vida. Vou trazer roupa nova pra você e o Pagão, vou trazer comida pra gente, vou trazer semente pra se plantar. Vou trazer sal pra temperar a panela.

Ela descobriu os olhos:

— O Pagão e eu, ninguém não gosta de sal.

— Pois então você bota no fogo uma panelinha separada, sem sal, só para vocês dois. Vou trazer rapadura, remédio, óleo de rícino, tudo que precisar aqui. Vou trazer rede boa pra gente dormir.

Jove interrompeu de novo:

— O Pagão e eu não se dorme em rede, é só na esteira, no chão. A minha mãe é que sabia fazer rede de corda, igual à dos índios. Mas eu só sei fazer esteira.

— Você e o Pagão tomem muito cuidado enquanto eu estiver de viagem. Cuidado com os bichos! Nessa mata tem onça mesmo, como a que comeu o seu marido. E tem cachorro-do-mato, cobra... Tome cuidado com o Pagão. Não deixe ele andar pelo mato sozinho, que ainda é muito pequeno. Quando eu chegar quero encontrar vocês dois bem gordos e bonitos.

Bati no ombro dela, não tive coragem de abraçar porque ainda andava muita suja; e recomendei:

— Aprenda a tomar banho no olho d’água; se esfregue com raspa de juá, se ponha cheirosa e bonita, que é capaz de aparecer outro marido pra você!

Jove saiu correndo se esconder na barraca, mas Pagão se agarrou na minha perna e fez questão de segurar o estribo para eu montar.

 

Justamente, naquela hora da partida, apareceu no terreiro um estranho. Era morador daquelas matas, conhecido do defunto marido da Jove. Procurou falar comigo num particular. Eu já de pé no estribo, desci a perna, fui atender ao homem.

Disseram a ele que a dona das terras dali tinha chegado para tomar conta. A Jove lhe falou da minha presença e uma mulher, sua conhecida, que vivia a duas léguas de distância, ao pé da serra, e vinha ao Pai e o Filho, com uma cabaça na cabeça para apanhar água no olho d’água, contou a ele que tinha chegado era uma comissão de cavaleiro, tudo rico e bem montado, que dava até pra começar uma guerra. E agora, na minha presença, o homem, barbudo e maltrapilho, tirou com cerimônia o chapéu de couro e se apresentou:

— Senhora Dona, o meu nome é Luca Evangelista, seu criado. Me perdoando o atrevimento, poderei lhe fazer uma pergunta? Vocemecê será da raça da Fidalga Brites, a dona desta sesmaria?

Eu podia ter dito que não era da conta dele, mas quis responder:

— Não senhor, sou neta do homem que comprou este pedaço da data, na mão dos herdeiros da Fidalga Brites. O meu é só uma parte da sesmaria.

— E a senhora conhece as suas extremas?

Eu respondi que as extremas estavam determinadas nas escrituras, no cartório da Vargem da Cruz.

O sujeito meditou um tempo, remoendo a informação. Afinal decidiu:

— Quando vocemecê puder, traga a sua escritura para se fazer a medição. Aí a gente reparte: abre os piques, enterra os marcos de pedra com as duas testemunhas, e cada um fica no que é seu.

— Vocemecê comprou a parte de quem?

— Eu não comprei não, Senhora Dona. Eu ocupo o terreno lá em cima já faz pra mais de cinqüenta anos. Já inteirou o prazo para a posse, eu acho.

Mandei o homem se sentar no banco que a gente tinha feito no terreiro da Jove. E pedi que me contasse a história dele.

— Eu nasci três léguas daqui pra baixo, num lugarzim por nome Riacho da Bugra. Nesses tempos tinha lá umas cinco casas, tudo vaqueiro, tratando o gado de um fazendeiro das bandas da estrada da Bahia. Mas veio dois anos de seca, o gado foi morrendo, o pouco que escapou amontou pela serra, virou ‘gado do vento’, quer dizer sem dono — como fala o povo. Mas até mesmo esse gado bravo morreu quase tudo, só resta muito pouco por aí. Um mês desses eu dei de cara com um touro preto bargado, que ficou me encarando duro, feito gente com raiva, depois virou de costas e entrou pelos matos. Parecia uma visagem, tive até medo. E uns anos atrás encontrei uma vaca parida, o bezerro junto. Mas tão braba que, nem bem avistei os dois, dispararam na carreira, mal tocavam o chão com os cascos. Quase não deixavam rastro...

— Mas como foi que o senhor veio parar aqui na serra?

— Bem, eu estava nos quinze anos, meu pai e minha mãe tinham morrido da bexiga — deu uma praga de bexiga que quase acabou com o resto do povo no Riacho da Bugra; e então eu peguei amizade como uma mocinha da minha idade. Lá queriam me carregar para uma vila onde tinha casa e igreja, mas eu estava acostumado aqui, não quis ir com eles. A mocinha — o nome dela era Alvina —, por causa dessa amizade comigo, também não queria ir. Nesses começos ela ainda tinha mãe, mas com pouco tempo a mãe pegou um filho de um homem casado e morreu do parto. Nós dois ficamos sozinhos no mundo e eu resolvi ir morar com ela na serra, que é mais perto e tem o olho d’água. A finada avó da Jove deixava a gente pegar água aqui. Eu e ela não se passava de uns meninos, mas já se tinha tenência. Ninguém se casou — o que já era até costume, nunca andou Padre por aqui...

Aí ele deu uma risada:

— Pode aqui se chamar Serra dos Padres, mas é um canto onde não se vê sinal de Padre. Diz que os padres do Jeremoabo saiu tudo preso, mas os daqui foram espertos, arribaram em tempo...

— Onde vocês foram morar?

— Daqui pros lados do nascente, uma meia légua. Achei um tabuleiro liso, levantei uma barraca pra nós, broquei um roçadinho, a Alvina tinha trazido um saquinho de semente. Depois fui lá embaixo, peguei umas manivas, fiz uma roça de mandioca. Com os bichos que eu caçava, deu para a gente escapar...

— E daí?

— Daí que a Alvina logo pegou criança. Mas nasceu morta e ela quase morreu também. Dos cinco filhos que teve só se criou um, o Raimundo, que a gente chamava de Doca. Do sexto parto a Alvina morreu, e a criança morreu dentro.

Eu fiquei sozinho com o Doca. Era um menino mofino, amarelo, nunca foi grande coisa. Acho que era doente feito os irmãos, só escapou por milagre. Quando ele tinha uns onze anos, amanheceu morto, nunca se soube de quê. Enterrei ele junto com a mãe e os irmãos. Já tenho um cemiteriozinho só meu, fechei até com uma cerca, para os pebas e os porcos-do-mato não fuçar.

O Luca fez uma pausa, pediu um caneco d’água, continuou:

— Quando a Alvina morreu, eu pensei em descer, viver de novo com o povo que me restava, no Riacho da Bugra. Mas ainda tinha o menino, que me fazia companhia. Depois que ele morreu, eu não queria abandonar meus pagãozinhos, junto com a finada Alvina. Fui ficando, ficando... Agora já está dentro de cinqüenta e dois anos que eu vivo aqui...

Uma coisa me impressionava:

— Mas como foi que o senhor contou os anos tão certo assim? Sabe ler e escrever, Seu Luca?

O velho Luca riu, cuspiu de lado:

— Ler? Eu não! Mas logo que nós chegamos aqui, a Alvina me pediu para eu dar um jeito da gente ficar sabendo os dias da semana. E eu me lembrei da experiência de um velho do Riacho, que ele chamava de calendaro. Pegava uma vara de mais de polegada de grossura, descascava, e ia marcando nela um corte em pé, de um dedo de altura, pra cada dia da semana. Ia dando volta na vara, como um anel, até o sábado; no domingo fazia o corte deitado, passando pelo meio dos seis. Estava fechada a semana. Logo abaixo eu começava o outro anel, pra outra semana. As varas são compridas, cada uma dá pra marcar as cinqüenta e duas semanas do ano. Já tenho cinqüenta e uma delas amarradas num feixe. E estou no meio do número cinqüenta e dois...

E rematou, batendo com o velho chapéu de couro nas pernas:

— A Alvina dizia que a gente não pode viver como bicho bruto. Tem que saber ao menos quando é o domingo, pra guardar o dia santo...

— E como é que o senhor se veste, de onde tira roupa?

— E índio se veste? Eu virei índio. Faço tanga de couro e até de palha. Uns vinte anos pra trás eu fui numa vila que me ensinaram, seis léguas daqui, levei na cabeça um saco de milho debulhado, troquei por uma calça e uma camisa. A costureira me deu a calça pelo milho e mais duas dúzias de nambu seca no sol, que eu também tinha levado. E essa calça eu só visto quando vou ver gente. Como hoje, com vocemecê. O pano está detriorado, mas ainda encobre o corpo...

Pensei um pouco e fiz uma proposta:

— Mestre Luca, eu vou ver as minhas escrituras. Mas queria fazer logo um acordo com o senhor. Como a minha terra é grande — é muita terra mesmo! — a sua extrema comigo ia ficar muito longe; com certeza o senhor ia ter que deslocar o seu barraco e o seu roçado para as extremas novas, lá pros confins. Por que não fica aqui mesmo, como meu morador?

Ele foi me atalhando:

— Mas este burro velho não dá mais pra ser morador de ninguém!

Eu não deixei que ele continuasse:

— Sem obrigação nenhuma! Sem sujeição à fazenda, sem meia no legume, sem nada. Eu quero é a sua boa vizinhança. Não vê, se situo a fazenda aqui, preciso de gente ao meu redor...

— Eu não sei se me acostumo mais a ter patrão... Mas sendo morador de uma Dona tão delicada...

— O senhor vive sozinho nesta serra, Mestre. Qualquer dia, pode acontecer, fica mais trôpego, uma onça lhe pega, como pegou o finado da Jove...

Ele continuava coçando a cabeça e eu continuei seduzindo:

— Sempre que lhe der na veneta e não tiver nada em casa, desce até aqui, e vai encontrar sempre o seu prato de feijão, a sua tigela de coalhada lhe esperando.

— Isso é bom. E às vezes me faz muita falta.

— Eu é que vou precisar muito do senhor, Mestre, quando for tirar a madeira para a casa grande que eu quero levantar aqui. O senhor vai mostrar à gente os pés de pau mais linheiros, a madeira de lei para as linhas — o Mestre deve conhecer cada pé de pau desta serra!

Mestre Luca se levantou, dando aparência de contente. E me estendeu a mão:

— Então estamos no acordo. Eu fico por aqui, à vossa espera.

Aí, me deu uma idéia:

— Mestre Luca, espere um pouco! Quero lhe pedir uma informação: o senhor, que nasceu por aqui, saberá me dizer onde se encontra um terreno bom de barro, pra telha e tijolo?

O Mestre sentou de novo, muito alegre:

— Olhe, Dona, aqui mesmo, antes de chegar no Riacho da Bugra, tem uma mina especial de barro de telha. De lá se tirou tudo quanto foi telhado da Bugra. E eu sei disso de ciência própria, vendo trabalhar o finado meu pai, que ele sim, era mestre — o mestre oleiro da terra.

Eu fiquei alvoroçada:

— E o senhor? Também sabe fazer telha?

— Olhe, Dona, o meu barraco lá em cima é todo coberto de telha que eu mesmo fiz, em cima da coxa. Nunca quebrou uma nem vasou, até o dia de hoje. Depois não fiz mais, acabou-se o povoado da Bugra, acabou-se a freguesia... Mas o ofício da gente, ninguém esquece. Não digo que eu possa ainda arrancar barro, molhar, traçar ele na enxada. Mas me dando uns caboclos novos, a gente ainda faz um estrago...

— E o tijolo, Mestre, e o tijolo de ladrilho também?

— Tijolo, qualquer um faz. Não tem ciência. Mas é bom cavar o barro em tempo de inverno, quando a terra está mole. Comecinho do ano!

Aquele homem não tinha caído da serra, tinha caído era do céu! E botei a mão no ombro do velho:

— Olhe, Mestre Luca, eu vou levantar aqui, neste lugar, uma casa importante, pra ser a sede da minha fazenda. E eu, mais o João Rufo, estava se quebrando a cabeça pra descobrir de onde se podia tirar barro, fazer uma olaria. E aí descubro que o senhor mesmo é mestre oleiro, sabe arrancar o barro e fazer a telha e o tijolo! Pode crer, eu lhe dou tudo que pedir para a minha olaria: os homens, os ferros, a lenha pra queimar, tudo mesmo! O senhor só precisa ir ensinando a eles, que a minha rapaziada faz todo o resto!

Seu Luca sorria meio assustado:

— Mas Vossa Senhoria não vai sair de viagem ainda hoje?

— Eu vou ali e já volto, Mestre! Enquanto eu não chego, vá marcando as minas do barro e vá praticando numas telhas, pra refrescar a memória.

Ele se levantou, espigado, parecia que tinha ficado mais moço:

— Pois vá e venha, Senhora Dona Moura! Vá e venha que quando chegar de volta já encontra novidade.

Eu me levantei, dei um abraço no meu oficial de oleiro e prometi:

— Mestre Luca, eu vou lhe trazer lá de baixo um par de calça nova e uma camisa de fazendeiro. Se conseguir, lhe trago até um colete!

E pedi ainda:

— Escute, Mestre, mais um pedido: de vez em quando passe por aqui, venha dar uma espiada na Jove e no menino.

— Eu já faço isso dês que o marido dela morreu, Dona. A gente sempre se ajuda uns aos outros, quando é preciso. Não lhe dê cuidado. Não precisava nem me encomendar.

Com isso, fui me despedindo. O Pagão me pegava de novo o estribo para eu montar.

Saltei na sela do Tirano, que tomou o caminho numa bralha vistosa. Não já contei que o Tirano era bralhador? E dos finos.

Os outros me acompanharam e eu me virei para os Serrotes do Pai e do Filho, olhei os dois um instante, depois dei adeus com a mão.

— Adeus, minha Serra dos Padres! Adeus minha Casa Forte que eu vou levantar!

E ora essa, adeus não, que isto não é despedida. Até qualquer hora, que eu volto logo!

Estava tão feliz que comecei a chorar. Apertei o Tirano com o tacão da bota, ele tomou o galope. O vento, batendo no rosto, me secou as lágrimas.