Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 39 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 38 — Maria Moura

Maria Moura

 

A CASA DA MARIALVA ia se levantando depressa. O mais trabalhoso era a madeira, mas fizemos um adjunto: e só não foi mais gente porque faltou machado. Mestre Mica comandou a empreitada: e era só rolar os paus e tombar lá em baixo; já se tinha a rampa aberta desde que se tirou a madeira para a Casa Forte.

Cirino apareceu de volta no dia em que se levantou a cumeeira. O pessoal tinha inventado uma festa; matou-se um bode gordo que se comeu torrado; Rubina fez um pote de aluá, João Rufo arranjou um garrafão de jerebita. Todo mundo bebeu e se alegrou.

Valentim garantiu a música e entrou com a rabeca. Apareceram as mulheres mais novas, de flor no cabelo, até Marialva dançou com Duarte. Cirino veio me tirar e eu disse que não queria; na verdade, nunca tinha dançado na minha vida. Com quem é que eu ia aprender? Nem quando mocinha. Assim, tive medo de fazer feio na festa e recusei até mesmo tomar parte na quadrilha.

Antes que acabasse a dança, resolvi voltar sozinha — era tão perto que eu não precisava de companhia. Mas andadas umas vinte braças escutei passos atrás de mim — um passo que eu conhecia de longe: era Cirino.

Parei, esperei, ele me pegou pelo braço, foi dizendo:

— Que correria é essa? Será por minha causa?

Eu liberei o braço:

— Pensei que depois daquela cena do cordão de ouro, você não quisesse mais conversa nenhuma comigo.

— Repente de homem apaixonado. Eu, quando me zango, faço dessas. Tudo foi só malcriação. Mas você sabe que eu te adoro e não consigo viver longe de ti.

Me abraçou, foi me beijando, me agarrando. Eu ainda tentei me soltar:

— Deixa disso, tem gente vendo.

— Nós estamos no escuro, eles no claro, perto da fogueira. Não podem ver nada.

Se eu facilitasse, no impulso em que ele vinha, me derrubava ali mesmo, em cima do mata-pasto.

— Sossega, parece doido. Vamos pra casa.

Cirino me passou o braço pela cintura, eu deixei, estava mesmo escuro. Perto do portão me afastei dele, empurrei-lhe o braço:

— Cuidado. Tem guarda no portão.

O homem da guarda, que estava de olho na luz da fogueira, estranhou minha presença:

— Já de volta, Sinhá Dona? A festa acabou?

— Não. A festa, pelo jeito, ainda vai longe. Não tarda vem alguém te render.

Cirino passou comigo, implicou:

— Precisava dar tanta conversa ao cabra?

— Não é da sua conta. Eu sei como trato os meus cabras.

Em casa não tinha ninguém, só o cachorro guardava o alpendre.

O Padre devia estar no quarto dele, lá fora, no alojamento dos homens.

Cirino foi me empurrando direto para o meu quarto, onde Rubina tinha deixado uma candeia acesa. Eu não gostava de entrar em lugar sem luz, de noite. Tinha medo de morcego, cobra, esses bichos da sombra. Tinha medo de ficar trancada com eles na escuridão.

Cirino fechou a porta por dentro, encostou-se nela:

— Me dá a chave. Quero esta porta trancada hoje. Por dentro.

Levantei a tampa do baú e peguei a trouxinha feita num lenço e dentro dela o cordão de ouro, as medalhas, a chave.

Ele separou a chave do resto, que jogou em cima da mesinha. Passou a chave na fechadura, dando com cuidado duas voltas. Caminhou para mim:

— Agora vou te matar.

 

Não sei quando os outros vieram para casa, não soube o que Duarte ficou pensando da nossa saída da festa.

De manhã, na mesa do almoço, ele não me disse nada. Evitou até dar o bom-dia. Cirino estava alegre, brincalhão, ronronando como um gato. Marialva tinha ficado impressionada quando eu contei quem ele era: até nas Marias Pretas, e já no tempo dela, se ouvia falar na riqueza do Seu Tibúrcio, na Fazenda do Garrote. Valentim levantou uma sobrancelha quando eu apresentei o hóspede. Ele também sabia quem era o pai do moço.

Acabada a comida, rapidamente, Duarte, que todo o tempo tinha estado mudo e mal olhava para as pessoas, foi se levantando. Os outros seguiram atrás, também calados, talvez por cerimônia com o filho de Seu Tibúrcio; e eu tratei de também me levantar para acabar logo com aquilo.

Só Cirino parecia à vontade e se dirigiu a Duarte:

— Pode me dizer onde é que anda o Antônio Muxió?

Eu me adiantei, perguntando:

— Pra que você quer o Muxió?

Cirino falou despreocupado, mas eu senti que ele estava mentindo:

— Nada de importante. Queria que ele me desse opinião sobre um cavalo. Me ofereceram um, de compra, e eu soube que o Muxió já montou ele.

A desculpa era tola demais. Quando é que o Muxió tinha podido andar em cavalo de sela capaz de interessar Cirino?

Pouco depois apareceu Pagão com o cavalo de Cirino, já selado.

Por essa altura e já pela segunda vez, Duarte tinha pedido licença pra sair e ia se encaminhando para os lados do paiol da pólvora. Ele se portava como um estranho, nem chegava a cruzar o olhar comigo. Daí a pouco perguntei ao Pagão se ele sabia onde é que tinha ido o Seu Duarte. Mas o menino, ainda segurando as rédeas do cavalo de Cirino, abanou a cabeça:

— Sei inhora não. Eu estava chegando com este cavalo do Sinhozim, e olhe o que ele me deu!

Risonho, me mostrou na palma da mão um derréis novo.

Rubina apareceu atrás de mim, esperou que o Pagão se afastasse e me disse, em voz baixa:

— Sinhá, pelo amor da sua finada mãezinha, deixe o meu filho quieto. Deixe ele no canto dele. O seu par é aquele outro.

Eu fingi que não entendia, olhei para ela com a cara muito admirada e saí, como falando sozinha:

— Está tudo doido aqui, hoje de manhã.

Dia seguinte me chegou João Rufo, cheio de novidades:

— Sinhazinha já sabe da grande briga que o Seu Cirino teve com o pai dele?

— Agora? Quando ele andou lá?

— Nestes dias, inhora sim. Diz que foi por causa da herança. O moço queria parte do dinheiro da mãe (eles diz ‘a legítima’), o velho se agastou, Seu Cirino respondeu, e aí o velho ameaçou ele com o relho... Seu Cirino saiu danado, dizendo que o pai ia ver quem ele era, se era homem pra apanhar de relho...

Eu me fingi muito admirada:

— Que coisa! Mas por que é que ele está fazendo tanta questão desse dinheiro? Vai viajar?

— Ninguém sabe. Os rapazes dele não me disseram.

E riu-se:

— Pra trazer pra cá não é, que aqui ele não tem despesa... Aqui a despesa dele a Sinhazinha cobra é do velho!

Eu pensei de repente:

— E agora, com essa briga, será que o velho ainda vai me pagar a outra parte do nosso trato?

João Rufo, que era pessimista, ficou logo preocupado:

— Será, Sinhazinha? Um homem tão rico? Será?

Eu estava meio receosa de outra coisa: quem sabe o velho tivera notícias do que estava havendo entre mim e o filho dele? Cirino — não sei não — mas acho que ele é bem capaz de se gabar do que está havendo comigo e ele. Andar de namoro ferrado com a Moura não é para envergonhar homem nenhum.

— E o que ele quer com o Antônio Muxió, João?

— Ai, ele anda metido com o Antônio Muxió? Não sei não, não sei não, Sinhazinha. Mas vou perguntar ao Roque, que é quem sempre anda com o moço.

— Vá. Veja o que você descobre.

João Rufo saiu, testa franzida, todo misterioso.

 

Da festa da cumeeira à casa pronta foi, a bem dizer, um átimo. Logo se rebocou o que era de parede, logo se ladrilhou o chão, logo se fez o fogão de jirau junto à janela da cozinha. Depois as duas mãos de cal, cal nossa, da lavra, queimada no meu forno da Casa Forte.

Mestre Quixó trabalhava na cama, na mesa, nos tamboretes. Baú não fez porque não era preciso, o casal tinha muita mala de carregar as bagagens deles, a tralha de saltimbanco. Encomendei à nossa velha louceira, que morava no Riacho da Bugra, toda a louça de barro, as panelas, potes e alguidares. Talher reparti um pouco dos meus, mas com a promessa de encomendar facas e colheres pelo primeiro portador que fosse à rua. Lençóis, toalhas, ela tinha, herdadas da Dona Aldenora; não podiam contar com a roupa das estalagens, sempre mal limpa e grosseira.

Com a casa pronta, fez-se outra festa para inaugurar. Na verdade só um almoço farto, sem dança e sem música. Todo mundo comeu. Marialva, ajudada pela Rubina, que agora se dividia bastante com a ‘casa nova’, se preocupou em mandar um prato feito para cada cristão da Casa Forte. E até o Beato Romano foi convidado e aceitou comparecer. Sentou-se à mesa com a gente, a pedido da Rubina, abençoou a casa nova e os seus moradores. Fiquei de olho, para ver se ele dava algum escorregão e acabava traindo o Padre, na hora daquela bênção. Mas não deu para perceber coisa nenhuma. Ele disse umas palavras bonitas, fez uma cruz ao passar pela porta da frente, outra cruz por cima da mesa posta, mas não soltou nenhum latim. Fiquei pensando que — seria por ser muito vivo e não relaxar nunca a vigilância, ou por já estar encarnado mesmo na figura do Beato?

Até eu, volta e meia passava pela casa nova. A gente atravessava um tempo de paradeiro, o momento não andava bom, não se tinha nenhum trabalho à vista. De acoitado, só o Cirino, mas esse, depois que soube da morte do inimigo, já circulava por toda parte, muito à vontade. Dava as suas saídas por fora, dizendo que, apesar do alívio, era sempre cuidadoso e disfarçado. Mas não sei que disfarce era esse que não podia enganar ninguém. Eu chegava a pensar: e se o medo do velho Tibúrcio não tinha sido exagerado de propósito? E de noite, quando eu tentava perguntar qualquer coisa a Cirino, coisa assim como: “Está bem, que o inimigo pior morreu. Mas pelo que o velho contou, não era só um deles atrás de você... Que é que tu estás aprontando?”

Ele então me abraçava com mais força e reclamava:

— Não quero saber de nada, nega. Pra conversa tem-se o dia. Vamos depressa, depressa, que os galos já estão amiudando.

 

Mas que ele estava aprontando alguma, estava. No meio dos meus cabras formou-se uma espécie de bandinho do Cirino — os que estavam sempre com ele, iam com ele caçar na serra, davam um salto, de noite, até o Riacho da Bugra (noite cedo, que o tarde da noite era no meu quarto). Às vezes ele me chegava com um cheiro de bebida — mas só um cheiro leve, não dava para estranhar.

Duarte, se via alguma coisa — e era claro que ele via mais até do que os outros —, não comentava nada, não dava sinal de vida.

Eu estava numa posição muito difícil, respeitando o silêncio e o afastamento de Duarte e, de certa forma, dando graças a Deus por esse afastamento. Se fosse haver uma explicação entre nós dois, só tinha que acabar mal. Eu não podia dizer nada para me justificar, ou sequer explicar, querendo que ele entendesse. Estava visto que ele tinha entendido tudo. O recurso que restava era se sair pra briga e isso eu não queria, não queria nunca brigar com Duarte.

No serviço, ele continuava trabalhando sem alteração. Fazia a escrita toda, tomava nota do gado, cuidava de um bicho doente. Vigiava tudo, sem esquecer a usina da pólvora e a sua freguesia. Vinha também apertando a amizade com Valentim. Os dois estavam sempre juntos, Valentim mostrava muito interesse pela vida da fazenda, especialmente pela mata e a planta. Conhecia já as árvores mais importantes, da madeira de lei aos paus de lenha. Ia ver os homens brocando os roçados e remendando as cercas, que era tempo disso. É que eu, na Casa Forte, fazia questão de que não se apresentasse ali somente um coito de perseguido, mas uma fazenda de verdade. E, com o passar do tempo, a gente já contava até com uma renda certa no gado. Já mandava vender lote de boi gordo, logo que apertasse o verão.

Já a plantação, isso eu tenho que confessar, era quase que só um enfeite, tirante o que a gente produzia para o nosso sustento e o dos bichos. Eu não mandava mais as parelhas dos meninos em serviço miúdo; só mexia com eles quando era ‘empresa de valia’, no dizer de João Rufo. E também é bom explicar que nunca meti Duarte nas nossas ‘correrias de estrada’. O meu trato com Duarte, desde o primeiro dia em que ele chegou na Casa Forte, era ele ser o meu feitor. Feitor da minha fazenda, coisa de que eu estava muito precisada, depois que João Rufo vinha se pondo velho. Eu não gostava de misturar as coisas. Duarte, Rubina, o Beato Romano, não tinham nada a ver com o outro lado da minha vida. Aliás, o Beato, nem sei dar definição dele. Nunca me contou por miúdos o que tinha sido a vida que levou no tempo passado entre as desgraças com a Dona Bela e a sua chegada à Casa Forte. Está se vendo que não gosta de tratar disso — com certeza lhe dói demais. Essas coisas doem mesmo lá no fundo, eu que o diga. É como o caso de Mãe, nunca pude falar com ninguém no corpo magrinho dela, pendurado no cordão do armador. Me amarga tudo lá dentro, sinto um gosto de fel e sangue na boca.

 

Numa manhã dessas, Marialva já instalada na casa nova, eu saí para ver como iam as coisas por lá. Era domingo, ninguém trabalhava. Marialva, sentada num banco, debaixo do alpendre, debulhava numa urupema um molho de feijão verde da horta do Beato.

O neném, com uma menina atrás dele, engatinhava pelo terreiro varrido, metido num calção comprido para não ralar os joelhos. Perto da mulher, com um bauzinho pintado de azul e encarnado aberto junto de si, Valentim fazia exercício com as facas. A umas quatro braças de distância se postava a tábua, em pé, com o alvo pintado nela; e esse alvo era o contorno em tinta preta de um corpo de mulher.

Valentim fechava um olho, fazendo a pontaria, ficava balanceando a faca na mão, tomando impulso e, de repente, a lâmina partia zunindo e ia se enterrar na madeira, a ponta de aço, exatamente no lugar que Valentim mirava.

Entretida com o seu feijão, Marialva nem levantava os olhos enquanto a faca voava. Mas vi que ela se encolhia toda cada vez que a ponta da faca se enterrava na madeira. Seria então só fingimento seu, aquela calma.

De longe ainda, eu já tinha gritado: “Cuidado, compadre, tem gente chegando!” Ele fez um ar de riso e parou, já com uma nova faca na mão. E eu dei o bom-dia, abanei a mão para o Xandó no outro lado do terreiro e pedi ao compadre que continuasse. Eu não me cansava de ver o atirador de faca trabalhando. E pensava comigo que nunca no mundo seria capaz de colocar a minha vida na mão de outra pessoa e me postar como alvo, encostada àquela tábua, como Marialva me disse que era a parte dela na função.

O menino continuava engatinhando, tentando apanhar um besouro grande que fugia pelo terreiro, na frente dele. E de repente apareceu, entre a ama e a criança, um cachorro vermelho, magro, arrastando um pouco os quartos. Babava muito também. A menina deu um pulo para trás e gritou:

— É aquele cachorro que ficou danado! Ele tinha ido pro mato e voltou!

O Xandó, risonho, engatinhava agora na direção do cachorro. Ninguém tinha coragem de fazer nada, o menino estava perto demais do bicho doente, qualquer coisa podia assustar o cão.

Marialva escorreu para o chão, de joelhos, gemendo:

— Jesus da minh’alma!

Eu fiquei parada, como se fosse de pedra; o cachorro parou também, se voltou para nós, depois se virou de novo, quase arrastando as pernas de trás; ia na direção do menino que levantava do chão uma das mãozinhas e lhe acenava com ela.

Valentim estava atrás de nós, ninguém olhava para ele; e, assim, todos nos sobressaltamos quando uma faca cortou o ar, passou zunindo rente a nós, e foi se cravar no cachorro, bem junto do espinhaço, entre duas costelas.

O cachorro focinhou o chão e ficou parado, já morto quando caiu. Marialva deu um salto em frente, correu a pegar o filho. E nos viramos para Valentim, que estava sem uma gota de sangue no rosto, esfregando as mãos, muito nervoso:

— O meu medo era não acertar. Tive que esperar um pouco... com o alvo em movimento...

A aflição da mãe passou para o menino, que abriu a boca, num berreiro. Eu peguei nele, tentando consolar, cantando, dançando improvisado, meio forçado: “Foi-se o totó, neném! Foi-se embora o totó”.

E encantado com a cantoria e a dança, numa pessoa que ele nunca tinha visto fazer isso, o Xandó se calou logo e começou a pular nos meus braços, tentando cantar também: “o totó, o totó”.

 

Passamos uns dias comentando o susto. Pela Casa Forte e arredores andaram fazendo uma limpa em tudo que era de cachorro suspeito de raiva. A tal ponto que Rubina, revoltada, veio me pedir para dar um basta “naquele bando de Herodes...” matando a pau os bichos brutos, inocentes.

Na verdade, é só aparecer um cão danado num lugar, o povo se apavora todo — e a pobre da cachorrada é que paga. Só não chegam perto do meu cão de guarda — contra esse ninguém se atreve. Com certeza bem o queriam: muitos deles têm as marcas de dente do Tubarão na barriga da perna e nos calcanhares.

 

Como já contei, Cirino, depois da briga com o pai, lá no Garrote, tomou a liberdade nas mãos. Acompanhado de Muxió e os outros do ‘bandinho’, metia-se em correrias por contra própria. Levavam sumidos até semana.

Eu, mais de uma vez, chamei Cirino de parte e lhe fiz ameaça de o mandar embora da Casa Forte. E ele, que nunca levava a sério o que eu dizia, daquela vez me respondeu que não precisava eu correr com ele; já estava disposto a fazer uma viagem.

— Ando desconfiado de que aquele perigo todo, com o velho fazendo tanta assombração, não era só chilique dele. Meu pai queria era me manter longe do Garrote, para poder fazer as suas traficâncias com a partilha de Mãe.

E não quis me dizer para onde seria a tal viagem:

— Vou por aí... quero conhecer o mundo... Bahia, Recife, Crato... Ando pensando... Posso até chegar numa encruzilhada, solto a rédea do cavalo e deixo que ele escolha a direção.

Eu mal conseguia me fazer de forte, fingir que não ligava aos projetos de viagem dele. Já era duro enfrentar a separação, mesmo sendo para perto: ficar sem ele debaixo dos meus olhos, ao alcance da minha mão. Ele dizia — claro que mentindo — que não podia viver sem mim. Mas eu, sem ter coragem de dizer isso a ninguém, principalmente a ele! É que já não posso viver sem o Cirino.

Com o passar dos dias, já não era só à noite que eu procurava a companhia dele. Arranjava pretexto — ver o touro novo pegado no lote de gado do vento, experimentar um cavalo que ele não conhecesse ainda; e, se Cirino gostava do animal, lhe dava de presente.

Em casa, nos corredores, a gente vivia esbarrando um no outro e ele cochichava: “Já viu? Quando a gente se bate, sai faísca...”

Nem posso dizer direito como é que eu me sentia. Tudo era novidade para mim, mas uma novidade esperada. Meu corpo chegava a doer quando a gente se tocava — e continuava doendo quando se separava. Assim mesmo, eu procurava disfarçar de todo mundo as fraquezas da Moura nova, fingindo a antiga dureza, a da Moura de antes.

Só de noite eu me soltava e me entregava. E ele se atrevia tanto comigo, que ainda sinto o rosto quente, só de me lembrar. Talvez ele me experimentasse, para ver até onde podia ir. Mas quando chegava a me fazer doer, me machucar, logo se arrependia, e voltava a ser o menino dengoso, aninhado nos meus braços. Às vezes eu acordava com a cabeça loura me pesando sobre o colo, o braço enrodilhado em mim, a boca entreaberta me rodeando ainda o bico do seio, como criança que adormece sugando o peito da mãe.

No outro dia, à luz do sol, tudo mudava. E eu bem podia ver quanto ele andava inquieto, nervoso, espritado.

E o pior é que, com todo aquele meu desadoro por ele, eu não conseguia negar a mim mesma que os nossos amores não podiam ter nenhum futuro.

A passagem de Cirino pela Casa Forte tinha que ser só isso: uma passagem. Qualquer hora ia dar alguma loucura maior naquela cabeça sem juízo e adeus, Cirino.

Eu chegava a pensar às vezes em entregar o que era meu a ele — a casa, a fazenda, os homens, o comando de tudo, ficar sendo só a mulher dele —, Duarte ia se danar, ia embora, mas que se danasse! Paciência!

Felizmente, mesmo nesses delírios de fraqueza, uma coisa me dizia: ele não me quer a mim, eu não sou bonita, não sou nova, nem ao menos me visto de mulher, ou tenho jeito de mulher. O que ele quer em mim é a Moura, a calça de homem, o chicote, a força! Ele é atrevido mas é fraco, acho que gosta de mim — ao seu modo — mas só vai continuar gostando enquanto eu for o que sou. Aquela Moura capaz de enfrentar outros homens, sem medo. Até pelo contrário, dando medo a eles... Se eu largar os meus modos, se eu perder a minha fama e o meu comando, ele logo se abusa de mim e sai atrás de outra. É, não me engano. Queria me enganar, mas a esse ponto não perdi a cabeça: com Cirino eu não me engano.

Falo e penso isso tão claro, mas no meu peito só existe confusão. Porque eu fico tremendo só com a idéia de vê-lo ir embora. Já pensei, me rindo sozinha, em trancar aquele diabo no cubico e só tirar ele de lá quando me desse na veneta. Deve ter homem que faz isso com mulher. Por que eu não posso fazer o mesmo com Cirino?

Ai, loucura, loucura de quem tem paixão. Quem quer bem e não tem segurança, só tem medo. E o que eu sabia, de certeza verdadeira, é que aquilo que me acontecia era mais forte do que eu. Nas mãos de Cirino eu não me governava.

Muitas vezes me lembrava de Mãe com o Liberato. Não tinha pedido meu pra largar dele que demovesse a pobrezinha, e eu ficava furiosa com ela. Hoje já sei que não era fingindo que ela me prometia acabar com tudo; pra logo mais à noite abrir a porta pro ladrão. “Eu queria, mas não posso”, ela só faltava me dizer. Agora eu entendia, minha Nossa Senhora, como entendia. Tal mãe, tal filha. Ou comigo ainda era pior?

 

Era uma tarde de domingo. Eu tinha feito uma sesta no meu quarto — Cirino andava por longe — quando Rubina veio me avisar que estava apontando no caminho uma cavalhada. Pela poeira que levantava, devia ser importante.

Na entrada do portão se conheceu: era de novo Seu Tibúrcio do Garrote, sem faltar o ‘acompanhamento dos capangas’, como dizia o filho dele.

Logo que o velho entrou e se acomodou, eu ofereci água e fui falando, antes que ele me viesse com reclamações:

— Seu Tibúrcio, eu tenho muito gosto em receber vocemecê na minha casa. Mas, se veio atrás do seu filho, perdeu a viagem. Ele não atende mais a conselho nem a pedido meu, sai e entra quando quer, passa dias e dias ausente — como agora.

O velho jogou o chapéu no chão, enxugou a testa suada:

— Dona Moura, eu não vim aqui por causa do meu filho, não senhora. Esse rapaz saiu do meu poder. Agora já acha que pode se danar por aí por conta própria.

Seu Tibúrcio olhou em redor: além dos cabras dele, que esperavam respeitosamente debaixo do pé de jucá, no terreiro, mas ao alcance de nossa voz, também estavam perto Rubina e João Rufo.

Ele então disse que precisava de me falar num particular — e riu-se:

— Parece que as minhas conversas com vocemecê são sempre no particular!

Levei o homem para a sala, dei pra ele sentar o cadeirão de braços e me assentei defronte, no bangüê de couro.

— Tenho que começar por uma história muito comprida. Mas vocemecê precisa me escutar com paciência, pra poder entender o caso todo.

Tornei postura de muita atenção e ele começou:

— Eu não sei se a senhora já ouviu falar nas duas famílias que ocupam aquelas terras de entre Ceará e Piauí, só que bem mais pra cima da data de terras que se conhece pelo nome de Inhamuns? Já ouviu? Essas famílias vivem as duas intrigadas há muito tempo já, anos e anos. Nas guerras das eras de 17 e 24, elas já brigavam, uns junto com os patriotas, os outros do lado do rei... De uma parte são os Mendes que o povo chama pelo apelido de Mel-com-Terra, porque eles são tudo sarará do cabelo amarelo. E, do outro lado, é a família dos Nunes, também chamada pelo apelido de Seriemas. Ainda são aparentados uns com os outros, já se cruzaram muitas vezes nesses anos e anos em que se espalham por ali. De vez em quando se dá uma trégua, até se casa moça Seriema com rapaz dos Mel-com-Terra, mas de repente espoca nova briga e sai tudo a ferro e fogo.

Eu ouvia quieta, concordando de cabeça; à medida que Seu Tibúrcio ia contando, me lembrava de uns casos em que Pai falava, e onde andavam metidos Seriemas e Mel-com-Terra. Nunca que eu pensasse fosse nome de gente ainda viva!

Seu Tibúrcio ia em frente:

— Agora, nestes últimos anos, vem de começar uma nova guerra entre eles, e nem se sabe quando é que vai acabar. Ou mesmo se acaba algum dia. O chefão dos Mel-com-Terra é homem muito rico, dono de não sei quantas léguas de terra, lá pras bandas do Norte. É conhecido por Jovelino Bacamarte — e esse nome já diz tudo. Ainda mais que ele até se orgulha da alcunha! Ninguém sabe como é que começou a rixa nova. Só sei que o Bacamarte pegou numa emboscada dois filhos do chefe dos Seriemas, um sujeito baixinho e escuro que chamam de Peba Preto, e é também muito rico. Talvez mais rico que o Bacamarte. Conta o povo que ele possui até uma mina de ouro em Goiás. Não sei se é verdade, mas dizem. Pra vingar os filhos, contam que o Peba Preto tacou fogo na vila de Águas Belas, onde reina o Bacamarte. O incêndio comeu feio dias seguidos; e até a igreja, que salvaram do fogaréu, está toda com as paredes rachadas. Eu não vi, que não ando por lá, mas quem viu me contou. Do resto das casas, no armado, nem uma só sobrou em pé.

Aí a família inteira dos Mendes — parente, aderente, agregado, cabras forros e negros do mando de Bacamarte — começaram uma caçada contra o Peba Preto. Não sei de que santo se valeu ele, mas conseguiu fugir e chegou por estas nossas bandas, procurando asilo. Como ainda é aparentado, raça minha (uma tia nossa se casou por lá), Peba Preto, viajando de noite, se escondendo de dia, acaba me aparecendo no Garrote, pedindo coito, alegando a parentela.

E Seu Tibúrcio explicava agora a dificuldade dele:

— E que é que eu era de fazer? O Garrote é uma fazenda aberta, desarmada, não tenho cabroeira à voz de comando, só o pessoal do serviço. Vocemecê é testemunha, Dona Moura! Quando eu precisei de homiziar o meu próprio filho, trouxe ele para cá, que lá não tinha recurso para isso. Não tenho cerca nem paliçada protegendo a minha casa, lá entra e sai quem quer. Eu sempre digo que o meu alpendre é uma rua de vila... Para eu receber o Peba Preto, só pode ser abertamente, e isso é guerra declarada com os Mendes. E eu também não sou homem de guerra, Dona Moura! Foi aí que eu tive a lembrança de me valer da senhora. O homem, por ora, está escondido numa tapera de caçador, no Poço das Antas (do tempo em que ainda havia anta por aqui). Botei com ele um negro meu de confiança e corri aqui, conversar com a senhora.

Eu falei pela primeira vez, perguntei:

— Eles têm com que pagar? Porque, vocemecê sabe, nesse caso o risco é grande.

— Ele trouxe dinheiro consigo quando fugiu. Me disse mesmo a mim. E ainda que não tivesse, isso não era empecilho, que eu garanto tudo, como fiador.

— Mas o homem não pode mesmo ficar nesse Poço das Antas? Por quê?

Seu Tibúrcio pensou um pouco, por fim abanou a cabeça:

— Não. Lá é ruim demais. Tem até onça rondando, me disse o negro, numa fugida em que me apareceu, atrás de mantimento. Não podem nem acender fogo, têm medo de se denunciar com a fumaça. A água é parada lá, muito mosquito. Parece que o Peba Preto fica muito nervoso, naquele deserto. Ele sempre viveu na sua boa casa, rodeado da família...

Pedi licença por um instante ao Seu Tibúrcio. Chamei Duarte, que estava no alpendre, conversando com os homens do Garrote. Fomos falar na outra sala.

Expliquei o caso, pedi conselho. A questão era esta: onde é que se podia botar o homem? No cubico, nem pensar. Aquilo só por uns dias — dois ou três, só no primeiro sufoco. Ou então, castigo para inimigo.

Duarte concordou:

— É, pelo visto, o homem vem pra demorar. Até que as coisas se acalmem, leva tempo.

— Na opinião do Seu Tibúrcio não é para acalmar tão cedo.

Aí eu me lembrei:

— E se a gente fizesse pra ele um barraco, num dos sovacos da serra, bem encoberto. Perto do Mestre Luca, talvez... Você levantava esse barraco, Duarte?

— E por que não? E se a coisa for com muita pressa, ele pode se arranchar na barraca do próprio Mestre Luca. Esse já tem mesmo que ficar no segredo. E pra arranjar as coisas, eu levo comigo Zé Soldado e Marinho; por eles eu também respondo.

— Talvez o melhor seja você levantar um rancho provisório pro velho Luca, coisa ligeira, só um vão, coberto de palha.

Duarte fez sinal que sim. Eu continuei:

— É, o Luca é de boa paz e gosta de me agradar. Eu vou inventar pra ele uma história bem bonita, o velho até se entusiasma!

Duarte endureceu a cara:

— Isso de inventar é com a senhora. Eu, por mim, não sei inventar nada.

Voltei pra sala, fechei o negócio. Seu Tibúrcio ficou tão aliviado que até me beijou a mão. Parecia estar repetindo as partes do filho. E por falar em filho, ele me recomendou que o melhor era não se contar nada a Cirino. Por segurança.

 

Mandei chamar Mestre Luca, desfiei a história combinada: vingança de família. Um pai que foi punir pelos direitos dos filhos e se deu mal, acabou tendo que se esconder, senão a raça dos outros acabava com a dele, depois de já ter matado um rapaz.

 

Com poucos dias me apareceu o tal de Peba Preto. Um homenzinho fanhoso, bastante antipático. Queixou-se de que o velho Tibúrcio tinha medo de vir na companhia dele à Casa Forte. Mostrou os braços e a testa todos comidos de meruim e mais vermina daquele maldito Poço das Antas.

Por sorte não tinha ninguém em casa quando ele chegou, além de Rubina e Duarte; e esse deve ter recomendado à mãe pra não abrir o bico.

Botei o homem, por essa noite, no próprio quarto de Duarte, numa rede ao lado da dele. Mandei lhe levar uma coalhada, um pedaço de carne fria, torrada, que Rubina serviu, com aquele jeito amável dela, mais delicada que muita sinhá por aí.

De madrugada, Duarte saiu com o homem, que pediu para ser chamado de Major Nunes, que era mesmo o nome dele. E até se riu, contando:

— O povo tem uma moda de me tratar de Peba Preto, mas é só nas minhas costas. Eu posso até parecer um peba preto, mas não gosto de ouvir. E corto a cara do atrevido que chegar perto de mim dizendo esse nome.

Eu fiz também um ar de riso, entreguei o homem a Duarte:

— Espero que vocemecê não fique muito mal a cômodo, lá. O velho que cede a casa a vocemecê é de toda confiança, mora ali há mais de cinqüenta anos. E quase como um bicho da serra! Pode ir sem cuidado.

— O Tibúrcio me garantiu. Disse que vocemecê tem prática nesse ramo. Até tomou conta do estouvado do filho dele, que andou aí fazendo umas estripulias. Cadê esse moço?

A essa pergunta, Duarte levantou os olhos para mim. Eu disfarcei:

— Acha ele que o perigo já passou. Está pensando em fazer uma viagem grande, por estes dias.

A barraca do Luca estava arrumadinha. Duarte tinha ajeitado o aterro do chão, melhorado a cobertura (com as telhas que eu tinha dado ao Luca, sobra da olaria). Armou-se uma boa rede, mandei uma coberta grossa para o hóspede se enrolar nela, na hora da cruviana. A comida, Rubina fazia, Duarte levava. Inventou-se pro pessoal de casa que o velho Luca estava meio adoentado. Duarte se encarregou de explicar. Duarte também levou consigo o Zé Pretinho, negro velho muito da confiança dele, para servir ao major. Mestre Luca não tinha jeito pra servir ninguém. A gente sabia disso.

 

Mandei Duarte ao Garrote contar ao velho Tibúrcio que o Peba Preto estava em paz e salvamento. O dono do Garrote honrou a palavra dada: me enviou o pagamento em prata, com algum ouro no meio. Se o Peba Preto tinha consigo algum — e devia ter (Duarte contou que ele até dormia com um chumaço na cintura, posto entre a calça e a ceroula, que só podia ser um papo-de-ema) —, pois, se tinha, deixava ficar com ele para alguma precisão inesperada.

 

E já se ia começando a segunda semana da chegada do Peba Preto, quando, certa noite, bem pelas nove horas, eu já estava recolhida, de repente ouço um barulho no portão, o Tubarão latindo, rumor de casco de cavalo no areião da entrada. Me enrolei no roupão, acendi a vela na candeia, fui olhar pela meia-porta da sala. Alguém estava discutindo com o sentinela — claro, era a voz de Cirino. Gritei pra deixarem entrar e, de roldão, Cirino rompeu com o cavalo, já com o Tubarão, todo amigo, se metendo entre as pernas do animal. O sentinela, que era novato, perguntou de lá se deixava entrar também os guarda-costas. Cirino, que já tinha apeado, gritou pra mim:

— Esse cabra é um idiota! Que guarda-costa que nada! É o Alípio e o Muxió!

De longe fiz sinal ao sentinela que deixasse passar os dois. De Duarte, não ouvi nem um pio, durante todo o alvoroço. Só de manhã ele explicou que estava dormindo na casa de Marialva. O Xandó tinha passado a noite provocando e com febre e Valentim estava ausente.

Mas, na hora, Cirino não esperou nem deu explicação nenhuma. Disse aos dois que fossem para o alojamento dos homens, depois de cuidarem dos cavalos. Em seguida passou o braço pela minha cintura, tomou-me a vela da mão e me carregou para o quarto. Eu não fiz reação; se até estava tremendo, só de ver Cirino chegar!

 

O dia seguinte ele passou todo em casa, bem-humorado, fazendo dengues com Rubina, que também voltou da casa de Marialva, deixando o menino melhor. Mas ao cair da noite Cirino se despediu, dizendo que queria sair na fresca, pra chegar manhã cedo no Garrote. Iam apartar o gado, ele e o pai.

Acabada a ceia nós fomos dormir. Duarte não veio à mesa nem deu desculpa. Decerto adivinhou que eu não ia ter como explicar a recaída com Cirino.

E então, pouco depois que o meu relojão da sala bateu as dez horas, ouviu-se bem de longe um alvoroço de cachorro latindo, seguido de um ganido de cachorro apanhando. Depois o estampido de um tiro. Um só.

A alteração vinha do lado da serra, repetida pelo eco nas pedras altas. De novo eu estava no alpendre, mal enrolada, a vela na mão. Com pouco chegou Duarte abotoando a roupa. Eu corri para ele:

— Ouviu onde foi, Duarte? Parece que é pros lados do Luca.

— O barulho vem de lá. O negro velho tem ordem minha de só atirar em caso de muito risco.

Estava claro que a alteração só podia ser com o Peba Preto. Tanto que Duarte me veio com a mesma idéia.

— Alguém deve ter aparecido pra pegar o homem. Vou lá ver.

Mas eu não deixei ele ir sozinho:

— Pegue uns homens, não se arrisque. Eles podem ter dado o tiro para atrair a gente, depois de aprontarem alguma cilada.

Duarte foi chamar Zé Soldado e Maninho, como já era plano dele.

— Esses já estão no segredo. Se for rebate falso, ou nervoso do velho, os outros daqui não precisam saber de nada.

Fui lá dentro me vestir enquanto esperava por eles. Na cozinha as mulheres também se alvoroçavam, vendo o nosso movimento e iam tratando de acender o fogo. Mandei que elas se aquietassem, fiquei só com Rubina ao meu lado, que indagava:

— Pra onde é que vai o meu filho, Sinhá?

— Vai com os meninos ver que barulho foi esse que se escutou, pros lados do Mestre Luca.

— Eu também escutei. Talvez o velho deu um tiro para espantar alguma onça.

Eu concordei. Rubina sumiu lá dentro, voltou com um chazinho quente:

— É de cidreira. Bom pra acalmar os nervos.

 

Os galos cantaram, amiudaram, clareou a barra do dia, rompeu-se a barra, levantou-se o sol.

Duarte não apareceu. Quase mandei o Pagão dar um pulo na casa do Luca, atrás de notícias. Mas podia não haver nada, Peba Preto ainda estar por lá e ser tudo um rebate falso. Mas por que Duarte não voltava?

Pelas três da tarde não pude me segurar mais. Chamei Pagão, calcei as botas de couro grosso, enfiei a garrucha no cós da calça, junto com o punhal. Vesti um casaco para esconder as armas e subimos, o menino e eu, a quebrada da serra. Por sorte a Jove não viu a nossa saída, senão botava a boca no mundo.

Nunca pensei que a casa do Luca fosse tão longe. Só uma vez eu tinha ido lá, fazendo parte do caminho a cavalo, e apenas andando a pé quando era mesmo impossível ir montada.

Ainda estava o dia claro quando nós chegamos lá. Mandei Pagão gritar, chamando o Luca, ele berrou: “Ti’ João! Ti’ João!” mas ninguém respondeu. Entrando pelo terreiro da casa, tomei um susto; um urubu levantou vôo, ficou depois espiando a gente, pousado perto, num pau seco.

Debaixo do pequeno alpendre, encostado na parede, estava o corpo do Zé Pretinho, o acompanhante que Duarte pusera lá. Morto.

Dentro da casa não tinha ninguém. A mesinha e o banco virados, vasilhas quebradas, sinal de ter havido luta por ali. Mas não tinha sangue em parte nenhuma, o negro devia ter sido morto no terreiro, porque só lá se avistava uma poça de sangue. Não vi sinal da rede branca que tinha mandado levar para o hóspede. Junto com o Pagão, usando a mesa e os bancos, fizemos uma espécie de cobertura, protegendo o coitadinho do morto. Assim os urubus ficavam de fora.

Ralhei com Pagão que começou a chorar, com medo. Na certa nunca tinha visto um defunto e aquele não estava bonito. Até eu tinha vontade de chorar: de raiva, de desapontamento. O Peba era minha responsabilidade e eu nem ao menos sabia o que havia acontecido com ele. Nem com Duarte e os meninos.

 

Quando cheguei à Casa Forte, entrando pelos fundos, avistei logo o Duarte, do lado de fora, mas encostado à janela da cozinha; nu da cintura para cima, se banhava numa cuia de água que a mãe, debruçada no peitoril, ia lhe despejando pela cabeça e pelas costas.

Corri para ele:

— Duarte! Eu estive lá em cima! O negro velho...

Ele me olhou, muito sério. Rubina atirou ao filho um lençol e, enrolado no pano, enxugando o cabelo molhado, ele me disse em voz cautelosa:

— Vamos lá dentro. Lá eu conto.

Subiu comigo os dois degraus da cozinha, me segurando o cotovelo. Na sala, embolou o lençol num canto, enquanto eu me sentava, de pernas bambas.

— A Sinhá viu que levaram o Peba Preto. Não foram muitos homens, mas era gente que sabia o caminho; desceram depressa, pela trilha velha que o Luca usava para ir no Riacho da Bugra. Levaram também ele, o Luca. Levaram vivo, decerto pra ele ensinar o caminho. Mas, acabada a descida, quando ele já não tinha mais serventia, aí mataram o Luca. Outra prova de que era gente conhecida, é essa matança das testemunhas que pudessem denunciar deles. Eu e os meninos descemos pela mesma trilha e, chegando lá embaixo, começamos a sentir um cheiro enjoado, parecido com sangue se estragando. Ou lugar de matança. Saímos procurando e, só depois que fizemos um facho de fogo com uns galhos secos de marmeleiro, fomos descobrir o corpo. Era o do Luca, bem no fim da picada, acabando a ladeira. Esperamos que o dia amanhecesse, para ir mais adiante. Ninguém podia saber se eles não estavam nos esperando naquela escuridão.

Aí o Duarte chegou mais perto de mim, e falou, sempre sombrio:

— Sinhá, me acredite no que eu vou dizer, porque é a pura verdade. Estão aí os dois meninos que não me deixam mentir. É só perguntar a eles. Na saída da ladeira, debaixo de um pau branco, nós demos com um rastro de cavalo, só um. Deve ter ficado lá amarrado, durante bastante tempo, porque tinha esterco no chão e uma poça de urina. E marcado bem no chão, como se fosse um molde de barro, o rastro do cavalo do Seu Cirino. Nós três vimos logo de quem era, já é conhecido: o cavalo tem a beira do casco facheada, na mão esquerda.

Eu estava calada, ouvindo. Duarte me olhou, impaciente:

— Sinhá não duvide de mim, pra defender aquele sujeito. Eu não gosto dele, mas posso lhe jurar que é verdade.

Levantei os olhos:

— Não estou duvidando, Duarte. Eu acredito.

Parei um pouco, fui até à janela, falei de lá:

— Lhe confesso até que não me admira nada. Me conte tudo que viu.

Duarte então contou que, enquanto ficaram esperando o dia amanhecer, procuraram proteger o corpo do velho Luca com os galhos grossos que conseguiram quebrar das árvores, fazendo uma cobertura para afastar os bichos. Só na claridade do dia foi que descobriram os rastros e se certificaram de que eram do cavalo de Cirino.

— Cavalo só era mesmo um. Devem ter levado o Peba Preto na rede...

Eu concordei:

— Bem que eu dei por falta da rede, lá em cima.

— Pois é. Eles deviam ter tudo planejado, devem ter amarrado e talvez até amordaçado o velho e carregaram como se fosse um defunto. Matar, não mataram; senão, pra que iam carregar com o corpo? Pra quê? Defunto não tem valor. Resgate só se paga pelos vivos. Levaram ele vivo, pode ficar certa.

— Mas pra que Cirino queria o Peba Preto? Afinal, diz que ainda é parente deles e foi o pai, o Tibúrcio em pessoa, que escondeu o homem aqui...

Duarte me olhou com cara de triunfo:

— É pra Sinhá ver quem é o moço Cirino. Pra ajudar o pai é que não foi, já que o próprio velho acoitou o Peba aqui. Só pode ter sido ou para cobrar resgate da família, ou pra entregar o criatura ao Bacamarte. Com a família do Peba Preto não acredito que ele fosse falar em resgate: matavam ele mal abrisse o bico. O mais certo é ter-se entendido com o Bacamarte. Cobrou o seu bom preço.

Eu concordei de novo:

— É, Cirino andava carecido de dinheiro. Queria viajar para longe. A briga com o pai foi justamente pelo dinheiro da herança.

Duarte se postou à minha frente e cruzou os braços:

— E agora, que é que se faz?Juntar uns homens, correr atrás deles?

Olhei o sol posto, lá fora:

— Hoje não adianta mais. Daqui a pouco é noite. É fácil eles se esconderem no mato, assim que pressentirem vocês. Mas peguem os cavalos ainda com escuro, leve os dois meninos e mais o Roque, saiam o mais cedo possível. Eles não acham paradeiro por perto, vão ter que andar um bocado de légua até encontrarem coito seguro. O mais certo é quem encomendou a obra a Cirino estar à espera dele, num lugar marcado.

Dei a boa-noite, entrei no meu quarto, bati a porta. Aí, me atirei de borco na cama; e chorava com tanta fúria que até cheguei a rasgar o lençol com os dentes.

Pela madrugada, ouvi o rumor dos cavalos sendo arreados. Ouvi a voz de Duarte se dirigindo aos homens.

Logo Rubina me bateu à porta com a candeia acesa na mão:

— Os homens vão sair. Duarte está perguntando se a Sinhazinha ainda quer dar alguma ordem.

Fiquei danada com aquilo. Duarte não tinha que me perguntar mais nada. Queria por acaso que eu desse, em pessoa, a ordem de me trazerem Cirino vivo ou morto? Esse gostinho ele não ia ter.

— Não tem ordem nenhuma. Ele já sabe o que vai fazer.

— Eles estão tudo armado.

— Eu sei. Fui eu que mandei pegar as armas, esta noite. Diga que eu desejo boa viagem. E feche a porta. Vou ver ser ainda consigo dormir alguma coisa.

Falei isso, mas na verdade não pensava em dormir. Daí a pouco me levantei porque me deu um palpite que me assustou.

Corri ao caixotão das armas, estava com o nariz de ferro aberto, o cadeado em cima da tampa. De noite, quando nós fomos lá pegar as armas para os homens, eu pensei que Duarte tinha antes aberto a arca; e vai ver que Duarte pensou que fui eu quem abriu. Levantei depressa a tampa, fui espalhando as armas pelo chão e assim descobri: faltava um bacamarte (o que tinha sido reformado pelo ferreiro velho); outro bacamarte faltava também — aquele que tomamos do escravo do funcionário imperial. Faca só faltava uma, naturalmente levada por Cirino que, dentro de casa e na minha presença, não se atrevia a ostentar arma.

Então era isso: ele pegou a chave do cadeado no meu quarto, junto com as outras, enquanto eu dormia. Escondeu as armas roubadas em qualquer recanto — no próprio quarto dele, provavelmente, que tinha janela dando para fora e por onde podia passar o roubo.

Como ladrão, teve o capricho de guardar tudo direitinho, dentro da arca. A gente não deu pela falta, ao tirar as armas mais de uso e que por isso estavam em cima de todas. Ninguém foi examinar o que estava por baixo.

Ficava então explicado o mistério do armamento dele, o tiro de bacamarte que nós ouvimos e que matou o Zé Pretinho. O velho Luca eles devem ter matado a faca. Tão de perto como estavam, com ele amarrado, não iam dar nenhum tiro.

Me deu muita dó o fim do Mestre Luca. Tanto que ele lutou e resistiu a todos os desgostos, e continuou contando o tempo naquelas varas recortadas a cada semana — cinqüenta e dois anos! Mesmo depois da morte da mulher e dos filhos. E se acabar assim, sangrado como um carneiro. A gente tinha pegado amizade a ele, nos serviu muito durante a construção da Casa Forte.

Sempre que aparecia me trazia um presente — um cacetinho de jucá lavrado, para eu matar cobra, quando fosse passear a pé, no mato; um saquinho de sementes de ave-maria, bem perfeitas, pra eu enfiar no rosário; alguma vasilha de barro, lustrada com caroço de mucunã, que ganhava dos índios amigos dele e que, de vez em quando, lhe apareciam lá, de visita.

Se Duarte não trouxer o corpo de volta, eu mesma mando pegar, e enterro o amigo velho no cemiteriozinho particular dele, onde já estão a pobre da Alvina e os pagãozinhos nascidos mortos. E mais o menor, que vingou por tão pouco tempo.

 

Tarde da noite Duarte voltou com os rapazes. Vasculharam o território todo, quase matam os animais de cansaço, e não descobriram nada. Cirino devia ter se metido de chão adentro. Nem sinal, nem rastro, nem notícia. Só arte do cão, mesmo. Se não fosse o corpo do Zé Pretinho e o do Luca — e mormente aquele rastro do cavalo de Cirino estampado no barro, era mesmo como se não passasse tudo de uma visagem.

Não deu mais pra trazer o corpo de Mestre Luca e enterrar na serra, no meio dos defuntinhos. Prevendo isso, Duarte já tinha levado uma pá e enterrou Luca lá mesmo, na beira do caminho.

Cortou dois paus e fez uma cruz, que pregou por cima da cova.

Quanto ao Zé Pretinho, eu já tinha mandado João Rufo com dois homens fazer o enterro dele — e no cemiteriozinho do Luca. Ficou um no lugar do outro. E o Zé Pretinho também era fiel e amigo.

No dia seguinte e no outro, Duarte tornou a sair, caçando sempre alguma pista. Mas nada. Até que na noite desse terceiro dia, apareceu no portão aquele rapaz que os outros chamavam de Novato porque era o derradeiro dos primeiros a se alistar na Casa Forte.

Deu-se a conhecer, o guarda abriu o portão pra ele, que veio bater na janela do quarto onde Duarte já estava deitado.

Eu tinha ouvido as falas no portão, pensei que fosse alguém de casa, chegando atrasado. Mas daí a pouco Duarte me bateu à porta, dizendo que tinha novidade grande.

Na sala da frente, à luz da candeia, avistei logo o tal Novato, de cocas no chão, todo encolhido, a cara quase metida entre os joelhos. Às perguntas de Duarte ele só respondia dizendo que não sabia de nada, que o Seu Cirino tinha convidado ele pra uma caçada de peba lá na serra e, quando se viu, deu aquela confusão: o tiro de bacamarte que acabou com o nego velho e depois pegaram o homem na casa do Luca; e depois ainda pegaram o Luca. E ele aí ficou apavorado, não queria se meter em malfeito contra a Dona Moura e fugiu, e se escondeu no mato; passou estes três dias vagueando pela serra, tremendo de frio de noite, morrendo de fome e sede. Afinal tomou coragem e apareceu pra contar tudo, seja lá o que Deus quiser.

A fala do cabra saía engrolada, a cara ainda metida entre os joelhos, só levantando os olhos uma vez por outra, furtivo, como se procurasse espiar o efeito do que dizia.

Eu cheguei perto, catuquei-lhe as costelas com a ponta da chinela:

— Levanta essa cara. Levanta do chão. Essa história está muito mal contada.

O cabra se levantou, se pôs de pé, mas apoiado no canto da parede. Fosse como fosse, ele estava mesmo podre de cansaço e mal se segurava nas pernas.

Duarte puxou a faca que trazia na cinta e se virou para mim:

— Sinhá, vá lá pra fora um pouquinho e me mande aqui um dos meninos que estão esperando no alpendre. Me deixe com este cabra. Vai me contar a verdade, nem que eu tenha de capar ele.

O Novato se atirou no chão, de joelhos, se agarrou nos meus pés:

— Sinhá Dona, pelo amor de Deus, não me deixe só com estes homens! Eu sei como eles tudo é perverso! Eu não tive culpa de nada!

Eu falei dura, me afastando dele:

— Então conte a verdade.

— Foi só mesmo o Seu Cirino! É briga de branco, eu não tenho culpa se ele carrega a gente pra servir de capanga. Nós tudo é mandado, não discute ordem.

Duarte pegou o rapaz pelo cabelo, continuou lhe mostrando a faca na mão:

— Fala a verdade, moleque. Conta a história desde o começo. Já!

Novato se pôs a chorar alto, aos guinchos.

— Foi ele mesmo, o Seu Cirino. Ele disse pra nós que a Dona Moura tinha emprestado nós pra ele, pra fazer um trabalho muito especial. Mas só ia dizer o que era quando chegasse a hora. Até lá, a gente tinha só que calar o bico e obedecer.

— Quando foi isso? — indaguei.

— Um dia antes da gente sair. E na noite seguinte ele apareceu com as armas e a gente conheceu que eram as da fazenda, o Muxió já tinha até andado com uma delas. Mostrou também a munição que a Sinhá Dona tinha dado...

Duarte interrompeu:

— Minha pólvora!

E o Novato, já mais tranqüilo:

— É. Ele levou muita pólvora.

Duarte gemeu:

— Eu tinha deixado uns vinte cartuchos de pólvora no caixão das armas. Ele deve ter levado tudo.

Deu-lhe outro puxavante no cabelo:

— Continue. Vocês iam montados?

— Só o Seu Cirino, naquele cavalo dele. Eu e o Muxió a pé.

— E aí?

— Aí, nós subimos para a casa desse velho Luca, que eu nem conhecia. Nem a casa, nem a ele. O cavalo, no mais do tempo, ia puxado pela rédea que o caminho era muito empinado e pedregoso. Quando nós chegamos na casinha, apareceu um nego velho que tomou a bença ao Sinhozinho e disse que o Sinhô velho estava deitado na rede dele, proseando com Seu Luca. Seu Cirino foi pra lá, conversaram, e de repente o velho começou a gritar, dizendo que tinha garantia da Dona Moura e dali só saía morto. O Seu Luca também protestava, que a Dona tinha confiado o major a ele. Quando viu a gritaria, o nego velho, que tinha ficado de fora com a gente, chegou pra perto e disse que também tinha ordem de Seu Duarte pra não deixar ninguém chegar perto do major... E aí o Seu Cirino, que estava com o bacamarte na mão, agarrou e deu um tiro, a bem dizer à queima-roupa, e o nego velho caiu no chão estatelado. A gente foi ver, já estava morto, o tiro tinha feito um estrago horrível. Aí o Seu Cirino, com o bacamarte apontado para o tal de major e o Seu Luca, mandou a gente amarrar os dois com as cordas da rede; e como o velho esperneasse e gritasse sem parar, Seu Cirino lhe botou uma mordaça feita com o lenço. O velho até mordeu a mão dele nessa hora, que chegou a tirar sangue. Seu Cirino bateu na cara do velho, chamou ele de Peba Preto desgraçado. Nesse entremente o Muxió já tinha amarrado os braços do velho Luca, por trás das costas. Mas deixou os pés livres, dizendo que o velho ainda ia ter muito que andar. E como o Luca se pusesse a gritar ainda mais alto que o outro, nós amordaçamos ele também. Aí o Seu Cirino mandou a gente arranjar uma vara de bom tamanho pra se botar na rede e carregar o velho. E como não tinha nenhuma vara tirada, ali por perto, ele mandou a gente puxar um dos caibros, quase se botou a casa abaixo...

Novato parou pra tomar fôlego, Duarte mostrou-lhe a faca.

— ...Deitamos o velho na rede, todo inquerido nas cordas e saímos carregando ele, o Muxió e eu, como se fosse um doente. Com um defunto é que não parecia, porque o diacho do major estrebuchava e dava cada pinote que, se não estivesse amarrado na rede, tinha saltado pra fora. O velho Luca ia na dianteira, de mãos atadas, a mordaça na boca e peado com um relho, pelo pé, ver quem arrasta um porco... Era pra ele ensinar a vereda que descia a serra. Seu Cirino tangia ele pela frente e puxava o cavalo pela rédea. Atrás deles a gente, eu e o Muxió, ia gemendo debaixo do peso, que o velho era magro mas tinha osso demais. Assim aos tropeços, nós calados, com medo do que se estava fazendo; quem tinha vontade de falar era os presos, mas não podia nem piar. Afinal se desceu a última ladeira. No momento que a gente baixou a rede no chão, pra tomar um descanso, Seu Cirino se curvou, querendo ver o velho Luca como estava; mas o pé dele se embaraçou na maldita da corda e o velho Luca se esborrachou no chão. Aí Seu Cirino, pensando que era arte de Luca, pegou ele, dizendo que se queria brigar, vamos brigar: levantou a mão com a faca e eu fechei os olhos pra não ver — o medo que eu tinha daquele moço! Quando eu abri os olhos, o Luca estava caído no chão. Parece que foi uma facada só.

Fui eu que falei dessa vez:

— E então?

— Então, Seu Cirino rolou o defunto para um lado e disse que a gente ia ter que esperar um pouco. A noite estava um breu, só por milagre se conseguiu descer a serra sem rolar nas pedras. Do pé da ladeira tinha que haver uma saída para o caminho mais batido; só que onde a gente estava não parecia existir caminho nenhum. Muxió disse no meu ouvido que o homem tinha marcado um encontro com o pessoal que andava atrás do Peba Preto: ele ia agora fazer a entrega... e daí mesmo a gente debandava e era pra se voltar pra Casa Forte, como se não tivesse acontecido nada. Como se a gente tivesse ido só vadiar um pouco nas vizinhanças.

— Quanto tempo vocês esperaram lá? — perguntou Duarte.

— Eu não sei, Seu Duarte. Teve uma hora que eu vi o velho na rede ficar meio sufocado, e o Seu Cirino disse que só podia afrouxar a mordaça se ele prometesse que não gritava. O velho fez sinal que sim com a cabeça e o Seu Cirino foi afrouxando o lenço aos poucos. De tão apertado, estava até cortando os cantos da boca do infeliz. Mal a barra do dia deu um raiozinho de claridade, Seu Cirino se montou, cochichou com o Muxió, que apontou o braço para as direitas. Não chegamos a andar uma légua. O dia já estava bem claro e de longe se avistou a barraca onde ia ser o encontro. O Muxió conhecia bem, acho que foi ele que escolheu aquele ponto; era uma casa de palha, tinha uma cerquinha de garrancho na frente; morava gente lá, parece que um homem só, que o Muxió chamava de conhecido. A umas dez braças da casa nós arriamos a rede; por ordem do Seu Cirino que seguiu na frente e ainda montado a cavalo. Deu a voz de ô de casa, de dentro responderam: “É do Garrote?” (O Muxió me disse no ouvido que isso era a senha.) O Cirino falou de novo: “Isso mesmo” e aí apareceu um homem na porta, Seu Cirino desapeou do cavalo. Mas no que ele botou o pé no chão, três soldados saíram de dentro da casa. Ninguém entendeu, nem mesmo Muxió. Seu Cirino, então, era o mais espantado:

— Que é que esses soldados vêm fazer aqui? Este era um negócio particular.

Um dos soldados, que os outros chamavam de cabo, segurou no braço do Seu Cirino:

— Quem vem ali, naquela rede? É vivo ou morto?

Seu Cirino foi explicando:

— Não é morto, mas vem muito mal. Eu estava com medo de que ele morresse no caminho.

Mas enquanto o cabo falava com o Seu Cirino, o homem a paisano que tinha saído primeiro e dado a palavra da senha ao Seu Cirino, deu um passo à frente e tirou o chapéu pra descobrir bem a cara:

— Eu não sou o preposto do Jovelino Bacamarte, Seu Cirino! Esse, nós pegamos e deixamos na delegacia da vila.

E então o homem se apresentou, era genro do Major Nunes, quer dizer, do tal de Peba Preto.

— O senhor não me conhece, mas seu pai me conhece. Fui eu que levei o meu sogro até o Garrote.

Seu Cirino ainda disse que nesse caso ele também tinha sido enganado, mas o homem ficou fulo de raiva. E gritou com Seu Cirino:

— Cala a boca, seu coisinha ruim! Nós pegamos o cabra do Bacamarte. E pegamos o dinheirão que ele ia lhe pagar! Pra trair o seu pai e entregar o Major Nunes aos Mel-com-Terra!

Seu Cirino aí deve ter entendido por que é que eles sabiam a palavra da senha.

O genro ouviu o que ele disse e soltou uma risada muito da perversa:

— A inquirição do cabra foi feita! Vai levar muito tempo para ele crescer de novo as unhas!

Seu Cirino daí pra diante ficou calado. Parecia estar ou com muito medo ou com muita raiva.

Duarte perguntou:

— E você mais o Muxió, que é que fizeram, nessa hora?

— A gente, enquanto ouvia essa conversa toda, foi-se largando o caibro no chão, no lado da rede. O velho se buliu um pouco, mas continuou deitado, meio encolhido, com certeza sem força pra se sentar. E os homens preocupados com o velho, foram se chegando para a rede; se discuidaram da gente. Nós aí aproveitamos (só de ver os soldados a gente não estava gostando — ninguém de nós aprecia soldado!), demos a meia-volta e nos metemos pelo mato, que era grosso do outro lado da estrada. Quando eles deram fé, a gente já tinha tomado distância. Um soldado ainda deu um tiro na nossa direção. Mas ou não tinha pontaria, ou foi o anjo da guarda que nos valeu. Afinal, tanto o Muxió quanto eu, se era inocente de tudo.

O cabra contou depois que entupiram pela catinga, correram até perder o fôlego. Ficaram com a cara toda arranhada das unhas-de-gato, que é o pau que mais tem ali. Só foram parar de correr quando se viram perdidos: não sabiam mais nem por onde tinham entrado pela mata.

— Paramos, areados e botando a alma pela boca. O Muxió dizia que não entendia mesmo nada.

Eu perguntei:

— Mas o que foi mesmo que o Cirino disse antes a vocês?

— Disse que vocemecê, Dona Moura, tinha dado ordem para se entregar o velho aos parentes dele. Mas tudo tinha que ser feito escondido, para não alertar os inimigos que andavam atrás desse Peba Preto.

Duarte aproveitou para deixar tudo bem claro:

— Mas, pelo que se viu, Seu Cirino tinha vendido o homem ao Bacarnarte e não ia entregar o coitado a parente nenhum.

Eu concordei:

— Só que, aí, alguém traiu o Bacamarte, pegaram o portador dele, apertaram o cabra, que descobriu tudo.

Parei, pensei um pouco, e mordi os lábios, com ódio:

— Mas, antes, ele abusou do meu nome e disse aos rapazes que tudo se fazia por ordem minha. Não pensou que logo se ia descobrir.

— Se o Sinhozim não fizesse com o Muxió e o Novato o que já tinha feito antes com Zé Pretinho e o Luca... — envenenou Duarte.

O Novato, que empolgado com a história tinha se mostrado tão falante, de repente caiu em si, escorregou para o chão e se pôs a chorar:

— Mas nós, a gente não sabia de nada mesmo! Ele disse que a Dona exigia o segredo, pra Seu Duarte não saber!

Eu mudei de assunto:

— Vocês sabem onde é a vila para onde eles foram levar o Cirino?

— Inhora, não. Nós mal escutamos aquele começo de conversa, só no sentido de escapulir.

— E o tal dinheiro do Bacamarte, com quem estará? — matutou Duarte. Decerto com os soldados.

— Se dinheiro houve! — eu tornei. — Claro que eles viram logo que Cirino é um idiota.

— Idiota, não Sinhá. Ele é até bem sabidinho. Mas o que ele tem, é que não presta.

 

No fim de toda aquela história, tão estranha e tão comprida, o Novato, que voltara a se agachar no chão, se atirou de novo aos meus pés, chorando:

— Isso é tudo que eu seu, eu juro! Sinhá Dona, eu juro pelas almas do meu pai e da minha mãe que estão no céu! Quero ir direto pro inferno, se eu contei alguma mentira!

Duarte afastou o rapaz com o pé da bota:

— Deixa a Dona em paz, moleque. Você vai ficar preso até se apurar essa história direito. E cadê o Muxió?

— O Muxió teve medo de vir aqui. Ele estava dentro do segredo, chegou a me dizer que ia encher o bolso de prata! Mas eu, que não sabia de coisa nenhuma, não estava esperando ganhar nem um vintém furado — só fui com eles porque o homem deu ordem!

Duarte chegou na janela, chamou Zé Soldado, mandou prender o rapaz no quartinho do castigo e passar a fechadura.

Ficamos nós dois pensando, perdidos naquela confusão.

Duarte disse, afinal:

— Está claro que ele tinha vendido o Peba Preto ao pessoal do Bacamarte — com isso fazia o dinheiro para a tal viagem. Mas como terá sido que o pessoal do Peba Preto descobriu a traição do Cirino?

— Só tem uma resposta: algum amigo ou espião do pessoal do Peba Preto teve notícia, ou viu Cirino conversando com o preposto do Bacamarte... Pegaram esse preposto, arrancaram as unhas dele — não ouviu o Novato? —, fizeram ele descobrir tudo, e então botaram a espera no Cirino. Pode ter sido até fácil.

E eu pensei, pensei, depois tomei uma resolução:

— Duarte, você mande aprontar um cavalo, coma qualquer coisa, e vá sem demora até ao Garrote. Conte ao Seu Tibúrcio tudo que aconteceu, explicando muito bem o que o filho dele aprontou. O roubo das minhas armas...

— E da munição!

— ...e da munição. Como ele carregou meus homens, usando de engano; como matou o Zé Pretinho e depois acabou, de faca, e a sangue frio, o coitado do Luca. E em seguida a caminhada com o Peba Preto amarrado, pensando que ia vender ele; e na verdade quem estava esperando em lugar do comprador, eram os soldados! Diga as palavras do genro do Major Nunes, tal e qual Novato contou. Espero que o Seu Tibúrcio acredite, entenda a nossa posição, sabendo que a culpa é do filho.

Duarte levantou de repente a cabeça:

— Sinhá, quem sabe se eles estavam de combinação um com o outro, o pai e o filho?

— Você está doido? Se o velho quisesse matar o Peba Preto tinha acabado com ele lá mesmo, no Poço das Antas, quando o homem estava em seu poder. Não tinha feito toda aquela palhaçada, me pagar um bom dinheiro adiantado... Pra me enganar não seria, que eu nem conhecia essa gente. Nem ao menos sabia das intrigas e das mortes entre as duas famílias... da guerra já velha...

Duarte parecia feliz:

— É. Está se vendo que o trabalho sujo é todo do moço. E o idiota do Novato nem ao menos sabe pra onde levaram preso aquele traste!

— Vá pro Garrote. E lá que se descobre o que houve. Vá, que eu fico aqui esperando mais notícias. Talvez o Muxió me apareça. Aquele descarado...

 

Logo no dia seguinte, eu estava sozinha na mesa do almoço, revirando no prato uma asa de frango, sem vontade de comer, quando ouço tropel de cavalo e a voz de Duarte:

— O de casa! Cadê o povo daqui?

Parecia alegre e eu ia me animando, quando de repente me deu a idéia de que, o que era bom pra Duarte nem sempre era bom pra mim. O que alegrasse a ele, podia me fazer chorar.

Empurrei o banco pra trás, saí correndo. Duarte já entrava no alpendre. Atrás dele, Antônio Muxió, os pulsos atados numa corda, ladeado por Zé Soldado e Maninho.

Meio espantada, falei, curiosa:

— Pelo que vejo, há novidade! Coisa boa ou coisa ruim?

Duarte jogou o chapéu em cima do bangüê, parou, me encarou, falou sério:

— Coisa boa e coisa ruim. Mas é uma história comprida.

Olhou para a mesa servida, com cara de fome:

— Vendo essa comida aí, me lembrei que desde ontem de manhã a gente não bota um bocado na boca. A viagem foi dura.

Chamei Rubina, mandei servir um prato de comida aos homens. Duarte recomendou ao Zé Soldado:

— Desamarre uma mão dele pra poder pegar na colher. Mas fique de olho, que o cabra é muito esperto.

Convidei Duarte pra se sentar na mesa. Botei no prato dele o meu almoço e fiquei quieta, esperando. Deixasse primeiro ele comer. Devorou tudo, rápido, empurrou o prato, bebeu água e eu ataquei:

— Agora conta.

— Bem, Sinhá, o velho Tibúrcio, no Garrote, não sabia de grandes coisas. Estava furioso da vida com o filho, achava que o rapaz devia de ter ido bulir com o Peba Preto para inticar com ele, o pai. E eu estava lá, discutindo ainda o caso, quanto chegou um moleque esfogueado, contando que o Sinhozim Cirino estava preso na cadeia do Sumidouro, a vila dos Seriemas, que é a família do Peba Preto — ou seja, dos Nunes. Tal como as Águas Belas, que é a vila dos Mendes, que chamam de Mel-com-Terra.

— Sumidouro... — murmurei, pra não esquecer.

— Seu Tibúrcio, ouvindo essas novas, deu nele um acesso de tosse, ficou da cor de uma baeta, não sei como não morreu sufocado. Se botaram o Cirino na cadeia do Sumidouro, era sinal de que os Nunes tinham rompido mesmo com ele. Quando afinal pôde falar, o velho parecia uma onça: “Não é pelo menino que eu me dano, já sei que ele não presta. É pela afronta! Os Seriemas sempre foram meus amigos, meus aparentados. Nunca brigamos até hoje e tenho punido por eles na questão com o Bacamarte.” E aí ele falou na Sinhá: “Dona Moura é testemunha! Eu em pessoa fui bater na Casa Forte, pedir homizio pro major! E agora me fazem esse insulto!” Teve outro ataque de tosse, eu pensei até que o velho ia estourar uma veia, mas continuou falando: “Se o menino praticou um malfeito — o que eu não duvido — trouxessem ele pra mim, que eu mesmo castigava!” Não adiantava explicar pro Seu Tibúrcio que mais afrontado ainda tinha ficado o Major Nunes, traído pelo filho do homem em quem ele se confiou. E amarrado, maltratado... O Peba velho devia estar feito um tigre, pedindo sangue. O vaqueiro do Garrote, que estava lá, disse que todo mundo pensava que o pessoal dos Mendes ia se vingar do incêndio das Águas Belas tacando fogo no Sumidouro. “Mas preferirem iludir o filho do Garrote, e o rapaz, de bobo, aceitar! Foi astúcia demais!” E eu ainda procurei amansar o velho irritado: “É melhor se acalmar, Seu Tibúrcio. Se lembre de que o seu filho está preso na cadeia do Sumidouro. Tem que fazer alguma coisa.” “Eu tiro ele de lá!” Mandou tocar o sino na fazenda, sarapantou o povo todo, mas ele mesmo não sabia como é que ia armar o seu pessoal. Os cativos ele não arma, que tem medo de botar bacamarte na mão de negro. E nem tinha os bacamartes, se quisesse dar. Isso mesmo eu disse a ele, e aí ele olhou pra mim, arregalou os olhos, e bateu com a mão na testa: “Tem a Dona Moura! Ela está preparada para essas coisas! Ela vive disso. E além do mais, também está metida na história até o pescoço. Quer queira, quer não queira, era ela própria que estava acoitando o Peba Preto.” E então o velho mandou que eu corresse aqui, combinasse o trabalho com a Sinhá. É pra não faltar nada, ele não se importa de gastar, mas tem que se vingar do desaforo. Só depois dele solto é que vai dar um ensino no filho...

Eu espalmei a mão para Duarte:

— Está bem, Duarte, está bem. Depois a gente discute isso, mas primeiro eu quero saber onde é que pegaram o Muxió. Ele não estava com o Novato.

— Sinhá, a senhora não vai nem acreditar, parece até mentira. Pois não é que quando a gente passou pelo Riacho da Bugra, nos sai de uma casa o Antônio Muxió, todo lampeiro, pensando que aqui não se sabia de nada! Ainda estava com a cara e as mãos meio arranhadas dos espinhos, tal como o Novato. Mas tinha até mudado de roupa. Eu perguntei que é que ele estava fazendo ali, e ele me respondeu que estava esperando o Seu Cirino. A gente não tinha notícias dele? Ainda indaguei pelo Novato; e ele tornou que nem sabia quando tinha visto esse menino pela derradeira vez — só se ele estava com o Seu Cirino... Aí eu não disse mais nada, convidei o cabra pra vir com a gente pra casa e, no que ele se descuidou, fiz sinal pros rapazes: cada um segurou o Muxió por um braço, depois amarramos ele, fomos pra sombra de uma moita e pusemos o coisa ruim debaixo de confissão. Foi só amarrar uma cordinha em redor da cabeça dele, pelas fontes. E ir apertando a corda, aos poucos. O Zé aprendeu esse sistema no tempo em que foi soldado. E então o Muxió contou tudo: Disse ele que teve uma noite que Seu Cirino, tomando umas canas na casa das meninas, na vila, com ele, Muxió, junto, lhe servindo de guarda-costas, se chegou a eles um sujeito de fora, estranho, que andava procurando uma informação. Se ele não sabia o caminho da fazenda de uma coiteira de bandido, mulher rica, muito falada, por nome Moura. Diz o Muxió que o Seu Cirino deu uma risada e como já estava meio de fogo, falou que ninguém conhecia melhor do que ele a Dona da Casa Forte... “Ela come aqui, na palma da minha mão...” O sujeito ficou muito interessado, disse que andava atrás do paradeiro de um tal de Major Nunes, por alcunha Peba Preto. Constava que ele tinha se acoitado na Casa Forte. E quem desse notícia segura desse major, não ia se arrepender: “Não digo vocemecê, que é um homem rico, mas quem sabe um dos seus caboclos?” Disse o Muxió que o tal camarada acabou confessando que trabalhava pra Seu Jovelino Bacamarte, andava caçando o Peba Preto por toda aquela ribeira, como quem cata piolho... E aí, diz o Muxió que ele botou a mão no braço do Seu Cirino e disse muito satisfeito: “E agora me cai do céu vocemecê, que tem a Dona da Casa Forte comendo na palminha da sua mão!” Seu Cirino se riu também, e os dois saíram pra um canto e ficaram conversando baixinho, só os dois. O Muxió já conhecia também esse tal sujeito: ele tem o apelido de Joãozinho Sacrista, porque já foi sacristão. Correu depressa tratar o negócio com o Bacamarte, mandaram ele procurar de novo o Seu Cirino, combinar o lugar onde havia de entregar o Peba, que ele em troca levava o dinheiro. E o Cirino aceitou logo, Sinhá. O que fez, a gente já sabe. Mas o que o Cirino não sabia, era que um primo dos Seriemas viu o Sacrista conversando com ele na casa das meninas, e teve faro do que se tratava. Pegaram o pau mandado do Bacamarte, maltrataram um pouco, o Joãozim não agüentou o rojão e deu o serviço. Passaram a informação pro genro do major que foi procurar os amigos dele na polícia, armaram a arapuca e o Cirino caiu como um preá no fojo... o ouro — ninguém sabe — na certa não deixaram com o Sacrista..

 

O Muxió ouvia toda a conversa e até ajudava, quando Duarte se esquecia de algum pé. Eu disse a Duarte que prendesse o cabra junto do Novato, no quartinho do castigo, enquanto a gente pensava o que fazer.

— Vamos ver o que é que o velho do Garrote vem oferecer pela liberdade do filho.

Parei um pouco, indaguei:

— Ele lhe disse qual o castigo que está querendo dar ao filho?

— Esses casos de pai e filho é complicado, Sinhá. Vai ver o rapaz acaba engabelando o velho, convence o pai de que estava procurando salvar o parente por ter sabido que o Bacamarte já estava no rastro dele... Vai ver, acaba tudo em beijos e abraços. E a fama da traição cai por cima da Casa Forte...

 

Duarte foi embora descansar um pouco. Era mesmo bem capaz que Cirino conseguisse enrolar o velho. Não havia de ser a primeira vez. E, em todo o acontecido, quem acabava ficando desmoralizada era eu; quem perdia a fama da sua segurança era a Casa Forte.

 

Me lembrei de ir conversar com o Beato Romano. Estava disposta a me desabafar com ele; mas acabei não tendo coragem. Agora era muito diferente dos tempos de Padre, na sombra do confessionário, e a gente se sentindo protegida. Tudo lá é no mistério, de um lado e do outro do ripado da janelinha. Mas, cara a cara, ele pregando em mim aqueles olhos fundos, passando os dedos magros pela barba, eu não enxergo mais nele o confessor, com a obrigação de ouvir tudo e calar tudo. Ele tinha encarnado tanto no Beato que eu sentia até medo. Se fosse abrir a boca a lhe contar as tropelias da minha vida, era capaz dele sair bradando, levantando o punho no ar, pedindo castigo a Deus como eu já vi fazerem outros beatos, desses que andam com os bandos de penitentes.

Ele me perguntou pelo Cirino. E eu respondi que o moço do Garrote andava de viagem — Bahia, Crato, sei lá! Longe. Aí o Beato pegou a me contar lembranças do Crato, que ele tinha conhecido anos atrás, quando o povo ainda estava impressionado com os castigos do Conrado Niemeyer contra a população revoltosa do Cariri. Depois, nunca mais foi lá, enterrou-se na Vargem Brejo da Cruz... e nesse ponto, meteu o rosto entre as mãos, deu um suspiro fundo, mas logo se levantou e me convidou para ir ver as alfaces na horta — sementes vindas do reino, só vingou meia dúzia de pés, em todo o canteiro:

— Acho que era semente velha. Só nasceu este pouquinho, mas veja que beleza!

Desanimei. Não tinha como eu desabafar com ele a respeito de Cirino. Principalmente porque eu ainda não sabia até onde Cirino tinha ido na traição comigo. Voltei para casa, entrei no quarto, puxei com esforço o baú, abri o alçapão do cubico, me encurvei, me enfiei lá dentro. Era quente, era apertado, dava aflição. Mas era seguro. Levantei a esteira que cobria o soalho, calquei o segredo do fecho no outro alçapão, levantei a tampa e fiquei olhando o que era meu. As botijas de barro cheias de dinheiro. Era aquilo que me dava garantia e segurança. Com aquilo eu podia comprar o que eu quisesse, podia comprar até uma igreja, um palácio igual ao das figuras de livros. Acho que até podia comprar um pedaço de mar para mim. Boiada, rebanho de carneiro e cabra, cavalo de raça, cada um lindo como eu só vi em pintura, mas eu sei que tem deles vivos. Cavalo inglês. Pai contava que viu um castanho quase preto, montaria de um bispo, na Bahia. E se aqueles meus ouros não chegassem para adquirir tudo que eu quisesse, eu sabia muito bem como arranjar mais. Nem precisava me mexer, fazer por onde. A minha Casa Forte já era uma mina de riqueza. Não destampei as botijas, estava tudo selado no barro e marcado na tampa com o ferro do meu gado: a meia lua crescente e a flor, que fazia o M de Moura... Ninguém jamais tinha tocado ali.

Fechei o ferrolho do alçapão, cobri de novo o soalho com a esteira, lancei um olhar pelas paredes caiadas, deu-me aquele sufoco, parecia que as paredes se fechavam por cima de mim, me tirando o fôlego. Me ajoelhei, passei pelo segundo alçapão, tranquei a fechadura, me levantei, dei um suspiro de alívio. E fiz uma jura comigo: prefiro enfrentar qualquer perigo de peito aberto, do que me esconder naquele covil de raposa. Cubico — só pros outros. Pra mim, tinha que morrer primeiro e me enterrarem lá.

 

Passou a tarde, veio a outra noite. Duarte tinha saído e nada de voltar.

Já de antes eu estava com medo daquela noite. Trancada no meu quarto, sozinha, pensando no mal que Cirino me fez. Não que eu estivesse enganada com ele, sei que não estava. O meu mal era aquela grande fraqueza por ele, que eu sentia. Eu gostava de, comigo, chamar aquilo de amor. Mas só porque achava bonito e porque, no amor, tudo se perdoa. Mas não era amor, era pior. Eu acho que era mesmo paixão. Nem era só um cio violento, mas passageiro, que depois de satisfeito se desvanece. Não era cio; e era muito mais que amor — amor é querer bem, carinho, amizade. Paixão, sim. Por ele eu vinha fazendo tudo, qualquer loucura, aceitando o que ele me dava; o que — ele estando perto — me pagava de tudo. Com ele nos meus braços, dormindo com a cabeça no meu colo, o meu coração se abria todo; e não era só o fogo da carne, era principalmente o carinho.

Um homem assim, bonito, mulherengo, dengoso, mulher não resiste a ele; eu via até com as cunhãs da casa, até com Rubina. Mas eu me iludia que, com as outras, era só brincadeira; a mim ele me pagava paixão com paixão.

E agora — eu tinha de enfrentar aquela traição. Não de amor, que se pode perdoar, mas de fé. Traição à Maria Moura, à mulher de quem Cirino se gabava, na casa das raparigas, que comia na palma da mão dele. Qual, e eu me imaginando tão forte, tão braba. Agora não se tratava mais de ligeireza de moço mimado, era afronta. Afronta demais. Afronta e perigo, também. Porque ele me desmoralizando, ele entregando aos inimigos um homem que foi posto debaixo da minha guarda, dando prova sobeja de que eu estava metida naquela combinação tão suja — era para acabar comigo. Quem mais ia acreditar na palavra de Maria Moura? Até o dia de hoje, a Moura jamais tinha feito um falso a ninguém. Inimigo é inimigo, mas parceiro e amigo é outra definição, muito diferente.

E vinha aquele moleque, aquele coisinha ruim, abalar estes meus anos todos de trabalho e sacrifício, solapar os alicerces da minha Casa Forte! Do meu castelo!

Quem tinha de dar um ensino nele era eu mesma. Não seria o pai, não, mas eu! Eu! Vou eu em pessoa tirar Cirino daquela cadeia onde, se ficar, acaba não sofrendo nada. Ele é capaz de inventar alguma lorota tão emaranhada, que o pessoal acaba é lhe pedindo desculpa. Eu conheço, conheço Cirino. E, se não conhecesse, tinha ficado conhecendo agora, e de sobra.

Não tem medida de nada, nem respeito, nem dá valor a pessoa nenhuma. Só quer saber do que lhe serve a ele. Por isso é capaz de tudo. Matou sem piedade, a tiro de bacamarte, o pobre do negro velho, o Zê Pretinho. E matou — ainda pior — a ferro frio o nosso Mestre Luca, a quem devo a construção da Casa Forte, posso dizer: forquilha por forquilha, telha por telha! A ele eu queria bem como a um tio velho, um bom conselheiro. E matar sem precisão nenhuma, sem perigo, sem estar acuado; matar só de ruim, por amor dos trinta dinheiros de Judas! E que, afinal, nem recebeu!

E eu adorar um desgraçado desses, abrir pra ele o meu quarto, a minha cama, o meu corpo. Foi humilhação demais.

E o perigo, ainda por cima? Sim, perigo, me ameaçando por causa dele. Tudo que eu já fiz na vida, vejo agora arriscado pela traição de Cirino. Quem sabe ele, no tratar com os homens a entrega do Peba Preto, não disse pra eles que falava também por mim?

Tudo me faz crer que ele disse, está na natureza dele. E também deve ter exigido pagamento maior — que era pra ser a minha parte!

“Todo mundo sabe que Maria Moura cobra caro pela sua guarida, que é cara mas é segura!” diz o povo. Agora, será segura ainda? “Aparecendo quem dê mais... Não viu o que ela fez, traindo e entregando o Major Nunes?”

Se por desgraça essa história se espalha, o próprio Peba Preto fica certo de que fui eu que traí ele, que fui eu que fiz o arranjo com o Cirino. Logo eu, que tive tanto cuidado e trabalho em esconder o homem naquela cova da serra. Tão bem guardado o segredo. Ia tudo escondido lá pra cima, a rede, a comida já feita. Nem o Pagão sabia, e foi difícil esconder dele. Só Duarte e Zé Soldado sabiam.

E tem um ponto — valha-me Deus, como é que ainda não tinha pensado nisso? De que maneira ele descobriu a presença do Peba Preto aqui?

Cá em casa ninguém contou... Ah, mas claro, só pode ter sido o pai dele. O velho deve ter falado ao filho na situação do coitado do parente, da dificuldade em manter o homem no Poço das Antas. Deve ter dito que vinha me procurar — tal como tinha feito no caso dele, Cirino, quando se viram naquele aperto. E o aperto do Major Nunes era ainda mais sério.

Credo, como é que não pensei? Cirino desde o começo já sabia da presença do Peba Preto. E eu cuidando que ele ignorava tudo. E nunca me disse nada. Deve ter ficado de olho aberto, ou botou alguém espionando pra ele. Pode ter sido ele em pessoa que procurou o preposto do Bacamarte e se fez de procurado. Aquilo tem astúcia. E, armada a briga com o pai, tratou de me levar pelo beiço, fazer com que eu perdesse a cabeça por ele. Aí ficava fácil acabar comigo e se apossar do que é meu. Porque me liquidando — mulher sem marido, sem ninguém de meu no mundo, só eu com os meus cabras, ele tomava o meu lugar, se fazia o meu herdeiro...

Duarte? Ora, Cirino matava ‘o preto forro’, como matou os outros dois, já se viu que, pra matar, nem sequer pensa antes, não mede a necessidade. É como quem sai andando por cima de um formigueiro. Está no caminho, morre pisado.

 

Passei a noite toda em claro, nessa agonia, remoendo os maus pensamentos. Se ainda soubesse rezar, rezava, tão desesperada me sentia. Queria ver logo o dia amanhecer, mandar reunir e armar os homens. Levo Duarte comigo? Melhor levar, na frente dele eu não esmoreço, me envergonho de alguma fraqueza. O ódio que eles dois têm um pelo outro, pode me servir de ajuda.

E agora era só preparar a viagem. Entre os homens, devo ter algum que conheça a cadeia do Sumidouro. Talvez até algum que já esteve preso por lá.

Por exemplo: Muxió. Muxió, que se gaba de conhecer todas as cadeias desse sertão, se lá não andou preso, pelo menos deve saber de alguém que conheça o lugar. Ele agora vai fazer tudo pra nos ajudar, quer se limpar de culpa e, no mínimo, ver se escapa com vida.

Eu passeava pelos dois quartos. Ia até às salas, no escuro; abria a janela, a noite lá fora estava clara, tinha uma fatia fina de lua no céu. Me debrucei na janela por fim, esfriei a cabeça no ar fresco. Frio e cheiroso de um pé de cravo todo em flor, posto numa panela de barro, defronte ao peitoril. Foi Rubina que mandou Duarte plantar posto numa forquilha, ao alcance de minha mão: “É pra Sinhá tirar direto o cravo e enfiar no cabelo...” dizia a velha. E eu passava a mão pelo meu cabelo curto, aparado nos ombros. “Enfiar flor como, Rubina?” E enfiava o cravo cheiroso atrás da orelha.

Ah, bons tempos. Antes que aquele Satanás do cabelo louro tivesse chegado pra me atentar. Tão calmo que era tudo com Duarte. Como dizia a cantiguinha: “...e hoje és meu namorado / meu primo do coração...” Águas passadas.

Mas então, quando eu pensava que já estava calma e resolvida — ia castigar Cirino e pronto! — o coração me dava uma volta e começava tudo de novo. Afinal, como é que eu ia acabar com Cirino sem acabar também comigo? Como é que eu posso abrir a arca do peito e arrancar o coração pra fora? Ninguém pode fazer isso e continuar vivo.

E se eu me matasse com ele? Aí, o orgulho de Maria Moura é que se revoltava: estes anos todos você lutou, sua louca, pra fazer o que nem Pai nem Avô fizeram, recuperar a Serra dos Padres, situar sua fazenda, levantar a Casa Forte. E você fez muito mais do que eles jamais sonharam. Você é a rainha desta terra aqui, tem Casa Forte e senhoria, tem riqueza e tem mais força do que todos esses beiradeiros que pensam que são ricos, léguas e léguas em redor. Maior do que a Casa Forte de Maria Moura, só a Casa da Torre — e essa mesma o povo diz que já se acabou, na Bahia.

E agora você quer se acabar também, com a paixão pelo meninote de má fé que, fora de qualquer dúvida, nunca ao menos lhe quis bem? Senão ele não tinha ido se gabar que você comia na mão dele — e dizer isso na casa das raparigas!

Não. Essa não. Não me passa na garganta, não engulo. Me sufoca, me mata. Meto mesmo a mão no peito, arranco o coração e pronto. Nem que morra depois. Porque, se eu perdoar e aceitar ele de volta, estou perdida de vez.

Ele pode jurar, bater nos peitos, se arrepender — mas como é que eu vou acreditar?

Como é que posso acreditar? E o mal que ele já me fez, que não tem remédio?

Eu tenho é que dar um castigo completo, pra todo mundo ficar sabendo, no sertão: que ninguém trai Maria Moura sem pagar depois, E pagar caro. E nesse momento enfrentei pela primeira vez o pior: ele tem que pagar com a vida. De novo me vejo na situação que começou com a morte de Liberato: ou é ele, ou sou eu.

E se eu não agüentar, paciência; se o sangue pisado aqui dentro me matar envenenada — pois bem, eu morro! Vou morrer um dia, afinal. Todo mundo morre. Mas quero morrer na minha grandeza.