Memorial de Maria Moura
Cap. 42 — Maria Moura
Maria Moura
ME DECLAREI DOENTE. Todos que souberam do caso — Duarte, Rubina, Valentim, — devem ter entendido. Eu não estava em condições de nem ao menos me importar com isso. Rubina, aliás, decretou que eu estava me queimando em febre.
Mudei de quarto. Acho que nunca mais poderei dormir junto ao baú do cubico. Passei dias e dias enrolada na rede, no escuro, tal como fiz quando da morte de Mãe.
Não era dor propriamente que eu sentia; era mais um estupor que me deixava dormente, numa espécie de meia morte. O corpo não me doía em lugar certo, mas tudo me doía. Principalmente a cabeça.
Comida não me passava pela garganta. Rubina me enchia de chazinhos, de xicrinhas de leite; isto é, tentava me encher, mas logo depois de um gole mal engolido, eu deixava tudo esfriando, em cima do tamborete.
Duarte não me chegava perto — mas eu escutava a voz dele, pedindo à mãe notícias minhas. De Valentim, soube que inventou uma caçada na serra, no dia seguinte ao do sucesso, levando com ele o Alípio.
Na semana antes tinham lhe dado de presente um arco de índio, bem encordoado; ele aproveitou o pretexto, disse que ia praticar tiro ao arco. Quem sabe não lhe dava um bom número, atirar de arco? Pelo menos foi isso que veio me contar Marialva, queixosa com a ausência do marido. Rubina tentou evitar que ela me incomodasse, mas ela não teve jeito. Estava muito injuriada com Valentim: será que ele pretendia que ela também servisse de alvo para o tiro ao arco? Essa não! Já bastava o que padecia com as facas! E ela que andava ultimamente tão animada, pensando que ele tinha descoberto a vocação de fazendeiro, e tivesse se desvanecido da idéia de voltar a saltimbanco!
Quando Marialva falou em faca, me arrepiei toda: ai, por mim, nunca mais na vida queria ver uma faca. Até as de mesa me davam desagrado.
Rubina, afinal, conseguiu carregar Marialva; e eu suspirei de alivio, cobri de novo o rosto com a varanda da rede. E nem chorava, ficava só naquela madorna, tentando me esquecer do mundo.
No outro dia ouvi a voz de Duarte, perguntando à mãe se podia falar comigo. Ela quis saber pra que e, antes que ela respondesse, levantei a voz:
— Deixa ele entrar, Rubina.
Duarte entrou no quarto, que ele quase não conhecia, vizinho ao do baú. Perguntou se eu estava melhor e respondi:
— Não estou doente. Me sinto é muito cansada.
Ele não teve o que dizer e eu mandei que tirasse a tigela de chá de cima do tamborete e se sentasse. Duarte obedeceu e então contou:
— O velho Tibúrcio, lá no Garrote, está em pé de guerra. Primeiro mandou me sondar, se eu tinha uns cabras e armas para ceder a ele; mas respondi que aqui só se tinha gente e armamento para uso de casa. Fiz mal?
— Fez muito bem. E daí?
— Daí ele mandou aquele caboclo dele, o Zé do Cedro — a Sinhá se lembra? Diz o povo que até é filho natural do velho. Ele era aquele outro vaqueiro que acompanhou o rapaz do Garrote, da primeira vez. Pois esse tal Zé do Cedro, em vista da minha recusa, saiu andando por longe, contratou uns cabras aqui e ali e comprou uns bacamartes. E então se juntaram com Seu Tibúrcio e saíram em bando em procura do pessoal do Sumidouro.
Eu me sentei na rede:
— E quem comandava?
— Pelo que eu sei, foi o velho Tibúrcio. Ele saiu também armado, seguido pelos homens que o Zé do Cedro recrutou.
— Já se soube de algum resultado?
— É o que eu vim lhe contar: assim que tive notícia da saída deles, me deu a idéia de mandar Zé Soldado seguindo atrás, como se também tivesse algum negócio no Sumidouro; mas tinha que ir à distância, sem deixar ninguém desconfiar que ele era cabra da Casa Forte.
— Bem, e o velho? Que é que fez?
— Contou Zé Soldado que ele foi direto pro Sumidouro. Chegando lá, cercou com os homens a casa do Peba Preto, na vila; bateu com o cabo do chicote na porta fechada, chamando o Major Nunes aos berros. A casa do major estava sem guarda, só com um rapaz nos fundos, rachando lenha. Assim mesmo o Peba Preto chegou na porta. Aí diz que o velho falou muita malcriação pro outro: que tinha vindo buscar os assassinos do filho dele. E o Major Nunes dizendo que ali não tinha assassino nenhum. Que tinha prendido, sim, o Cirino na cadeia, pra ele tomar um ensino e largar de ser traiçoeiro. Mas o moço era tão astucioso que arranjou de comprar ajuda e fugir... Quando o Peba Preto estava dizendo isso, diz que o velho pôs-se de novo a berrar, alegando que foram eles sim, que mataram o rapaz e depois ainda tiveram o capricho de carregar o corpo até as terras do Garrote e deixaram o menino estiradinho na beira da estrada — e de mãos postas! — E, pra maior desaforo, com um bilhete no bolso!
Eu perguntei:
— Foi assim que você fez, Duarte?
— Não foi como a Sinhá mandou? Botei ele direito, de mãos cruzadas no peito — não havia de puxar por uma perna e atirar pro urubu comer!
Me enrolei toda na rede:
— Continua o caso do Sumidouro.
— O Peba aí disse que jurava pela vida dos filhos dele que não tinha tocado num cabelo da cabeça de Cirino. (Eles dois gritavam essas coisas no meio da rua, para a vila inteira ouvir: Seu Tibúrcio a cavalo, na beira da calçada, o major na porta da casa dele.) O Peba confessava que tinha botado o Cirino na cadeia, sim senhor, só pra dar-lhe um ensino, mas depois ia devolver o rapaz ao Garrote, apesar de tudo que ele lhe fez.
— E o Tibúrcio acreditou?
— Parece. Pois aí contou o Zé que o major disse: “Já que a fuga não tinha sido preparada pelo pai, só podia ser coisa do Bacamarte. Afinal, ele, Bacamarte, pagou dinheiro grosso ao Cirino — e pela posse de minha pessoa! O meu pessoal descobriu a tramóia e me salvaram. Se vendo traído, o Bacamarte arrancou o rapaz da cadeia, matou ele e foi deixar o corpo no Garrote”.
— Repare, Sinhá, que o Peba Preto já sabia de tudo a respeito do caso, deve ter um informante no Garrote.
— E daí?
— Aí, diz que o velho Tibúrcio gritou pro major que, se era verdade o que ele dizia, então podiam ir os dois juntos caçar o Bacamarte. O Peba concordou logo, disse que pedia só o tempo de chamar os homens dele. E, pelo que se sabe, já andam os dois bandos juntos, atrás do Bacamarte. Mas o povo está falando que o danado ou se escondeu, ou então ganhou a estrada e vai longe. Parece que tem família dele no Pombal.
Duarte, nesse ponto, se levantou do banco, deu um passo em frente e segurou no punho da minha rede:
— A Sinhá pode ficar descansada. Zé Soldado me disse que não ouviu ninguém falar no seu nome. Nenhum dos dois.
Eu me sentei na rede:
— Valentim já voltou?
— Não. E Marialva está aflita, eu até fui dormir na casa dela, fazer companhia enquanto o marido não chega; deve ainda estar muito assustado com o que fez. Não é de admirar, foi a primeira vez, para ele.
Não respondi nada, me levantei, me enrolei no lençol. Tomei um fôlego, fundo, consegui despedir Duarte:
— Obrigada, Duarte. Qualquer novidade mais, me conte. Eu vou ver se ando um pouco, tomo um banho. Me chame sua mãe, por favor.
Passados mais uns dias, veio nova notícia: o Bacamarte não tinha fugido pro Pombal nem nada. (A gente, nós, bem sabia que ele não tinha motivo nenhum para tanto. Se nem chegou a ver Cirino antes ou depois do caso passado!) Tinha era saído com uns vaqueiros, pra dar um campo num gado extraviado. O Tibúrcio e o Peba Preto, descobrindo isso, botaram uma espera nele e mataram o homem com três tiros. E como a família dos Mendes não tem outro homem na chefia e o Bacamarte era quem mandava em tudo — com ele morto, as coisas ficaram nisso mesmo. Polícia nem apareceu, ninguém teve coragem de dar queixa.
Falam que o tempo apaga tudo — é mais um modo de dizer. Tempo não apaga, tempo só adormece, mas quando desperta de novo é aquele febrão violento, com frio e dor de cabeça.
Na hora de cumprir com a justiça, eu confiava na minha força: o que se tinha de fazer foi feito. E com tanto cuidado e sorte que deu tudo certo.
Mas eu não contava com o depois. Que, se não se sabe quando vai começar, muito menos se saberá quando é que vai acabar. Ou adormecer, como eu já disse.
Assim, a desgraça que foi para mim a traição de Cirino, o horror que se seguiu, o que eu padeci durante toda aquela maldita viagem do Sumidouro à Casa Forte, e a mais maldita ainda prisão dele no cubico, tudo me marcou como um corte de faca, fundo e feio. Eu pensava às vezes que estava a bem dizer igual à situação de Marialva, quando servia de alvo ao marido. Só que o atirador de faca acertava sempre em mim, mas sem ferir mortal, só pegando pela pele, me pregando na tábua por toda a volta do corpo. Escorchada e sangrando, eu ficava, morrendo de dor, sem contudo morrer nunca.
E eu não podia falar com ninguém, me queixar a ninguém. Só a velha Rubina adivinhava qualquer coisa, mas tinha medo de falar, acho que tinha até pavor. Ela também, como Valentim, nunca se envolveu em morte alguma, nunca viu morte violenta perto dela. Aqueles patetas das Marias Pretas se pabulavam muito, mas na verdade nunca tinham sido homens de cometer uma morte, mesmo sendo preciso. Tinham medo da justiça ou das vinganças; o Irineu, eu creio que até tinha medo de ver sangue. Marialva me contou que ele um dia meteu um prego na mão e desmaiou.
Eu dei pra sair; ia brincar com o Xandó. Mas Valentim, que afinal tinha voltado, me fugia quando eu aparecia por lá; nunca cruzou o olhar com o meu, se não podia evitar a minha presença.
E eu já estava criando ressentimento desse comportamento dele — era como se a todo momento me alegasse que o que fez foi obrigado. Não ia entender nunca que o que é pra se esquecer, tem que ser esquecido.
Embora Seu Tibúrcio e os parentes do Sumidouro, depois da execução do Bacamarte, tivessem voltado às boas, nunca mais me procuraram. Também a minha parte naquele desenlace nunca foi especulada. Seu Tibúrcio disse a Duarte que entendia a minha zanga com Cirino — por ele ter me traído daquele jeito, quando roubou o Peba Preto. Nas duas mortes dos meus homens não falava — talvez se envergonhasse da proeza miserável do filho, talvez nem soubesse o que dizer. No dia em que Duarte foi lá, comunicar o rapto do major e contou das duas mortes, Seu Tibúrcio, pensando que Zé Pretinho era cativo, ofereceu reparação em dinheiro. Mas Duarte disse que na Casa Forte ninguém possuía escravo, Dona Moura não adota a lei do cativeiro. Deve ter dito isso carregando nas palavras — afinal ele próprio era forro só por bondade do Sinhô, senão, nascendo cativo, cativo ficava, embora filho do dito Sinhô, como tantos outros.
Me lembro que tive uma grande dor de dente nessa ocasião. Rubina me tratava com cozimentos de malva e eu deixava a dor doer, parece loucura, mas, com ela, a outra dor doía menos.
Valentim, acho que encorajado pela promessa do testamento, ou pela importância do que tinha executado, agora se dedicava direto à fazenda e ao gado. Mas não tinha atrito com Duarte, que precisava mesmo de ajuda com o gado e até deu ao cunhado o posto de ‘vaqueiro-mor’ se lembrando de capitão-mor, sargento-mor... Assim ele, Duarte, podia se dedicar mais à planta; preparava os campos de algodão, para dar o que fazer aos moradores. Nesses últimos dois anos havia seca lá mais pra baixo, embora no nosso pé de serra não fosse tão ruim. E ele se dedicava mais que tudo à sua usina da pólvora. A preparação de guerra dos Seriemas e dos Mel-com-Terra do Bacamarte nos deu boa freguesia. Também Duarte, que tudo fazia bem-feito, fabricava uma pólvora de primeira. Os compradores diziam que era até melhor que a inglesa, e Duarte acreditava. Só não ficava mesmo melhor do que a estrangeira por causa da embalagem. Mas na Casa Forte já estavam até fazendo umas caixetas de pau para arrumar bem arrumadas as dúzias e grosas de cartuchos.
De mim ele só chegava perto quando de serviço ou chamado meu. Nunca me tocou nem com a ponta do dedo, nunca também me olhou nos olhos. Nunca me sorriu. Era um estranho delicado, um feitor respeitoso.
Às vezes, quando a solidão doía mais, eu tinha vontade de chamar por ele. Um dia mandei recado que viesse falar comigo e o recebi deitada na rede, vestida de camisola. Duarte parou na porta, chapéu na mão:
— Sinhá chamou?
Eu me virei, pus os pés descalços no chão:
— Queria falar com você. Há tanto tempo que a gente não conversa.
Ele não se desarmava, sempre de chapéu na mão:
— Mas ainda ontem falei com a Sinhá a respeito da casa do Maninho, que vai se casar. Tem que sair do alojamento dos homens. A Sinhá já resolveu onde é que se levanta a casa?
Eu me pus de pé, coberta só com a camisola fina que mostrava o meu corpo na contraluz.
Duarte deu um passo, cerrou a porta atrás de si, dizendo:
— Vou esperar lá fora que a Sinhá se vista.
Eu enfiei as calças do costume, calcei as botas, cheguei lá fora, furiosa:
— Você faz essa cerimônia toda pra me provocar?
— Não senhora, eu estou só seguindo os conselhos de minha mãe. Ainda não ouviu ela dizer: “Moleque, conhece o teu lugar”?
Tive vontade de meter a mão nele, mas também tive medo de ir mais longe do que podia. Nem queria recomeçar a amizade com Duarte, se eu ainda estava gemendo e sangrando pelo Cirino. Ele tinha razão. E se eu quebrasse o nosso estado de paz, que talvez fosse fingido da parte dele (talvez, não; era fingido, eu sentia), não ficava nada entre nós para se botar no lugar.
Fomos marchando pela vereda estreita até o lugar escolhido para a nova casa. Dava um bom terreiro, com um bom quintal e o roçado atrás.
— E quando é o casamento? — eu perguntei.
— Mês que vem. Assim que a casa ficar pronta.
— Casam no Riacho da Bugra? Mas lá não tem Padre.
Pela primeira vez, naqueles dias, vi um leve sorriso no rosto de Duarte:
— Diz Maninho que vai pedir ao Beato Romano para casar eles. Têm mais fé no Beato do que em qualquer Padre.
Eu sorri também, ele mudou o olhar, deu meia-volta:
— O sol está esquentando. Vamos; a Sinhá está sem chapéu.
Fiquei boa da dor de dentes, emagreci mais um pouco. Os meus cabras andavam inquietos, se queixando do paradeiro. De vez em quando era preciso acalmar alguma rixa entre ele. É o que acontece quando ninguém tem nada pra fazer.
Manhã de sábado, eu estava preguiçando até mais tarde, Rubina veio me avisar:
— Sinhá, Duarte está recebendo uma visita no portão.
— E quem será?
Rubina não conhecia:
— Deve ser um passageiro. Duarte está falando com ele com muita cerimônia. Só pode ser de fora.
Eu fui me vestir, passar um pente no cabelo; calcei as botas. Pessoa de fora, eu só podia receber equipada com o meu ‘fardamento’, como Rubina dizia.
Duarte me apresentou ao estranho, que era um homem grosso, atarracado, vermelhão. Levantou-se quando me viu. Já devia estar prevenido a meu respeito, porque não mostrou estranheza ao ver os meus trajos.
— Muito prazer, Senhora Dona Moura. Eu já tinha ouvido falar muito a respeito de vocemecê.
Eu me sentei, fiz sinal para ele se sentar também. E disse:
— Ouviu falar? Espero que seja de bem.
O homem, que ainda segurava o chapéu pela aba, varreu o chão com ele:
— E podia ser de mal, Senhora Dona Moura? Vocemecê é a pessoa mais conhecida e respeitada de toda a Serra dos Padres e de muito mais além!
Eu gostei do ‘respeitada’. Nem que seja por causa dos meus bacamartes. E continuei a conversa:
— Anda passeando por essas nossas bandas, ou veio a negócio?
O homem riu-se:
— Quem sou eu pra passear... Ando a negócio, Dona. Quero ver se compro um gadinho.
— O mal é que nestas alturas do ano o gado ainda está meio descarnado. O meu está magreirão. E eu só penso em vender quando ficar mais carnudo.
O homem coçou a cabeça:
— Eu sei. Depois de tanto tempo ruim, como é que o gado ia engordar?
Duarte entrou na conversa:
— A gente não pode se queixar muito. Por toda parte o gado está até pior.
Eu indaguei:
— Como é a graça do senhor?
O homem se levantou, encabulado:
— Desculpe, Dona Moura, se não me apresentei. Mas tinha dito o meu nome aqui ao Seu Duarte. É Francelino de Sousa, seu criado.
— Obrigada. Pois é como eu dizia, Seu Francelino: não gosto de vender gado magro. Passe aqui na Casa Forte de hoje a uns dois meses e a gente faz negócio.
— Dona Moura, eu vou ser franco com vocemecê. Eu ando assim, correndo fora do tempo, porque atrás de mim vem gente forte. Eu sou marchante, compro gado por aqui, desço com ele até a Paraíba. Tenho uns magarefes que são meus fregueses de muito tempo já, e me compram o que eu levar. Nunca andei por estes lados da Serra dos Padres, porque costumo me abastecer mais pra diante, chego mesmo no Piauí. Mas vão passar logo atrás de mim uns marchantes de peso, do Ceará e do Rio Grande no Norte. Eles têm um contrato de fornecimento de carne salgada — que eles chamam de carne de charque e que é mandada para o Sul. E com este tempo de seca que ainda foi pior para o lado deles, e ainda está muito ruim — eles mandaram os compradores na frente, contratar quanto for de boiada que encontrassem, e apalavrar tudo, sem demora. E já acertaram o que havia, esses marchantes, pegaram a flor do gado, principalmente no Piauí. E agora os chefes já estão vindo em pessoa, trazendo consigo os vaqueiros, melhor dizendo, os tangerinos, para tocarem as boiadas. E, com os chefes, vem o dinheiro para o pagamento.
— E é muito mesmo, esse gado que vão levar?
— Dona Moura, tem ano em que os marchantes do tipo deles compram boiada de até mil cabeças. As charqueadas consomem carne como umas feras; é um buraco sem fundo. Enchem navio inteiro com os fardos da carne salgada. E precisam de tanto sal que só se estabelecem perto das salinas. Lá, tiram o sal da água do mar, botando pra secar na beira da praia. Eu já vi uma salina. É bonito, aqueles montes de sal tudo encarreirado, secando no sol. Parece pedra, chega a tirar faísca.
— E eles matam os bois, salgam, secam no sol, e aí?
Seu Francelino não tinha muita certeza do processo:
— Parece que eles prensam a carne. As mantas, eu já vi, fica tudo bem seco, parece couro curtido. Só que mais grosso. O povo chama de ‘carne do Ceará’, porque a maior parte vem de lá, mas também sai muita carne da Areia Branca.
Duarte indagou:
— E o senhor vende gado é para esses marchantes?
— Não senhor, de novo eu digo, quem sou eu? Eu vendo gado pra magarefe, que abate nos matadouros, nas vilas. Como tenho umas terrinhas com pasto bom, engordo o gado e então vendo. Mas é tudo coisa miúda, vinte reses aqui, dez ali. O mais que eu levo são cinqüenta, setenta cabeças.
Olhei pra Duarte; o assunto começava a me interessar:
— E os outros, compram é de cem e mais?
— Eu já não disse à senhora? Eles compram até de mil cabeças.
— E pagam logo?
— Pagam à vista, Seu Duarte. Trazem o dinheiro com eles. Têm que pagar em cima da unha. Esses fazendeiros de cerrado são muito sovinos; e ainda por cima desconfiados. Não vendem fiado nem um bode magro.
— Deve ser um dinheirão que esses boiadeiros trazem — eu comentei.
— E é. Dinheiro grosso, do bom. Os tal de vaqueiros que eles levam junto, pra conduzirem o gado, não são só tangerinos não... E tudo cabra bem armado, acostumado com briga, portando cada um o seu bom bacamarte e o seu embornal de munição. Sem falar nas pajeús de três palmos... E, a bem dizer, uma tropa de linha! Até o gibão deles é de couro bem grosso, que dê pra proteger de tiro o dono.
— E anda tudo junto? — perguntou Duarte. — O senhor disse que eles andam tudo junto, não é?
— Sim senhor, pra se protegerem melhor. Nesses campos mal povoados, pelos caminhos que eles têm que seguir, podem encontrar muita gente mal-intencionada. No ano passado eles andavam comprando gado pras bandas do São Francisco e foram atacados por um bando de ladrão armado. Diz que se fecharam numa roda, resistiram a tiro, mataram uns cinco dos ladrões, o resto botaram pra correr. Não parece coisa de soldado de linha?
Eu me sentia cada vez mais interessada.
— E este ano eles vão pros lados do Piauí? Também com muita gente?
— Eu acho que vem comprador de todas as salgadeiras de charque, do Aracati até a Areia Branca. Ouvi dizer que está havendo uma guerra grande, lá pelo Sul; e então o governo fez uma encomenda de carne seca, das maiores, que é pra abastecer a tropa. Vem navio atrás de navio, só pegar a carne. E eles, nas charqueadas, sem gado pra abater; por causa da seca, como eu disse! Pelo que me contaram, o grupo que aí vem, vai acabar com todo o gado do Piauí! E o povo do Piauí tira agora o pé da lama; porque de pataca pros pagamentos; os marchantes devem de trazer é de arroba pra cima, no surrão...
Pedi licença, chamei Duarte na sala:
— Duarte, arranja uns bois pra vender a esse homem. Vamos entreter ele, ofereça hospedagem, não quero que ele desconfie que estou interessada nesses marchantes e não vá prevenir os homens do meu interesse.
Duarte, não sei se estava atinando bem com minha intenção:
— E que é que a Sinhá está querendo?
— Depois eu falo. Vai conversar com o homem, mostra o gado que ele quiser ver.
A conversa do Seu Francelino tinha, de certa forma, acordado a velha Maria Moura. Ou antes, uma Maria Moura nova, diferente de todas as Mouras passadas, capaz de se meter numa aventura louca, quem sabe sem retorno, quem sabe sem fim.
Duarte voltou com o homem; tinham apalavrado quinze bois, escolhendo os menos magros. O Francelino pagou em patacas, daquelas grossas e eu aproveitei a ocasião para perguntar a ele se na praça das cidades já estava circulando dinheiro de papel. A gente, ali na serra, já tinha ouvido falar, mas nunca havia posto os olhos numa cédula. O Francelino meteu a mão no bolso e tirou um pedaço de papel, impresso em letras pretas, muito feio. Fiquei desapontada. Pensava que dinheiro em papel era de cor, com a cara do rei, assim como uma figura de santo.
— Este aqui trago de mostra, pra quando me perguntam. É uma nota de $5 000 réis. Já corre na rua, mas o povo ainda não tem muita fé. Se rasgar, se molhar e borrar, se perder — de quem o prejuízo? Uns dizem até que isso é um vale fiado do governo, que está sem dinheiro vivo. Esse povo de governo é muito sabido.
Eu virei na mão a tal de cédula. E não tinha graça nenhuma. Ainda vai levar muito tempo para aquilo ser considerado dinheiro. O mais certo é que não vá pegar nunca. Quem troca ouro, ou prata, ou até mesmo cobre, por um pedaço de papel? Você quer é sentir a moeda pesando na tua mão. Acho que não tinha risco dos marchantes trazerem dinheiro em papel pra fazerem os pagamentos no Piauí.
Deixei o homem ir embora, emprestei mesmo dois vaqueiros para irem tangendo o gado — que é arisco — pra não entrar no mato, até o encontro com a estrada real. Mas recomendei que voltassem no mesmo pé
Então me reuni com Duarte a portas fechadas, no meu quarto, para explicar o meu plano. E fiz de conta que não me lembrava de que Duarte sempre tinha se recusado a tomar parte nas correrias das parelhas, ou de alguma empreitada maior. Ele dizia, nessas horas:
— Eu não sou homem de aventura, Sinhá. Não gosto de bacamarte.
E quando eu retrucava: “Mas você fabrica pólvora! Como é que se explica?” ele abanava a cabeça:
— Aí é negócio; eu posso fabricar a pólvora, mas não faço pro meu uso.
— E eu? Eu não uso a tua pólvora?
— A Sinhá é que é a dona da usina. Eu só tomo conta.
Pois é, muitas vezes a gente tinha discutido isso, mas agora era diferente. Ele me devia de entrar nesta campanha. Havia muita coisa entre nós agora. Eu posso ter sido a alma e a responsável por tudo — mas ele nem por um momento me condenou e ainda menos tentou impedir. E agora se punha de lado? Isso eu não tolero.
Chamei Duarte para sair andando um pouco comigo, fomos até para além do pátio — eu queria conversar sem testemunha.
— Duarte, eu quero aquele dinheiro dos marchantes. A gente não pode deixar passar por fora tanto dinheiro assim.
Duarte nem entendia direito:
— A Sinhá está falando é nos tais dos marchantes que vão comprar gado no Piauí?
— Deles mesmo. Que é que você acha?
— Impossível. Loucura. Os homens vêm a bem dizer num bando, com escolta poderosa de capanga, tudo armado até os dentes. A Sinhá ouviu o que Francelino disse.
— Mas nós também não somos tão pouca gente assim. E o meu pessoal tem muitos anos de estrada; os deles são, na verdade, uns tangerinos armados, só para a ocasião. O que eles devem saber mesmo é tanger gado.
— Não foi o que o homem disse.
— Isso então se vai ver.
— E como, Sinhá?
— Queria que você saísse por aí, procurando saber notícias a respeito dos marchantes. E fazer isso rápido, porque eles podem já estar a caminho. Ande por alguma vila onde eles vão passar, converse com o pessoal da terra que negocia com gado. Veja o que você descobre: o roteiro deles, em que tempo e onde devem passar mais perto de nós.
— Mas logo eu, Sinhá? Eu nem sei puxar conversa com estranho!
— Leve Valentim com você. Ele pode tocar rabeca, fazer aquelas sortes de mágico, junta gente ao redor dele. Aí vocês podem puxar assunto, começar a conversar.
— E que é que eu digo a ele? Ao Valentim?
— Não sei. Inventa. Diga o que ele quiser ouvir.
— Por exemplo?
— Que eu estou interessada no movimento do gado por essas fazendas aí. Que tive notícia de que o governo anda querendo tomar gado dos fazendeiros, como pagamento de imposto. Valentim não é muito curioso.
Duarte saiu na madrugada seguinte. Levou o cunhado, que não veio se despedir de mim; continuava me evitando, sem nem cruzar o olhar com o meu.
O fato é que eu estava mesmo muito ansiosa para conseguir essas informações e por isso exigi a ida de Duarte atrás delas; mas também queria ele longe de casa, para eu ir adiantando as minhas providências com mais liberdade.
Chamei Roque, mandei que convocasse os homens de serviço. E mais o pessoal da planta e do gado, que fosse disposto e, de preferência, os que soubessem atirar.
Com Roque e os nossos meninos de confiança — Zé Soldado, Maninho, Alípio e mais João Rufo, fizemos o inventário das armas guardadas no arcaz: aquele caixote grande, cintado de ferro que era o nosso arsenal. Separando os bacamartes e os clavinotes em bom estado e procurando consertar os desmantelados, já se tinha arma ali que dava para uma guerra. Desde os primeiros dias, depois que fugi do Limoeiro, eu não tinha me descuidado nunca de arrecadar qualquer arma que ficasse à mão, nos nossos entreveros. Em caso de muita pressa, eu preferia antes deixar o dinheiro que as armas. Porque além do serviço que iam nos prestar, eu enfraquecia o inimigo, que podia demorar a arranjar outras. Arma de fogo não se compra em mão de mascate nem em barraca de feira.
Duarte um dia me contou que, ultimamente, muita gente deixava a arma em casa, saía desarmado, até pra viagem grande, com medo dos ‘meninos da Moura’.
Os dias todos da ausência de Duarte, passamos trabalhando de dia e de noite, lixando, azeitando, limando, consertando pau de coronha. Até um mosquete velho se achou no arcaz; tinha sido trocado por um carneiro, com uma velha viúva que andava se desfazendo dos possuídos do finado. A transação foi feita por João Rufo. Roque ensinou Alípio a torcer as mechas que se acendia para pegar fogo na pólvora e dar o tiro.
As armas de chispa corregemos todas. Cada uma com a sua pedra de figo de galinha. E eu botei as mulheres costurando os sacos dos chumbeiros, os polvarins com a sua ponta de chifre. E elas arearam também as varetas de socar a bucha, com a sua medida na ponta para a pólvora.
Tudo isso nós fizemos, e tratei de que não ficasse uma só arma sem o seu acompanhamento. Cada homem que pegasse numa delas ia achar tudo pronto, às ordens, era só carregar.
Zé Soldado brincava:
— Sinhá Dona, parece que a gente vai guerrear com os soldados do rei!
E eu sorria:
— Quem sabe lá?
Pelo regulamento da Casa Forte, homem nenhum possuía arma sua: era tudo da fazenda. Na hora das saídas, cada um escolhia a que estava mais acostumado. Só quando nos chegava alguma novidade especial, havia arenga entre eles, mas João Rufo resolvia com dois gritos. Disciplina era disciplina.
E, se preparava os homens, também cuidei de mim; separei minha garrucha, mandei João Rufo azeitar, limpar qualquer pontinho de ferrugem, preparar a munição. Até da roupa cuidei: uma muda só. Rede, nem eu nem ninguém ia levar. Em viagem de campanha se anda leve e a pé. Mandei engraxar umas botas velhas, folgadas, pro meu conforto. E ia inaugurar o meu gibão de couro, bem pespontado; muita vez, dizia Roque, serve pra desviar chumbo que venha de raspão ou enviesado.
Ficou tudo nos trinques, como diziam os meninos. Na verdade eu me preparava a mim e aos meus homens para aquela sortida como quem se preparava para uma festa.
Eu estava resolvendo comigo se não seria melhor pra mim ir a cavalo, pelo menos até se alcançar a estrada real. Pois o fato é que eu nunca tinha me metido a andarilha, em todos esses anos. E não tinha ‘canela seca e pé ligeiro’, como também eles diziam, para acompanhar a marcha dos outros, por tantas léguas de caminho ruim. Levava um menino comigo, podia até ser o Pagão ou o Juco; quando se chegasse onde eu queria, devolvia-se o cavalo e o menino. Montaria para a volta não ia me faltar, se a gente desse sorte. E, se não der, o que for, será.
Bem, eu evitava pensar nos riscos daquela aventura. No ponto a que tinha chegado, os riscos que se danassem. Vai se ver Deus por quem é.
Quando eu não podia mais de impaciência e, pela décima vez, ia espiar a estrada, Duarte afinal apontou no caminho. Veio direto pro alpendre, não teve nem que ir lá dentro tomar a bênção da mãe, como fazia sempre que chegava; Rubina já estava ali, ao meu lado.
Pela cara dele, vi que as notícias eram boas. Até Valentim, que vinha junto e não devia estar desconfiado de nada especial na missão que tinha cumprido, pela primeira vez me mostrava uma cara melhor.
Eu não podia me conter:
— Deu sorte?
E Duarte.
— Ah, deu!
Eu soltei um suspiro fundo. Ele continuou:
— Nos primeiros dias nos perdemos por aqui e ali; tinha gente que falava nos marchantes, mas era tudo muito desconchavado. O povo é engraçado, cada pessoa acredita no que quer e passa adiante o que entende. Mas quando foi anteontem pela manhã, nós demos com um pouso na estrada real — desses onde os tropeiros com os seus comboios costumam se arranchar. A Sinhá já viu algum?
Eu me lembrei daquele pouso, onde, no começo dos tempos, nós tínhamos pegado uns comboieiros e tomado a carga e os animais deles. Mas isso foi antes de Duarte me aparecer.
— Já vi, já vi. Um dia eu lhe conto como foi.
— Esse aí é um pouco grande, tem uma alpendrada larga pros tropeiros armarem as redes; tem até uma estrebaria, coberta de palha nova, para os animais...
Valentim pôs-se a rir:
— A cobertura estava arrancada, botaram lá uns cavalos mortos de fome, se esqueceram deles, então os bichos comeram quase toda a palha do teto...
Duarte ria também; eu me impacientava:
— Bem, eu sei como é que é o pouso. E o que mais?
— O mais, Sinhá, é que eles nos disseram que iam consertar logo a cobertura da estrebaria porque não tardava a chegar lá a comitiva de marchante de gado, com os seus tangerinos... ao todo era pra ser mais de trinta pessoas.
— E quando é que eles chegam lá?
— Pelas contas do dono da casa, ele esperava esse pessoal pra daí a umas três semanas. E como não é gente acostumada a andar tanto, e vem de muito longe, o dono do pouso estava pensando que era capaz deles descansarem lá um dia ou dois, antes de retomar o caminho...
Eu me virei pra Valentim:
— Compadre, se você quer ficar com a gente pra janta, ótimo. Mas já estou vendo a Marialva apontando no caminho da sua casa.
Valentim levantou-se, sorriu encabulado e foi saindo, se desculpando:
— Perdoe, comadre. O Duarte não precisa de mim pra lhe contar as conversas todas...
Livre de Valentim, levei Duarte para junto da minha mesinha, na sala, onde eu fazia as contas:
— Parece que está tudo se encaixando, Duarte. Você disse que eles chegam dentro de três semanas? Então a gente não precisa nem correr, sair de marcha batida...
— A gente quem, Sinhá? Vai me dizer que está querendo se meter em pessoa nessa loucura?
— Não seria a primeira vez, rapaz — pergunte a João Rufo. Nós, os antigos da casa, já temos prática nessa brincadeira. Você mesmo já andou montado em animal que nós pegamos — e também foi num pouso. Os meninos se saíram tão bem que nenhum vai ter medo de recomeçar.
— É, João Rufo já andou me contando certas coisas. Mas agora, Sinhá, não se trata de atacar um bandinho de tropeiro desarmado. Deve ser guarda-costa profissional que eles trazem, disfarçado de tangerino. E anda tudo a cavalo!
— Desvantagem para eles. Já a gente, tem que ir a pé, isso eu aprendi. Cavalaria é pra soldado. A pé se tem outra agilidade, se esconde detrás de qualquer pé de pau, e salta em cima dos inimigos antes que eles dêem fé de nada.
— Mas a cavalo eles correm e a gente não acompanha.
— Se eles correm, a gente atira nas pernas dos cavalos, os homens rolam no chão. E quando baterem em terra, atordoados, já se está em cima deles. Eu já calculei tudo na minha cabeça. Fecho os olhos e vejo como é que vai tudo se passar.
Duarte olhava pra mim, abanando a cabeça, sem poder acreditar no que ouvia. E eu continuei:
— Os dias em que você esteve fora, eu com João Rufo e os meninos passamos o tempo todo escorvando as armas e escolhendo a munição. Está tudo tão no ponto que cada bacamarte daqueles é capaz de sair atirando sozinho...
Duarte não se convencia:
— Não brinque, Sinhá. É risco demais. Essa gente não brinca em serviço, primeiro atira, depois pergunta quem é...
— E nós, por acaso, seremos um bando de menino velho? Ora, Duarte! E vamos pegar eles todos de surpresa, igual ao que eu fiz da outra vez. Eu acerto porque eu faço os planos direito, Duarte.
— Mas um dia vem um imprevisto e aí vai-se tudo por água abaixo! E não é só uma ‘parelha’ metida no fogo: é a sua vida que está arriscando, Sinhá!
— E eu estou me importando em salvar esta desgraça de vida, Duarte?
— Sinhá, pelo amor de Deus!
— Não me venha com essa! Eu estou tão resolvida, que lhe respondo, como o outro: “Desça Deus do céu e me peça, que eu falo e faço o que disse...”
Duarte se levantou, zangado:
— Dê licença, Sinhá. Estou morto de fome e cansaço e ainda me vem a senhora com isso tudo...
— Pois vá comer e tomar banho. Mas depois volte, que eu quero lhe mostrar o que já fiz. E temos que escolher os homens, quem vai, quem fica.
Ele já ia passando a porta quando me lembrei:
— Duarte, você passou na vila e pegou o papel do testamento, para eu assinar, como lhe pedi?
— Trouxe. E pra que será...
— Vai-te embora, rapaz. Daqui a pouco a gente conversa.
Com pouco Duarte voltou, banhado, penteado, bonito. Disse isso a ele, que não achou graça nem agradeceu.
Mostrei-lhe as armas. Corregemos os cabras, de um em um; naturalmente quem ia dirigir a tropa era o ‘Sargento’ Roque, que tinha traquejo nessas empreitadas e sabia comandar os rapazes. Quanto mais atrevida a empresa, melhor ele se saía.
Duarte concordou. Escolhemos os três meninos para a minha guarda pessoal. Essa concessão eu tive que fazer; pois quando eu disse que, para esse ofício, eu contava era com ele, Duarte, a resposta que tive foi esta:
— Eu nunca fui de guerra, não sei como é que vou me sair. E quero que pelo menos fique garantida a defesa da Sinhá.
— Então você fica tomando conta de tudo, no geral. Tem também que estar de olho na munição. Os rapazes são meio esperdiçados e a gente não pode levar carga pesada. Já basta o peso das armas.
Fizemos a conta do tempo: de lá pra cá, Duarte e Valentim tinham levado ao todo seis dias. Nós, indo a gente a pé, bota mais uns três dias, com as etapas mais curtas. Nove dias. Nove e seis, quinze: até aí já se passaram duas semanas. Fica só uma semana para a chegada dos viajantes no pouso. E podem se adiantar num dia ou dois, nunca se sabe. A gente acampa no mato, ali por perto. Só mostra a cara em alguma casa, a do Roque, pra adquirir mantimento. E isso o menos possível. Tem que se caçar comida na mata ou roubar alguma criação.
E determinei:
— Vamos sair amanhã de madrugada. Você dê as ordens, Duarte.
Ele se levantou, sem dizer mais nada. Ia saindo, quando de novo me lembrei:
— Escute, Duarte, você quer trazer aquele papel pra eu assinar? Cadê?
— Vou buscar.
Foi ao quarto dele, voltou com um papel na mão.
Passei os olhos pelo escrito do testamento. Estava tudo direito, segundo me pareceu. A letra do escrivão era cheia de floreados. Eu deixava todas as minhas posses, “imóveis e semoventes, para o menino Alexandre, filho de minha prima Marialva e do seu legítimo esposo, Valentim de Barros Oliveira. Durante a menoridade do herdeiro, ficava como administrador do espólio Duarte Rubino do Nascimento, tio natural do menor Alexandre. Por ocasião da maioridade do herdeiro receberia o dito Duarte um terço dos meus bens em dinheiro, ou o equivalente em outros valores”. Aparei a pena, assinei o papel no lugar marcado e disse a Duarte:
— Você entregue isto nas mãos de Valentim. Na hora da nossa partida.
Duarte se pôs a enrolar o papel na mão:
— Até essa minha parte acaba indo para o Xandó, que eu não tenho herdeiro.
Eu expliquei:
— Como já lhe disse, prometi isso ao Valentim.
— Eu sei. Foi caro, heim, Sinhá? Será que ele merece?
— Não sei se ele merece. Mas quem merece?
No cair da tarde veio me procurar uma embaixada dos homens, chefiada por Zé Soldado: queriam fazer um pedido.
— Sinhá Dona, pelos preparos todos a gente já viu que esta saída de amanhã não vai ser de brincadeira.
— Estarão com medo? Pensei que não tinha mofino nenhum entre os meus cabras.
— Não, Dona Moura, não é coisa de mofinagem. Ninguém está com medo. Mas a gente queria que vocemecê pedisse ao Beato Romano pra ir também.
— Vocês falaram com ele?
— A gente falou. Mas ele disse que a Dona Moura com certeza não ia querer.
— Mas pra que é que vocês querem o Beato Romano nos acompanhando? Que me conste, ele nem sabe atirar.
Maninho, que era o mais tímido, tomou coragem, falou:
— A senhora mesma disse que havia perigo, Sinhá. E nós, então, a gente queria o Beato Romano perto de nós, para o caso de algum sucesso. Morrer não é nada, mas sempre se morria mais satisfeito tendo ele junto pra abençoar. Pra dizer Jesus seja contigo...
— Pela minha parte, está bem. Podem ir. Mas mandem o Beato vir falar comigo.
Quando o Padre chegou, pouco depois, eu fui logo perguntando:
— Que foi que deu no senhor, Padre? Nós vamos nos meter num assalto perigoso e o senhor aceita ir junto?
— Faz três dias e três noites que eles me pedem. Se acostumaram comigo, não querem enfrentar tiroteio sem que eu esteja por perto.
Eu abanava a cabeça:
— Ainda não estou acreditando.
— Dona Moura, eu me considero uma espécie de capelão da sua tropa. E o capelão não questiona o que o comandante vai fazer. Digamos que eu me proponho a acudir os feridos e os moribundos, se houver algum. De um lado e do outro.
O Beato sempre achava um jeito de me pegar de surpresa. Resolvi não dizer mais nada. Só reclamei:
— Não estou gostando é desse agouro, essa conversa de ferido e moribundo.
E como ele ia saindo sem dizer nada, eu ofereci:
— Eles vão a pé mas eu, pelo menos na maior parte do caminho, vou a cavalo. O senhor pode ir a cavalo também, junto comigo.
O Padre fez um sorriso:
— Obrigado, Dona Moura. Não precisa. Na minha vida errante, antes de chegar aqui, andei muito a pé. E ainda ando, aqui mesmo na Casa Forte.
Saímos ainda com escuro, como eu queria. Valentim, Rubina e João Rufo assistiram à partida, ajudaram nos arranjos de última hora. Ninguém tinha falado nada à Marialva. Mas Valentim, quando se despediu, me disse em voz baixa:
— Recebi o papel. Agradeço em nome do menino.
Duarte tomou as rédeas do cavalo das mãos de Pagão, esperou que eu me aproximasse para montar. E antes que eu botasse o pé no estribo, rogou mais uma vez:
— Ainda está na hora de mudar de idéia, Sinhá. Vai ser uma luta muito dura, com esses homens traquejados pra matar. Não é briga pra mulher. E se lhe matam?
Saltei na sela. Mas, antes de dar partida, me dobrei sobre o pescoço do cavalo e disse, olhando nos olhos de Duarte:
— Se tiver que morrer lá, eu morro e pronto. Mas ficando aqui eu morro muito mais.
Saí na frente, num trote largo. Só mais adiante, segurei as rédeas, diminuí o passo do cavalo, para os homens poderem me acompanhar.
Rio, 22 de fevereiro de 1992, onze da manhã.
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