Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 20 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 19 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

A FAZENDA dos Nogueira foi a primeira morada decente, a primeira ocupação respeitável que alcancei depois da tragédia. Corrido como eu vivia, sem cama nem paradeiro, fugindo à menor ameaça, me fazendo de pior do que era, vivendo como criminoso escapado, em qualquer lugar onde parasse, o medo andava atrás de mim.

E eu estava tão bem naquela fazenda. Os meninos tinham interesse em aprender — ou pelo menos a ler e a escrever corrido. E fazer contas.

O mais mocinho falava em ser Padre. Procurei lhe tirar essa idéia da cabeça; vendo o menino tão entusiasmado, cheguei a discursar, solene. Disse em primeiro lugar que um Padre não se fazia só com o saber ler e escrever. Os estudos eram duros, custavam muito sacrifício. Só o latim! E eu nem ainda conseguia que eles conjugassem um verbo em língua portuguesa! Mas o principal não eram sequer os estudos — o latim, a teologia, a apologética —, livros e assuntos em que ele nunca tinha ouvido falar. O importantíssimo era a vocação religiosa. Vocação religiosa não se compra nem se vende, nem se ganha de esmola. A vocação é um dom de Deus — mas é um dom terrível, também. Ser Padre não é só vestir os paramentos e dizer missa. E indaguei:

— Que idade você tem?

Ele disse que ia nos doze.

— Doze anos. Já deve ter começado a sentir que é homem. Já fica meio esfogueado quando se encosta em mulher, não é isso? Sonha com mulher de noite. Pois, para ser Padre, tem que cortar isso tudo — tem que se esquecer de que é homem.

O irmão mais velho, que escutava a conversa, observou com um risinho:

— Ora, Mestre Zé de Sousa (era assim que eles me chamavam) desculpe eu me intrometer, mas conheço muito Padre que não se esqueceu de que é homem, não! Olha o Padre Ventura, da Santa Bárbara: tem mulher e seis filhos!

Não sei se a Dona Joaninha, a mãe deles, escutou a nossa conversa ou se alguém lhe contou — talvez o menino do meio, o Chiquinho, que era muito sonso e curioso. Só sei que à tarde, depois da lição, ela me procurou na salinha que a gente chamava de escola e onde ainda eu estava, corrigindo os cadernos dos rapazes:

— Mestre Zé de Sousa, dê licença. O senhor me desculpe, mas eu queria lhe dizer que não gostei da sua conversa com o Raimundinho.

Eu me levantei da cadeira:

— Perdão?

— É, o senhor querendo tirar da cabeça do Raimundinho a idéia de ser Padre! Fiquei muito contrariada. Muitíssimo.

E eu:

— Mas não estou tirando idéia nenhuma da cabeça dele. Só quis que o menino se compenetrasse das responsabilidades do sacerdócio.

— Olhe, Mestre, se o senhor quer falar em responsabilidades, saiba que muito maiores são as minhas. Mestre Zé de Sousa, esse menino passou três dias pra nascer — sim senhor, três dias de dores de parto. E quando chegou a nascer, vinha todo roxo, custou demais a chorar, foi quase dado por morto. Aí, minha mãe tomou a criança das mãos da parteira, deu-lhe duas palmadas e prometeu em voz alta, a São Raimundo Nonato: se o menino escapasse, haveria de ser Padre. Por isso ele se chamou Raimundo Nonato, é afilhado do santo e, assim que o senhor declarar que ele está preparado para o seminário, vai para o seminário. Está entendido? Vai ser Padre e não se discute!

Eu baixei a cabeça. Mas o que sentia era vontade de agarrar pelos ombros aquela idiota gorda, dar-lhe uns sacolejões, até que ela perdesse o fôlego. Antes esganasse o filho ao nascer. Promessa!

— Minha mãe também fez promessa quando eu nasci; quase toda mãe, nos apertos do parto, faz qualquer promessa — para o filho pagar depois, às vezes à custa da própria vida. Fazem altarzinho de brincadeira para a criança fingir que diz missa. O dia do batizado é uma festa, com a consagração do menino ao santo. Outra festa é o crisma. Na primeira comunhão, até vestem uma batina branca no infeliz — que, desde essa hora, já se sente comprometido. Ai de mim!

Uns quinze dias depois dessa conversa de Dona Joaninha comigo, passou na fazenda um mascate que costumava freqüentar a Vargem da Cruz e, naturalmente, me conhecia. Eu não sabia da presença dele e, assim, não o evitei. O homem deu de cara comigo, ele saía da sala, eu entrava; me olhou espantado, e disse alto, em frente de todo mundo:

— Padre Zé Maria! Então o senhor veio se refugiar aqui?

Sorri, aterrado; disse que não sabia quem era esse Padre Zé Maria.

Dona Joaninha me olhava, apavorada. O pai, o Major Honório, os meninos, não entendiam. Devendo estar muito pálido, eu encarei todos, enquanto o mascate só repetia:

— É ele! é ele! Pensar que veio se esconder aqui!

Afinal falei:

— Não sei o que o senhor quer dizer. E peço licença para me retirar.

Fui para o meu quarto, arrumei a trouxa. Da janela, chamei o moleque Sebastião, que ia passando. Mandei que ele fosse pegar o meu cavalo — devia estar no cercado novo. Eu já tinha adquirido um cavalinho, que eu chamava de Veneno, nome do cavalo de meu tio, que era o perdido da família e por isso mesmo nos seduzia a nós meninos.

Fiquei trancado no quarto, sentado junto à janela. Da sala não se ouvia nada, só um zunzum distante de conversa baixa. O mascate, com certeza, estava contando a minha história, com todas as agravantes, invenções e inuendos. Eu daria tudo para ouvir, mas não ousava sair do quarto.

Até que o Sebastião apareceu, parou junto à janela, trazendo Veneno pelo cabresto. Meti a mão na algibeira, tirei um cobre que atirei para o moleque:

— Vá quietinho selar o cavalo, bote a brida, a manta grossa, e espere por mim, lá na estrebaria.

Sebastião pegou os dois vinténs no ar, saiu assobiando. Eu lhe dei um psiu e

recomendei:

— Bem quieto, viu? Não diga nada a ninguém! Quando eu chegar na estrebaria tem outro cobre pra você.

Abri a porta do quarto; já ia vestido e até de esporas nas botas. Entrei na sala encarando o pessoal e falei com a voz mais firme que consegui tirar da garganta:

— Não sei do que estão me acusando. Nunca ataquei ninguém. Simplesmente defendi a minha vida. E não uso nome suposto; meu nome é exatamente o que dei aqui: José Maria de Sousa Lima.

Os outros não sabiam o que dizer, mas Dona Joaninha não se conteve:

— Mas escondeu que é Padre e largou a batina!

— Isso é comigo e a minha consciência. É assunto da minha vida particular.

O Major Honório levantou-se da cadeira, olhou a mulher e o mascate e me disse, meio pálido:

— Vocemecê se vai embora, é porque quer. Eu não estou correndo com o senhor!

E eu tornei, já engasgado:

— Obrigado. Muito obrigado! Mas é melhor eu partir. Se eu ficasse, não ia ser mais a mesma coisa.

Dona Joaninha, de novo, não se conteve:

— Não ia ser o mesmo, não.

Voltei ao quarto, fiz um rolo com a pouca roupa, para atar atrás da sela. Enfiei as miudezas nos bolsos do coxim, junto com o meu missal pequeno, que Onofre me tinha mandado dentro daquela bolsa, e do qual, apesar de tudo, eu não me separava nunca. Peguei o chapéu, cheguei de novo à sala, para fazer as minhas despedidas. O Major Honório me perguntou quanto me devia. Eu não respondi, ele mesmo fez as contas: a 30 mil réis por ano neste ano, vocemecê trabalhou cinco meses e oito dias. São 2$500 por mês, o dia sai a 83 réis. Oito dias são, portanto, 666 réis. Com cinco meses a 5$500, dá 12$500... mais 666 réis... ao todo 13$166 réis...

Levou uma porção de minutos para fazer essas contas. Debruçado no ombro do pai, o Chiquinho ia lhe soprando a tabuada. O Major cantava os números devagarinho, e ia escrevendo com um precioso coto de lápis que ele não largava jamais, enfiado no bolsinho do peito.

Escrito o total num pedaço de papel, ele apanhou o molho de chaves e abriu a gavetinha de segredo, na mesa onde ficava a candeia, e que tocava uma campainha quando se rodava a fechadura. Contou as moedas de uma em uma; mas quando chegou ao troco miúdo, disse:

— Vamos arredondar os miúdos para 200 réis. Está aqui: 13$200 reis.

Eu tive vontade de dizer que dispensava o troco. Mas era só um rompante de orgulho, que eu bem ia necessitar de qualquer vintém. E não precisava me sobrecarregar ainda com novos pecados.

Dei a mão a todos, até ao mascate. Pedi que me perdoassem as faltas. O Padrequinha destinado me tomou a bênção. Eu empostei a velha voz de padre e o abençoei. Depois fiz um gesto redondo com o chapéu e acrescentei, numa espécie de desafio — já que eles sabiam que eu era padre:

— E Deus abençoe esta casa e os seus moradores.

Tracei uma cruz no ar e acrescentei:

— Defende, Domine, istam ab omni adversitate familiam...

Ao som do latim, girei no tacão das botas, enterrei o chapéu na cabeça; a porta estava aberta. Saí.

Não queria que me vissem mais o rosto, os olhos cheios de lágrimas. O pessoal, na sala, não se mexera; pareciam todos meio aturdidos.

Na estrebaria, Sebastião me esperava com Veneno arreado. Acomodei o rolo e o coxim na sela; o moleque segurou o estribo para que eu montasse, e em seguida me tomou a bênção, como costumavam fazer todos os escravos da casa. Afinal eu era o mestre-escola e devia como sempre, dar o ‘Deus te abençoe’. Foi o que fiz e lhe dei também os cobres prometidos.

Veneno tomou o caminho da saída e eu parti sem olhar para trás. O latinório tinha me feito bem à alma e, afinal, eu saía por minha própria vontade, sem esperar que ninguém me escorraçasse.

 

Depois de um bom pedaço de caminho andado, na estrada, me veio subitamente à lembrança a palavra em francês que se dizia no seminário, para definir o Padre que largou a batina: défroqué. E com que medo, aos sussurros, a gente repetia: défroqué...

Bati na rédea do Veneno, fiquei rolando na boca a palavra que, mesmo em francês, não era bonita: défroqué... Era eu, isso.

 

De então para diante minha vida se fez uma correria. E hoje na Casa Forte de Maria Moura, decaído de tudo, virado no Beato Romano, no meio dos foras-da-lei, eu me acostumei a essa espécie de existência, porque a gente se acostuma a tudo.

Mas à noite, quando me volta o passado à lembrança, muitas vezes me ponho a chorar. Chego a soluçar tão forte que estremece a rede nos armadores.

Por sorte tenho o meu quarto próprio, só meu. O Beato Romano, homem santo, faz jus aos seus luxos. Tenho um bauzinho de cedro onde escondo os meus guardados e onde ninguém bota a mão. O baú vive trancado e a chave pendurada num cordão, no meu pescoço.

Não, o homem feliz não é o que não tem camisa, como o da história que Padre Barnabé nos contava, no seminário. O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.

 

Isso tudo eu nem ao menos pensava, só sofria, enquanto o meu cavalo Veneno me carregava estrada além, quando saí da fazenda dos Nogueira. Não sabia para onde me botar, não tinha amigos ou sequer conhecidos naquelas paragens. Eu tinha sido mandado de longe pelo meu bispo para ser o vigário da Vargem da Cruz. Só conhecia portanto os caminhos que ficavam por trás de mim, que tinham me servido para chegar. Não valia a experiência dos tempos em que vagueei por essas terras, depois da tragédia. Eu estava numa espécie de delírio manso, era como um animal caçado tratando apenas de sobreviver.

Na casa dos Nogueira eu voltara a ser um homem.

Em frente, todos os novos caminhos para mim eram um mistério. Na escola eu tinha estudado os mapas da França, de Portugal, da Terra Santa. Mas aquele grande sertão, diante de mim, nunca vi mapa que o retratasse. Era como se eu avançasse por sobre as águas do mar. Tudo igual, sem horizonte.

Deixava Veneno tomar o caminho. Para bem longe, sempre mais longe, onde ninguém se lembrasse do Padre José Maria e das três mortes daquela noite, na Fazenda Atalaia. Podia mesmo dizer as quatro mortes: ela, o meu filho nonato, o Anacleto — e o Padre José Maria. Porque o Padre também morreu, naquela noite maldita. O que dele sobrou era hoje um fugitivo apavorado, sem lugar nenhum que pudesse chamar de seu.

Veneno e eu andamos assim muito tempo. Muitas léguas, nem sei. Quando o cavalo queria parar, eu olhava em redor, não via nada, batia nas rédeas, ele seguia obediente. Por duas vezes paramos; junto a uma pequena lagoa e, depois, ao atravessarmos um riacho que corria e, em ambas as vezes, paramos para matar a sede.

Afinal, comecei a sentir fome; Veneno, decerto, tinha fome também. Em frente, raridade naquele dia, nos aparecia uma casa. Casa, naquele sertão: era de taipa crua, coberta de palha. Só mais tarde, debaixo dela, vi como a palha era bem trabalhada, tecida em leques bem encartadinhos, obra de índio, sem dúvida. Podiam ser índios que vivessem ali, mas nesse caso haveria de ser índio manso. Bati palmas, chamei, ô de casa; custou, mas apareceu uma velha, na mão uma faca toda suja de sangue. Não pude nem me assustar, porque ela sorria, mostrando os poucos dentes que ainda tinha. Vinha do quintalzinho dos fundos, dando a volta pelo oitão:

— Me desculpe, Sinhô, a faca na mão. Estou ali atrás, tratando de um preá que o meu filho trouxe. Não quer desapear?

Então era isso. Sorri também, aliviado. Apeei, aliviando igualmente o pobre do Veneno. Afrouxei-lhe a cilha, perguntei à velha se havia ali onde o meu cavalo bebesse.

À esquerda da casa tinha uma cacimba. Perto da cacimba tinha um cocho. Dentro da cacimba tinha uma cabaça do tamanho de um pote. Era só eu trazer a água lá de baixo, botar no cocho e deixar o cavalo beber. Tudo isso a velha explicou, sorrindo sempre, assoviando entre as falhas dos dentes, como uma bruxa em história de feiticeira. E ajuntou:

— Mas, pro Sinhô beber eu tenho aqui no pote água bem fria, coadinha.

Tirei a sela do Veneno, o freio, o bridão, deixei-o só com o cabresto. Puxei por ele até à cacimba; eu já conhecia esse tipo de aguada: um buraco fundo — aquele teria mais de duas braças de fundura e quase uma braça de diâmetro. Cheguei à água por uma rampa forte, cavada até lá em baixo.

Era difícil de subir com a cabaça, mas sempre consegui encher o cocho. Botei Veneno pra beber. Andei uns passos, gritei pela velha se podia tomar um banho. Ela disse que sim, mas cuidado pra não cair água do banho na cacimba: é de lá que a gente bebe.

Eu trouxe mais uma cabaça cheia, tirei a roupa, fiquei nu, me escondendo atrás de Veneno; lavei o suor do corpo. Lembrei um verso antigo: “Pena que não pudesse lavar também as amarguras”.

Vesti de novo a roupa, em cima da pele molhada. E fui perguntar à velha se haveria também ali um lugar onde o meu cavalo pastasse um pouco. Pasto, mesmo, a velha não tinha, mas podia se arranjar uma cuia de milho. Molhamos o milho seco e o pusemos em outro cocho que eles tinham no quintal.

Enquanto eu me envolvia com a cacimba, a velha levou o preá a cozinhar, numa panelinha de barro; o fogo era de trempe, no terreiro de trás. E me convidou:

— Sinhozim não quer comer um pedaço do preá com pirão? Num instante cozinha.

Eu agradeci e aceitei. E, enquanto esperava, deitei-me à sombra da cajazeira alta, onde já estava amarrado o Veneno, lambendo os últimos caroços do milho e abanando as moscas com grandes vassouradas da cauda. Fiz da sela e do rolo de roupa um travesseiro, e cochilei até que a velha me chamou, com um prato de barro na mão, onde a carne e o pirão fumegavam.

Depois da comida, conversamos. A velha me deu de beber um chá cheiroso “que é muito bom pra barriga”. Contou que aquelas terras onde ela morava com o filho nem se sabia bem de quem eram. Falava o povo que eram de um homem rico que vivia na Cidade da Bahia, parece. Ela e o filho chegaram ali depois que o pai do menino morreu de coice de uma vaca brava; eles, desgostosos, deixaram o lugar do sucesso. Se agradaram daquele canto, onde a cacimba já estava meio cavada. Junto tinha o esqueleto de uma tapera abandonada pelo morador antigo. Levantaram de novo a casa, aumentaram a cacimba e já estavam vivendo ali fazia tempos.

— Quanto tempo?

— Nem eu sei. Faz anos. Meu filho Jacó estava apontando a primeira barba, agora já está na força do homem. Quer se casar com uma moça da vila, mas ela tem medo de vir para esta solidão.

Eu me animei:

— Tem vila aqui perto?

— Tem, inhô, sim. Se chama Bom Jesus das Almas. Já estão até levantando uma igreja.

— E tem Padre?

— Padre ainda não tem. Mas quando a igreja ficar pronta, diz que vem um Padre, direto da cidade pra cá.

— Que cidade?

— Disso também eu não sei. Pode ser do Crato. Não sei. Só ouvi falar que ele vinha.

Resolvi chegar até essa vila tão esquecida do mundo, onde não havia nem ao menos uma igreja.

Passada a sesta, selei Veneno, me despedi da velha que insistia para que eu esperasse pelo filho. Agradeci e recusei — ela não sabia sequer a que horas o filho ia chegar. Podia até ser de noite. Tinha ido caçar nambus para vender na feira, no dia seguinte. Ele vivia de caçada, e na vila sempre tinha gente querendo comprar as caças que ele matava.

 

A vila do Bom Jesus das Almas ficava a umas duas léguas de caminho ruim. Bom nome aquele ‘das Almas’. Porque era um arruado triste, com poucas casas de tijolo e telha. Mas já tinha algum movimento. E no dia seguinte, por causa da feira, desde a madrugada as ruas de barro vermelho se enchiam de cargueiros, trazendo nas cangalhas feijão, arroz, milho. E caçuás cheios de macaxeira, batata, maniva. Fardos imensos de capim de vazante, que escondiam o burro debaixo deles.

Famílias inteiras vinham tangendo uma vaca; outros traziam bode, porco, puxados por uma corda. E muitas galinhas, de bico para baixo, amarradas pelos pés juntos, como um ramalhete.

Eu tinha me arrumado numa espécie de pensão; só consegui a princípio uma rede num corredor, que a casa estava cheia em razão da feira.

O povo chamava a pensão ‘a Casa da Preta Forra’. A dona, me disseram, trabalhou trinta anos para juntar o dinheiro da alforria que o senhor cobrava: duzentos e cinqüenta mil réis. Chamava-se Filomena; parece que a vila inteira havia participado da festa da alforria. E Siá Mena se gabava, batendo no peito de rola gorda:

— Duzentos e cinqüenta mil réis! Juntei vintém a vintém! Muita sinhá branca não leva isso de dote!

A feira ocupava a praça, defronte às obras da matriz futura. Fiquei andando entre os feirantes, comprei uma penca de bananas que ia comendo enquanto andava. Aprecei um cinturão de couro, que era muito caro. Um bacorinho gritava, desesperado, nas mãos do dono que o mostrava a um senhor idoso. De repente, alguém me puxou pelo braço e vi um caboclo, um vaqueiro, todo encourado com dois papéis de carta dobrados, na mão. Ele tirou o chapéu, deu o bom-dia e perguntou:

— Seu moço, vocemecê saberá ler?

Baixei a cabeça, confessando que sabia e ele implorou:

— Então por caridade me diga o que é que está escrito nestas duas cartas. Uma é do meu patrão pro fornecedor dele; a outra — sorriu, encabulado — é da Sinhazinha pro primo dela. Como é coisa de namoro escondido, não posso misturar as duas, senão dá barulho.

Me mostrou então as duas cartas, dobradas engenhosamente, cheias de pontas que se enfiavam umas nas outras, parecia um quebra-cabeça. Lembrei-me de outra carta que recebi, dobrada assim mas em forma de coração. Afastei a lembrança, procurei os sobrescritos: nas costas de uma, se lia: “Ilmo. Sr. Manuel José do Nascimento”. Na outra carta, escrita com a mesma letra, eu li: “Ao jovem Artur de Lima Vieira”. Perguntei:

— O primo se chama Artur?

— Isso mesmo! Seu Arturzim!

— Então a carta dele é esta. Mas as duas estão sobrescritadas com a mesma letra. Por quê?

— É a Sinhazinha que escreve as cartas todas. O patrão não sabe nem fazer um O com um canudo. Mas mandou a filha estudar pra ter quem escrevesse e fizesse as contas pra ele.

Aquilo me deu uma idéia:

— Aqui tem muita gente que saiba ler e escrever carta, ou faça conta para os outros?

O vaqueiro, satisfeito, segurando as cartas, uma na mão direita, a outra na mão esquerda, e com o maior cuidado para não confundir as duas, respondeu, mordendo os beiços:

— Qual! É a maior dificuldade! Já fazia tempo que eu andava com estas cartas na mão, sem achar um cristão que soubesse ler o escrito...

Fui dali direto para a Pensão da Preta Forra, perguntar a Siá Filomena se não tinha uma mesinha para me emprestar.

Mesa ela não tinha, quem sabe um tamborete? Aí avistei no canto da sala um cavalete com um tabuleiro em cima, coisa pequena, mas me servia:

— E aquele tabuleiro, de quem é?

Era mesmo dela, quando vendia tapioca na rua. Mas ultimamente andava faltando o coco para as tapiocas. E, além do mais, o pessoal só queria comprar fiado...

— A senhora quer me vender o tabuleiro? E esse tamboretinho junto?

Siá Mena riu, feliz:

— Se fosse antes de eu pagar a minha carta de alforria, lhe vendia mesmo. Tudo que rendesse um cobre eu aceitava. Porém agora não preciso mais! Vocemecê leve os trastes, que eu lhe empresto.

Saí dali, fui ao bodegueiro que me pareceu mais sortido, comprei dele meia resma de papel de escrever e um frasquinho de tinta. Roxa. Voltei à casa da pensão, pedi para Siá Mena me arranjar uma pena de pato, das grossas, dessas que servem para escrever.

E quando a mulher, depois de lutar com o pato lá pelo quintal, durante uns minutos, me chegou esbaforida com algumas penas na mão, escolhi a melhor, aparei bem a ponta, em bico. Só então expliquei minha intenção:

— Vou na feira me oferecer pra escrever carta, lista de compra, fazer contas, para qualquer pessoa que precise. Cobro barato... A senhora acha que o pessoal vai querer?

Siá Mena pensou um pouco, considerou a idéia ótima:

— Já vi um escrivão assim num outro lugar que morei lá. O povo fazia fileira em redor da mesa dele. É muito difícil quem escreva, por aqui. Vocemecê tem letra boa?

— Sem gabolice, acho que posso lhe dizer que tenho uma letra ótima. Mas como é que eu vou fazer? Não tenho coragem de me pôr aos gritos, na feira, perguntando quem tem carta pra escrever...

— Nem lhe ficava bem — respondeu Siá Mena. — Um moço bem apessoado que nem o senhor... Mas eu posso mandar um moleque explicar ao pessoal na rua que vocemecê é escrivão.

 

Fui para a feira, me aboletei junto ao meu tabuleiro, pus às vistas o caderno de papel, a pena e o tinteiro, e fiquei esperando. Não esperei muito. Num instante me apareceu o moleque, rebocando dois sujeitos.

— Meu sinhô, esses dois aqui estão querendo, um, mandar um bilhete; outro quer fazer as contas dos bichos que ele vendeu pra três pessoas.

O que queria a carta me perguntou o preço. Eu calculei bem por baixo e pedi um dérreis. Mas só pela escrita: o papel era outro dérreis:

— Um vintém pela folha escrita.

O da conta também indagou do preço. Eu já estava mais seguro:

— Conta de somar e diminuir, se não for muito grande, dez réis cada. Mas de multiplicar e dividir, já é mais difícil, um vintém cada.

— Dando também o papel?

— Dando o papel.

Negócio feito. E enquanto eu escrevia a carta de um, e anotava os frangos, os capões e as poedeiras do outro, foi juntando gente ao redor do meu tabuleiro. Daí a pouco, já fazia fileira, um esperando atrás do outro que eu acabasse uma carta ou uma conta, para atender novo freguês. Ao todo, no fim da feira, eu tinha escrito oito cartas e feito seis contas de somar e cinco de dividir. Apurei ao todo trezentos réis. Não era um mau começo. E, principalmente, eu tinha descoberto uma nova profissão para mim.