Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 17 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 16 — Maria Moura

Maria Moura

 

SAÍMOS nós todos, afinal, numa madrugada. Tudo bem montado, bem arreado, muitíssimo diferente do bando de cigano fujão que a gente parecia, ao se escapar naquela noite medonha do fogo, no Limoeiro.

Na estrada real, confrontando com entrada para a vila da Lagoa das Emas, Zé Soldado tinha visto uma espécie de barracão de pouso, onde faziam dormida os viajantes. O barracão pertencia a um sujeito por nome Prudêncio ou Juvêncio (ele não escutou bem) e que, ajudado por uma escrava, fornecia pouso e comida aos passageiros. O homem tinha milho armazenado para os cavalos, água para se beber e lavar, tirada de uma cacimba que ele mesmo cavou, no leito de um riacho perto. No alpendre do galpão tinha muito lugar para armar as redes dos hóspedes. A escrava cozinhava a janta dos viajantes.

Era um pouso de parada; de vez em quando, pelas estradas de mais movimento, se encontrava um deles. Até eu sabia disso; me lembrava que de uma vez, quando eu menina, nos arranchamos num pouso. Foi uma viagem que fizemos para receitar Mãe com um doutor muito falado do Pombal.

 

Levamos mais de dois dias a cavalo para chegar perto da Lagoa das Emas. Devagar, porque eu queria poupar os animais. A mais ou menos uma légua antes da vila, tomando por umas veredas e nos perdendo às vezes, desviamos em procura da estrada real. Gastamos nisso quase todo o terceiro dia. Por fim, demos com ela. Chamar aquilo de estrada já era um exagero e ainda por cima real! Mas, para quem andava por onde nós andamos, era pelo menos um caminho aberto, trilhado, com as suas duas braças de largo. A sorte foi que saímos quase em cima do tal rancho: subimos um cabeço na estrada e, de repente, lá estava o telhado grande, de palha, do pouso.

Mandei os rapazes se meterem de mato adentro: fiquei só com João Rufo e o Juco que, montado no potro, me servia de pajem. Idéia de Siá Libânia que nunca tinha visto moça branca sair por aí sem o moleque seu pajem. E eu concordei. Era bom o Juco ir aprendendo. De pequeno é que a gente prepara os homens de confiança. Estavam aí João Rufo e os outros três, todos crias do Pai, no Limoeiro.

Cheguei pois ao rancho, acompanhada de João Rufo e do menino. João Rufo portava a arma ostensiva, para todo mundo ver.

Tomando chegada, salvamos: “Ô de casa!” O pouso, ou pousada, não passava de uma espécie de telheiro coberto de palha de catolé, muito bem trabalhada, por sinal. Era todo montado em forquilhas, fazendo um vão muito grande. Dava lugar para umas doze redes, atadas de forquilha em forquilha. Só um lado do barracão era fechado por uma parede de taipa e, atrás da parede, se via um puxado com um fogão de barro, onde ardia uma ninhada de brasas.

O dono da casa saiu para nos receber. Depois da boa-tarde, perguntamos se a gente podia pousar ali — João Rufo explicou que a nossa viagem era para a Lagoa das Emas. Eu vinha morar com uns parentes de minha mãe, que tinha morrido:

— Eu aceitei acompanhar a dona, mas já estou arrependido. É viagem muito grande e perigosa. E a moça é meio mofina, nunca fez jornada grande a cavalo. Basta dizer, por exemplo, que estranhou tanto a sela de andilha, pra montar de lado, que vivia só querendo cair, se queixando de uma dor no vazio; a tal ponto que, no terceiro dia, numa casa onde nós paramos, achei quem me trocasse a sela de mulher por uma de homem. Foi só assim que ela se acomodou melhor.

João Rufo dava todas essas explicações por sentir que o homem (que se chamava mesmo Juvêncio) tinha estranhado o meu jeito de montar. E agora, olhando para mim, Seu Juvêncio comentou:

— Mofina? Ela parece que nasceu em cima desse cavalo!

João Rufo riu-se:

— Ela vestiu essas calças de homem, disse que era para ficar mais decente. E eu até acho bom, porque o povo pensa que quem anda comigo é um rapaz. Me dá menos cuidado.

O Juco desceu os sacos das redes que trazia na garupa do animal e as cordas que vinham junto; foi armando cada rede onde o Juvêncio mandava.

Quando falaram em janta, eu disse que não queria comer nada. Mas João Rufo tratou logo de fazer um chibé com rapadura raspada, farinha e água, “para dar sustância à menina”.

É, João Rufo se fazia tanto de meu protetor, na presença do homem, que só faltava me dar comida na boca.

— Eu quero que ele fique na idéia de que passou mesmo aqui uma mocinha mofina, sem ter nada a ver com a cabroeira armada que vai fazer estripulias.

Era eu que tinha dado essa idéia a ele. Mas o João era mesmo assim, se compenetrava demais de tudo que fazia.

Como quem não quer nada, perguntei ao sujeito:

— Seu Juvêncio, como é que é esse seu trabalho? Vocês passam o dia aqui, esperando por quem não ficou de vir, ou têm alguma freguesia certa? Eles lhe avisam quando estão pra chegar?

— Bem, Dona, avisar não avisam, que não tem como. Mas tem sempre uns que sabem quando é que esperam voltar, e me dizem: “Dia fulano eu estou aqui de volta”. E é quase certo que eles venham. Só mesmo se Deus não quiser. Tem também uns tropeiros que nunca falham numa dita semana; se atrasarem é por um dia — e isso só quando um animal adoece. Porque, se adoece um homem, eles ajeitam o doente em cima da carga, pra não atrasar a viagem. Uma vez me deixaram um doente aqui por mais de um mês. Tinha quebrado a perna, que acabou arruinando, e então tiveram que levar ele pra cidade. E lá o que fizeram foi cortar a perna do pobre, nem sei se escapou. Nunca me deram notícia.

— Agora, por exemplo, está esperando alguém?

— Tem um doutor que é dentista, de seis em seis meses ele passa por aqui e pousa. Anda num cavalão grande, maior ainda que esse de vocemecê. E traz o ordenança, que anda numa burra estradeira, levando a caixa dos ferros do doutor. Esse, deverá de chegar pra semana. E, amanhã, estou esperando de volta o comboio do Zé Pedro, que se arranchou aqui na ida, carregado de fumo e algodão. Devem trazer agora carga de açúcar, café, pano e sal; às vezes traz até uma ou duas pipas de cachaça ou uma caixa de louça de mesa. É pra um comerciante do Pau Ferrado, a terra deles. Fica longe, acho que é daqui pra mais de vinte léguas.

O homem era falador, mas eu já sabia o que queria; dei a boa-noite, tirei as botas, me estirei na rede já armada. João Rufo me cobriu com a baeta e tratou de se estirar também. O Juco já dormia, enrolado na rede como uma lagarta no casulo.

Manhãzinha nos despedimos, pagamos ao Seu Juvêncio os quatro tostões que nos cobrou pela hospedagem, contando como o milho dos cavalos. João Rufo reclamou da carestia.

Saí na frente, esquipando no Tirano, agitada com todas as coisas que a gente ia ter que enfrentar. E com um frio na barriga, medo de que nosso plano não desse certo.

Assim que descemos o alto, do outro lado, e saímos das vistas do Juvêncio, andamos um pouco e entramos pelo desvio onde Zé Soldado tinha deixado um sinal: dois galhos de marmeleiro, postos em cruz. Seguimos então pelo rastro dos outros, de mato adentro. João Rufo tinha também combinado um aviso: piava numa chama pra passarinho — três pios, seguidos de mais três e depois dois. Com pouco os rapazes saíram do mato e vieram nos encontrar.

Juntos, seguimos até o lugar onde eles tinham dormido: lá estavam os cavalos amarrados e a pouca bagagem. Na mão só tinham as armas. Perguntei aos três se estavam dispostos a tudo. E eles disseram logo que sim, mas eu ainda insisti:

— Pra tudo mesmo?

Maninho adiantou-se:

— A gente está mesmo é louco pra fazer alguma coisa! Passamos a noite inteira se coçando, deitados no mato, mas não era urtiga não, era só impaciência, Dona!

Fiz com a bota um limpo no chão, comecei então a riscar na terra com uma varinha:

— Olhem bem: aqui é a estrada. Aqui, neste quadrado, é o pouso. Os tropeiros vão chegar de tarde, espera o dono, lá. Fechando a noite, os tropeiros já ferrados no sono... e a gente faz assim... assim... assim...

 

O meu medo era que o comboio chegasse na parte da manhã, e os tropeiros descansassem só um pouco, seguindo viagem depois de comer. João Rufo achava que não havia risco disso, esse pessoal já tem tudo regulado, sabe as horas em que sai do ponto da merenda e calcula pra chegar ao da dormida no fim do dia.

— Eles vão passar a noite lá, sim. Não viu o Juvêncio contar que eles, mal descarregam os burros, já estão pedindo comida e caindo no sono, rendidos de cansaço?

Pois foi dito e feito: assim que a tarde caiu, mandamos Zé Soldado ficar de vigia na beira da estrada, já abaixo do cabeço, de onde se avistava o barracão do Juvêncio. O rapaz se escondeu nas moitas, quase no pé do alto. E, assim que escureceu, foi pra tão perto da pousada que dava bem para ouvir o que fosse dito por lá.

Com pouco — ele nos contou depois — mais sentiu do que viu a poeira levantando, já ali junto. Um instante e logo dava para divisar a tropa que chegava, meio estropiada: oito burros de carga e três comboieiros tocando. De longe, já vinham gritando pelo Juvêncio:

— Juvêncio velho, manda essa negra assoprar o fogo que a gente tá de barriga chorando!

Num instante chegaram. Os burros traziam carga leve — fumo, sal, uns poucos fardos de pano. Dois dos animais mais magros vinham batendo a cangalha: raramente os tropeiros montavam neles para dar alívio às pernas.

Juvêncio saiu no terreiro recebendo o comboio, gritando também:

— Já vai, já vai! Comida tem, dá pra todo mundo!

E os homens foram entrando, amarraram o cabresto dos burros nos mourões que já estavam ali para isso.

Pediram água, beberam, lavaram a cara; foram tirar os arreios, descarregar os animais; depois trataram de ir dar de beber a eles na cacimba. Juvêncio recomendou:

— Botem a água deles no cocho! Não vão me sujar a cacimba!

Os homens riram. Qual, eles estavam até pensando em irem se aliviar na porcaria daquela cacimba velha!

E o Juvêncio, rindo também, respondeu com um palavrão e foi apressar a negra que já mexia na panela com a colher de pau.

Quando os homens tornaram da cacimba, seu Juvêncio já tinha preparado as mochilas de milho para os burros; enfiaram os tirantes das mochilas pela cabeça dos animais; e foi cada um atar a sua rede, enquanto esperavam que o de comer ficasse pronto.

O chefe deles, que se chamava Zé Pedro, gostava muito de falar. Contava as novidades da rua, as carestias de tudo, um prato de comida custando os olhos da cara.

Juvêncio indagou por que eles traziam tão pouca carga dessa vez, e o Zé Pedro aí falou baixo, mas sempre deu para o meu rapaz ouvir:

— O patrão tinha interesse era no apurado. Queria era o dinheiro. Comprou uma partida de gado que veio do Piauí, e o dono quer o dinheiro à vista — e aí Zé Pedro devia estar apalpando o papo de ema que trazia na cintura, porque disse mais: — não sei quanto tem aqui dentro, que eles amarraram a boca do cinto com um nó cego na correia fina. Mas até moeda de ouro eu vi.

Pelo visto o Juvêncio era de toda confiança; ou quem sabe o tal do Zé Pedro era um desses buchos-furados que não guardam segredo de nada? Tem gente assim: fala de gabolice, sem saber o risco que pode estar correndo.

A negra chegou com a comida na panela, cada um pegou o seu prato e a sua colher. Comeram, beberam água, fizeram o Pelo Sinal e caíram na rede como se morressem.

Tudo isso Zé Soldado escutava e até via, agachado perto da parede dos fundos; tão perto que, se facilitasse, os cabras podiam até ouvir o fôlego agitado dele.

Pouco além nós estávamos esperando. E também fomos nos chegando devagarinho, e o Zé nos avisou de que os tropeiros já estavam dormindo.

Naquela hora da noite não passava ninguém mesmo pela estrada. Se era sem movimento durante o dia, no escuro, então, só alma penada podia andar por ali. E aquela nossa noite, especialmente, estava um breu.

Deixamos os cavalos amarrados num juazeiro grosso e alto que parecia todo preto com a sua folhagem cerrada. O Juco ficou tomando conta deles e jurou que não tinha medo nenhum. Isso de deixar os cavalos era porque a gente devia ter as mãos livres. Além de dominar os comboieiros, ainda se tinha que apanhar e encangalhar os burros que iam levar as nossas cargas para o Socorro.

Cada um com a sua faca — até eu, que nunca tinha pegado em arma branca. Trouxe comigo a faca do barbudo da estrada. Aquela operação tinha que ser a ferro frio, que não erra pontaria nem mente como arma de fogo; e, além disso, faz mais medo aos assaltados.

Quando eu ensaiava o golpe, ainda no Socorro, a gente tinha dado com o monte de trapos da velha Libânia, que não jogava um molambo fora, por mais velho que estivesse. E, com a ajuda dela, fizemos não sei quantos palmos de tranças, o mais forte possível, para amarrar o pessoal e botar mordaça neles. Um dos rapazes carregava a sua boa braçada de trançados.

Os tropeiros eram três, quatro com o Juvêncio. Comigo, também nós éramos quatro. E eu comandava.

Chegamos, muito de manso; os burros ainda mastigavam o resto do milho duro dentro da mochilas. Nas redes, os homens dormiam, bem enrolados nelas.

Então os meus meninos se chegaram, macio, macio, levantaram tão de leve as beiradas das redes, que os cabras só acordaram quando cada um já estava de tornozelos amarrados. Depois deram-lhes um nó nos pulsos e os coitados, mal acordados, nem entendiam o que estava lhes acontecendo. Eles tentavam escoicear, mas dentro da rede, com os dois pés atados um no outro, era difícil; e a essa altura já tinham também a boca amordaçada, pra não gritarem nem morderem.

João Rufo empurrou a porta do quartinho dos fundos: num catre que mais parecia um ninho, o Juvêncio dormia, agarrado na negra. João Rufo então amarrou os dois juntos — pés dela com os pés dele, pulsos dele com os pulsos dela. Parece que ela pensou que era ele que puxava por ela e ele pensava que era ela puxando por ele, porque não reagiram, só resmungaram um pouco. Acordaram mesmo quando se viram com as mordaças, mas aí também já era tarde.

Nos cós das calças do que se chamava Zé Pedro, estava mesmo o cinturão do dinheiro. Era um papo-de-ema mais aperfeiçoado que o de Pai. Mais largo e mais fornido; terminava com duas pontas de correia, fechando com um nó cego tão apertado que não se conseguiu desatar nem com o punhal. Foi preciso cortar a correia pra liberar o cinto. Enquanto isso, o cabra Zé Pedro estrebuchava como um condenado no inferno e só se aquietou quando Maninho lhe chegou a ponta da faca, picando o pescoço dele.

Os homens dominados, passamos aos burros. Já que a carga era pouca, resolvemos levar só três deles, que já davam uma boa conta. Não se podia puxar demais pelos recursos do Socorro, que não eram fartos. Nesse começo de verão, capim quase não havia e não se tinha adquirido milho.

As cangalhas escolhemos do melhor, e os melhores arreios. Nem carregamos todos os rolos de fumo. A gente não consumia tanto e a sobra ia se estragar. Pegamos os fardos de pano, o sal que dura sem fim. E os sacos com os mantimentos dos comboieiros comerem em caminho: feijão, farinha, e meia manta de carne seca.

Tinha uma burra preta que era uma jóia; levamos mais um burro alto e ossudo, forte como uma estaca; e, por fim, o terceiro foi um burro bem novo, alto de pernas, que João Rufo considerou o melhor do lote. O resto nós largamos e espantamos para o mato. Feito isso, chegamos perto de Zé Pedro e gritamos no pé do ouvido dele: a gente ia deixar as montarias, com pena deles, para não chegarem em casa caxingando, a pé. Mas tinham que ir pegar os animais na catinga.

Zé Pedro deu um salto na rede com tanta força que só não foi parar no chão por causa das amarras que lhe abarcavam a cintura, por cima da tipóia. Parecia um cabra reimoso, aquele.

 

Seguimos pela estrada real até o ponto de onde se tinha saído. Não havia perigo de deixar rastro, o chão era só pedregulho, seixo miúdo e grosso. Botamos os burros na frente, o Alípio e Maninho pegaram os chiqueiradores de relho do uso dos tropeiros, e iam tocando os animais do alto dos seus cavalos. Os burros estranharam um pouco a falta da estrada, aquele caminho no meio do mato, e estranhavam também os seus novos comboieiros a cavalo; mas acabaram obedecendo, tinham costume disso, obedecer.

Com o andar, o chão de pedra foi se virando em arisco. Aí, o perigo de fazer rastro na areia começava a ameaçar. Por sorte, como não havia nenhum caminho trilhado e a gente andava pelo rumo, lá e aqui pegando uma veredinha que nunca se ia saber se foi feita por gente ou por bicho. Dava ainda para enganar um rastreador sem prática. O mato era todo garrancho áspero, não ficava dobrado no chão, quase não quebrava; depois de pisado levantava de novo.

Nos pedaços de arisco aberto, João Rufo inventou de quebrar uns galhos grandes de marmeleiro e se puxar de arrastão atrás da gente. Os cavalos estranhavam, Tirano até empinou; mas a gente insistiu e, com pouco, aceitaram a novidade.

Na verdade esse nosso medo de rastreador era mais um exagero de cuidado. Eles não deviam ter rastreador competente, eram gente de estrada, tudo tropeiro acostumado a tocar burro. E mesmo que tivessem entre eles quem soubesse rastrear, com certeza iam ter medo de se meter pela mata. Não sabiam onde a gente parava, de onde se vinha, podia mesmo até se armar alguma tocaia contra eles. Foi assim que eu acabei com o assunto:

— Quem deve ter medo são eles e não nós. Eles não sabem nem ao menos quem nós somos, nem de onde a gente vem. Ficaram foi apavorados.

 

Com dois dias chegamos em casa. Casa, sim; o Socorro para nós já era mesmo a nossa casa. Andamos depressa, choutando, galopando; a água era escassa de encontrar, o retouço do mato não matava a fome dos animais.

Vínhamos tocando na frente os burros de carga, os meninos gritando de alegria, as crianças vindo se meter debaixo dos pés dos animais. E o mais alegre de todos era o velho Amaro, que correu me ajudar a desmontar e gritava também, olhando os burros carregados:

— Isto é a fortuna de Deus! A fortuna de Deus! Não sei onde estou que não pego aquele bacamarte e não dou um tiro no vento, só para festejar!

 

Fizemos um banquete de carne seca, assada no caco, com pirão mole e molho de pimenta. A velha Libânia sabia mesmo cozinhar — como dizia, bastava lhe dar com quê!

Dormimos até digerir e até que passasse o enfado da viagem. Eu, por mim, me sentia ainda meio vazia por dentro. Acho que pelo esforço de comandar o pessoal naquela aventura perigosa, sem deixar que eles vissem que eu tinha medo — e quanto! Mas não era medo da ação, nisso me ficava o sangue frio e de sobra. Era mais a responsabilidade, o medo de não dar certo, de fazer um passo em falso e estragar tudo por que se tinha lutado e arriscado até chegar ali.

Os dias felizmente passavam depressa, os homens entretidos com o trabalho no trato dos animais, no reforço de cerca e até na construção; é que João Rufo, junto com os meninos, levantou um pequeno copiar, um alpendrinho, na frente do meu barraco, para quebrar mais o calor do sol. Daí em diante, começaram a chamar a minha casinhota a ‘Fazenda’. Juco, de noite, armava a rede dele nesse copiar. Dizia que o meu pajem tinha obrigação de estar por perto da Dona.

Era assim que eles agora me chamavam: a Dona. Às vezes diziam também ‘Dona Moura’ e eu achava que estava bem. Acabada era a ‘Sinhazinha’ do Limoeiro; nem tinha pegado aquela história de ‘Chefe’ que o João Rufo inventou. Muito macho pro meu gosto.

E por falar em macho, um assunto que João Rufo veio me trazer, muito cheio de cerimônias, foi a falta de mulher que os rapazes sentiam ali naquele Socorro. Eles antes viviam na rua da Vargem da Cruz, que tinha mulher à vontade, as negrinhas de ganho que os donos botavam de aluguel no mercado vendendo quitanda, carregando cesto e pote d’água. E o mulherio da rua, que era pago, mas (e ele sorria encabulado) para isso sempre se arranja um vintém. Mesmo o Alípio, embora vivendo no Limoeiro, se virava. (Nele próprio, João Rufo não falava.)

— Mas aqui a solidão é demais. Os meninos já estão ficando briguentos, se estranhando, enfezados. Daqui a pouco estão fugindo em procura das vilas, o que eu acho muito arriscado. Acabam trazendo para cá algum estranho curioso, mesmo sem querer.

Eu não tinha pensado nisso. Mulher não é tão exigente quanto homem; e eu, afinal, só conhecia de homem o Liberato. E era um caso tão culposo, tão envergonhado, me fazia tanto mal, que eu não podia mesmo sentir falta daquilo.

Afinal, um dia de manhã, pouco depois do Juco ter vindo, muito em segredo, me denunciar que os cabras andavam se combinando de ir na vila, fosse como fosse, nem que fosse de noite pra voltarem na madrugada — de repente apareceu na lagoa um bando de índias com umas grandes cabaças na cabeça. Tinham vindo pedir da nossa água.

Amaro me contou que esses índios eram o que restava de uma aldeia antiga, assentada umas duas, três léguas mato adentro.

Lá eles tinham um olho d’água que nascia num serrote, por isso viviam mais ou menos seguido no lugar. Só quando chegava a safra dos pequis no pé da serra, eles se ausentavam, até acabar a fruta. Ou quando piracema subia o Rio dos Ventos, em tempo da desova do peixe.

Neste ano que passava, o inverno foi fraco, o verão se adiantou e o olho d’água dos índios mal pingava. Era em tempos assim que eles vinham apanhar água na Lagoa do Socorro, cada mulher com a sua cabaça na cabeça, a meninada atrás. Uma caboclada mansa, gente que não fazia mal a ninguém.

Os meus rapazes foram logo se enxerindo para o lado das índias. Algumas delas eram horrorosas, com os peitos pendendo até à cintura; mas tinha outras novinhas, ariscas, que mal se deixavam ver. As velhas se mostravam as mais salientes quando os moços se ofereciam pra ajudar a encher as cabaças e carregar o peso pra elas, até à entrada no mato. ‘Ajudando as índias’ eles passaram a manhã inteira. Da minha rede, onde eu estava, ainda ouvi risadinhas delas no mato mais grosso, a pouca distância.

No dia seguinte João Rufo me procurou, com aquele seu ar importante:

— O problema dos homens está resolvido. Agradeço às índias.

Eu disse a ele:

— Isso foi hoje. Mas daqui a alguns dias?

— Eles já combinaram que vão fazer visita na aldeia. Os índios não se incomodam. Basta levar uma meia garrafa de jerebita.

Eu, ainda assim, me admirei:

— Mas elas são danadas de feias, João!

João Rufo achou graça:

— Sempre tem uma mais engraçadinha. E, numa hora dessas, Sinhá, quem manda mesmo é a precisão!