Memorial de Maria Moura
Cap. 37 — Maria Moura
Maria Moura
JÁ HÁ UNS TRÊS DIAS que se estava esperando a chegada de Marialva. Duarte tinha mandado um bilhete avisando, pela mão de um viajante mais apressado do que eles, comprador de pólvora, vindo de marcha batida para se abastecer numa urgência.
Na mesa do almoço eu li o bilhete para Rubina ouvir e Cirino estava presente, já de volta do encontro com o pai. Logo que a velha saiu da sala, ele disse:
— Estou com vontade de dar um pulo no Garrote. Quero combinar umas coisas com o velho...
Eu me espantei:
— Que loucura é essa, menino? Você mal chegou da última saída. Será que o perigo acabou?
— Eu tive umas notícias boas. Um amigo me mandou recado: mataram o sujeito que tinha mais gana de me pegar e mais empenho em acabar comigo... Com isso os outros devem estar mais desvanecidos.
— Tem certeza?
— É. E ainda por cima meu pai espalhou um boato de que eu tinha viajado para a Bahia.
— Seu pai mesmo recomendou tanto que eu não deixasse você tirar um pé daqui...
— Eu pretendo andar de noite, encourado, com uns dois homens seus emprestados só por uns dias.
Na verdade eu estava gostando da idéia, não queria um confronto dele com Duarte, logo na chegada de Marialva. Mas disfarcei:
— Por que você não espera que o Duarte chegue?
Cirino deu um muxoxo:
— Pra quê? Prefiro ir antes. Não tenho a menor simpatia por esse moleque. Primo!
— Ele é meu primo. Filho do meu Tio Xandó.
— E da escrava Rubina. Eu sei. Ela me contou.
— Quando Duarte nasceu, ela já era forra. Ele nasceu forro também.
Cirino zombou:
— Já viu se dizer que um branco ‘é forro’? Pra ser forro hoje, tinha antes que ser cativo... E nunca ninguém viu um cativo branco, precisando de alforria. Se esse moleque é forro, é porque foi cativo...
Eu estava com tanta raiva que me levantei da mesa para não meter a mão na cara de Cirino. E o pior é que todo mundo devia dar razão a ele — a começar pela Rubina. Mas eu ainda disse, lá da porta:
— Meu senhor, se vocemecê quiser continuar em boa paz nesta casa, nunca mais me venha com essas conversas. Quem sabe de quem eu sou parenta sou eu e mais ninguém. Se lhe digo que Duarte é meu primo, é porque tenho ele como primo. Não me venha querendo mudar os costumes da casa e da família.
Cirino se levantou, me pegou pelo braço e me disse entre os dentes, em voz baixa:
— Não pense que eu não sei das coisas, Moura. Ando com os vaqueiros pelo mato e a gente conversa. E eles dizem que até se pensava, entre o pessoal, que vocês dois ainda acabavam se casando. Você deu muita corda a esse moleque.
Desde a minha briga com o Tonho, que eu não sentia tanta raiva de alguém. E também falei entre os dentes:
— Me devolva já a minha chave. Homem que fala da minha vida particular com os cabras da fazenda não merece a minha confiança. Que é que você conta a eles? A nossa primeira noite?
Cirino mordeu os beiços, furioso também. Meteu a mão entre os botões da camisa, arrancou o cordão de ouro que tinha no pescoço e onde trazia a chave. E jogou longe, no ladrilho, o cordão partido, as medalhas e a minha chave. Saiu num rompante.
Eu me curvei, apanhei o rebolado de miudezas, fiquei com aquilo na mão, respirando fundo, me acalmando. Que é que ele pensava da vida? Que era meu dono, só porque andava dormindo comigo? Maria Moura não tem dono, fique sabendo.
Na verdade, o que vinha me roendo o coração, desde a chegada do bilhete de Duarte, era o problema da situação entre nós dois. Como é que ia ser comigo e ele, depois que Duarte voltasse? Como é que eu ia contar a Duarte a loucura daquela paixão pelo Cirino? Ou seria melhor não contar nada? Duarte podia até pensar que era uma coisa natural eu esfriar com ele, depois da separação. E a presença de Marialva em casa, com o marido e o filho... Sem isso ter nada com o outro homem. A gente nunca tinha sido amantes apaixonados, era mais aquele bem-querer, aquele carinho; ou como dizia Mãe, querendo me explicar o Liberato: “Foi só a amizade que subiu na cama...”
E daí, que bobagem a minha, fazer planos de segredo. Se eu não contasse, Rubina contava. Rubina vivia louca por um pretexto para afastar Duarte de mim, acabar com o que ela chamava ‘aquele paleio’. Bem, talvez ‘paleio’ fosse a palavra certa, amor mesmo nunca houve entre nós. Nunca, entre a gente, se falou em amor. Eu vivia antes naquela solidão, sem carinho, sem um beijo, sem um abraço de homem, sem calor de homem... Duarte também se via só, sem ninguém da sua igualha, nem branco nem preto que ele era. Me disse um dia que mulher, pra ele, até então era só uma galada debaixo das moitas, para desapertar a natureza... “Mas você, agora, assim nos meus braços... neste escurinho... este cheiro bom... às vezes, de dia quando penso em nós neste quarto, duvido, acho que só pode ser um sonho...”
Depois daquela última noite tão carinhosa, quando ele saiu de viagem, começou o fogaréu com Cirino. A paixão. É, paixão. Eu nunca ia pensar que existisse paixão de verdade. Ou, havendo, nunca que eu seria capaz de acreditar que eu também viesse a sofrer de paixão por homem.
Ciúme nele, é claro. Gente como ele se arde todo de ciúme, quer ser o senhor e dono.
Mas, se tivesse de escolher, quem eu escolheria? O caso, porém, não era nem esse. Eu não queria perder nenhum dos dois. Não queria — não podia — me privar de Cirino! E não queria magoar, ou quem sabe mesmo perder, o Duarte.
Assim, deixei Cirino armar a tal da viagem logo no dia do bilhete do outro. Chamei, para saírem com ele, Alípio e um rapaz novato, trazido pelo Roque de uma das últimas viagens. O Pagão logo se influiu e veio me pedir pra viajar com Sinhozim Cirino e eu o ameacei com um cocorote:
— Que viajar que nada, vá cuidar do seu serviço! Sua mãe não se queixou ontem de que você não tem levado água e lenha quando ela pede!
O Pagão se defendeu:
— Mãe é muito inventadeira. E ela disse que se a Sinhá deixasse eu podia ir, não fazia falta...
A Jove ia aparecendo, ouviu a conversa, pegou ela mesmo um cipó:
— Corre já trazer uns paus de lenha, bichim sem préstimo!
Eles chegaram afinal, pela tarde, com muito abraço, muito beijo. Marialva, nesses anos, botou corpo de mulher, engordou, está diferente. É isso, casamento muda as pessoas. O Valentim até me beijou a mão, me chamou de Sinhá Dona Moura, e eu disse que ele me chamasse de prima.
Peguei o menino nos braços, quis lhe beijar a bochechinha, mas ele me estranhou: passei-o logo para Rubina que estava posta atrás de mim e avançou no ‘neto’. O safadinho se calou, fiquei até despeitada. Marialva reparou no meu cabelo curto, disse que me ficava bem, me remoçava. Mas não comentou a minha roupa de homem.
Com Duarte, o encontro foi natural. Ele também me beijou a mão, me perguntou se tudo estava correndo bem — na viagem pensava sempre nisso.
E eu brinquei:
— Se esse cuidado era pela sua pólvora, pode se acalmar; ninguém explodiu ela!
À noite, Cirino ainda não tinha chegado: mas não devia demorar mais dias. A última combinação comigo foi que devolvia os meus homens, se resolvesse passar um tempo no Garrote. Dependendo de como as coisas andassem por lá. Conforme estivessem as modas — foi o que disse — se o tempo estivesse limpo pra ele.
Na hora da ceia comemos todos juntos, menos o menino que já dormia. Rubina não saía de trás da cadeira de Marialva, de vez em quando lhe passava mais uma colherinha de doce, mais um golinho de chá, mais uma hóstia de queijo. Duarte olhava as duas sorrindo, feliz com aquela alegria da mãe.
Valentim era muito cerimonioso, muito educado: comia com uns modos tão bonitos que até parecia um moço rico.
Eu tive a idéia de chamar para a nossa ceia o Beato Romano, embora ele se fizesse cada vez mais arisco; parece que tinha encarnado mesmo no beato, cumprindo ao pé da letra a sua proposta de ser apenas o beato dos meus cabras. Rezava, ensinava a doutrina, ajudava doente a morrer. Não podia, e talvez nem devesse, lembrar o tempo em que tinha sido padre. Raras vezes, nas noites em que não havia ninguém de fora em casa, ele aparecia no alpendre, aceitava um chá de cidreira, me contava como andavam as coisas com os homens. Já vinha ficando com a barba toda malhada de branco, sempre magro e, agora, um pouco curvo. Não dispensava mais a companhia do bordão, que era um grande cacete de madeira de jucá, o castão enrolado num C, que Mestre Quixó tinha preparado para ele, entortando o pau com a ajuda de uma fogueirinha.
Eu me preocupava com a batina — ou samarra —, não deixava que ficasse muito velha e remendada. Rubina prometia lhe costurar um camisão novo pelas festas de fim de ano; as apragatas ele mesmo aprendeu a fazer, até ficando perito nesse tipo de trabalho em couro. Fez para mim uma bolsa, fez uma bainha de faca para Duarte. E no dia seguinte à chegada de Marialva, fez umas apragatinhas para o neném que pareciam uma coisinha de brinquedo. Daí, eram só mesmo pra brincar, que o menino ainda nem andava.
Na hora em que fui convidar o Beato para comparecer à ceia, aproveitei para perguntar se ele poderia batizar, aqui mesmo em casa, o nosso afilhado. A Maria Moura, da Casa Forte, não podia se apresentar numa igreja. Com a fama que eu já tinha, não sei como podia ser recebida por alguma autoridade, especialmente o Padre do lugar. E daí, a maior impossibilidade havia de ser achar-se igreja e Padre pela nossa sertania, onde se vivia sem fé nem temor de Deus.
E se eu fosse longe, à procura deles, ainda sofria o risco de algum delegado entusiasmado se meter a me dar voz de prisão; e aí a gente tinha que brigar com os meganhas e até mesmo matar algum.
O Beato resistiu:
— Dona Moura, desde que estou aqui, o que mais procuro é me esquecer de que um dia fui padre.
— Mas eu já vi o senhor, aqui mesmo, batizar aquela menina da Zita que nasceu quase morta.
— Isso foi um caso in extremis, eu não podia recusar o batismo.
— In o quê?
— Quer dizer que a criança estava morrendo e eu não podia consentir que morresse pagã.
— Por falar em pagã... e o Pagão? Quer dizer que o senhor também não batizou o Pagão? A Jove me contou diferente.
— Ele estava se criando como um bicho bruto. Batizei em segredo, mas vejo agora que a Jove me traiu a confiança.
— Não traiu não senhor. Ela pensa que, aqui, eu tenho direito de saber de tudo, até os segredos.
— Claro. Não discuto a sua autoridade. Desculpe.
— Pois o caso agora é parecido: esses meus primos andaram mais de três semanas para me trazerem o afilhado. Vão ficar morando aqui. Se a criança morrer de repente, o senhor é que vai ser culpado por ele se acabar pagão.
O Beato ficou um momento calado. E eu lembrei:
— E se o senhor batizasse mesmo na figura de Beato? Não podia? Beato, para o nosso pessoal, é até melhor do que Padre. Um deles veio me dizer que o Beato vive mais perto de Nosso Senhor...
Olhou para mim, fixo, depois foi sorrindo devagar, acho que agradado da idéia:
— Quem sabe?
Eu tomei o ‘quem sabe’ como um consentimento:
— Pois então vamos logo marcar esse batizado. Que tal a semana que vem?
O Beato fez sinal que sim e me pediu:
— Mas, por favor, não faça muito arruído. Eu posso batizar, mas o fato é que estou afastado do sacerdócio. O ato será válido mas não é lícito.
Eu guardei até hoje aquelas palavras: ‘válido e lícito’; mas não entendi. E quis me garantir:
— Mas o batizado é de verdade, não é? Não vai ser um batizado suposto?
O Beato cruzou os braços e olhou para mim, já de novo duro:
— Por que a senhora faz questão do batizado não ser falso? Nunca lhe vi preocupada com sacramento nenhum. Pelo contrário, até usava para os seus fins o sacramento da penitência...
Olhei para ele e tive foi vontade de rir. Vestido naquela samarra desbotada, uma corda na cintura, os pés nas apragatas de rabicho, a barba comprida e maltratada, não tinha nada mesmo daquele Padre novo, bem calçado, bem embatinado, até bonito, a quem eu fui me confessar na Vargem da Cruz.
Mas não me ri; falei sério, tal qual ele:
— Eu posso não ser devota dos santos, como aquelas mulheres da Vargem da Cruz; eu sei que sou diferente. Mas, como já lhe disse, só faço mal a quem me faz mal primeiro... Ou a quem eu sei que é ainda pior do que eu. Não uso o que eu tenho para fazer o mal... O senhor nunca me viu maltratar um dos homens, nem mulher, nem menino...
O Beato Romano escondeu o rosto entre as mãos, senti até medo de que estivesse chorando. Afinal tirou as mãos do rosto. Não, não chorava, mas parecia muito triste:
— Eu que o diga, Dona Moura... eu que o diga. Só aqui eu achei piedade, sabendo a senhora quem eu sou.
A conversa estava séria demais e eu estava começando a me sentir meio aflita. Tentei brincar:
— Pelo menos ainda não caí na tentação de procurar o prêmio pela sua cabeça...
Ele sorriu junto comigo:
— Hoje, com a sua riqueza, um conto de réis não é mais tentação grande!
Veio se aproximando o Pagão:
— Bença Padim Beato!
O Padre passou a mão pelo cabelo amarelo e arrepiado do menino que botava nele aqueles olhos agateados, e disse:
— Deus te faça um santo!
E eu dei um muxoxo:
— Desse aí eu duvido.
O Beato repetiu o sestro que ele pegara, de apertar a corda na cintura; parecia até que vivia se castigando. Ficou de novo muito sério:
— Deus escolhe os seus santos da forma mais estranha, Dona Moura!
E saiu, seguido do menino, que trotava corno cachorrinho atrás dele.
Depois da ceia, esperei e ao mesmo tempo tive medo de que Duarte me procurasse, me fizesse algum sinal; pelo menos, me passasse por perto, como costumava antes. Mas Duarte não gostava de dar demonstração de nada. O chamado tinha que partir sempre de mim.
E realmente, naquela noite, Duarte nem sequer me olhou; sim, nem uma vez cruzou o olhar com o meu.
Rubina circulava, da mesa para a cozinha, tatalando a eterna saia engomada, sempre cheia, como vela de barco no mar.
Digo assim por modo de dizer, já que eu nunca vi o mar. Com esta vida que levo, será que posso ver o mar, um dia? Nem o mar, nem mesmo uma cidade maior, uma cidade de verdade, com carruagens de cavalo como já vi em figura. Emprestaram a Pai um livro, e ele nos mostrava. Igreja cada qual mais linda. Qualquer hora vou pedir ao Beato Romano que me conte como é que são as igrejas na terra dele.
Eu procurava me distrair com esses pensamentos, mas na verdade mesmo não tirava o sentido do comportamento de Duarte. E de repente veio uma luz: Rubina! Rubina andava nas suas sete quintas, saliente demais, feliz, feliz. Com Marialva em casa e o ‘neto’, e o ‘genro’, e Duarte de volta. Na certa desabafou o coração com o filho, contou o que tinha visto de mim com o Cirino. O precioso filho forro dela agora estava livre de amores loucos e perigosos, que só podiam trazer desgraça; e que ela não ia aprovar nunca.
Duarte mesmo me preveniu um dia: “Mãe, com ela é lê com lê, crê com crê”. Deu um suspiro e continuou. “Às vezes eu não entendo mãe. Ela é capaz de perder todo o respeito à Firma e se agarrar com ela, bater nela; e, ao mesmo tempo, zela pela lei do cativeiro. Como se fosse o próprio Deus Nosso Senhor que houvesse repartido o mundo entre os brancos e os pretos, os brancos mandando e gozando, os negros trabalhando... Não entendo mesmo mãe. E ao mesmo tempo ela é tão orgulhosa!”
Eu dei minha opinião:
— Pois eu acho que ela faz isso tudo por orgulho mesmo. Não quer bondade de ninguém. Não quer esmola de ninguém. Se ela não sair do lugar dela, ninguém vai lhe dizer que conheça o seu lugar.
Duarte ficou pensativo um instante:
— Sabe que nesse ponto eu puxo a ela; ou então, aprendi com ela. Não gosto de me adiantar nunca.
E aí me abraçou com força:
— Por mais que eu goste da minha Sinhazinha — já viu! Não me atiro nunca, fico esperando o chamado dela.
E eu juntava agora os alvoroços da Rubina com as esquivanças de Duarte — só podia ser isso mesmo. Ele já estava sabendo o que ela tinha descoberto a respeito de mim e Cirino.
E assim, acabada a ceia, Duarte foi o primeiro a se levantar, pediu licença, disse que precisava falar com João Rufo, tinha umas ordens a dar. E saiu rápido, sem olhar pra ninguém. Menos que todos para mim.
Ai, a gente na verdade não sabe nunca o quer quer. Pois eu fiquei contrariada com aquele desembaraço de Duarte em se livrar de mim, como se a gente nunca tivesse tido nada um com o outro. Mas que é que eu queria? Estar com ele esta noite, matar as saudades — e quando Cirino voltasse? Recomeçar toda a loucura com Cirino e de novo passar Duarte pra trás?
No escuro, na cama, quando me vi estava chorando. Enxuguei os olhos no lençol, danada da vida. Te aquieta, Maria Moura. Você não é mulher de chorar, nem mesmo escondido.
Cadê a Dona da Casa Forte, a cabecel desses homens todos, que comanda de garrucha na mão e punhal no cinto? Com vinte bacamartes carregados, garantindo a retaguarda, para o que der e vier?
Mas ali, na cama vazia, vestida na minha camisola cheirosa a manjericão (será que eu estava com alguma esperança de que Duarte me aparecesse ali?), eu não tinha vontade nenhuma de ser durona, tinha vontade era de abrir a boca e cair no berreiro, tal e qual o Xandó estava fazendo naquele instante mesmo.
Mas logo ele se calou, resmungou um pouco, parece que dormiu. Eu é que não dormi o resto da noite e de manhã me levantei de olho fundo. E até me assustei com a cara que vi no espelhinho, quando fui lavar o rosto.