Memorial de Maria Moura
Cap. 18 — Maria Moura
Maria Moura
ARRANJAMOS UM recruta novo, no Socorro. É um cafuso, mais pra caboclo. Tem uns trinta anos, meão de altura, muito forte. Velho amigo do Amaro e da Libânia, que só o tratam por ‘meu fio’.
A princípio até me assustou, porque se apresentou armado, bacamarte a tiracolo, faca lambedeira no cinto. Vestia calça de pano grosso em vez das ceroulas compridas, amarradas no tornozelo, de uso geral por ali. A camisa era solta chegando quase ao joelho. Trazia um braço numa tipóia suja; quando cheguei no terreiro dos velhos, ele com alguma dificuldade se levantou do banquinho onde sentava, tirou o chapéu de couro:
— Bom dia, Senhora Dona.
Dei o bom-dia de volta, perguntei quem era ele. Mas foi o Amaro que falou pela visita, explicando que era um amigo antigo do filho deles e que se chamava Roque.
Eu olhava fixo para o armamento do homem — estava achando ruim aquele tamanho aparato num cabra desconhecido. Mas quando perguntei se ele andava em guerra, o desconhecido fez um sorriso encabulado e tentou depressa tirar a bandoleira do bacamarte; mas embaraçou com a tipóia. E foi explicando, meio gaguejado:
— Desculpe, Dona. A gente anda tanto tempo com essa desgraça pendurada no ombro que até se esquece dela. Foi atrevimento meu chegar aqui desse jeito. Mas eu só esperava encontrar os tios velhos.
Eu ainda não estava gostando:
— Mas — fora ser amigo dos velhos — quem é mesmo você?
— Eu, Dona? Pra falar a verdade a Vossa Senhoria, eu posso lhe dizer que sou um cabra de aluguel.
— Capanga? De quem?
Vi que o homem estava morto de cansaço, o braço devia lhe doer. Mandei que se sentasse primeiro e falasse depois. A Libânia vinha me trazendo outro tamborete.
A história do Roque era simples. Nascido na Fazenda Coqueiros, lá de onde tinham fugido o Amaro, a mulher e os filhos:
— Mas nunca fui cativo. Tenho mais raça de índio do que de preto, sem desfazer de ninguém. Me criei moleque de bagaceira, porque a fazenda não era de gado, era engenho. Carregava cana em cambito, para a moenda, junto com o Terto, filho deles. Quando me botei a homem, não agüentei mais aquela vida velha. O Sinhô queria tratar nós forros como se a gente fosse tudo negro dele. Um dia o Sinhô mandou me meter o relho e eu então ganhei o mundo. Foi pouco tempo depois do Tio Amaro, junto com o Terto e os outros, terem desabado, numa fugida grande. Se escaparam uns onze escravos, entre homens e mulheres. Mas aos poucos foram pegados todos. Aquele capitão do mato deve ter pauta com o cão; a gente só chama ele ‘o Herodes’. Como eu gostava de atirar, achei serviço de guarda-costas de um padre; quando ele viajava nas desobrigas, tinha que carregar o cálice de ouro de dizer missa e o dinheiro que o povo dava, principalmente os senhores nas fazendas. E o padre velho não podia contar com o sacristão, nunca vi cabra mais esmorecido. Andei com o padre velho uns dois anos, depois ele largou de ser vigário, estava muito idoso para aquelas viajadas. Era um santo. Deu até uma carta me recomendando a um compadre dele que andava metido numa briga danada; questão de extrema de terra. Mas ô homem cru! Quando eu levei este tiro no braço e desmaiei, ele me deu por morto e me deixou no mato, como se fosse um cachorro. Foi longe daqui, umas cinco léguas. Vim pedindo esmola de casa em casa; o povo, me vendo armado, tinha medo e me dava o que tivesse.
— E o bacamarte é seu? — eu perguntei.
— Agora é. Não sei como o patrão não me arrancou ele. Acho que de medo, não fui só eu o baleado. O filho dele também saiu ferido. Na carreira, se esqueceram de me tirar a arma, ou não puderam.
Deu um suspiro fundo, levantou a cabeça:
— É, agora o bacamarte é meu. Paguei ele com o meu sangue.
A Libânia já chegava com uns trapos e a garrafada de arnica.
Eu me levantei:
— Muito bem. Se cuide, veja se fica bom. Se o Amaro responde por você, está certo. Nós conversamos depois.
Amaro me acompanhou até a ‘fazenda’, e ia contando:
— Sinhá, ele teve notícias dos meus filhos, um conhecido contou. Apanharam um bocado quando saíram daqui. Não se conformavam com voltar pro cativeiro, mas o pior era terem deixado nós aqui e as crianças. Mas não quebraram osso deles, nem matavam de fome. Quando chegaram nos Coqueiros, o Sinhô dizia: “Cuidado com esses negros! Não maltratem nem aleijem. Cada um deles me vale mais do que cinco cavalos de sela! E eu não quero jogar no mato o meu capital!”
E aí foi a vez do Amaro suspirar:
— É, eles trabalham muito, mas está tudo vivo. Quem sabe, Deus ajudando, eles ainda fogem outra vez! Nem que não venham pra cá.
Com poucos dias o Roque já estava com o braço sarado. O pedaço de ferro apostemou, saiu uma ponta dele, Siá Libânia conseguiu puxar pra fora. Cobriu com folha de mamona e depressa estava bom. Não deixamos que o cabra ficasse às vistas, na beira da lagoa, junto com os velhos. Mandei o meu pessoal fazer um barraquinho pra ele, encostado numa árvore, parecendo um ninho de maria-de-barro.
O Roque não tinha se gabado — era bom atirador. Trouxe um resto de munição, com ela ia praticando com os meninos. Mas bom mesmo ele era na briga de faca. Levava sempre vantagem, até mesmo com Zé Soldado, que tinha alguma arte, mas se queixava do tamanho daquela lambedeira de três palmos do outro. “Aquilo não é uma faca, é uma espada!”
O Roque achava graça, dizia que não adiantava chorar, logo logo a Sinhá Dona ia comprar umas facas maiorzinhas pra meninada...
No começo da semana nós resolvemos nos meter em correria nova. O Roque, que conhecia mais ou menos aquelas terras ao redor, nos avisou de que iam começar as festas do Arcanjo São Miguel, padroeiro da Camiranga. A vila se chamava mesmo São Miguel da Camiranga.
Pras festas vinha muita gente de fora, família inteira de fazendeiro, passar na rua os dias do santo, ver as novenas, o leilão. E tinha ainda a missa grande no último dia.
— O padre velho, meu amo, até que veio à Camiranga, um ano, no lugar do vigário, amigo dele, que tinha ido se tratar no Recife.
Saímos ainda com escuro, nós cinco. Bem montados, bem armados — eu, João Rufo, Zé Soldado, Maninho, Alípio; e Roque na guia, montado num dos burros dos tropeiros, que aceitava bem a sela. Cada um levava o seu lenço de trapo para encobrir a cara e assustar os ‘padecentes’, como dizia o Alípio, o engraçado.
Pelas veredas já conhecidas nossas, chegamos até a estrada real. Aí atravessamos para a outra banda. A gente queria sempre dar a idéia de que se vinha do lado contrário ao do Socorro. Em caso de perigo, se fossem nos caçar, tomavam a direção errada.
Seguimos pela estrada afora, estava mais era deserta, sem nada do movimento prometido pelo Roque. Até que demos com uma estradinha mais estreita, que devia fazer a ligação de alguma fazenda com a Camiranga.
Lá paramos e esperamos um tempo grande. O sol ia bem alto, a gente tinha fome — desmontamos, eu mandei que roessem algum pedaço de rapadura; no farnel só se mexia depois da obra feita.
— Se obra houver — resmungou João Rufo.
E a gente já ia desanimando, os cavalos estavam com sede, amarrados nos pés de pau, quando afinal se avistou poeira levantando na estradinha. Nós nos escondemos atrás da moita escolhida, que era um grande mofumbeiro do tamanho de uma casa.
Era mesmo uma família viajando. Primeiro apontava o Sinhô, montado num cavalo ruço, cada qual mais barrigudo, o cavalo e o dono. Quem vinha junto dele devia ser o Sinhozim — um rapazote já de calça comprida, num cavalinho piquira. Seguia uma moça, montada de lado, em silhão, com uma saia tão grande que quase cobria a besta rosilha. Fechava a procissão uma rede, carregada por dois negros forçudos. Dentro da rede a Sinhá, segurando um guarda-sol. Os negros, sem camisa, estavam cobertos de suor. Junto com a Sinhá, na rede, uma negrinha de uns três anos, bonitinha, olhos redondos, cria de estimação, via-se. Atrás da rede vinham ainda umas três mulheres, enroladas nas toalhas, com certeza as mucamas de serviço.
Esperamos um pouco; quando eles já estavam a umas vinte braças de distância, nós saímos de trás da moita.
Tudo de cara tapada, eu com o meu lenço velho de Alcobaça.
João Rufo gritou:
— Alto lá! — e a procissão parou.
Rodeamos o pessoal, em tropel; Zé Soldado estendeu a mão e segurou a rédea da moça; a besta empinou e ela caiu da sela. João Rufo pegou o velho, os meninos reuniram, num bando só, o resto dos viajantes; os negros baixaram a rede no chão e a velha se pôs a gritar, com a negrinha agarrada no pescoço. O meninote do piquira tentou escapulir, mas Roque estendeu o braço e derrubou o cavaleiro na areia grossa, ralando ele um pouco.
Eu ralhei com a velha:
— Cale a boca! Ninguém vai matar ninguém. Passe pra cá os trancelins do pescoço e as memórias de ouro dos seus dedos. Já!
E como a velha nem entendesse, já calada, mas apavorada, eu me curvei sobre ela e arranquei com a minha mão os cordões grossos, de ouro, que lhe davam voltas e voltas pela garganta.
Custou mas saiu, arranhando um pouco o pescoço da dona. Depois arranquei os anéis, que eram quatro, e um pente de tartaruga, bordado de ouro, que ela tinha encravado no cocó.
Zé Soldado, apeando, ofereceu a mão à moça caída e ela, em vez de dar a mão, bateu com o rebenque nos dedos dele. O Zé ficou com raiva, e segurou a Sinhazinha pelo cinto:
— Quieta, senão eu arrasto você pra mata e te dou um ensino!
Maninho aí se chegou à irmã e arrancou os cordões de ouro que a mocinha também trazia no pescoço, e mais um broche de pedra vermelha, pregado no corpete.
Quem fez colheita mais importante foi João Rufo: pegou um saquinho de camurça que o velho trazia no bolso largo das calças brancas e, do dedo, o anelão de brilhante. Isso depois de Alípio lhe arrancar as fivelas de prata dos sapatos e a outra, larga, do cinturão.
Os meninos aí se aproximaram da rede. Os dois carregadores, no que largaram a vara e o carreto, ficaram de lado, um e outro acocorados, sem fazer nenhuma ação. Era como se não tivessem nada com aquilo, não iam arriscar a vida pra defender Sinhá e Sinhô.
Por isso eu nunca andei com cativo. A morte da gente é a alforria deles. Se eu tenho algum negro bom ao meu serviço, alforrio primeiro. Dizia meu pai: “Se perde um escravo e se ganha um amigo”. Ficou sendo essa a minha lei.
Essas miudezas todas, claro, só fui saber delas depois, na estrada, cada um contando a sua parte. Ali na hora, quando depenei a galinha velha, dei ordem ao pessoal que amarrasse todo mundo, de pés e mãos, até as mucamas e até os carregadores.
O Alípio ainda mandou que os negros fugissem, mas eles não tiveram coragem. Os dois deviam ter mulher e filhos na senzala do amo.
Trabalhamos depressa, no receio de que nos aparecesse gente armada. Que armado, aliás, só ia o velho, com um fino punhal na cava do colete. Tem cabo de prata e até hoje está comigo. Arma de fogo ninguém portava.
Pegamos os cavalos pelas rédeas, menos o piquira que mandei tanger para o mato. Mandei também jogar no chão a sela de mulher que não ia me ter serventia. E saímos a galope, puxando os cavalos tomados. Correndo, atravessamos a estrada, entramos pela nossa vereda e só a mais de meia légua paramos, pra tomar fôlego; e, principalmente, para arrumar e examinar o apurado.
O cordão de ouro da velha tinha mais de cinco palmos, não contando o pedaço que se quebrou. No saquinho do velho, vinte moedas de prata e três de ouro. Nos bolsos do coxim dele, uma bolsa com dinheiro em cobre e uma muda de roupa branca. Nas duas trouxas tomadas às escravas que acompanhavam a Sinhá na sua rede, vinha a roupa de toda a família. E, por falar em rede, fiquei danada da vida porque me descuidei de pegar a da Sinhá — era branca, de pano fino, com umas varandas de labirinto que arrastavam pelo chão.
A sela do velho, os arreios de prata, tomei para mim. O cavalo não me interessou, eu não trocava nenhum pelo Tirano. Os outros animais iam fazer companhia aos do Socorro, ficavam no serviço da ‘fazenda’.
Roque estava com pena de não ter convidado os negros para virem com a gente. Eu expliquei a ele o meu pensamento a respeito dessa história de tirar serviço de cativo, mesmo tomando os dos outros. João Rufo, que ouvia, lembrou, com razão:
— Pior que isso, Sinhá Dona, é que esses negros são daqui mesmo, destas paragens: quem garante que eles não iam espalhar por aí o lugar do nosso Socorro? A gente não ia poder ficar com eles amarrados, o tempo todo...
E eu ajuntei:
— Além do mais eles hão de ter parentes, filhos, sei lá, na fazenda do Sinhô.
Quando cheguei em casa, depois de tomar banho e mudar de roupa, me enfeitei toda, o pescoço e os dedos, com os ouros da velha. E até arranjei um jeito de enfiar o pente no cabelo. Vim me mostrar para o pessoal, especialmente para a velha Libânia, que caiu de joelhos, de tão embelezada:
— Sinhazinha até parece uma santa!
E o Roque corrigiu:
— Santa, só de saia e manto. Sinhá Dona parece mesmo é com São Jorge Guerreiro...
Dormi com os meus ouros todos. No momento era o mais seguro. Lembrei-me depois de mandar pedir às índias da aldeia que me fizessem uma vasilha de barro de boca larga, tampada, para nela enterrar o dinheiro e as jóias.
Eu tinha visto uns potes muito bem feitos que as índias usavam para apanhar água. E, numa hora qualquer, em que não estivesse ninguém por perto, João ia comigo escolher um lugar de confiança e enterrar a botija.
De noite, eu não ia precisar mais de sonhar com botija dos outros. Já possuía a minha.
Fiquei algum tempo sentada na rede, me balançando, pensando em mim, na vida, nas coisas do mundo. O que é bom e o que é ruim, na vida. Pra mim, pra todas as pessoas.
É bom ter força. Quando eu descobri o medo nos olhos da velha, senti que tinha força. E foi bom. Podia ter matado, ferido, maltratado — ela não ia reagir, estava tremendo de medo. E quando eu não fiz nada porque não queria, isso também foi bom, sinal de que eu comandava a minha força. Eu só fazia o que queria.
E a velha me olhou até espantada, quando deixei que ela ficasse em paz, encolhida entre os panos, no chão.
Mas antes, quando ela vinha na rede, carregada pelos negros suados, com o peito coberto de ouro, os dedos todos enfiados no ouro, naquela hora, quem tinha a força era ela. Era o ouro que lhe dava a força! E se ela se assustou tanto, foi com medo que eu batesse nela ou ferisse — ou foi quando eu lhe tomei os ouros?
Ou, quem sabe, a força dos ricos está mesmo é nas casas de alvenaria, nos cavalos de sela, na roupa de seda e veludo, o muito gado pastando nos campos sem fim — e os próprios campos sem fim? O ouro será o confeito dessas posses? Pois quem tem ouro tem tudo que o ouro compra, que o ouro vale.
Fiquei então assim, cismando, passando a mão pelos meus ouros que me enrolavam o pescoço, tirando e enfiando os anéis dos dedos.
É. Eu tinha que ter o ouro para ter o poder. As terras, o luxo, a força para mandar nas pessoas. Quando o velho gordo caiu do cavalo e se encolhia no chão para esconder as moedas que João Rufo acabou tomando dele, eu pensei que sentia pena; mas, pra falar a verdade, não senti pena nenhuma. Tive mesmo vontade de me rir. Ainda um minuto antes, todo pimpão em cima do cavalo, comandando a procissão de mulher, filhos e negrada. E agora encolhido, de rabo entre as pernas, pronto a se ajoelhar e pedir misericórdia contanto que a gente o deixasse livre!
Me aborreci foi por não ter podido olhar direito a mocinha. Eu estava dando mais atenção à velha, queria pegar tudo que ela trazia. E agora estava vendo que tinha me esquecido de uma coisa: os brincos! Com certeza as duas tinham brincos nas orelhas e ninguém se lembrou disso. Felizes delas, porque na hora de arrancar o brinco enfiado na orelha furada, tem-se que sair rasgando tudo... Ia haver sangue, na certa.
Falando nisso, eu ainda não sei bem se sou capaz de ver sangue derramado. Nunca experimentei ver de perto o sangue dos outros; e pior será se for tirado pela minha mão.
Daí, foi bom a gente se esquecer dos brincos. Ia apavorar ainda mais aquela negrinha da rede, que parecia um sagüi assustado. E isso me lembra: na hora em que tomei os trancelins da Sinhá, ela não estava mais na rede, a negrinha. É capaz de ter aproveitado a confusão e corrido se esconder no mato. Essas crias de casa grande, mal-acostumadas no colo das amas, aprendem cedo a ficar ladinas... Taí — pois eu bem que gostava de ter uma bichinha daquelas pra mim... E até bem que podia ter pegado ela, junto com as jóias.
Outra preocupação: eu tinha que ir preparando os rapazes para a vida que haveria de ser a nossa. Não era só comer e dormir, fazer a limpeza e a capinagem da ‘fazenda’, varrer os terreiros, melhorar a cobertura nos telhados de palha. E, quando os fundos estivessem em baixa, sair para uma aventura sem plano, que só dá certo por acaso.
Agora eles estavam se ocupando em bater o aterro no nosso piso, dentro dos barracos. Fizeram eles mesmos um malho, a machado e a facão, os únicos ferros de que a gente dispunha.
Saíam também em caçadas, matar algum bicho — de fojo, de armadilha, de gaiola, pra não gastar munição, a preciosa pólvora. E também, como alertava João Rufo, para não alarmar a vizinhança com tiroteio. Que ‘vizinhança’ seria essa, imagine, léguas distante. Verdade que, por acaso, bem podia passar alguém defronte da Lagoa do Socorro; tal como nós passamos, como passaram os homens do capitão do mato; e desconfiar, e querer ver o que havia ali.
Passei então a organizar o que eu chamava ‘uma parelha’. Escolhia dois deles (‘um par de quadrilha’, eles diziam), mandava que se equipassem, examinassem bem sela, arreios, cilha, rabicho e rabichola, freio e brida, agora que já se possuía uma certa fartura disso tudo.
A parelha de estréia foi escolhida: Roque e Maninho. No que foi chamado, Roque saiu com uma novidade que veio modificar tudo que era plano meu.
Roque não achava certo as parelhas andarem a cavalo.
— Cavalo é pra viagem, não é pra essas escaramuças, Sinhá Dona Moura. Se a gente tem que fazer as estripulias por aqui, é de ser a pé, cortando a catinga na apragata. Quem anda a cavalo é como se saísse tocando corneta: “Olha eu aqui!” Cavaleiro não toma chegada, avança no tropel. Não pode se esconder, que o cavalo bufa, sapateia, tropica. E o rastro? Usando só a força da sua canela, você salta de pedra em pedra, pisa mais no mato que no caminho, consegue não deixar rastro nenhum. Olhe, Dona, veja bem: pra nossa qualidade de briga, cavalo não tem ação!
João Rufo, que ouvia, pensativo, o Roque falar, concordou:
— E o pior é que o cavalo também serve de alvo. Baleou o cavalo, caiu o cavaleiro e a montaria cai por cima.
Roque lembrou mais:
— Eu tive um conhecido que, quando atacava um cavaleiro, vinha por trás e cortava, de faca, o rejeito do animal. Cavalo e cavaleiro rolavam no chão. A gente tinha patrão, e ele ficava com pena, porque se perdia o animal. Mas já viu, numa partida como essas da Sinhá Dona, quem vai ficar guardando os cavalos, enquanto se está trabalhando? Ninguém vai chegar perto do inimigo, choutando desabrido — isso é pra soldado de cavalaria...
Aquilo me deu muito o que pensar. Me lembrei do problema dos rastros na nossa fuga do Limoeiro, ou no ataque ao pouso da estrada real. Ou o encontro com a família do fazendeiro... Como os cavalos dificultaram tudo. E aquela invenção de arrastar galho no chão não me convenceu. Quando eu falei nisso, Roque até riu:
— Essa idéia de arrastar no chão galho de pau, parece história do Trancoso, pra enganar menino velho... O arrasto do galho por si já faz um rastro sem tamanho. E mesmo em terreno de pedregulho, sempre fica qualquer coisa. E o esterco do animal? Um bom rastreador acompanha as marcas no chão de olhos fechados; é como se estivesse escrito no papel.
Eu entendi. João Rufo concordou. Parece que ele nunca tinha pensado naquilo antes. Os rapazes é que reclamaram muito. Na certa — três meninos pobres que nunca na vida tinham possuído um bicho pra montar! — sonhavam em sair se esquipando por aí, tilintando os arreios de prata do gorducho...
O Roque aproveitou a ocasião daquela conversa, foi descobrindo quem era e como tinha vivido até nos conhecer.
— Faz muitos anos que eu ando nessa vida... Eu tenho prática... Afinal do que é que eu vivo? Como é que eu como, bebo, me visto, durmo na minha tipóia? Posso trabalhar com um companheiro, mas sempre mudo de camaradagem. Gosto de ser independente. E nunca andei montado. Podia até adquirir um cavalo, mas não dependia do animal, procurava era me livrar dele, mesmo que tivesse pena. Montado, não dá mesmo. Nesta nossa profissão, a gente tem que ser como uma visagem, aparecer de repente e sumir como um relâmpago...
Maninho, muito desapontado, queixou-se:
— E vamos ter canela para isso? Cortar catinga na sola da apragata, não é pra qualquer um, Seu Roque! Precisa de ter costume!
Mas eu já estava convencida. Aqueles volantes de dois, três homens, bem armados, andarilhos, aparecendo inesperado e atacando um comboio... Gostei. Me pareceu muito mais fácil, viajando leve, só com a arma, a munição, a roupa do corpo...
Me levantei, dei a decisão:
— Se preparem, Maninho e Roque. Amanhã de madrugada sai o volante. Por ora vão só dar uma olhada, aventurar. E não me apanhem bolacha quebrada. Tragam tudo no estado; aqui se vê.
O melhor, talvez, era chegarem até à estrada real ou a uma das estradinhas mais trilhadas, por onde anda gente e não só bicho. Preparassem a espera ou atacassem logo, isso dependia dos acasos. Mas evitassem fazer morte, só ferissem se defendendo. Para ameaçar não precisava tirar sangue; só, quando muito, um arranhão. E pegassem o que pudessem: arreios, dinheiro e armas. Roupa, só alguma coisa especial — um belo gibão de couro, um casacão de lã, um chapéu do reino, umas botas de couro fino. Coisa que nos servisse, não se carregassem com besteira. E jóia! Jóia, tudo em que pudessem passar a mão. Eu ia acertar uma porcentagem — tanto para eles, tanto para a ‘fazenda’. E como era eu que fornecia de um tudo para eles, que só entravam com o triste corpo, a maior parte, naturalmente, tinha que ser a minha.
Eles concordaram sem exigência. Ainda estavam muito moços, naquela idade em que a ambição é pouca e os rapazes fazem tudo pensando mais na aventura. Além do que, era eu a Chefe, a Dona Moura.
Zé Soldado e Maninho a princípio queriam sair juntos. Eu achei melhor separar os dois; sendo irmãos, um ia querer sempre proteger o outro, e nunca que eu iria saber de algum malfeito que praticassem. Mas expliquei diferente a eles, num particular:
— Vocês dois são muito mais chegados a mim. Por isso, quero que cada um de vocês ensine ao companheiro mais novato de que jeito eu gosto que se faça as coisas. Maninho toma conta do Roque; o Zé, do Alípio... Desse modo não tem perigo de erro ou besteira... Um fica sendo o sargento, o outro o cabo...
Zé Soldado era doido por esse negócio de militar e tinha aprendido muita coisa no tempo em que sentou praça. Sabia desmontar um bacamarte, armar de novo, sabia a maneira de levar a arma à bandoleira, sem maltratar, pendurada à esquerda, para poder sacar com a direita. A medir pólvora no polvarim, a colocar a pedra de figo, a preparar a carga da arma, socar a bucha — e carregar cada arma com a sua munição diferente.
Essas coisas todas, que eu só conhecia de ouvir falar, mas que ia aprendendo junto com eles e dando também os meus tiros.
Tomadas daqui e dali, já se tinha a nossa escolha de facas. E se fazia muito exercício de briga de faca na ‘fazenda’. Nisso o melhor era Maninho. Parecia ter nascido para aquela arte. Saltava como um gato, feria com a ponta da faca como se usasse mesmo a unha do gato. Dava gosto de ver o menino lutando.
Formei assim as duas parelhas — Roque com Maninho, Zé Soldado com Alípio. De começo, não levavam arma de fogo; era mais pra ficarem conhecendo o terreno, descobrindo os lugares onde morava gente — e quem morava e do que vivia. Na primeira vez andaram umas três léguas para descobrir uma fazenda; segundo disse o Roque, era coisinha de nada, pouco mais que a nossa ‘fazenda’ do Socorro.
Zé Soldado e Alípio deram com um povoado. Andaram por lá apreciando. O lugar se chamava Timbaúba, não valia nada, não tinha nem igreja nem delegacia.
Eles entraram numa vendinha, beberam uma jerebita, comeram de tiragosto um pedaço de tripa torrada. Na gavetinha do dinheiro, o dono podia ter uns dez vinténs de cobre. Não valia a pena eles se declararem por tão pouco. Lugar daqueles não pode servir! Na Timbaúba dinheiro não corre, não tem movimento. Só vai lá quem tiver negócio — e que negócio seria esse, naquela pobreza?
Na terceira semana, uma grande novidade. Roque e Maninho chegaram tangendo uma vaca parida; o bezerro tão novinho que ainda não tinha caído o umbigo. E a vaquinha não mostrava ferro nem sinal, devia ser novilha barbatã, nascida na mata e na mata criada. Dessas reses sem dono que os fazendeiros chamam ‘boi do vento’.
Vinha tão cansada da viagem que não tinha mais brabeza. O bezerro só não morreu porque Maninho trazia o bichinho no colo, como um neném. No caso, era o Maninho quem botava os bofes pela boca.
Todo mundo queria botar nome na novilha: Mimosa, Princesa, Sericóia, Bentevi... Mas eu cortei as propostas:
— A vaca vais se chamar Indez. Lá no Limoeiro, Mãe gostava de deixar um ovo de indez no ninho, servindo de chama pras galinhas. Pois a vaquinha vai ser o nosso indez, pra começar a boiada.
O velho Amaro se saiu:
— Sinhá, deixa eu tomar conta da novilha. Garanto que nenhum desses guerreiros aí sabe tirar leite de uma vaca. Eu sei. Já fui vaqueiro.
Com isso, foi pegando a ponta do relho da mão do Roque e a novilha parece que entendeu a mudança e achou bom, porque deixou de esticar a corda, emperrada, e saiu à frente do velho, que balançava a corda de leve, para acalmar a novata, e aboiava baixinho, como se embalasse criança. E o bezerro se colava à mãe, andando no mesmo compasso.
No fim de umas duas semanas o Amaro já vinha me trazer, ao pé da rede, manhãzinha, no quebrar da barra, a caneca de leite mugido da Indez. Parecia que a gente voltava aos tempos do Limoeiro; só que, lá, eu cuspia a espuma e obrigava a cunhã a tomar ela própria, escondida de Mãe, o leite cru, que eu detestava. Mas agora era diferente: eu dava o maior valor, me sentava na rede, aceitava a caneca e bebia o leite todo, enquanto Amaro vigiava.