Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 30 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 29 — O Beato Romano

O Beato Romano

 

FIQUEI NAS BRUXA por mais de dois anos. Cheguei a alfabetizar meia dúzia de alunos, entre meninas e meninos. As meninas a princípio não queriam vir à escola, encabuladas, nem as mães estimulavam. Mas comecei a vencer a recusa de mãe e filhas dizendo que elas tinham raça de alemão — olhasse só quanto cabelo louro! — e, na Alemanha, toda mulher aprende a ler, igual a homem. Curioso é que não encontrei nas Bruxa o velho preconceito, comum naquele sertão todo: “Moça não tem que aprender a ler, pra não escrever bilhete para namorado..."

Aliás, naquelas Bruxa, não reinava propriamente preconceito nenhum. A gente era primitiva demais: o português que falavam parecia até pior do que o saído da boca dos índios mansos ou dos negros de senzala. Trocavam entre si uma fala quase incompreensível. O meu maior trabalho, como professor, era tentar fazer com que eles falassem de maneira a serem entendidos pela gente de fora. Mas os alunos rebatiam:

— Mestre Zé, cê sabe muito bem que aqui não vem ninguém de fora!

É, não ia. E disso, principalmente, é que eu tirava a minha segurança; e explicava por que me obriguei a ficar por lá durante tanto tempo. Já me vestia quase como eles, já falava como eles, naquela algaravia impossível de reproduzir. Até a minha pele de homem branco eu deixava que ficasse curtida e vermelha como a deles.

E eles não eram ingratos, tinham se afeiçoado ao ‘Mestre Zé’. Plantaram pra mim o que chamavam o ‘roçado da escola’ — feijão, mandioca, milho, melancia, maxixe. Me levavam leite, todo dia me traziam algum pratinho (quase sempre péssimo) que a mãe me mandava. E iam fielmente às aulas; o difícil era aprenderem.

Mas que diferença da vida que eu levava na casa dos Nogueira ou mesmo no Bom Jesus! Às vezes me parecia que eu tinha naufragado numa ilha deserta, no meio de carinhosos selvagens, pagãos.

Pagão, exatamente: no perfeito sentido da palavra. Porque lá ninguém era batizado. Então, inventei de contar que, em terra onde não existe padre (o avô nunca falara a eles em pastor protestante), o mestre toma o lugar. E, assim, me propus a batizar quem quisesse ser batizado.

Vieram todos, foi uma folia. Mas só as crianças, os adultos não; creio que eles tomaram tudo como mais uma brincadeira minha com os alunos.

Antes, sozinho no meu quarto, benzi um pote cheio de água, que mandei depois levar para o alpendre.

Fui derramando água benta na cabeça deles, de um em um, enquanto murmurava as palavras rituais. Sem vela e sem padrinhos. Só dizia em voz alta o nome de cada um, o que pareceu certo à assistência.

E o batismo, afinal, é só isso mesmo, desde o primeiro, no Rio Jordão: molhar a moleira do neófito com água benta e dizer o nome do novo cristão.

Logo à tarde, uma das velhas (que fora outrora uma das moças raptadas na vizinhança) inventou que, depois do batizado, eles tinham que me chamar de Padrinho, e me tomar a bênção. Passei então a ser o ‘Padim Mestre’.

Aquela iniciativa minha, de administrar o batismo, era um risco que eu corria, mas me dava uma satisfação singular, quase a sensação de dever cumprido: introduzir ali, mesmo de contrabando, o sacramento básico da minha religião. Da religião de que eu jurara ser o ministro fiel, até a morte; juramento que ainda me obrigava, apesar de tudo. Pelo menos aqueles pobrezinhos, agora batizados, não iriam direto, depois da morte, para os desertos gelados do limbo. Com o batismo, eu dava a eles, mesmo que não o soubessem, um lugar melhor na outra vida.

 

E as tentações da carne, naquela solidão? Elas vinham, mas com uma carga tão grande de culpa, que me livrava sem dificuldade dos meus desejos, afundando cada vez mais no meu abismo de remorso e saudade. A tragédia com Bela tinha me marcado fundo demais. Eu não podia ver uma mulher desejável (o que aliás era difícil, no meio daquelas brancaranas mal lavadas) sem logo ter diante dos olhos aquele corpo nu, manchado de sangue. E então me trancava, me ajoelhava chorando, e pedia perdão a Deus. Pela milésima vez.

 

O pior, naquela vida vazia, era não ter ninguém com quem falar. O próprio Seu Franco, que sempre mostrou interesse por mim, não sabia nada do presente e não se lembrava quase nada do passado. Era ‘fraco de memória’, como se queixava. Com os outros, mais novos do que ele, era ainda pior.

E não só se perdia cedo a memória, também se morria cedo, nas Bruxa. Nascia muita criança defeituosa, ‘criança boba’, eles diziam, que mal aprendia a falar, e não tomava tenência da vida, ao virar gente grande. Segundo a velha parteira, da geração de Seu Franco, isso seria devido a tanto se casar prima com primo. Será?

Não cultivavam nenhuma religião, só uma espécie de devoção grosseira. E eram muito supersticiosos, viviam impedidos por toda espécie de abusão — pra eles tudo ‘faz mal’. Beber água fria com o corpo quente, pegar em ferro cortante em dia de sexta-feira, comer fruta à noite; pato é reimoso, todo peixe de couro é reimoso, e preá, e punaré, e carne de porco. Ovo que dá arroto choco, pode matar.

E eles também têm medo de sonhos. Não se importam com Deus, com Nossa Senhora ou qualquer outro santo. Mas ‘têm fé’ nos sonhos. Quando um sofre um pesadelo e acorda gritando, a família toda se junta ao redor e faz uma espécie de exorcismo, rezando estranhas jaculatórias, compostas de palavras sem nexo, decerto alemão deturpado. Prestando atenção a essas jaculatórias, não descobri nelas nenhum vestígio de língua de preto ou de índio, muito menos de português ou latim. Era só língua de bode, mesmo. Ou de bruxa? Benziam os pacientes com ramos secos de plantas ‘de virtude’, que cultivam no quintal.

 

Poderia eu evitar de me sentir cada dia mais melancólico? Saía às vezes para caçar, mas não tinha arma que prestasse, só uma espingarda velha passarinheira, emprestada pelo ferreiro, que a poderia consertar, mas detestava o seu ofício. Era um custo obrigar o homem a bater um machado ou uma foice que tivesse perdido o fio; um ferreiro que tinha medo do fogo da forja, alegando que lhe fazia mal aos bofes! A espingardinha sempre negava fogo e, além do mais, eu não gosto de matar bicho. Sempre tive pena de passarinho e de qualquer animalzinho pequeno do mato. Até um gavião carcará, que certa vez abati porque ele estava acabando com os pintos da vizinha, quando o vi morto no chão, tão bonito, com aquela plumagem mariscada, fina e brilhante, o feroz bico recurvo, fiquei muito perturbado. Podia ser uma ave de rapina, mas era também um ser vivente, e eu tinha dado fim à vida dele. Mortos, pra mim, já bastavam os do passado.

No quintal da escola plantei uma espécie de jardim, ou horta, em complemento ao ‘roçado da escola’. Mas a escolha era pequena, eles não dispunham quase de sementes de flor. Me lembro de uns cravos-de-defunto e um pé de resedá que eu trouxe de fora. De ervas, só tinham caruru, couve da grossa, coentro, cebola verde. E as galinhas da vizinha — a do carcará — vinham me devorar tudo. Como eu disse à dona, furioso, depois que me arrasaram todo um canteiro: eu devia ter dado o tiro era naquelas pestes.

No meio dessas mesquinharias, aguçadas pelo desgosto que me dava a preguiça dos alunos na escola, foi me crescendo o desejo de fazer uma viagem.

A lembrança das confidências do compadre Julião vinha me despertando uma vontade intensa de rever o cenário da Vargem da Cruz, onde tinha se virado em sangue e tragédia a parte mais importante da minha vida.

Foi ali a grande encruzilhada — dali parti para o caminho da perdição e do remorso. Digo essas palavras assim dramáticas, porque me parece que são as únicas que representam os meus sentimentos com alguma fidelidade. Me sinto, sempre, ao mesmo tempo perdido e arrependido. Acho que, se houvesse sido preso e punido (embora, de certa forma, injustamente), me sentiria apaziguado. Parece que ainda é melhor pagar demais do que pagar de menos. E se eu pagasse pela morte do Anacleto — pela qual nunca me senti com culpa — talvez estivesse pagando também pelo pecado que gerou aquele filho e pelo bruto assassinato do qual minha loucura tinha sido a causa primeira.

 

Quando eu não podia mais de sentir tanta culpa, me ajoelhava e rezava. De joelhos no chão áspero, só de ceroulas, por causa do calor, sem uma imagem de santo a quem me dirigir, deveria representar uma triste figura, chorando e batendo no peito; batendo às vezes, Deus que me perdoe o exagero, até com a testa no chão.

Quando chegou o mês de junho e o tempo das férias, resolvi fazer a viagem. Risquei até um mapa com o possível itinerário: saindo das Bruxa para o Bom Jesus das Almas, da lá pegando o caminho mais direto para a Vargem da Cruz; evitando aquelas voltas e rodeios que eu viera fazendo, desde a noite da fuga na Atalaia, até alcançar o Bom Jesus. Era o caminho do compadre Julião, e teria muito comboieiro no Bom Jesus para me ensinar.

Minha intenção jamais foi chegar à Vargem da Cruz. Isso nunca. A idéia era me arranchar em alguma casinhola de beira de estrada, a um dia ou mais de jornada da vila; e de lá apanhar um atalho que me levasse direto à Fazenda Atalaia. Eu recordava uma encruzilhada que se tomava a pouco menos de uma légua da estrada que vinha da Vargem, e onde se quebrava às direitas para a Atalaia. Desse ponto em diante eu tinha de cor todos os acidentes do caminho — estrada estreita, cheia de voltas, por onde não podiam marchar dois cavalos de frente. O riacho, naquele tempo, quase sempre seco; agora, começo de verão, a areia deveria estar emergindo entre as poças de água. Em noites de lua (quantas luas terei visto refletidas nela?) a areia era toda branca; escura só a sombra da enorme oiticica, no barranco. Depois, se abria a entrada do pátio e lá algumas reses malhadas, remoendo antes do sono. No fundo o casarão, vizinho ao curral.

Eu confiava nas mudanças da minha aparência para não ser reconhecido direito: o cabelo crescido quase até aos ombros, o bigode caído nas pontas, emendando com a barba escura, já bem riscada de branco. E a feição curtida de sol, de fadiga, de tristeza, tão diferente do Padre moço, animado, glabro, coroa raspada bem redonda e branca, como uma hóstia pregada no alto da cabeça. E vestido naquela roupa surrada, que não contava mais com Siá Mena para zelar.

Era minha intenção procurar pela Iria, ou talvez pelo Simão — sim, o Simão; sendo homem, procurado por um estranho, outro homem, ia chamar menos atenção.

Passei pelo Bom Jesus, fui direto à Pensão da Preta Forra, caí nos braços da minha velha, a Mena. Disse que vinha só para uma visita rápida. Queria sair numa andada grande, ficar conhecendo melhor a região. Dei notícia da escola, dos meus bruxinhos de cabeça rude. E ela se inquietou com a minha magreza e o meu desânimo. Mas, só de vê-la, me animei, ouvi os casos do povo da terra, quem tinha se mudado ou morrido, quem aparecera:

— Seu amigo Julião andou aqui duas vezes. Não se conforma em não saber onde anda o compadre. Mas quando contei que um belo dia vocemecê anoiteceu mas não amanheceu, e deixou só um bilhetinho dando adeus, ele acreditou. Disse que “é desse jeito mesmo que o compadre faz”. Até achou muita delicadeza sua, ter me deixado o tal bilhete que eu inventei. E inventei isso só por amor próprio pra ele ficar sabendo que o senhor me tem amizade.

— Fez bem, fez bem! Mas agora que já comi e já bebi, anda me dar um abraço; vou botar o pé no estribo e ganhar o meu caminho.

Na bodeguinha, à saída da rua, achei um comboio e os seus tropeiros que tomavam uma jerebita de despedida; e me deram a direção certa para a Vargem da Cruz — umas vinte léguas além. Tomei nota dos lugares onde devia passar, os pontos de referência, as erradas a evitar. Quem ensina caminho, já reparei, se preocupa mais com as erradas: “Tem uma estrada pela direita, mas não tome ela não... Aí vocemecê avista uma torre, deixe ela pra lá...” Até parece que, na vida, os negativos marcam muito mais que os positivos.

A duas léguas da Vargem da Cruz, dei com um rancho de beira de estrada, exatamente o que eu procurava para pousar. Eu trazia na garupa um rolo com uma rede, uma muda de roupa e um naco de sabão. No bolso, pouco dinheiro e um pedaço de fumo — eu tinha dado para mascar, como fazia quase todo mundo nas Bruxa. Um chapelão de palha bem trançado e fino, que era a especialidade do mulherio do lugar, mas nenhuma delas se apurava no tecido dos chapéus para vender em quantidade, em alguma feira; faziam um chapéu quando alguém encomendava e assim mesmo levavam um tempão, alegando que era muito trabalhoso. Ah, aquilo é um povo muito lerdo mesmo.

Saí do pouso ainda com escuro, mas deixei lá a bagagem; andei uma meia hora, dei com a encruzilhada de que me recordava tanto, e onde só passara de coração alvoroçado, chegando ou partindo da Fazenda Atalaia.

Lá estavam a oiticica, o riacho; ao sol já claro, a areia parecia ainda mais branca. Mas, antes de alcançar o pátio, fui descobrindo as mudanças. Cercas e mais cercas de roçado, tudo cheio de milho virado; mandioca alta, entremeada de algodão. O gado devia andar solto por longe.

A casa grande parecia a mesma, com o seu curral ao lado, de onde, àquela hora, já tinham saído as vacas de leite. A novidade maior era a espécie de arruado de taipa, às esquerdas, e a umas cem braças da casa da fazenda. Parecia uma colmeia, cheia de portinhas baixas. Pelo terreiro se via uma porção de crianças, todas escurinhas, engatinhando e correndo. Uma moça, também escura, tomava conta delas. Vi logo que se tratava de uma senzala, coisa nova ali, mas que eu conhecia de outras terras.

 

Levei o cavalo até o mourão, amarrei o Veneno, apeei, bati palmas, chamei ô de casa. Apareceu um moleque, para mim desconhecido, e eu perguntei, me fazendo de estranho:

— Aqui é que é a Fazenda Atalaia?

— Inhô sim.

— Me diga, meu filho, será que ainda vive aqui um escravo por nome Simão? A mulher dele se chama... eu acho que é Iria...

— Vive sim sinhô. A Siá Iria é a cozinheira da fazenda. O Simão toma conta dos negros novo, no eito.

— E cadê o seu senhor?

— Ele foi na casa da tia dele, na Noruega. Dormiu lá.

— Pois então chame pra mim a Siá Iria, já que o Simão deve estar no eito. Diga que eu sou um passageiro, andei na Vargem da Cruz. Trago uma encomenda para eles.

Logo em seguida apareceu Iria, mais gorda, mais velha, com um pano branco atado na cabeça. Fez pala com a mão na testa para me enxergar direito — eu estava contra o sol — e não me reconheceu:

— Vocemecê tem algum negócio com o Simão?

E eu perguntei:

— Estou falando com a Siá Iria?

Ela aí reconheceu a voz. Vi que estremecia, abriu a boca, fechou, virou-se para o moleque:

— Que é que você está inzonando por aí? Vai varrer o terreiro, preguiçoso!

O moleque, curioso, querendo espiar o estranho, saiu de mau modo. Iria esperou que ele sumisse do lado do oitão, levou a mão à boca, gemeu:

— Minha Nossa Senhora das Dores! Será mesmo vocemecê, Sinhô Padre?

E eu olhava para ela, sorrindo:

— Pensei que você não ia me reconhecer nunca. Por causa da barba.

— É que vocemecê está muito demudado. Mas a voz não mudou. Olhe, vá entrando. O Sinhozim não está em casa, ele mora aqui sozinho, diz que vai casar para o ano.

— E quem é o Sinhozim?

— É o sobrinho da Dona Pite, filho de uma irmã dela. É ele que toma conta da herança do Zezinho. A Dona Pite mandou o menino estudar na cidade.

— Eu não reconheci a fazenda. Está tudo diferente.

— O Sinhô novo é um moço cheio de invenção. Estudou no Rio de Janeiro. Já mudou tudo lá na Noruega e agora está mudando por aqui. A Dona Pite não gosta muito, mas já está velha e vai sempre pela cabeça do moço, deixa ele fazer o que quiser. Ele até comprou um lote de negro na Bahia, trouxe pra cá, fez essa senzala aí. Agora, até eu e o Simão dormimos lá, no quartinho mais perto da fazenda.

— Então está correndo muita riqueza por aqui, Iria?

— Mal e mal. Por ora, Sinhozim só fala em prejuízo...

Nenhum de nós dois estava à vontade. Iria olhava de um lado pro outro, afinal não se conteve, me puxou pela mão e me levou para um quartinho ao lado, uma camarinha de moça, que eu nem conhecia. Daquela casa eu só recordava a sala, o corredor, o quarto de Bela. E só os via à noite, no escuro.

Dentro do quarto, Iria respirou melhor. Olhou bem para mim, levou as mãos aos meus ombros, me deu um abraço — pedindo licença primeiro. Então se pôs a chorar:

— A gente pensava que vocemecê tinha morrido! Nunca chegou a menor notícia. Então se dava Sinhô Padre por morto, saiu tão maltratado, ferido... A gente chorou tanto! Por onde vocemecê andou?

— Andei muito, por aí, por longe. Trabalhei...

— Foi ser vigário em outro lugar?

— Isso não. Desde aqueles tempos, tive que me esquecer de que sou Padre.

— E o Sinhô Padre sabe que botaram sua cabeça a prêmio? A herege da Dona Eufrásia. Não lhe bastou a desgraça que arranjou com aquela carta para o homem. Diz que só sossega quando conseguir lhe ver pendurado numa forca, ou varado de bala...

— E ainda tem gente no meu encalço, Iria?

Ela baixou a cabeça, sem saber o que responder. Afinal me olhou:

— Foi muito dinheiro que ela botou: um conto de réis. O povo daqui é pobre, nunca nem viu falar em tanto dinheiro. E existe muita gente ruim. Nesta fazenda mesmo, tem uns dois cabras que vive jurando lhe pegar um dia. Por isso eu vim lhe esconder neste quarto, enquanto a gente conversa. Na casa da fazenda eles não entram, Sinhozim botou eles todos no eito, trabalhando de sol a sol. Agora estão roçando a mandioca.

Fiquei meio inquieto:

— A mim você escondeu. Mas o meu cavalo?

Iria levantou-se, saiu rápido, deu umas ordens, voltou:

— Mandei o moleque dar um banho nele e selar de novo; disse que vocemecê não demora a ir embora. Veio procurar Sinhozim, mas não pode esperar que ele chegue. Sinhozim só vem mesmo amanhã, foi levar a tia à vila. Tem um dentista de passagem na Vargem da Cruz e ela precisa arrancar um dente.

Iria me deu depois notícias do meu antigo rebanho; algumas das velhas tinham morrido. O que restava, continuava na mesma latomia. Mas não gostam do Padre velho que veio de vigário e não facilita com elas. Cada uma só tem direito a cinco minutos no confessionário: “Diz elas que ele confessa com a cebola do relógio na mão, contando os minutos”.

— E o menino de... da Dona Bela, onde está?

— Está estudando. Diz que vai ser doutor médico, surjão. Dona Pite tem o maior orgulho, diz que o menino tem uma cabeça de ouro. Enquanto isso, o Sinhozim Laurindo, sobrinho da Sinhá Pite, com a morte do tio tomou conta de tudo. Diz o povo que enterrou toda a herança da velha, fazendo benfeitoria... E agora mete a mão na herança do Zequinha.

— Então não mudou grande coisa na Vargem da Cruz?

Iria concordou:

— Bem, teve o caso do fogo no Limoeiro...

— Incêndio?

— Sim, mas foi a propósito. Aquela moça, Maria Moura, não sei se vocemecê se lembra? Houve duas mortes lá — o padrasto dela, o padrasto não, era só amigado, com licença da palavra, com a mãe dela; e esse dito tal foi morto e depois mataram um rapaz que disseram estava querendo entrar no quarto dela, de noite. Pois mataram esse também. E aí, não se sabe por que, parece que foi questão de herança com uns primos dela, os donos das Marias Pretas; só se sabe que atacaram a casa da moça, no sítio do Limoeiro e puseram cerco. A moça tacou fogo na casa, só pra não se entregar. No princípio se pensou que ela tinha se acabado, queimada no fogo, mas não encontraram esqueleto nenhum, lá dentro. Depois se soube que ela tinha era fugido, com um bando de cabras. À frente o João Rufo, conhecido nosso. Parece que ela arranjou outro terreno, formou um bando armado, e anda por aí fazendo estripulia, assaltando viajante pelas estradas. Pelo menos é o que o primo dela, o Irineu, anda espalhando pelas bodegas. Conta que ela quase o matou de tiro, numa emboscada.

O nome me batia na memória. A moça, o padrasto... Eu ia lembrando, enquanto Iria continuava:

— Mas agora o que se sabe é que ela tomou posse de umas terras que o avô possuía na Serra dos Padres; levantou uma casa fortificada e faz medo a todo mundo. Diz o povo que ela não só manda de lá espalhar os cabras roubando quem encontra nas estradas, como ainda dá coito a criminoso perseguido, na tal de Casa Forte — como é chamada — e que é direito um quartel de soldado.

Fiquei assombrado. Então era mesmo a moça da confissão — ela bem me disse que ia mandar matar o padrasto... Pois matou mesmo... e o resto completa o quadro!

Iria falava, falava, mas continuava nervosa. Afinal me disse que um dos cabras do finado Anacleto, que ainda vivia falando em sair à minha procura, pra ganhar o prêmio da velha Eufrásia, era o feitor da fazenda; nesta hora devia estar no roçado com os homens. Não tardava vinha pra almoçar. Melhor era eu ir embora logo, porque os negros comiam no roçado mesmo, mas o feitor sempre vinha pegar um prato no fogão. Pelas nove horas é que ele costuma chegar.

— Falando em prato, vou buscar uma merenda para vocemecê. Espere aqui mesmo.

Demorou poucos minutos, voltou com um prato coberto por um guardanapo. Me deu a colher, recomendou:

— Vá comendo que eu vou ver se o moleque já trouxe o seu cavalo.

Eu não estava com medo, o cabra não ia me conhecer, eu tinha mudado tanto. Se até a Iria me estranhou!

Chegou a Iria da espiada lá fora, eu ainda estava comendo. Ela veio dizendo que o cavalo já estava selado e, assim que eu acabasse a merenda, podia montar e sair.

— E pra onde é que vocemecê pode ir? Estou pensando num canto para lhe esconder, mas não acho. O forno do carvão está aceso, tem sempre gente lá. Aqui na casa é tudo invadido, não tem segredo em parte alguma. Na senzala, ainda pior. O melhor é vocemecê ir embora mesmo... Onde é que estava parando?

— Me arranchei numa casinhola à beira da estrada, a uma boa distância de cá.

— Pois então, vamos. O cavalo está esperando.

Eu me levantei, estendi a mão para Iria, fui dizendo:

— Adeus, então, minha velha... Quem sabe você pode mandar o Simão conversar comigo, lá no rancho?

Nesse instante a porta, que estava cerrada, abriu-se e um homem se enquadrou nela:

— Bom dia, Seu Padre! Que é que anda fazendo por aqui?

Devia ser o tal feitor; um mulato grosso, bigode grande; não admirava que me reconhecesse, porque logo também o reconheci. Era um antigo caixeiro do Anacleto, a quem eu via diariamente; todas as vezes em que eu passava pela calçada da loja, lá estava ele, encostado no umbral, esperando a freguesia. Eu dava o bom-dia ou a boa-tarde e ele sempre dizia uma graçola: “Como vão as beatinhas?” ou “Igreja cheia, hoje?” Eu não simpatizava com o sujeito que era muito atrevido pro meu gosto. E sempre lhe respondia com meia palavra. Ele deveria estar se lembrando muito bem da minha figura, o meu jeito de andar, o meu tom de voz. Ainda mais que ele sempre aparecia na missa do domingo e escutava o sermão.

Estava tão seguro, olhando para mim, com uma garrucha na mão, que se deu ao luxo de brincar com a Iria:

— Dê licença, Siá Iria. Olhe que a gente pode repartir entre nós dois o prêmio da Dona Eufrásia...

E no que ele voltou os olhos para a Iria, eu, num impulso de desespero, dei-lhe um pontapé no braço. A garrucha voou longe. Parece que eu lhe quebrei o pulso, porque o homem caiu ajoelhado, com um grito, segurando a mão. Eu me enfiei entre ele e o batente da porta, atravessei o alpendre correndo, peguei nas rédeas do Veneno, e saltei na sela quase num movimento só. Cheguei as esporas ao cavalo, que já saiu a galope.

Eu ainda não ia a vinte braças de distância, quando o homem apareceu à porta, segurando a arma com a mão esquerda e deu um tiro na minha direção.

Ouvindo o estampido, me virei pra trás e lá estava ele, querendo carregar de novo a arma, segura ainda pela mão esquerda. Apertei no calcanhar o Veneno e apressei a carreira.

Eles não me perseguiram. Creio que não havia animal pegado naquela hora, nem ninguém especialmente interessado na perseguição. Os homens do eito era tudo negro novo, segundo me dissera a Iria, não estavam sabendo nem quem eu era.

Naquele galope desvairado, o Veneno acabou metendo a mão num buraco; nem sei o que aconteceu com a pata direita dele; só sei que o cavalo parou de repente. E depois, por mais que eu insistisse, ele mal conseguia trocar o passo. Desmontei — felizmente já estava perto do rancho; me apeei, peguei na rédea e fui puxando pelo Veneno, até que chegamos lá.

O dono da casa era um sujeito prestativo, correu ver o que tinha acontecido ao animal, e logo veio me dar o resultado do exame:

— Quebrar o osso, não quebrou. Mas parece que destroncou, ou pelo menos desmentiu a junta.

Fiquei tão desesperado que me sentei no banco do terreiro e me pus a chorar. Não iria tardar muito, o cabra vinha me descobrir ali; era fácil, depois que me tinha visto, e à minha roupa, e à minha cara atual.

O meu hospedeiro parece que teve pena de mim, sentiu que eu estava numa aflição muito grande. Gritou pela mulher, mandou que trouxesse um pedaço de sebo de carneiro que estava pendurado nas ripas da cozinha. Tirou uma bola de sebo que começou a esquentar ao fogo, agachado junto à trempe onde se cozinhava o feijão. Eu tirei a sela do Veneno, peguei na cabaça d’água que esperava, cheia, encostada à parede, e nem perguntei pra que era destinada aquela água, dei de beber com ela ao Veneno. O homem veio com o sebo quente na mão e passou a esfregar com ele a pata do cavalo, que resistia e recuava, talvez por causa da dor. Precisei fazer esforço para o segurar.

O dia inteiro levamos tratando da mão do cavalo; parecia que ele melhorava. A princípio mal tocava com o casco no chão, agora já pisava com alguma segurança.

Passei naquilo uns três dias extremamente aflitivos. Não ousava tentar comprar outro cavalo — também não tinha dinheiro para isso. Mas eu podia oferecer uma troca com o Veneno. O meu cavalo podia se recuperar, bastava só esperar alguns dias, duas semanas, talvez.

O pior é que eu receava alertar os caçadores da minha cabeça, que deveriam andar me catando o rastro; e nem entendo como ainda não tinham dado comigo, ali. Talvez a Iria os pôs em alguma pista falsa.

Mas a Vargem da Cruz não ficava tão longe, era só uma questão de tempo me descobrirem, se eu continuasse imobilizado naquela beira de estrada, praticamente esperando por eles.

Afinal, ao cabo dos três dias, o Veneno agüentou o meu peso e se pôs a marchar, embora cuidadoso. Despedi-me do hospedeiro, que parecia não ter desconfiado da minha situação. Aceitou bem a explicação que lhe dei — que tinha ido só entregar uma encomenda ali por perto e estava com muita pressa em tomar de novo a estrada. Tinha encontro marcado num certo ponto, com uns tropeiros. Íamos viajar juntos até a cidade do Pombal.

E durante todos aqueles dias, enquanto esperava que o cavalo sarasse, eu me punha a imaginar o que ia fazer com a minha vida. Por aquelas bandas não poderia pensar nunca em ficar — seria caçado como um doido, era só alguém dar o primeiro alerta. Voltar para as Bruxa me dava também um desgosto, um desagrado tão forte. Era o mesmo que me enterrar vivo no meio daquela gente, onde por dois anos eu não tinha feito um amigo, só conhecidos indiferentes. Eu antes preferia morrer; da morte não tinha medo, tinha medo era daquela perseguição. E se ao menos me matassem, mas iam querer me arrastar vivo, me levar à prisão, me acusar, me julgar. E eu poderia contar com justiça, se tinha tudo contra mim?

E aí me veio à lembrança a notícia que me dera a Iria a respeito da moça do Limoeiro que tocou fogo na casa. A mesma que me tinha feito aquela confissão!

E ela agora era dona de fazenda, senhora da tal Casa Forte onde, entre outras coisas, dava coito a gente corrida da justiça. Era o meu caso! — eu também era corrido da justiça.

Pagavam dinheiro grosso — um conto de réis! — a quem me pegasse, vivo ou morto. Não podia haver ninguém mais corrido da justiça que eu.

Bem, mas eu não tinha dinheiro para pagar o asilo à dona da Casa Forte. E essas coisas só se fazem a poder de dinheiro, de muito dinheiro.

Havia contudo um vínculo entre nós dois — eu e ela. Havia um segredo, segredo que eu não poderia descobrir nunca, porque era segredo de confissão.

Resolvi procurar Maria Moura. Tinha como pista esse nome e o nome da Serra dos Padres; muita gente poderia me dizer como chegar até lá.

Ah, se alguém neste mundo estava carecido de asilo, esse alguém era eu.

Não sei que anjo da guarda vinha me protegendo, pois que, ao fim do terceiro dia, ainda não tinha aparecido ninguém atrás de mim.

Parti na madrugada seguinte, com escuro. Não podia me arriscar a grandes jornadas, porque o Veneno ainda estava sentindo a mão. Levei comigo o resto do sebo de carneiro e um saco com paçoca de carne seca que a mulher do pouso me arranjou. Deixei naquele pouso quase todas as minhas moedas de cobre. Fiquei só com algumas patacas. E saí de lá rezando pelos donos da casa, pois só por causa deles não me sentira completamente desamparado.

Com seis dias de viagem, indo na direção geral da Serra dos Padres, que todo mundo conhecia mais ou menos, dei com um lugarejo por nome Camiranga, onde tive notícias de Maria Moura. Ela já era muito conhecida por lá.

Gastei as últimas patacas, comprei provisões, entre elas uma espingardinha de passarinhar, com que podia me ajudar no sustento até o fim da jornada.

E parti ao encontro de Maria Moura.