Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 15 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 14 — Maria Moura

Maria Moura

 

ANDAMOS mais algumas léguas — era sempre aquela solidão. A farinha se acabava no fundo do saco; em compensação, a caça era mais fácil. A espingardinha já podia ser usada; quem é que ia ouvir tiro naquele desterro? Mas tinha-se que poupar a munição. A qualquer momento era capaz de surgir um mau encontro e a gente não podia ficar desprevenida.

Mas aí, no terceiro dia, nós saímos marchando de manhãzinha, quase de madrugada, quando topamos com um pequeno acampamento que, pelo visto, se preparava para levantar. Em redor da fogueirinha, um homem de barba e dois camaradas. Amarrados num pé de angico, perto, três cavalos, ainda sem os arreios.

De longe vimos o grupo deles; estavam numa clareira; natural, ninguém faz fogo debaixo de árvore. O barbudo bebia num caneco e, dos caboclos, um apagava o fogo, o outro esfregava areia nas vasilhas.

Paramos à distância e, antes que nos vissem, entramos pelo mato. Zé Soldado dizia baixinho que estava simpatizando muito com o cavalo — devia ser a montaria do barbudo. E o Alípio se declarava de olho nos arreios e nas selas.

João Rufo que, no dizer de Zé Soldado, parecia um sargento em campanha, me perguntou:

— A gente ataca, Chefe? (Estava começando a me chamar de ‘chefe’ para dar o exemplo aos outros. Dantes só me chamava de Sinhazinha.)

E eu levantei a mão no ar:

— Esperem aí. Vamos combinar direito.

Me lembrei de uma história que o Avô contava, dos tempos das Guerras do Cariri. Perguntei então se algum deles trazia lenço no bolso. Eu trazia! Um lenço encarnado de Alcobaça que encontrei, já em viagem, no bolso do casacão de Pai. João Rufo tinha também um lenço velho. Dobrei o meu lenço enviesado e com ele cobri o rosto, tapando a boca e o nariz. João Rufo ajeitou mal e mal o seu, que era pequeno. Os rapazes deram um jeito, levantando a fralda da camisa até à cara.

— Assim eles não vêem a cara da gente. A barriga de vocês é que fica de fora, mas barriga não tem cara!

Mas Maninho resmungou:

— De que adianta? Eles não vêem a gente, mas vêem os cavalos. E é mais fácil dizer como é um cavalo do que dizer como é a cara de um homem.

Era verdade. Mas o que eu não queria era que vissem o meu rosto. A cara de mulher. Mesmo com o cabelo cortado, eu não devia ter feição de homem; já o corpo, disfarçado no trajo, ainda podia enganar.

Tomamos chegada a passo lento, pra não assustar a caça. Quando eles nos viram, a gente já estava em cima. Eu tinha dito a João Rufo: “Você fala. Eu não quero que eles ouçam a minha voz”.

Com a cara coberta, as armas apontadas, rodeamos os três. João Rufo engrossou a voz:

— Soltem as armas!

Os homens nos olharam assustados. Nenhum dos três portava arma de fogo.

— Joguem as facas longe! — gritou João Rufo.

O homem de barba atirou no chão uma faca de bainha de prata, que pendia de uma corrente, presa numa casa da camisa.

Os outros dois largaram as facas de ponta, afiadas, de mais de dois palmos de comprido.

— Agora passem pra cá os mantimentos. As redes. Isso! Assim!

E João Rufo, continuando na chefia, ordenou a Zé Soldado e Maninho que fossem pegar os cavalos. Ele e o Alípio ficavam tomando conta dos cabras.

Dois dos animais eram grandes, quartaus criados, um cardão e o outro, o melado. O terceiro era um piquira miúdo, ruinzinho, curto de perna. E João Rufo explicou para os homens que, à ordem dele, já estavam de mãos pro alto, apavorados, espiando a boca das nossas armas:

— Pra não dizerem que a gente é ruim, nós vamos só fazer uma troca: os seus dois cavalos pela besta e a nossa burra. Vocês continuam com três montarias.

O barbudo ainda quis protestar:

— Vocemecê não pode fazer isso!

Eu cheguei o cano da arma mais perto da cara dele. E Zé Soldado protestava, lá de junto dos soldados:

— Mas a gente carece também da burra pra levar a carga!

João Rufo riu-se:

— Isso mesmo! Não é que eu ia me esquecendo? Deixa pra ele a égua e o cavalinho. Com os dois eles se arrumam. Levam o outro na garupa. Também vão viajar leve, sem carga...

Fez-se a troca, rápido. E quando estavam todos montados nos animais novos, com seus arreios, Alípio pegou o chicote e açoitou de repente a besta e o cavalinho, que se assustaram e entraram a galope mato adentro. E o Alípio ainda perseguiu os dois animais até mais adiante, gritando e batendo os braços.

João Rufo mandou então Alípio pegar os cabrestos e amarrar os homens, de pés e mãos. E explicou:

— Isso é pra vocês não saírem logo correndo atrás de nós. Mas desatem logo esses nós e saiam depressa pegar os cavalos, senão eles afundam na catinga! E ninguém mais acha!

O homem de barba estava tão furioso que até espumava. Os outros olhavam pra gente, abestalhados, quase com um ar de riso. Parece que o medo, quando é muito, dá vontade de rir. Já vi isso muitas vezes, de uns tempos pra cá.

Já agora, a nossa situação era outra. Tinha-se uma rede e duas tipóias pequenas, sela, manta e rédea para todos os cavalos. E, de montaria, o Tirano, o cavalo de campo, o potro (que rinchou e corcoveou um pouco quando tangeram a besta para o mato) e os dois cavalos do barbudo. E na mula, atados às argolas da sela, pusemos os rolos com as redes. Pendurados dos dois lados, os sacos com os mantimentos: rapadura, carne seca, farinha e sal. Uma fartura.

Tirei o lenço do rosto, que me vinha atrapalhando o fôlego. As fraldas das camisas já tinham antes caído da cara dos outros, mas ninguém se importou. Afinal, cara de caboclo é quase tudo igual e nenhum deles trazia barba ou bigode que chamasse atenção.

Nessa noite, dormimos um belo sono. João Rufo atou a minha rede em duas chibatas grossas de louro. E ele próprio, a distância respeitosa, se deitou em uma das tipóias. A outra ficou para os rapazes, que se revezavam na sentinela. Sempre dois de guarda, um para acordar o outro, se dormisse.

Deitada na rede, eu me sentia inquieta. Ah, não era aquela vida de correria miúda que eu procurava, quando fugi do Limoeiro. A gente tinha que tomar uma decisão.

Reuni de novo os homens ao redor do nosso fogo e decretei:

— De hoje em diante, nós vamos procurar um canto pra fazer o nosso ponto de parada. Um lugar nosso mesmo, de onde a gente saia e para onde volte, por mais longe que se vá, e se meta no que se meter. Tem que ser um lugar escondido e com água perto. Essa mata por aí é muito grande; procurando a gente acha.

 

Levou quase três semanas para achar. Mas numa manhã bem cedo, ainda com névoa no ar, a gente descobriu o que queria.

Num vale entre duas lombadas verdes, se deitava uma lagoa de bom tamanho, chão de areia, água clara. O mato que subia pelas lombadas era de capoeira: ali já tinha se plantado; na parte baixa se plantava ainda, muito pouco; uma espécie de quintalzinho com restos de palha de milho e moitas secas de feijão. Mais para lá, perto da água, umas bananeiras. E, mais além, dois ranchos de barro, meio tombados, cobertos de palha, e um deles era fechado com porta de vara.

Em pé, junto dos ranchos, dois negros velhos — um homem e uma mulher. Perto do chiqueiro onde ainda estavam presas umas cinco cabras, uns molecotes já crescidos; o maior teria uns treze, quatorze anos, o menorzinho uns seis.

Dava para se ver quanto a velha estava assustada com a nossa aparição. Mas o velho se mostrava calmo.

Nós paramos os animais, demos bom dia, o velho perguntou:

— Vassuncês são tropa de soldado?

Eu não tinha escondido a cara e falei:

— Não. Ninguém aqui é soldado. E não queremos fazer mal a vocemecê, nem à sua família. Podemos apear?

O velho levou a mão à rédea do Tirano para me ajudar a desmontar. Com a minha cortesia tinha se desarmado. E não se enganava com a minha condição de mulher. Foi buscar no rancho dois tamboretes de pau, onde nos sentamos, eu e João Rufo. Os rapazes ficaram junto dos cavalos.

Eu indaguei:

— Vocemecês moram aqui com quem?

Falou o velho:

— Só eu, a velha, e os três moleques.

 

A história dele era comprida e meio confusa. Pelo que entendi, aquilo ali havia sido uma espécie de quilombo pequeno. O casal tinha conseguido fugir, fazia alguns anos, da fazenda onde eram escravos, lá pras bandas do Rio São Francisco. Aproveitaram uma noite de muita chuva, o portão aberto, o descuido dos capangas. Fugiram — o velho, a mulher, um filho e um genro, a filha e a nora. Demoraram meses, vagando pela mata, caminhando de noite, quando era claro, se escondendo de dia, comendo do que achavam. Afinal, deram com aquele lugar. Foram ficando, a aguada era boa, os filhos levantaram os ranchos. A mulher tinha trazido semente de milho, feijão, fumo. Fizeram uma cerquinha, plantaram. Tiveram legume para comer o resto do ano.

Depois, foi ficando mais fácil e mais farto. O filho era ladino, fazia arapuca, gaiola de caçar gato do mato, pegavam passarinho e pássaro grande — jacu, socó. (Igual a nós!) Certa vez saíram mais longe, pegaram uma cabra prenha, extraviada. A cabra pariu, e com o casal de cabritos, começaram a criação. Tempo depois conseguiram até um bode de fora; foi bom, porque a criação, de tanto cruzar só entre si, estava ficando miúda e doente.

Até que um dia — pelas contas dele fazia cinco anos — de repente apareceu ali um volante que andava caçando uns escravos fugidos, mas que não eram da fazenda do Sinhô deles. Assim mesmo o capitão do mato prendeu a todos, para não perder a viagem. Não se importou quando eles protestaram que eram forros, estavam ali por ordem do Sinhô que queria situar aquela garra de terra fresca.

O capitão não acreditava na invenção daquela alforria:

— Vocês nem podem negar! É tudo quilombola, conheço até pelo cheiro!

Mas resolveram levar com o volante só os dois negros novos, eram força de trabalho, e as duas mulheres, também ainda boas de produção.

Deixaram ficar os velhos e as três crias, que não iam agüentar a viagem de volta.

Os homens do volante até que tiveram pena; coitado do negro velho, e afinal, aquela família não era mesmo a dos cativos que eles vinham caçando!

Mas o capitão do mato cortou a conversa:

— Levo esses quatro e, com isso, me pago da canseira. Se chego de mão abanando, fico no prejuízo.

Mandou amarrar os quatro, saiu com eles, enquanto as crianças gritavam e a velha chorava, agarrada no menorzinho, que ainda era de colo.

Quando montou no seu cavalo, o capitão se despediu:

— Vocês fiquem quietos, que eu não vou dizer à autoridade onde é que achei esses negros. Criem os moleques.

Não era um homem muito ruim, afinal. Não matou ninguém.

 

Fiquei ouvindo a história do escravo e fazendo um plano. Em vez de tomar a morada dos negros velhos, eu podia muito bem fazer deles uma espécie de moradores, ou mesmo caseiros, da gente. Quem por acaso passasse por ali, visse os moleques, os velhos cuidando da criação e da planta, não ia pensar que se abrigava algum homem armado à beira daquela lagoa.

E inventei a minha história para contar ao velho, de um jeito que ele pudesse entender.

— Não vê — eu disse — estou aqui vestida nestes trajos de homem, à força, para me esconder dos meus inimigos. Vocemecê conheceu logo que eu sou uma moça — moça de boa família, não é? Fui expulsa da minha fazenda por uns primos carrascos, que queriam se apossar do que era meu, quando me viram órfã de pai e mãe. Fizeram tudo para me tirar do meu sítio e, por fim, tocaram fogo na minha casa. Eu fugi, apavorada e chamei para virem comigo estes camaradas; a intenção daqueles miseráveis era me matarem queimada dentro da casa. Estes meus caboclos já trabalhavam pra minha mãe, e os primos tinham raiva deles também. Arranjamos uns cavalos e chegamos até aqui. Andamos muito, léguas e léguas, nem sei quantas. Estamos com mais de mês de correria por essas matas além. Passamos por muito perigo — ladrão, bicho bravo — mas Deus e Nossa Senhora nos protegeram. E agora, eu vendo a sua morada, tão calma, me lembrei da gente se arranchar por aqui. Com os meus homens, reformo as suas barracas e faço mais uma: ficam sendo três: uma pra mim, outra pra sua família, outra pra eles. Eu já lhe disse que sou moça solteira e eles me respeitam muito. Mesmo com os aperreios da fugida, consegui trazer algum recurso, vai nos dar para um começo de vida. Quem sabe a gente pode adquirir alguma rês pelas vizinhanças, plantar um bom roçado, fazer bastante legume...

O velho, que se chamava Amaro (a mulher se chamava Libânia), depois de ouvir o meu relato, só fez um reparo:

— Aqui não tem vizinhança. Não tem onde se comprar nada. A gente vive da mão pra boca.

E a velha Libânia ajuntou, sentada um pouco além, numa pedra, com o menino menor encostado nos joelhos:

— Roupa, então, é impossível. Uma miséria. Eu ainda remendo uns molambos, para mim e o velho. Mas, criança, vive tudo nu que nem índio.

Eu me levantei, cheguei perto da velha, passei a mão na cabeça do neto, bem pretinho, com as meninas dos olhos enormes, mais pretas ainda.

Ele chupava um dedo, com força, como se esperasse tirar alguma coisa de lá. Estava se vendo que tinha fome.

A Libânia gemeu:

— Coitadinho. Quem vê não sabe que anda bem pelos seis anos. Nunca bebeu um pingo de leite depois que levaram a mãe. Depois que se adquiriu as cabras a gente procura tirar algum leite, mas é difícil, porque cabra do mato é braba, não dá leite nenhum. Ficou movidinho, se criando só com papa de xerém de milho. Mas agora, até o milho acabou...

Eu chamei João Rufo, cochichei com ele. Mandei tirar do saco uma cuia de feijão, outra de farinha. Chamei os dois meninos maiores que ficavam de longe, assustados; com a ponta da faca fui quebrando as quinas de uma rapadura para dar um pedaço a cada um. Os dois pegaram o doce, rápido, como se furtassem, e foram comer escondidos, encostados no oitão do barraco. O velho estendeu a mão, com delicadeza:

— A senhora dá também um pedaço pra mim e pra velha? Já nem sei há quanto tempo que eu não provo doce...

Quebrei um bom pedaço para os dois. Era o que nos restava do farnel do barbudo. Disse à velha que acendesse fogo, para se cozinhar o feijão. Ela afastou o menino, arranjou uma panela de barro, encheu d’água, catou depressa os caroços, foi soprar as brasas na trempe. Quase chorou quando lhe entreguei um punhadinho de sal.

— Sal, meus santos anjos! Não vejo sal desde aquela noite que a gente fugiu da senzala!

Molhou com a língua a ponta do dedo, tocou o dedo molhado no sal, lambeu o dedo com delícia:

— É sal, mesmo. É sal das águas do mar, secado no sol...

Esperei que ela terminasse os arranjos. O velho só tinha olhos para a promessa de comida. Afinal, o fogo deu labareda embaixo da panela e eu voltei a me sentar no tamborete e a falar. Eles me ouviam, chupando cada um o seu pedaço de rapadura.

— Pois como eu ia dizendo, a gente bem que podia viver juntos aqui. Como é que se chama este lugar?

O velho Amaro respondeu, com a boca cheia:

— O nome antigo eu não sei. É um lugar tão perdido, que talvez até nem tenha nome. Nós chamamos de Lagoa do Socorro, pois foi ela que nos acudiu.

E eu concordei:

— Socorro. É isso mesmo. Vai ser Socorro para nós também.

Os rapazes foram lavar os cavalos, depois cortaram no roçadinho um pouco de palha de milho. Os animais comeram, amarrados nos cabrestos.

Perguntei ao velho Amaro onde é que poderia comprar alguma coisa — mantimento, rede, um machado, uma enxada...

— Machado eu tenho um, ainda com serventia, que se trouxe, na fugida. Enxada tem um caquinho, que a minha nora trouxe também...

— Mas o resto das coisas, onde se adquire aqui?

Seu Amaro parece que tinha medo de dizer. Afinal confessou:

— Nós nunca fomos lá. Mas tem um arruado, a umas quatro léguas daqui, na beira da estrada que vai para o norte... Meus filhos, quando a fome aqui era demais, botavam umas esperas nessa estrada e tomavam as compras dos beiradeiros que vinham de lá fazer feira... O lugar se chama Camiranga; lá tem bodega que vende mantimento, pano pra roupa, louça de barro.

A velha, de repente, riu:

— Um dia meu filho trouxe até um cobertor de baeta, sem saber nem pra que servia. Pensava que era pra se fazer manta de cavalo! Mas eu conheço baeta! Já lavei muitas delas, dos brancos dormir enrolado, lá na fazenda velha... Tá ali, dentro de um saco, trepado embaixo do telhado. Mas o cupim andou dando nela, fez uns buracos.

Eu procurei continuar a conversa:

— Pois eu vou mandar um rapaz meu até essa tal de Camiranga, comprar o que for preciso. E vamos levantar de novo esses ranchos caídos. O de vocês, mais o menor para mim e ainda se levanta um novo, maior, para os homens. Precisa também fazer um retiro para os cavalos, um bom cercado, escondido no mato, cerca forte, pra não se perder nenhum animal.

O negro velho abriu o sorriso:

— De cerca eu entendo, Sinhá. Era o meu trabalho na fazenda. De faxina, de entranço, pau redondo, pau lascado...

E a velha Libânia, acocorada junto da trempe:

— E pra mim, se me trouxerem uns panos, linha e agulha, eu ainda entrujo uma camisa e umas ceroula pros moços. E quero uma tesoura, pra cortar o pano. Eu tinha duas agulhas, uma se quebrou, a outra se perdeu na areia.

Numa segunda trempe, a água já fervia, foi-se fazer um chá. De capim santo, que era o que havia. Siá Libânia ria, jogando o último pedaço de rapadura dentro do chá:

— Que luxo!

 

Parecia uma reunião de família. A velha ofereceu armar uma rede para mim, dentro do barraco. Mas espiei de longe a furna escura e me excusei:

— Acho que prefiro atar a minha rede num pé de pau desses. Com tantos dias dormindo no tempo, acho até que já me repuna me trancar entre quatro paredes...

João Rufo tirou do saco umas cordas e a rede do barbudo, que foi armar numa catingueira grande, no fim do terreiro, quase na beirada da mata. O outro punho atou num angico, duas braças afastado da catingueira.

Eu me deitei, me espreguicei, estirei os ossos e prometi de lá:

— É só por hoje que a gente fica assim, à vista de quem chegar, com rede armada do lado de fora. De ora em vante, vocês vão fingir que continuam vivendo como antes. Não quero que ninguém estranhe as mudanças; nem descubra que tem gente branca morando por cá.

— Aqui é muito difícil passar ninguém — tranqüilizou o velho. — Só se for mesmo por acaso, como vocemecês. Ou se andarem farejando negro fugido, como aquele capitão do mato.

João Rufo indagou:

— O menino maior já trabalha?

— O Juco? Ai de nós se não fosse ele — gabou-se a Libânia. — É ele que apanha lenha no mato, quem dá limpa no roçado. O do meio pastora as cabras, por causa de onça e cachorro do mato.

João Rufo explicou a idéia que tinha:

— Falei isso porque podia algum passageiro estranhar, vendo as casas levantadas de novo, as coisas mais melhoradas.

Alípio se adiantou:

— Olha, Mestre João, eu tive uma idéia: eu, que sou o mais escurinho, posso muito bem passar por neto deste avô e desta avó aqui. Conto que cheguei de longe, vim ajudar a família. Meu avô de verdade era caboclo, mas minha avó era negra mesmo. Meu avô trabalhou bem uns dez anos juntando o dinheiro que o Sinhô velho exigia pra alforriar a mulher. Isso foi na vila, na Vargem da Cruz. Vó ajudava vendendo cocada no tabuleiro. Cocada puxa. Sinhazinha deve se lembrar — depois dela forra, foi que o velho Eliseu se mudou pro Limoeiro.

Acabada a história, Alípio veio se agachar junto da Siá Libânia. A velha lhe passou a mão na cabeça, entrou na brincadeira:

— Deus te abençoe, fio. Eu também sei fazer cocada puxa. Só me falta ter com quê!

 

Enquanto a gente combinava as coisas, parecia fácil, mas na verdade foi uma consumição. Eu sempre tinha vivido trancada em casa, as cunhãs me trazendo tudo na mão, preparando meu banho, lavando e passando a minha roupa, fazendo comidinha especial porque eu era biqueira. Mãe tinha me acostumado muito mal.

Agora aquela vida dura, só com os homens por companhia, naquele mato isolado, nem sei como pude enfrentar.

Mas tinha que ser e eu ia adiante. Com poucos dias já Zé Soldado tinha ido à tal de Camiranga, montado no cavalinho de vaqueiro, que não dava nas vistas. Levou todo o resto dos cobres e umas moedas de cruzado que eu lhe dei. Voltou com duas redes, uns pratos e colheres, umas varas de pano, linha e agulha para Siá Libânia. A tesoura que trouxe era velha e enferrujada, o bodegueiro cedeu porque não tinha uma nova.

Mais dois sacos de mantimento; até uma galinha e um frango ele arrumou, mas esses não comprou, pegou num matinho à beira da vereda. Era para a gente começar uma criação.

Trouxe também um quarto de bode gordo, que nós assamos no espeto e foi uma festa. E ainda veio uma garrafa de cachaça que eu não tinha encomendado, mas achei que eles mereciam. Bebeu-se tudo na primeira noite, tirando o gosto com as lascas do bode na brasa, cantando e lembrando o que tinha acontecido desde a noite do fogo, até aquele dia.

No fim, deixei todos ainda quentando o frio da noite ao pé da fogueira e fui inaugurar o meu barraco, que tinha ficado pronto. Me enrolei na baeta da Libânia, realmente estava um pouco furada do cupim.

Dormi a minha primeira noite sossegada, debaixo da cobertura, depois de não sei quanto tempo ao sereno.

O cercado dos cavalos ficou pronto logo depois. Tinha bom espaço e João Rufo escolheu uma baixada para fechar com a cerca, onde dava uma beleza de capim panasco. Só que naquelas alturas de setembro, o capim já estava todo seco, mas ainda era uma boa forragem, assim mesmo. Todos os dias os homens montavam, para os animais não perderem o costume de andar, nem eles próprios. Eu mesma passava a perna no meu Tirano e saía andando, na companhia de João Rufo, a fim de conhecer os lugares.

Mas aquilo ali, para nós, era muito diferente. A mata parece que engolia tudo, a catinga de verão era um mar de garrancho e folha seca, onde a gente se afogava. Com João Rufo eu discutia os nossos planos de vida.

A minha idéia era ir levando os cabras a se acostumarem na luta, porque da luta é que ia sair o nosso pão de cada dia. Tinha muito com quem se brigar nesse mundo afora — porque eu já estava convencida de que, nesta vida, quem não briga pelo que quer, se acaba.

Eu queria ter força. Eu queria ter fama. Eu queria me vingar. Eu queria que muita gente soubesse quem era Maria Moura. Sentia que, dentro da mulher que eu era hoje, não havia mais lugar para a menina sem maldade, que só fazia o que a mãe mandasse, o que o pai permitisse.

Daí, nem sei. Talvez essa meninazinha só existisse nos olhos dos estranhos. O fato é que nunca, na minha vida, eu tinha feito o que Mãe queria de mim. Desde o começo, quando fui me botando mocinha e sentia que me sufocava naquela casa do Limoeiro. Depois, nem sei como diga — não é que eu deixasse de querer bem a Mãe, talvez eu só tivesse pena dela. Pouco tempo passado que Pai morreu, quando Mãe começou a amizade com o Liberato e o povo plantou-lhe a língua, eu só sentia vergonha e raiva quando via ele, muito cínico, entrar no quarto de Mãe me espiando como rabo do olho, para ver o que eu fazia antes que ele batesse a porta.

Eu tinha vontade era de cuspir nele, mas com Mãe era diferente. Nunca briguei com ela. Só quando ela vinha me exigir comportamento de mocinha de família, às vezes eu respondia que ela não tinha moral pra me impor regra de vida. E então, uma vez, ela respondeu: “Algum dia você vai entender”.

E eu já entendia, pensava ela que eu não entendia? Já tinha fogo por homem; não por aqueles matutos que eu encontrava na igreja ou na rua, nas raras vezes em que ia à missa. Uns pacholas de chapéu à banda, alisando aqueles fiapos de bigode, se fazendo de importantes. Nem queria os cabras da fazenda, eram brutos demais para mim. Não viu, mais tarde, o Jardilino? O fim que teve?

Eu sonhava com um homem — não sei que homem eu queria, mas sabia que tinha que ser um homem. Algum dia.

Quando, depois da morte de Mãe, naquela confusão em que ficou a minha vida e a minha cabeça, eu acabei consentindo nos adiantamentos do Liberato — era porque pensava: quem sabe é ele? Se Mãe queria, por que não eu?

Acabou dando no que deu, aquele horror.

Agora eu estava livre de tudo, sem casa, sem dono, sem família, e daí? Pelo menos ninguém me botava o pé no pescoço; e falando em botar pé no pescoço, de repente me lembrei do Tonho, aquele condenado. Se me saísse tudo errado nessa vida que eu começava, no remate dos males a culpa era toda dele. Foi o Boca-Mole, com a ajuda do bestalhão do Irineu, que precipitou tudo. Embora eu saiba que nunca ia ficar o resto da minha vida presa no Limoeiro; nem mesmo em casa de rua na Vargem da Cruz; mas não carecia começar com tanta violência.

E, nesse pensamento, eu dava um suspiro fundo, era como se acordasse.

O Tirano me carregava aprumado, era desses cavalos que parecem que têm orgulho no dono. Quando dava uma topada ou metia o pé num buraco — e isso só acontecia raramente — ele ficava envergonhado, baixava a cabeça, enfezado, como quem diz: “Vamos começar de novo... Desta vez não tive culpa”.

 

Ah, para se arranjar tudo como a gente queria, levou algum tempo. Tive que mudar um pouco o plano, depois que João Rufo me deu um aviso:

— O casal de velho parece muito seguro de que o capitão do mato não volta. Mas quem sabe lá? Essa gente eu conheço: não tem pena de ninguém. É até possível que eles, fazendo alguma andança por estes lados, se lembrem de ver se as crias dos velhos já cresceram. Aquele Juco, o maior, eles podem até achar que chegou no ponto. E carregam com o negrinho, que já está mesmo se pondo homem. Olhe, Sinhazinha, um negro novo, bom de trabalho, se troca por dez vacas paridas, no mercado.

Isso foi depois que acabamos o conserto da primeira casa, a minha, onde eu até já tinha dormido uma noite.

Chamamos então o velho Amaro e o Zé Soldado, que era o mais desenvolvido, e discutimos o problema.

João Rufo achava que a gente só devia deixar ver, na beira da lagoa, as casas antigas, para não dar nas vistas de quem passasse.

Ficava então a minha, sendo a morada dos velhos e a dos moleques, pouco melhor que a de antes. Deixava ficar também o chiqueiro das cabras, o roçadinho velho com a meia tarefa de planta. O mais — quer dizer — as nossas moradas novas, tinha tudo que ser situado lá mais pra dentro, no fechado da mata, por onde não corresse caminho nem vereda.

A derrubada lá era para ser a menor possível; as casas levantadas debaixo das árvores grandes (a gente encontrou uns angicos e uns paus d’arco que pareciam umas torres). O cercado dos cavalos já tinha uma ramada provisória e o lugar escolhido era bom. As nossas duas barracas deviam se levantar não muito perto do cercado; se alguém achasse uma coisa, não obrigava a achar a outra; ou as casas, ou os cavalos. Roçado que a gente plantasse, também seria lá dentro, muito mais no fundo da catinga.

Dificuldade tinha; era a água longe. Mas os rapazes podiam trazer os animais para a bebida, antes que raiasse o dia e, num caso de perigo, não custava levar algumas cargas de água, em animal, ou mesmo no ombro dos homens.

Começamos o trabalho e não foi pouco. Deixamos as barracas velhas dos escravos — a do filho e a do genro, no seu estado de ruína, quase tapera; na nova acrescentamos uns paus tortos, nem rebocamos as paredes por fora, ficou só no sopapo do barro. O cercado das cabras continuou do mesmo jeito também: a cerca meio desdentada, faltando uns paus aqui e ali.

Já pra nós, lá dentro, a coisa era outra. Duas barracas bem aprumadas; a minha, pequena, que era só para uma rede; a dos homens larga pra três redes. Seguindo a combinação, o Alípio ficava com os velhos, se fazendo de neto, na verdade pra nos servir de sentinela. Foi muito ao gosto dele, que parecia sentir saudades da avó que ficou na vila.

Fizemos o chiqueiro das galinhas, fechado por cima à moda dos índios, proteção contra as raposas, que ali tinha muita. Limparam um terreirinho defronte à minha porta. João Rufo fez um banco — duas forquilhas de cada lado e, por cima, uma tora de uma braça de comprido; diziam eles que, ali, era o meu ‘gabinete’.

Todas as portas eram mesmo de vara, que não se tinha serrote para serrar tábuas, nem prego. Mas eram tecidas tão miudinho que por elas só podia passar mesmo algum inseto.

Rematando, trocou-se a ramada dos cavalos por uma boa cerca de pau a pique, que os animais tinham medo de saltar por cima, devido às estacas em ponta.

A gente já sonhava com uma vaca parida para dar leite; o velho Amaro sabia de uma fazenda com muito gado solto, pra lá da tal Camiranga. Um dia se mandava dois dos meninos dar uns campos por lá. Não era à toa que, do nosso sítio, se tinha trazido um cavalo campeiro!

 

Os dois negros velhos já começavam a chamar o nosso acampamento ‘a fazenda’.

 

É, estava tudo uma beleza; eu até tinha engordado um pouco. Nem pensava mais nos meus banhos de cheiro, na boa cama com lastro de sola que eu tinha no Limoeiro. Também isso, e tudo o mais, estava agora virado em cinza. Do meu conforto de sinhazinha, nada. A vida era outra, eu estava endurecendo. Já um dia inteiro a cavalo, por maus caminhos, não chegava a me deixar enfadada. Um bom mergulho na lagoa, com Libânia vigiando pra não passar homem perto (e para ela, até o Pionca, o menino do meio, ou o caçula, o Bíu, era ‘homem’).

Eu comia, assada na brasa, banda de nambu ou de preá, ou de tatu; ou uma traíra, da lagoa, temperando o feijão. E dormia até a manhã seguinte. Andava mesmo tão bem disposta que, ao fim de um desses dias de correria, João Rufo brincava, dizendo que era mais fácil o Tirano ficar enfadado do que eu.

Mas comigo mesma, dentro do coração e da cabeça, ainda nada estava bem. Aquilo para mim era só um tempo de passagem ou mesmo um começo, mas um começo pequeno, primeiros passos de um caminho que ainda tinha de ir muito, muito mais longe.

Pensava, em primeiro lugar, no que eu ia fazer quando se acabasse o nosso dinheiro de prata, que nem era tanto. Ficar roubando bode e garrote das fazendas, léguas abaixo? Isso não era pra mim. Eu queria era coisa grande; era poder na minha mão.

Eu sentia (e sinto ainda) que não nasci pra coisa pequena. Quero ser gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter riqueza! A minha casa, o meu gado, as minhas terras largas. A minha cabroeira me garantindo.

Viver em estrada aberta; e não escondida pelos matos, em cabana disfarçada, como índio ou quilombola. Mas num alto descoberto, deixando ver de longe o casarão lá em cima, telhado vermelho, paredes brancas caiadas. Cavalos de sela comendo milho na estrebaria, bezerro gordo escaramuçando no pátio.

Quero que ninguém diga alto o nome de Maria Moura sem guardar respeito. E que ninguém fale com Maria Moura — seja fazendeiro, doutor ou padre, sem ser de chapéu na mão.

Um dia ainda vou me vingar daquelas almas de morcegos das Marias Pretas. Mas isso tem o seu tempo. Afinal, não fosse a investida deles eu talvez não tivesse coragem de sair de casa, ficasse presa dentro dos dois palmos de terra do Limoeiro, brigando pelas extremas com os outros vizinhos. Foi na verdade o Tonho que me deu o primeiro empurrão. Assim mesmo, um dia ainda eles me pagam. Um dia. Pela minha casa queimada, pela agonia daquela noite.

 

Quero tirar do meu corpo as marcas das mãos do Liberato, que às vezes ainda sinto me queimando. Quero que ninguém se lembre mais de mim como a filha daquela viúva falada do Limoeiro, que acabou morta enforcada...

 

Dizia o Marinheiro Belo: “Se podes lidar com cem, não te limites aos dez...” Pois eu quero lidar com mil!

Tinha que andar devagar, eu sabia. Ir adestrando os meninos, que todos os domingos faziam exercício de pontaria; cada um dava dois tiros, nada mais, pra se poupar a pólvora.

Não tornei a mandar Zé Soldado fazer compras na Camiranga. O Amaro falou em outra vila, distante umas nove léguas do nosso Socorro, quase uma semana de viagem, ida e volta. Mas lá o povoado era maior que a Camiranga; chamava-se Lagoa das Emas e ficava a menos de três léguas da estrada que vinha do sul. E era essa estrada que me interessava. Por ela passavam os comboios de carga, os tropeiros levando na ida o algodão, o couro, o milho, o feijão. E, na volta, traziam de um tudo de que se carecesse naquelas brenhas. Sem contar o dinheiro, os trocos, pois sempre vendiam mais do que compravam.

Pela mesma estrada real viajavam os fazendeiros que iam para o Crato, para o Recife, para a Cidade da Bahia. Até mesmo para a Corte, eles costumavam viajar por aquela estrada mais segura, mais povoada. Os senhores a cavalo, as donas gordas nas liteiras carregadas por dois burros, já que a força dos negros não dava para carretos pesados, puxando mais de cem léguas.

Era esse tipo de gente que eu queria pegar, cobrar deles o que eu precisasse. Não seria só com João Rufo e os meninos, rodando naquele vazio, que eu ia fazer o meu futuro.

Zé Soldado então foi à Lagoa das Emas, levando Maninho de almocreve. Comprar ferramenta, munição, uma cangalha aparelhada que estava fazendo muita falta. Talvez se precisasse também arranjar mais um animal de carga pro transporte de água e da lenha até a nossa ‘fazenda’.

Contei o dinheiro com cuidado: o papo de ema estava ficando mais comprido, mais mole, mais magro. Na saída dos dois irmãos eu disse para João Rufo:

— É o último tostão que me sai da bolsa, João. De hoje em vante, a gente tem que se fazer. Dinheiro não tem mais que ir — tem que vir, de fora.

Zé Soldado e Maninho levaram mais de uma semana para voltar. Já se estava com cuidado — teriam sido pegos por aí? Meio assustada, combinei com João Rufo: a gente esperava mais dois dias e então ele tinha que sair com os outros em procura dos meus cabras.

Felizmente, antes dos dois dias, chegaram eles. Carregados de um tudo, gastaram até o último cobre. Cangalha não acharam aparelhada, então passaram a mão numa alheia, jogada no alpendrim de uma casa fechada, por onde passaram de volta, à boca da noite. E, junto, uma esteira forrada de pano, cabresto de relho, bom demais.

Munição compraram em três vendas pra não chamar atenção conforme eu tinha recomendado. Mas parece que um bodegueiro contou pro outro a respeito de dois cabras de fora que estavam fazendo compras. Um deles veio indagar de Zé Soldado pra que eles queriam tanto fogo. Os meninos voltaram à história do caçador de onça. Couro de pintada estava dando um dinheiro doido e o patrão deles andava pensando em se aventurar numa caçada grande.

E quando o sujeito quis saber onde é que estavam esses caçadores, o Zé deu um roteiro errado, meio vago, com a desculpa de que era novato por ali e não sabia ainda o nome dos lugares.

— Só sei que é pras bandas do nascente... (e o Socorro ficava bem ao poente deles).

Passamos um mês fazendo os preparativos da primeira sortida. Contamos as armas: dois bacamartes — o meu e o do Zé —, a garrucha e o outro bacamarte tomado do barbudo. Bacamarte era bom, porque pra ele serve qualquer munição — prego, pedaço de ferro, seixo miúdo, chumbo de tarrafa, o que vier. Para as outras armas, fia mais fino. Tem que ser chumbo redondo, que não é muito fácil de encontrar. Mas munição não é nada, o sério mesmo é a pólvora. E quanto mais longe de cidade grande se faz a compra, mais cara é, e mais contada e mais difícil de se haver.

João Rufo ficou apavorado quando eu disse que ia junto com eles na primeira sortida. Se Santa Luzia ameaçasse nos acompanhar no seu cavalinho, ele não se escandalizava tanto. Mas eu nem discuti, só expliquei que não pretendia me meter nos entreveros, ia ficar escondida, apreciando de longe:

Mesmo porque eu ainda não sei atirar. Nem tenho arma leve que me sirva. Mas vou ser eu quem vai escolher o local e combinar os planos de última hora.