Memorial de Maria Moura
Cap. 5 — O Tonho
O Tonho
A GENTE, o Irineu e eu, ia voltando para casa, num chouto baixo de vaqueiro. Calados. De vez em quando Irineu chegava a espora no cavalo, que se encolhia todo, como se não lhe bastasse a dor da pisadura. Andamos mais, calados sempre, quando de repente Irineu quis saber:
— Será que ela se assustou?
E eu soprei, pelo diabo da falha dos meus dentes:
— Sei lá. Aquilo é cabrita de raça ruim. Não pela Titia, que, se nunca foi santa, sofreu muito nas mãos daquele marido. E acabou do jeito que acabou.
— E você acha que foi esse Liberato mesmo quem matou a Titia?
— Ele provou ao delegado que não foi. Que estava a três dias de viagem da Vargem da Cruz, quando se deu o sucesso. Deu testemunha.
Mas o Irineu assim mesmo não acreditava:
— Quem sabe lá. Pode muito bem essa testemunha ser falsa. Falso testemunho! Se declarando ele lá, e na verdade o homem galopando na estrada. Tinha um cavalo bom, se lembra, Tonho? O alazão do Tio, por nome Tirano.
E de repente eu sofreei a minha besta:
— Estou pensando que foi besteira nossa deixar as coisas na mão do delegado. Ela é muito capaz de fazer com ele o que fez com a gente. Correr com soldado e tudo.
Irineu também já tinha estancado o cavalo:
— Foi besteira, foi. A gente devia mesmo era ter ido com os soldados. Aquela bichinha é de cabelo na venta, bem capaz de botar eles pra correr. E é moça órfã, filha de fazendeiro. Os homens têm consideração.
— Ainda existe muito amigo e pareceiro do pai dela, lá na Vargem da Cruz. Ela pode se valer deles.
— Pelo que eu sei, de amigo dele não resta mais ninguém. O Tio lidava muito era com o Major Caiado. Esse era perigoso.
Eu me lembrava do Major:
— É. Mas mataram ele já fez bem uns seis anos. Você pode ter razão: com a morte do Major, espalhou-se tudo, os amigos e a cabroeira dele.
Ficamos ali, parados na estrada, defronte de uma ruína de casa. Era a chamada Tapera Velha, que se levantava à nossa frente, fazendo vulto no meio do arvoredo ainda baixo, em redor.
— Estamos na Tapera Velha. Daqui pra vila dá uma légua e meia. A gente bem podia voltar.
— Ver o que está acontecendo? É melhor mesmo.
Viramos ao mesmo tempo a montaria. O cavalo velho do Irineu ainda resistiu um pouco, teimando em seguir pra casa. A besta tomou-lhe a frente. Durante toda a volta não se falou quase nada, cada um pensando no que se devia fazer. Ou pelo menos no se podia fazer. A gente tinha dito ao delegado que não queria começar briga. Queria só punir pelo nosso direito. Se ficava em casa, esperando a intimação, a ação da autoridade. Podia até ser que a moça se assustasse e resolvesse entregar o que era nosso...
Eu não parava de pensar. Se o delegado não fizesse nada, a gente tinha mesmo era que tomar as nossas providências. Levar uns cabras armados, chegar lá de noite, pegar a gata brava nem que fosse atada com corda e trazer pras Marias Pretas.
Falei com o meu irmão. Sabia que ele estava lendo dentro da minha cabeça; tanto que ele me disse:
— A gente leva ela à força e se espalha que roubamos a prima pra casar.
E aí eu me ri:
— Você até que pode mesmo casar com ela! Ficava tudo em família.
O Irineu ficou pensativo:
— Casar eu caso. Não fosse por isso. Ela até que é engraçadinha.
Mas eu não gostei da idéia:
— Mas é mal falada. Falaram dela até com o Liberato.
— A mãe também era mal falada. Titia. Daí, não foram elas nem as primeiras. Essas mulheres da nossa família sempre foram escandalosas. Se lembra da Tia Vivinha? Fugiu com aquele mulato, cabra forro, vindo das bandas do Maranhão!
— É. O mulherio da nossa raça parece que nasceu com fogo no rabo. É mesmo raça de índia: não enjeita homem.
O Irineu parece que não estava gostando da minha conversa:
— Na mão de um marido macho mesmo, ela se aquieta. Nem que seja a poder de relho.
Agora, quem de novo não gostava era eu:
— Eu nunca bati em mulher.
E ele:
— Ora, mano! E a surra de peia que você deu naquela Sabina Roxa? A pobre ficou uma semana em folhas de bananeira, pra sarar o couro.
— Quando eu digo mulher, é outra coisa. Aquilo era só uma quenga. Moleca muito sem vergonha.
— Pode ser. Mas você quase matou a rapariga.