Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 31 de 43

Páginas do PDF

Memorial de Maria Moura

Cap. 30 — Maria Moura

Maria Moura

 

 

A GENTE ESTÁ EM PAZ, levando a vida, rolando pedra de morro acima, como diz João Rufo, pensando que o mais difícil já se enfrentou, quando de repente o céu se abre e cai de lá uma assombração vinda direta do passado, que já se pensava enterrada, de osso branco, como um defunto velho.

Pois foi assim, como um raio em dia limpo, que me apareceu o Padre, quero dizer, o nosso Beato Romano.

Vieram avisar a João Rufo que tinha um desconhecido amoitado no mato, mal escondido na galharia seca. Não era um caboclo, chegou a cavalo, usava sapato e tinha uma espingardinha a tiracolo.

Estava agora sentado no chão, ao lado do animal, esperando o quê, ninguém entendia.

Mandei João Rufo ir ver quem era o estranho. Se tinha negócio com a gente, trouxesse o homem até em casa; se não tinha, enxotasse.

— Leve um homem com você. Não disseram que vem armado?

Foi grande o meu susto quando reconheci no estranho aquele Padre que me surgia das entranhas do passado. E nem sei como me deu a idéia de fazer dele o Beato Romano. Talvez achei que, com aquela cara chupada, a pele baça, a barba emendando com o bigode, me lembrava mesmo um certo beato que eu tinha visto passar pelo Limoeiro, junto com bando de penitente, pedindo esmola e cantando bendito.

Como eu não sei costurar, chamei Rubina, pedi que me cortasse e costurasse o camisolão do Beato, numa peça de pano azul que se guardava na despensa. Rubina chamou uma ajudante, num instante costurou a mortalha, quero dizer — a ‘samarra’ (palavra que o Padre me ensinou que era o nome certo para aquele camisão). Depois, com fio de algodão cru, elas torceram o cordão de São Francisco para ele amarrar na cintura.

E Rubina, imediatamente, virou-se em devota do Beato, tornou-se a protetora dele; lhe cuidava ela mesma da roupa, lhe arranjou umas apragatas feitas por um dos nossos campeiros que trabalhava em couro. Eu tive que inventar, para Rubina, uma história meio atrapalhada: “Imagina, minha nega, o pobre desse Beato me chegou na Casa Forte, disfarçado, metido em calça e blusa, trajo que ele nunca usou. Veio fugido dos soldados de polícia. Pelo que ele contou, corre pelo sertão inteiro uma ordem do governo mandando perseguir qualquer bando de gente que vagueie pelas estradas, rezando, cantando bendito e com um beato à frente, puxando a reza.”

Rubina conhecia os penitentes:

— Eles dão sempre que falar.

— Mas o pior é que não é só soldado que persegue aqueles coitados. Tem muita gente ruim, muito Sinhô, principalmente, que manda capitão-do-mato com os cabras atrás dos penitentes, dizendo que um bando desses só serve pra dar cobertura a negro fugido. E agora veja, Rubina, o pobre do Beato Romano: andava com o bando dele numa dessas marchas, cantando e tocando matraca, quando deram de frente com mais de vinte soldados! Tinham recebido denúncia deles. E foi aquele estrago: pegaram uns, estropiaram outros; o Beato ainda teve tempo de se esconder no mato, despiu a camisola, ficou só de ceroula, e andou assim até que uma alma caridosa acudiu e lhe arranjou aquela roupinha velha... Depois lhe deram um cavalo. E ele então, como tantos outros perseguidos, resolveu pedir asilo na Casa Forte.

Nunca pensei que eu fosse capaz de inventar tanta coisa e tão de repente. Nem sei se a Rubina acreditou em tudo; mas a minha esperança era que ela não se lembrasse do Vigário, da Vargem da Cruz, e não reconhecesse o Padre no Beato. Me sentia mais segura ao lembrar que eu mesma não tinha reconhecido o Vigário, embora fosse confessada dele; a mudança era grande demais.

Também não posso negar que a presença do Beato veio mexer muitíssimo comigo. Águas passadas, águas passadas. Quanto tempo decorreu depois daquela minha confissão, na igreja da vila? Pra que é que eu fui me ajoelhar naquele confessionário? De louca? De apavorada com a morte de Mãe? Afinal é uma pergunta que eu nunca soube responder. E que, agora, poderei dizer que nem interessa mais.

 

Pra Duarte eu só disse duas palavras. A mãe já lhe contara a minha história e ele aceitou. Duarte tem bom coração.

Uns três dias depois da chegada do Padre, mandei chamar por ele, que já andava com a sua camisola azul de Beato e a sua corda na cintura. Fechei a porta da sala e disse que já se podia conversar.

Ele então me contou uma história de fazer medo. A paixão que ele e a Dona Bela da Atalaia tiveram um pelo outro, o marido, aquele Anacleto da loja, fora de casa, atrás de minas de ouro. Depois de um ano apareceu de repente e achou a mulher de barriga... Doido de raiva matou a ela e à criança dentro dela e quando o Padre chegou correndo, o Anacleto foi em cima dele e quase o degola... Pra não morrer, o Padre atirou um tamborete de pau na cabeça do marido, matou direto... E aí botaram a cabeça do Padre a prêmio oferecendo por ela um conto de réis, vivo ou morto...

Tudo isso havia se dado depois da minha saída do Limoeiro. Ele teve notícia do incêndio, nunca entendeu o que tinha me levado a isso, para ele era um mistério.

Passados tantos anos, entre uma e outra correria, o Padre resolveu chegar até a Fazenda Atalaia, onde tinha acontecido o desastre; queria rever o casal de escravos que lhe tinham salvo a vida; mas foi reconhecido, quase o agarram, nem sabe como escapou. Não tinha mais a coragem dos primeiros tempos, só queria se esconder. Então alguém lhe falou em mim, ele ligou coisa com coisa — a moça da confissão é a Maria Moura! Não podia haver duas Maria Moura naquele sertão.

Resolveu arriscar, me pedir asilo. Pensou: o pior que ela pode fazer é mandar me matar — e isso talvez seja até uma esmola!

— Eu já não agüentava mais. E agora estou aqui, sou o seu Beato...

— Mas vocemecê não acha esquisito um padre no meio dos meus cabras? Eu só ando junto com gente perigosa. Eu mesma levo vida ainda mais perigosa...

— E eu? Tenho fama de assassino, tenho a minha cabeça a prêmio. Vivo proscrito, querem me pegar morto ou vivo... E, a esse ponto, nem Maria Moura, nem ninguém daqui já chegou!

 

Por Deus que o Padre, mais depressa do que se podia esperar, se acomodou conosco, se acostumou à vida na Casa Forte. Gosta de se reunir com os homens. Fica conversando com eles, às noites, sentados ao sereno, no meio do terreiro, se tiver lua, conta pra eles a vida dos santos, a história Sagrada, as passagens de Nosso Senhor quando andou pelo mundo. Ensina alguma reza de mais virtude. Na verdade, minha impressão é que ele não deixou propriamente de ser Padre. Já o peguei rezando em latim, ajudando a morrer um homem baleado, que os companheiros tinham trazido numa rede.

Depois que o coitado morreu, os rapazes levaram o corpo, na mesma rede, para enterrar numa espécie de cemitério onde a gente já vinha sepultando os nossos primeiros defuntos. Uns de doença, só outros dois matados mesmo.

Beato Romano ficou muito tempo ajoelhado junto da cova, rezando tão baixinho que só se via que era reza pelo bater dos beiços. E tão embebido estava na oração que foi preciso tocar no ombro dele para tirar dali o finado, em caminho para a sepultura.

 

Apesar daquela grande amizade que nos ligou, nunca ninguém pensou que eu chegasse a casar com Duarte. Acho que nem ele pensaria. Afinal, era filho de escrava alforriada e a gente não se casa com filho de cativo, mesmo que tenha do nosso sangue nas veias.

E talvez fosse mesmo pelo impossível da idéia de um casamento entre nós, que aos poucos foi havendo o que chegou a haver.

Além do mais, eu tinha horror a casamento. Um homem mandando em mim, imagine; logo eu, acostumada desde anos a mandar em qualquer homem que me chegasse perto. Até com o Liberato, que era quem era — perigoso —, achei jeito de dar-lhe a última palavra.

Um homem me governando, me dizendo — faça isso, faça aquilo, qual! Considerando também dele tudo que era meu, nem em sonho — ou pior, nem em pesadelo. E me usando na cama toda vez que lhe desse na veneta. Ah, isso também não. Duarte entendeu logo que, comigo, tinha primeiro que tomar chegada, vir de mansinho, se sujeitando ao meu querer. Só na sombra da noite, no escuro do quarto, sem ninguém desconfiando de nós. Ele não fazia questão de nada, nem ciúme demonstrava; mas também era fácil, pois que não havia por ali ninguém que se atrevesse a chegar perto de mim. O fato é que, comigo, quando se tratasse de homem, tinha que ser sempre eu quem dava o sinal.

Numa tarde de sábado, chegou à Casa Forte no portão um homem a cavalo, com dois moleques de guarda-costas. O Pagão, que ia ficando um rapazinho, é que nos servia de porteiro e destrancava o cadeado do portão, mas tinha ido à bodega, no Riacho da Bruga, e foi mesmo Duarte abrir.

O sujeito não me conhecia. Duarte disse que tinha a impressão de já ter cruzado com ele. Mas o visitante mostrou logo que sabia muito bem quem era eu, quem era Duarte.

Tirou o chapéu, se abancou quando eu dei licença, tirou as esporas e começou assim:

— Senhora Dona Moura, eu vim procurar vocemecê porque nós dois estamos precisando um do outro.

Não gostei da conversa, ia levantando a mão pra responder de mau jeito, quando vi que Duarte me fazia um sinal, abrindo as duas mãos, como quem diz: “Calma. Deixa ver o que ele quer...”

E então falei:

— E o que pode ser tão bom para nós dois?

O homem se levantou, sentou de novo:

— O meu nome é Antonio Muxió. Sou caboclo daqui mesmo desta ribeira, mas desde novo tenho quebrado cabeça por esse mundão além. Já andei demais, já cortei muita vereda, fui vaqueiro de boiada, levei gado a mais de cinqüenta léguas daqui. Trouxe gado até de Goiás. Mas eu sou um cabra agitado, não me sinto mais com paciência pra andar tangendo boi, comendo poeira, passando fome e sede. Quando o gado sofre, o vaqueiro sofre também.

Duarte concordou com a cabeça, o sujeito continuou:

— E aí então, Senhora Dona Moura, numa dessas viagens, eu me juntei com uns camaradas — uns três —, esperamos a noite alta, apartamos um magote do gado — umas vinte cabeças, a boiada era de mais de duzentos! — e saímos com as reses, nessa noite. Tomamos por outro caminho — o oposto de onde se ia — e fomos vender o gadinho na feira de uma vila, por nome Brejo Seco. Vendemos o gado barato e foi a nossa besteira: o comprador desconfiou. Mas a gente nunca tinha visto tanto dinheiro junto! Andamos mais de três léguas pra lá do Brejo Seco, saímos em outro arruado e tomamos a maior bebedeira de toda a nossa vida.

Eu olhava o cabra, muito séria. Ele sorriu meio encabulado:

— Pois é! Na manhã do outro dia, a gente estava tudo escornado, com licença da palavra, no oitão mesmo da bodega, quando chegou e nos descobriu um dos homens do dono da boiada: tinha seguido o nosso rastro até ali. Foi chamar autoridade, o soldado nos pegou ainda dormindo, nos amarraram, nos deram uma surra de relho. Ficamos os quatro na cadeia. Com três dias seguintes, quando já estavam falando em nos soltar, chegou o dono do gado e exigiu que nos levassem tudo preso, até outra vila maior, uma tal de São Tomé. Lá devia de ter juiz, mas não tinha: o juiz já viajava fazia seis meses, ia doente e morreu lá pelo Pernambuco, que era a terra dele. E parece que os do governo não achavam mais doutor nenhum que quisesse ser juiz na desgraça daquela terra; só sei que nós passamos mais de dois anos presos, na cadeia do São Tomé. O tempo todo não se fazia nada, era só dormindo de dia e jogando truco de noite. O pior era que, na delegacia, não havia dinheiro para dar comida aos presos e a gente vivia só das esmolas de quem tinha pena e nos mandava um cozinhado de feijão. Alguma vez o delegado dava ordem aos presos pra irem capinar uma roça dele ou de algum outro mandão da terra; nesses dias se comia. E com aquela vida de penar tudo junto, fomos criando amizade uns com os outros, fizemos quase uma irmandade. Se por acaso havia alguma briga entre nós eu ia e apartava; eles já tinham confiança em mim.

A história estava comprida demais, eu me impacientei:

— E daí?

— E daí, Dona, que, como era natural, a gente estava sempre combinando de fugir. Tudo bem planejado, o dia, a hora e o lugar para onde ir. A essas alturas o pessoal nosso estava bem escolado, já não era mais aquele bando de bestalhão metido a ladrão de gado, de dois anos atrás. E tinha dois, dos outros três presos, que eram homens de experiência, viviam já fazia muito tempo nessa vida de tomar coisa de viajante. Tinham arma e tudo e se davam muito bem. Mas foram iludidos numa casa de rapariga, largaram as armas pra vadiar com as meninas e aí a dona da casa entregou eles...

— Vocês então fugiram juntos? — interrompeu Duarte.

— Isso aí. Ninguém se conformava de ficar ali apodrecendo o resto da vida, começamos a estudar de verdade o jeito de fugir. O que parecia melhor era abrir na parede velha um rombo que desse passagem a um homem. A sorte é que aquela cadeia estava mesmo em petição de miséria, parede toda rachada. Na noite combinada foi fácil. Com uma ponta de ferro nós abrimos um buraco, tirando uns dez tijolos, que deu para passar o bando todo, de um em um. Encostados nos muros, na sombra da rua escura, conseguimos chegar na casa de uma conhecida do Raimundim, um dos nossos companheiros. Essa mulher era boa gente, já tinha tido um filho com o Raimundim, só que o menino morreu; mas apesar do anjo ter ido embora, ela continuava com a amizade. Nossa sorte foi que, quando os soldados descobriram a fugida, deu na idéia deles que a gente devia de ter corrido pra longe, em procura da nossa terra. Achavam que a gente não seria tão doido a ponto de se acoitar ali por perto. Assim, passamos uma semana inteira escondidos com a amiga do Raimundim. Ninguém dormia nem comia na casa, se ficava no mato mesmo, que era alto. A mulher levava o nosso comer num alguidar tampado, deixava junto do chiqueiro do porco; de noite a gente ia buscar. E quando se pensou que já estava seguro para tomar a estrada nós saímos. Mas na hora em que a gente ia pegando o caminho, o soldado que mais nos perseguia, como não achou ninguém no caminho, se lembrou da velha amizade daquela mulher com o Raimundim e disse pros outros que o bando de fujão devia de estar lá. Os outros não acreditaram e ele foi sozinho ver o que descobria. A gente era cinco, porque dois dos mais velhos e desanimados tinham debandado na própria noite da fugida e nunca foram pegos. Pois é, a gente sendo cinco, o jeito foi matar aquele soldado maluco. Pode-se dizer que ele morreu porque quis; ninguém ia se entregar a ele. Mal se conseguiu escapulir, nos metemos pelo mato, sofremos o diabo; principalmente porque não se sabia pra onde ir. Mas lá na cadeia já se falava muito na fama de Maria Moura. O povo conta muita coisa. Então a gente pensou de vir se oferecer pra trabalhar com vocemecê. Somos cinco cabras dispostos, já fizemos nossas provas por aí, entramos nus, saímos vestidos, comemos e bebemos, estamos vivos. Verdade que já quase fomos presos mais de uma vez. Por isso mesmo pensamos que não adianta essa vida pra quem não tem garantia; quem nos dê arma e munição, quem nos dê coito na hora do aperto. E quem melhor para isso do que a Dona Moura, aqui na sua Casa Forte?

Duarte e eu tínhamos ouvido a história toda praticamente sem cortar a palavra dele.

Fiquei pensando. Olhei para Duarte:

— Que é que você acha?

Duarte mordia o bigode:

— E quem nos garante que esses cabras, pegando aqui arma e munição nossa, não vão ganhar o mundo e trabalhar por conta própria?

Antonio Muxió estendeu a mão:

— Pense bem, meu chefe. Quem sou eu e os outros pra me meter a enganar Dona Maria Moura? Só se fosse doido varrido. E a gente quer mesmo é ter proteção, ter um chefe, trabalhar com orgulho, sabendo pra quem. Vocemecê acha que qualquer besta de soldado vai se meter e dar voz de prisão a quem ele sabe que é cabra de Maria Moura?

— Cadê seus outros homens? — eu perguntei.

— Dois deles são os meninos que ficaram esperando no portão. Os outros dois são cabras mais curtidos da vida, me disseram que tinham medo — me desculpe o atrevimento deles —, mas disseram que tinham medo de entrar na cova da onça...

— Pois vá chamar por eles e depois a gente conversa.

Duarte ainda perguntou:

— Vocês têm animal?

— Só aquele que eu montava. Pegamos faz pouco tempo.

Duarte levou o Muxió até o portão e o homem saiu em procura dos outros.

Eu tinha uma idéia:

— A gente podia mandar o Roque com eles...

Duarte não estava muito embelezado:

— Pode ser; mas vamos primeiro ver os outros.

 

Pois deu certo. O Roque se entusiasmou, declarou logo que ia ser o sargento daquela tropa, trazer eles dançando o miudinho. Três deles andavam pelos trinta e poucos anos e os dois, que já se tinha visto, podiam andar pelos vinte.

Na verdade, na Casa Forte se estava mesmo precisando de pessoal. Eu agora tinha que tomar mais cuidado quando punha as minhas parelhas em campo, que, daí, nem mais parelhas eram, mas ternos e quinas. Ia-se enxertando algum novato junto com os outros antigos (o Juco estava louco para sair com eles, mas eu não deixava, pensando na Libânia). E, agora eu já andava até querendo alargar as correrias. A gente já dispunha de muita arma, esperando serventia. Bacamartes, clavinotes, espingardinhas, até garruchas. Era o que eu mais recomendava: “Nos entreveros, vocês procurem desarmar os cabras e tragam o armamento deles. Arma de fogo e arma branca. Quero tudo”.

Por isso eles às vezes atacavam, sabendo que os homens não tinham dinheiro, mas era só pelas armas, a munição e, principalmente, a pólvora... Munição de bacamarte não era difícil, difícil mesmo só a pólvora.

Duarte andava falando em arranjar um ‘moinho de pólvora’, feito um de que ele tinha ouvido notícia. Era do governo, e fabricava pólvora para fornecer em quartel. Deixei que ele desse uma viagem a Santana Mestra, uma vila onde havia grande guarnição de praça — tinha até sargento e tenente. E lá faziam pólvora. Mas quando Duarte chegou no lugar, a fábrica tinha sido fechada. A sorte foi que ele se meteu com um cabo, pagou-lhe umas cachaças e conseguiu ver como era a tal de fábrica tão falada.

Bem, parece que o trabalho não era difícil. Primeiro, tinha-se que arranjar o material para fazer a pólvora: o salitre, o enxofre e o carvão. Pisava-se ou se moía cada um dos três, até virar pó, mas tudo em separado. Ao misturar, era preciso obedecer à receita, tantas partes disto, tantas daquilo. E no operar a mistura, havia que usar do maior cuidado para não estourar, porque aquilo já era pólvora.

— E onde é que você vai adquirir tanto ingrediente? — eu perguntava a Duarte.

— O carvão se faz aqui mesmo; o enxofre, um boticário da rua, conhecido velho desde os tempos das Marias Pretas, poderá arranjar. Ele recebe enxofre pra vender na botica, que é muito procurado contra coceira braba e curuba. O velho me disse que é só aumentar os pedidos ao fornecedor, acho que é da Bahia. Ou do Recife.

— E o salitre?

— Já o salitre, pra fazer a pólvora, se gasta dele em quantidade maior do que o enxofre; mas não precisa mandar comprar em praça grande. Disse o cabo que o salitre que eles gastavam vinha de umas minas das bandas da Bahia. É o que a gente chama aqui de ‘sal de mina’. E tem que ser transportado em mala de couro, porque arrisca de derreter na chuva, viajando em sacaria de pano ou surrão de palha.

Concordei que podia ser difícil, mas não seria impossível. A gente, ali da Casa Forte, dava segurança a muito comboieiro que sempre trazia um agrado, a cada viagem; e também nos dava informação sobre algum estranho abonado que se aventurasse pelas estradas, no nosso território.

E não é que Duarte tinha conseguido mesmo a receita verdadeira da pólvora? Cada libra dela, depois de pronta, tem que levar sete partes de salitre, uma parte de enxofre e duas de carvão. Depois disso é só moer e misturar.

— Mas tem que dar tempo ao tempo, Sinhazinha. Não se pode ter sortimento de pólvora nossa logo na semana que vem!

Para adiantar serviço, mandou-se tirar na mata três boas toras de pau d’arco, bem grossas, para se cavar em cada uma delas um pilão. Sendo que o do salitre tinha que ser o maior. Pilador não era difícil, todo mundo ali era acostumado a pisar milho de caçula; duas pessoas, cada uma com a sua mão de pilão, batendo de feição: quando uma ia com a mão pro alto a outra descia.

Pela minha parte eu exigi que Duarte levantasse uma meia-água aberta, isolada da casa, pra se lidar com material tão perigoso. E lá mesmo, encostado, com paredes dobradas e as linhas bem grossas recebendo o telhado, se fizesse o paiol onde ia se armazenar a pólvora.

E eu ainda me ria dos planos dele, dizia que Duarte estava contando com o pinto no oveiro da galinha; ele não se importava e ia adiante. E tratou de adiantar também o forno para o carvão, igual aos que se fazia na Vargem da Cruz, pra vender carvão, de porta em porta nas casas da vila.

 

Continuava o grupo de Antonio Muxió se saindo melhor do que o esperado. Eu até me arrependia de ter antipazado com o cabra. Junto com o Roque, ele fazia uma parelha levada do diabo. Passavam uns quinze dias, três semanas por fora, e não voltavam nunca de mãos abanando. Ou era dinheiro, ou alguma jóia, sempre mais de uma arma. Vez por outra chegavam tangendo algumas cabeças de gado.

Teve uma vez em que se meteram numa fazendinha, com umas trinta vacas paridas no curral; escolheram as mais famosas, as mais gordas, com os bezerros bem criados. Tiraram assim umas dez; puseram dois cabras pastorando os donos, pra eles não saírem atrás dos nossos, enquanto se adiantavam na estrada, devagar, por causa da marcha miúda dos bezerros. Só passados quatro dias os da guarda na fazenda arribaram, mas assustaram tanto os homens que eles nem deram parte de nada à autoridade. Que por sinal ficava muito longe, não ia se incomodar saindo atrás de dez reses.

E o Roque ainda se pabulava, dizendo que não teve pena de fazer o que fez porque o pessoal da fazenda não era dono de nada. O dono da casa e da terra era um fazendeirão muito rico, morador em sobrado na vila, e que tinha a mania de comprar terra no sertão, situar as fazendas, botar lá uma semente de gado e deixar tudo aos cuidados do vaqueiro. E Roque alegava que rico como esse não vai morrer de fome por causa de um magote de gado.

Eles diziam isso com uma cara compadecida, mas eu sabia que eram muito capazes de carregar o gado de qualquer maneira. A tentação era grande. E nas terras da Casa Forte tinha lugar para o dobro ou mais do gado que eu já possuía. Quem pode, pode, e, podendo, faz.

Duarte e eu andávamos muito entretidos com a ‘usina’ da pólvora, quase só se cuidava disso. Afinal, um dia nos chegou um comboieiro e de um par de malas de couro — as bruacas — tirou sessenta libras de salitre, o bastante para se começar o fabrico.

Mais uns dias e um portador misterioso, a cavalo, apareceu com um pacote no bolso do coxim, contendo umas dez libras de enxofre. O carvão a gente já tinha queimado e era amontoado a granel, mal saído do forno.

Balança para pesar tudo foi o mais difícil. Afinal Duarte arrumou uma, mais ou menos inventada. Pegou duas cuias serradas ao meio da mesma coité, pendurou cada uma das cuias num travessão de madeira, presas por quatro cordões, e o travessão era preso no meio, por um prego, que lhe dava o balanço e fazia de fiel. Os pesos eram moedas de cobre, do que já se tinha fartura (muito diferente dos primeiros tempos, quando a gente vivia tão desprevenida que, pra nós, até derréis era dinheiro...).

Pólvora é feito ouro, se mede por onça e por oitava. O mais comum é fazer uma medida com um polvarim de chifre e era esse o nosso caso. Balança, só pra quantidade maior, e freguesia assim avultada ainda não se contava com ela. Também não se tinha fabricado mercadoria para tanto.

Um bodegueiro da vila ensinou a Duarte como é que se arrumava a pólvora na embalagem, em cartuchos: se fazia aquele rolo, como se fosse de moeda, na medida de um cartucho mesmo, bem atochado, bem enrolado no papel e dobradinho nas cabeceiras. E já se tinha preço para cada cartucho, que a gente podia vender até em dúzias. Um cartucho regulava um tiro de bacamarte. A gente vendia tantos tiros e era esse o sistema que a freguesia apreciava.

Eu, que a princípio considerava aquela mania de fazer pólvora uma maluquice de Duarte, ou pelo menos uma extravagância, aos poucos fui descobrindo a força que aquela produção nos dava. Em toda uma distância de, a bem dizer, cinqüenta léguas em roda, só na Casa Forte havia moinho de pólvora. Eu não precisava mais mandar chamar ninguém, dar-lhe a idéia de se aventurar em alguma empresa mais atrevida, mandar espião meu descobrir alguma passagem anunciada de comboio do governo, com suprimento de pólvora pra quartel do interior. Ou organizar uma espera, como aquela que mandamos botar, a mais de vinte léguas de distância, no comboio que ia levando a parte do governo numa coleta de ouro. Foi difícil e arriscado, eu não queria que aparecesse o meu nome, caso os soldados pegassem alguém.

Quem vive na nossa profissão, quanto menos briga tem com o governo, melhor. Governo, autoridade, o bom é trazer sempre no agrado, dar segurança a portador deles, mandar cavalo para o delegado ficar usando, molhar a mão e as goelas dos praças, quando eles procuram a gente. E no dar a eles uma informação, deixar perdido no meio das pistas falsas um grãozinho de verdade, pra sustentar a confiança dos homens. Só quando se trata de inimigo nosso, então é dar o serviço completo, com testemunha ocular. Cada inimigo que a gente entrega, além da vantagem que se tira em botar o outro fora de combate, é um amigo que se faz no lugar onde interessa.

Isso tudo eu fui aprendendo com o correr dos anos; e muito me ajudou a boa cabeça de Duarte, que parecia cabeça de advogado. Se o tio tivesse mandado ele estudar, em vez do dinheirão que gastou com o animal do Tonho (Tio Xandó tinha paixão pra ter um filho doutor ou padre), que, em seis meses de seminário, deu tanto desgosto e prejuízo ao pai e levou tanto castigo, que acabou fugindo. Não se soube como, o Tonho se meteu com uma viúva amiga dos Padres e que engomava pra eles. A encrenca foi tão grande que Tio Xandó teve que mandar o Tonho passar uns tempos na fazenda de um conhecido até o escândalo se abafar, depois que viúva abortou. Passado isso, Tio Xandó desanimou e tanto o Tonho como o Irineu pouco mais passaram de aprender a assinar o nome, mal e mal.

 

Agora a gente dispunha de arma e de munição para oferecer aos interessados. Eles só entravam com o corpo e a coragem.

Eu sabia que muito elemento que andava pelas estradas gostava de dizer que era cabra de Maria Moura. Às vezes a gente nem o conhecia. Faziam parte de algum bando e se entendiam conosco só por causa de arma e principalmente de munição — mas não fazia mal que falassem.

Eu, nas mais das vezes, já tinha tirado a minha parte no preço da arma e principalmente da munição, que custava conosco um pouco mais caro que a da rua. Só que a nossa pólvora era garantida, não tinha mistura de terra preta nem outras porcarias; era pura como dinheiro novo, saído da cunhagem. Pelo menos era assim que se gabava Duarte, contando os cartuchos bem atochadinhos para cada comprador.

 

Essa história de distribuir o pessoal para depois fazer as contas, pode dar muita dor de cabeça. Sempre há o risco de estarem mentindo, falseando as contas e a gente, bem ou mal, tem que se louvar na palavra deles. Quando se descobre uma tramóia é que se dá um castigo pesado, para exemplar.

Um deles escondeu e enterrou num quintal um vidro de ouro em pó, de algumas oitavas. Mas teve quem visse e veio nos contar. Nós chamamos o cabra, no meio dos outros, e eu disse pra ele:

— Pé de Bode (era essa a alcunha do cabra), minha avó dizia que o diabo vem com uma capa e uma campa, quando quer atentar a gente. Primeiro usa a capa, para encobrir o mal feito. E quando se pensa que está seguro debaixo da capa, o diabo começa a sacudir a campa, denunciando o ladrão... Você se valeu da capa e não desconfiou da campa, mas a gente, de cá, ouviu.

Mandamos ele escoltado desenterrar a presa. O direito (foi o Duarte que disse a ele) era a gente mandar lhe dar uma surra, pra não ser falcatrueiro. Em vez disso, foi botado uma semana no quartinho de preso, que tem uma lucarna na porta. (O cubico eu só usava em caso muito especial.) Ficou jejuando a água e farinha seca, uma cuia de cada por dia. Se ele gritasse, aumentava os dias na prisão.

O cabra ficava tão calado que até cheguei a pensar, uma noite, que ele estava morto. Fiz Duarte ir buscar a chave para se olhar a criatura. Que morto que nada, estava ainda era apavorado, vendo a gente procurar por ele naquelas horas da noite. Os olhos brilhavam à luz da candeia como uma raposa encandeada com o facho aceso do caçador.

Na noite do sexto dia, soltamos o cabra, devolvemos a parte dele, muito bem pesada.

A arma ficou, mas era nossa; e a faca também. Duarte levou então o sujeito até o portão, deu-lhe um pontapé no traseiro e usou a praga predileta do pai dele, o Tio Xandó:

— Vai-te e não tornes, ou no tornar te afundes!

E acrescentou, antes de trancar de novo o cadeado:

— Bote distância daqui e, até se quiser morrer, vá morrer longe, onde não feda!

Essa história se espalhou, aumentou a fama do rigor da Maria Moura. Dizia o povo que a Dona da Casa Forte não carece de cadeia nem de delegado. Lá mesmo ela julga e dá a sentença.

Eu gostava dessa fama, me sentia forte e mais segura com o povo tendo medo de mim. Duarte é que às vezes ficava meio ressabiado; afinal ele não nasceu com o poder na mão, antes pelo contrário.