Memorial de Maria Moura

Rachel de Queiroz · Capítulo 32 de 43

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Memorial de Maria Moura

Cap. 31 — Maria Moura

Maria Moura

 

DISTANTE NOVE léguas da Serra dos Padres, nas terras de uma data de sesmaria mais antiga ainda que a da Fidalga Brites, um tal Marinheiro Beltrão situou uma grande fazenda, por nome Açude do Garrote. As terras eram boas de planta e cria, o homem até plantava cana, aguando com as levadas do açudão. Tinha engenho de rapadura; de gado não se sabia a conta: pegava mais de cento e cinqüenta bezerros por ano, no curral. Fora o que amontava no mato e virava barbatão.

Pois não é que um dia me chega na Casa Forte um próprio, mandado pelo fazendeiro, que o povo chamava Seu Tibúrcio do Garrote, e que já era neto ou bisneto daquele Marinheiro Beltrão. O rapaz trazia um bilhete que quase não consegui ler, de tão mal escrito. Me perguntava se eu levaria a mal se ele viesse me fazer uma visita.

Depois de decifrar aqueles garranchos mandei chamar o moleque portador, que era um negrinho muito bem criado e chegou de chapéu na mão:

— Abença, Sinhá Dona. Meu Sinhô mandou essa carta para vocemecê, e eu tenho que levar a resposta.

Eu esperei um pouco, afinal perguntei:

— Você sabe pra que seu Sinhô quer vir aqui?

— Não sei, inhora não. Mas ele disse que eu dissesse que era tudo em boa paz.

Pensou um pouco, arriscou:

— Vai ver ele quer pedir algum favor a vocemecê.

Eu fui falando:

— Então diga a seu Sinhô...

Mas o moleque me interrompeu:

— Sem cortar a palavra da Sinhá, meu Sinhô disse que era pra eu levar a resposta num escrito.

Mandei o Pagão chamar Duarte, esperei que ele chegasse, mostrei-lhe o bilhete que ele nem conseguiu soletrar. Depois que expliquei o assunto, ele pensou um pouco:

— O menino disse se ele vem só?

— Não. O que ele disse foi que achava que o Sinhô dele vinha me pedir um favor.

Resolvemos escrever a resposta. Eu mesma fiz o bilhete, dizendo que tinha muito gosto em receber a visita de um bom vizinho. Podia vir quando quisesse e até só (isso foi idéia de Duarte), que na nossa casa ele estava garantido. Assinei Maria Moura. O uso era botar ‘sua criada’, mas disso eu não gosto, Maria Moura não é criada de ninguém.

Mandei o moleque ir comer um prato na cozinha, dei-lhe um pedaço de queijo e uma rapadura para o caminho, e mais duas moedas de cobre. Pra ele sair falando bem da casa.

 

Daí a pouco mais de uma semana, os vigias vieram me avisar que estava entrando no pátio uma partida a cavalo.

Duarte, que no momento estava montado, de saída, chegou até o portão; se apeou, tirou o chapéu, acompanhou a pé os cavaleiros até em casa. Devia ser o tal do Seu Tibúrcio do Garrote, que chegava. Era um homem ruço, magro e, mesmo montado, se via que era alto; de boa presença, bigodão descendo pelos cantos da boca. Atrás dele vinham dois vaqueiros encourados, como se estivessem de saída pra catinga. Chapéu de couro descaído para a testa, gibão, guarda-peito, perneira, chinelão cara-de-gato. Num burro, atrás, vinha no meio da carga, o moleque já nosso conhecido.

Duarte segurou a rédea do cavalo para o homem desmontar. Os vaqueiros saltaram sela abaixo, o moleque pulou do meio da carga, Duarte chamou o Pagão para ajudar com os animais. Seu Tibúrcio se descobriu, e os vaqueiros, que subiram para o alpendre atrás dele, tiraram o chapéu também. E eu conheci logo que um daqueles vaqueiros tinha que ser filho do chefe, se parecia demais. Só que mais alto ainda, também claro, bigode louro arruivado, mais fino que o do pai. Era uma beleza de moço. O outro vaqueiro, nem prestei atenção nele, tinha a cara de qualquer caboclo; ficava sempre um passo atrás dos outros; logo que pôde, pediu licença e saiu para junto dos homens que levavam os cavalos.

Conduzi Seu Tibúrcio para a sala, disse que ia servir um café. Porque eu já me dava até ao luxo de oferecer café às visitas! Eles pediram antes um copo d’água. Duarte ficou indeciso na porta, quando nós passamos para dentro, mas eu parei e chamei por ele:

— Seu Tibúrcio, este moço é meu primo Duarte; me ajuda no governo disto aqui.

Seu Tibúrcio então apresentou o outro moço, que estava quieto, ainda em pé, e parecia um pouco encalistrado.

— E este é o meu filho Cirino.

Eu dei a mão ao moço, pedi que ele se sentasse. Seu Tibúrcio mandou o filho pegar o alforje que o moleque tinha deixado no banco do alpendre; tirou de dentro uma trouxa e, da trouxa, puxou um garrafão:

— É uma cachaça velha especial, destilada em alambique de barro; esta eu botei no tonel no dia em que o meu filho nasceu — tem a idade dele, 25 anos. Sei que vocemecê não usa disso, mas é pra oferecer às visitas de estimação. Meu moleque levou lá pra dentro um uru com rapadura batida, alfenim, essas besteirinhas de engenho. Nós lá em casa estamos no meio da moagem.

Depois dessas delicadezas, Seu Tibúrcio parou, levantou os olhos para Duarte e disse, meio sorrindo:

— O amigo se importa de levar o meu filho para ver a fazenda, o gado... Eu tinha um particular para tratar com a Senhora Dona Moura. Foi mesmo pra isso que eu vim até aqui.

Duarte entendeu logo e se dirigiu ao moço Cirino:

— O nosso gado está solto e, quem vem da Fazenda do Garrote, não tem novidade nenhuma pra ver aqui...

(E eu pensei: “É capaz de ter gado com o ferro dele, no meio do nosso... Afinal, nem toda rês que os meninos trazem é puro ‘gado do vento’...”)

Duarte continuava:

— Mas vou levar o moço pra ver uma coisa que eu sei que não tem lá: a fábrica de pólvora!

Cirino nem aí fez um sorriso. Levantou-se e acompanhou Duarte. E só quando eles cruzaram o terreiro em procura da ‘usina’, foi que Seu Tibúrcio falou:

— Dona Moura, eu não vim nem lhe pedir um favor. Vim foi lhe rogar uma esmola.

Fez uma pausa. Eu fiquei esperando.

— O caso é desses que acontecem. Foi com meu filho, o Cirino. Ele se meteu com uma moça noiva, acabou roubando a menina do noivo e os irmãos saíram atrás e alcançaram os dois. O noivo matou a moça quando ela contou que já estava desonrada pelo Cirino. Meu filho conseguiu escapar na confusão da morte da menina, porque os irmãos dela se voltaram contra o assassino. E Cirino só me apareceu em casa três dias depois. Eu sei que ele estava errado — mas é meu filho. Escondi o rapaz e fiquei procurando outra saída, que não fosse entregar ele praquele bando de cachorro danado. Conversei com o padrinho dele, e o meu compadre falou em vocemecê, Dona Moura. Que dá coito às pessoas perseguidas; e não tem homem, nessa ribeira toda, que se atreva a vir atrás de alguém que esteja debaixo da sua proteção.

Eu concordei. Afinal ele estava se referindo ao que era mesmo o meu meio de vida. Seu Tibúrcio continuou:

— Vi falar até num caso que a polícia chegou aqui e intimou Dona Moura a entregar o preso fugido deles; a senhora mandou que os soldados entrassem e caçassem o homem onde quisessem, e eles não descobriram ninguém. É verdade?

Eu tornei a concordar que era. (Já estava aparecendo resultado do cubico; com pouco eu ia ganhar era fama de feiticeira...)

— Pois é por isso que eu vim lhe pedir, Dona Moura, que vocemecê tome conta do Cirino. Não lhe peço nada fora disso e estou pronto a lhe pagar o que a senhora quiser.

— Se o moço estava assim tão perseguido, como é que vocemecê conseguiu trazer ele até aqui?

— Ah, nem lhe conto. Na maior parte do tempo viajando de noite. Meti o menino nessa roupa de couro e, pra disfarçar mais, botei junto os outros vaqueiros. Quando saímos da fazenda, ele estava num bando de oito encourados — todas as roupas de couro que se tinha lá no Garrote. Aos poucos, fui deixando os homens, de um em um, pelo caminho, pra não chegar aqui com uma tropa. A única vez que nós andamos de dia, foi a uma légua daqui. Eu não ia me atrever a bater na sua porta no escuro da noite.

Eu me levantei, andei uns passos. Não me dava boa impressão aquela história. Eu estava acostumada a acolher gente da profissão, pessoal que conhecia todas as manhas de quem se punha acoitado: se esconde quando está na hora, fareja ele mesmo se há perigo e é capaz de se defender se acontece surpresa. Esse moço era filho de família, menino rico, mal-acostumado. E deve ser mofino, se deixou matarem a moça e fugiu.

Afinal falei com o pai, que acompanhava com os olhos as minhas idas e vindas pela sala.

— O seu rapaz — o Seu Cirino — ele obedece ordem?

O velho me olhou, surpreso. Eu continuei:

— Porque aqui os meninos dizem sempre que, mal comparando, até parece um quartel. Eu não tenho escravo, não gosto de cativeiro, mas os meus homens me obedecem mais do que negro cativo ao sinhô.

Seu Tibúrcio respirou, se mostrando aliviado.

— Por essa parte, eu boto a mão no fogo. Já vim combinando em viagem como é que ele tem de se comportar aqui. O Cirino é meio doido, leviano com mulher, mas não é mal-ouvido com os mais velhos...

Nesse ponto Seu Tibúrcio se interrompeu, fez um ar de riso, meio encabulado, e rematou:

— O que não é o caso com vocemecê. Não parece que seja mais velha do que ele. E, pensando bem, eu acho que a senhora pode até açoitar o Cirino, que ele se conforma. Contanto que a peia esteja na sua mão...

Eu fiquei muito séria:

— Seu Tibúrcio, nesta casa não tem homem nem mulher. É preciso que ele fique ciente disso. Aqui, a Dona Moura anda de calça de homem e cabelo cortado, como vocemecê está vendo, mas é pra não haver confusão... Aqui, a primeira lei é a do respeito.

Não sei se Seu Tibúrcio estava se importando muito com as minhas regras de bem viver na Casa Forte. Mas disse que compreendia tudo, aceitava tudo — só queria saber de uma coisa:

— Vocemecê fica com o rapaz?

Eu me sentei, estive um pouco olhando para o telhado, pensando, por fim falei:

— Eu nunca lidei com a qualidade de pessoa tal como é o seu filho. Não posso me responsabilizar por ele — só se for dentro desta casa, debaixo das minhas ordens. E o pagamento é adiantado.

Seu Tibúrcio tirou um saquinho de couro que trazia no bolso largo da calça!

— Eu já vim prevenido.

Desatou o cordão que fechava a boca do saco, trouxe de lá de dentro oito moedas de ouro que botou na minha mão.

— Se isto não chegar, tem mais lá de onde estas vieram.

Eu olhei as moedas na palma da minha mão: coisa bonita é ouro! Guardei o dinheiro no bolso:

— Por agora chega. Não sei como vai ser de futuro. Aí a gente fala. Mande chamar o rapaz.

Seu Tibúrcio saiu em procura de Duarte e do moço. Eu me sentei no cadeirão de couro, descansei a cabeça no encosto e fiquei esperando por eles. Confesso que estava meio ansiosa.

 

Chegaram. O Cirino se mostrando muito interessado na usina da pólvora, fazendo planos de montar uma igual no Garrote. O pai caçoou:

— Olha que a Dona Moura não vai gostar da gente lhe tirando a freguesia!

E Duarte ajudou:

— Principalmente porque o pessoal do Garrote já tem me comprado muita munição aqui!

Eu voltei ao que importava e me dirigi a Duarte:

— Duarte, o Seu Tibúrcio trouxe o filho dele, o Seu Cirino, para se asilar na Casa Forte. Você acha que vai dar certo?

— Se o Seu Cirino não for muito traquino... É coisa grave?

O Cirino olhava para fora da janela, como se não fosse nada com ele. O velho é que respondeu:

— É sério, sim. É muito sério. Eu já contei pra Dona Moura. É caso de vida ou morte.

Eu confirmei:

— Sim, é sério. E pra falar a verdade, eu aceitei. Seu Tibúrcio prometeu que o rapaz se sujeita ao nosso regulamento. E já recebi pagamento adiantado. Parte do pagamento.

Cirino voltou o rosto para nós e disse de repente:

— Parece que vocemecê e meu pai estão tratando a venda de um negro.

E o pai que, pelo visto, já estava farto da petulância do filho, foi cortando:

— Eu até preferia que você fosse de venda. Em vez de desembolsar os meus tostões, lhe dava à Dona com abatimento.

Cirino olhou bem para a cara do pai, mordeu os beiços:

— Eu sei disso.

Eu me levantei porque a cena entre pai e filho não era da conta da gente. E disse ao Seu Tibúrcio:

— O senhor fique aqui em liberdade, conversando com Seu Cirino. Eu vou lá dentro, dar as ordens para o nosso almoço. Explique a ele tudo que nós combinamos, por favor.

Saí com Duarte, fomos em procura da cozinha, chamei Rubina, dei as ordens do almoço. Depois cheguei com Duarte até a janela, meti a mão no bolso, tirei as moedas:

— Olha, é ouro! Guarde você.

Duarte não gostava de ouro tanto quanto eu. Meteu o dinheiro no bolso como se fosse dez vinténs.

— Está bem. Deixe a costa ficar livre, que eu guardo com as outras no cubico.

Esperei que passasse um pouco de tempo. Ia voltar à sala quando encontrei Seu Tibúrcio que já andava à minha procura:

— Está tudo certo, Dona Moura. Expliquei ao meu filho o regulamento da casa. E ele está de acordo.

Eu me voltei para o Cirino:

— Posso confiar?

Ele baixou a cabeça, não sei se encabulado ou mal satisfeito:

— Pode, sim senhora. Já prometi ao Pai.

Mandei Duarte mostrar as acomodações do rapaz, na ala dos homens, vizinho ao quarto dele, Duarte.

— Vai fazer as refeições na sala, comigo e o Duarte. Mas só se quiser. Se preferir, mando servir no seu quarto mesmo.

— Prefiro na sala. Ou tenho que ficar trancado aqui na casa, o tempo todo?

— O senhor é que sabe. Que é que vocemecê acha, Seu Tibúrcio?

Duarte falou:

— Passados os primeiros dias, talvez ele possa dar um passeio de serra acima, onde não é fácil penetrar estranho. Pega uma espingardinha e vai dar uns tiros nas rolinhas. Boto o Zé Soldado para pajem dele.

Cirino sorriu e eu reparei então que ele tinha o riso torto. Diz o povo que é sinal de falsidade.

Seu Tibúrcio almoçou, gabou a coalhada, Duarte explicou que o pasto, no nosso pé de serra, era especial. O velho concordou:

— Lá pelo Garrote a terra é salobra. Tem sal no pasto, na cana e até na água do açude. No verão salina muito.

Eu prometi:

— Vou pedir ao Seu Cirino que me ensine a plantar um canavial. Sempre tive vontade de possuir um engenho. Lá no Limoeiro a gente tinha uma rebolada de cana e Pai mandou fazer uma engenhoca de pau. Mas dizia ele que era só de moer garapa pra mim.

 

Cirino, que já tinha tirado a roupa de couro gibão, o guarda-peito e as perneiras, quando chegou a hora de ir pra mesa, veio parecendo um doutor no meio da gente, tudo mal-amanhado, até mesmo o pai dele. Fato de linho, lenço no pescoço. E bota de couro, em vez do chinelo de vaqueiro. Ele tinha ido se trocar no quarto.

À saída acompanhou o pai até aos cavalos; o dele ficava, junto com os arreios.

— Eu não fico sem o meu cavalo, mesmo que não possa sair. Me parece que estou de perna quebrada, sem ele.

O filho tomou a bênção do pai e lhe beijou a mão. Depois passou a mão pela cabeça do moleque e recomendou:

— Cuidado com o teu Sinhô.

O moleque ria, confiado. Gostei de ver a cena. Provava que, pelo menos, Cirino não era orgulhoso. Me animei mais para a incumbência.